O MacGuffin: Janeiro 2012

domingo, janeiro 29, 2012

Esquerda e direita: um, dois, três

Por Vasco Pulido Valente, no Público
Esquerda e direita (I) 
"Lendo e ouvindo na televisão o dr. Mário Soares, mesmo a criatura mais desprevenida pode ver na história daquela vida exemplar (e de certa maneira fascinante) a história do socialismo desde o confuso fim da II Guerra até aos melancólicos dias por que passa hoje, na impotência e na esterilidade. Como dizia o outro, o tempo tem marés; e à primeira vista Soares foi sempre levado pela maré certa. Entre 1950-55 e 1970, bem antes da crise do petróleo, a Europa (ainda sem aspas) parecia finalmente ter conseguido resolver os problemas de uma era: havia crescimento, pleno emprego e um Estado social, que não parava de se expandir e de se aperfeiçoar. McMillan (de resto, um conservador) resumiu o milagre numa frase: " You have never had it so good ." Pouco antes da catástrofe.

Quando chegou o "25 de Abril", ainda se tentava por aqui e por ali resistir à evidência. A América, enterrada no Vietname, deixara de ser o banqueiro universal. Na "Europa" (agora já com aspas) o crescimento diminuía e o desemprego aumentava. Pior do que isso, o Estado social, orgulho do socialismo (e da democracia-cristã), esse "modelo" que a velha esquerda exibia triunfante à inigualitária América, começava a falhar: por falta de financiamento e de eficácia, por excesso de burocracia, pelo peso de uma carga fiscal cada vez maior. E, sobretudo, porque não se conseguira limitar e ano a ano absorvia, como é óbvio, em nome de altíssimos sentimentos, funções de uma indefinição utópica ou de irresponsabilidade radical, que dinheiro nenhum seria capaz de sustentar.
Para usar o calão da época, o Portugal de Salazar e de Caetano era um país do Terceiro Mundo, quando o socialismo e a "social-democracia" chegaram ao governo e, para se legitimar, decidiram construir um Estado social como na "Europa", no preciso momento em que pela "Europa" inteira o Estado social se ia pouco a pouco e se tornava um obstáculo à transformação e desenvolvimento da economia. Os "fundos" de Bruxelas disfarçaram transitoriamente esta cega corrida ao suicídio. Mas não duraram o suficiente. E, a seguir, veio o desespero e, com ele, o recurso sistemático ao empréstimo, como se a vida acabasse amanhã. Não vale a pena comentar onde esse caminho nos levou. O que vale a pena perceber é que a política do PS (e também, à sua maneira, do PSD) assenta nesse facto básico. Como se verá."
Esquerda e direita (II) 
"O Estado Social foi inchando e com ele, inevitavelmente, a burocracia que o sustentava e que, fornecendo emprego à classe média, em certa medida o supria. Mais grave do que isso, o Estado Social invadiu áreas que nunca antes tutelara e o próprio progresso tecnológico (por exemplo, na medicina) o obrigou a entrar em outras, que pouco antes não existiam. Os partidos, tanto na administração central como na administração local, tiveram de aceitar esta nova realidade. Para ganhar uma eleição, era preciso apresentar "obra" e o número de "obras" que se inauguravam em campanha aumentou prodigiosamente: a educação e a saúde, o betão, os transportes, tudo o que alguém ou algum grupo reclamava com alguma persistência e força. A ficção de que Portugal se tornara de repente um país próspero alimentou a fantasia de uma espécie de Providência pública cada vez mais benévola e extensível. 
O PSD de Cavaco ainda conseguiu preservar um certo equilíbrio. Daí em diante, o PS, excepto por um ou outro intervalo de lucidez, abriu o saco e não quis saber quem lá metia a mão, à sombra largamente mítica da "solidariedade" e da "justiça". Não faltaram avisos. Barroso até disse na Assembleia que Guterres nos deixara "de tanga". E os prognósticos na "Europa" e na América pioravam de ano para ano. O rei ia nu. Mas que podia fazer o PS, excepto ignorar a realidade e persistir na importância e na primazia do Estado Social? A sua identidade era essa; e a sua natureza. Não havia maneira de ignorar o que esperavam dele. 
Quando a catástrofe finalmente chegou, só lhe ficava um papel: resistir à mudança. Lutar contra cada "corte" e defender cada benefício - com razão ou sem ela. Como antes já lutara Álvaro Cunhal, pelas "conquistas" constitucionais do PREC, que não valiam nada excepto para ele. É este o papel que hoje desgraçadamente cabe ao pobre Seguro, com a sua suavidade e a sua modéstia, enquanto a facção de Sócrates lhe tenta atrapalhar a vida e continua a berrar por um chefe morto; e os peritos da seita seriamente aconselham a "federalização" da dívida, como se não soubessem que a "Europa rica" a pés juntos recusa essa habilidade patética. Tarde ou cedo, o mundo acabará por engolir o PS, como engoliu o PC. Afinal que tem ele para oferecer ao país, sem dinheiro e sem crédito político (ou bancário), e sem sequer a simpatia e o apoio dos velhos companheiros de Soares? A "indignação" que o despreza? Ou a "rua" que não o segue?"
Esquerda e direita (III) 
"O PSD percebeu primeiro (se "perceber" é a palavra) o desastre que se aproximava. Por várias razões. Primeiro, porque sempre esteve mais ligado aos "negócios" do que o PS. Segundo, porque parte do seu pessoal económico e financeiro vinha de empresas ou da banca. E, terceiro, porque uma parte da geração que chegou ao governo durante Cavaco e a seguir ao "cavaquismo" se formara na América e, bem ou mal, absorvera a ortodoxia americana. Ainda por cima, o PSD - excepto pelo curto intervalo de Barroso e de Santana Lopes - vegetou quase quinze anos na oposição, inteiramente imerso numa guerra civil interna que paralisou o partido e por um pouco não o destruiu. Apesar disso, no meio dessa longa trapalhada, houve tempo para descobrir que a situação de Portugal se tornava pura e simplesmente insustentável. 
Só que o PSD (ao contrário do CDS), estava ligado às suas clientelas na administração central e, sobretudo, na administração local, e não tinha grande espaço de manobra. Ou, pelo menos, não tinha o espaço de manobra que a crise e o memorando datroikamais tarde lhe abriram. O que, de resto, não lhe resolveu os piores problemas. Parcialmente responsável pela paternidade do Estado Social e da burocracia a que na altura Cavaco chamou "o monstro", o PSD não podia inverter de repente a sua posição tradicional e anunciar que se convertera por iluminação celeste a uma versão indígena do neoliberalismo. Neste aperto, que dura até hoje, foi dando uma no cravo e outra na ferradura, à espera que da mistura acabasse tarde ou cedo por sair qualquer coisa de bom. 
Infelizmente, não contou com a sociedade portuguesa. Uma sociedade rural que passou para uma soi-disant sociedade de serviços, sem nunca verdadeiramente se industrializar. Uma sociedade dependente do Estado, desde "a sopa do convento", agora não por acaso ressuscitada. Uma sociedade parada e conformista, que odiava (e odeia) o individualismo e a mudança ("indivíduo" continua a ser um termo pejorativo em Portugal). E uma sociedade que sempre se queixou em vão da falta de uma iniciativa privada, que não aparecia ou morria depressa. O Governo de Passos Coelho não viu, e persiste em não ver, o país real e julga que o transformará, restabelecendo a liberdade, a concorrência e a inovação na economia. Sucede que Portugal não é a América, nem a Europa do Norte. Não se cria uma cultura com uma retórica emprestada e meia dúzia de leis. Depois da dívida e do orçamento, ficará o país do costume: obediente e resignado, com vaga esperança de um milagre improvável."

terça-feira, janeiro 24, 2012

Desesperados do mundo, uni-vos!

O meu amigo e ex-colega universitário Armindo Monteiro, na qualidade de Presidente do Conselho de Administração da COMPTA, disse, aos microfones da TSF, que este não é o momento para «lone rangers», querendo com isto dizer que o estado actual da economia e dos mercados não se compadece com heroísmos ou rasgos solitários. Que o caminho é a agregação. Que para vencer há que unir esforços e estratégias. Que as parcerias fazem a força. Que os bons espíritos «se rencontrent». Suponho que, em Portugal, mais ainda. Agora percebo porque constava o nome do meu amigo Armindo na lista de endereços da loja Mozart.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Indignação n.º 137/2012

Como é típico e comovente em Portugal, mais uma indignação: Ana de Macedo, artista plástica, foi (largamente) subsidiada pelo Instituto de Investigação Cientifica Tropical. O Instituto de Investigação Cientifica Tropical tem por hábito apoiar «artistas» quando estes procuram aquela entidade munidos de um «projecto artístico». O apoio é feito através de «residência artística» e/ou patrocínio directo de «exposições».

Razões da indignação? Observemos o silogismo oficial: Ana de Macedo é filha de Jorge Braga de Macedo; Jorge Braga de Macedo é figura grave do PSD; o governo em funções é do PSD, logo o Instituto de Investigação Científica Tropical (nem me atrevo a perguntar de que trata este instituto), subsidiou por amiguismo a filha de um ex-ministro do PSD.

Daniel Oliveira – um homem eternamente indignado e zangado com o mundo – viu claramente no arranjinho mais uma oportunidade para denunciar o compadrio e, en passant, vestir com a pompa que o caso exige, a fatiota de porta-voz do povo agrilhoado e enfastiado com tanto logro e trapaça. Caso se tratasse de «artista» caucionado pelos amigos do Daniel, ou pelo próprio, estamos certos de que resultaria no mesmo: a denúncia sem tréguas da choldra clientelar.

Não pondo em causa mais um serviço à pátria e à Verdade, prestado por este homem justo e equilibrado, convinha explicar duas ou três coisas que, não subestimando ou escamoteando a patifaria de Ana de Macedo e do respectivo paizinho, alargam o âmbito da prelecção. A forma como, em Portugal, se atribuem subsídios a artistas e respectivas obras, está longe de obedecer a normas e critérios de grande rigor e objectividade. Se a objectividade e o rigor são, já por si, relativos em matérias que pertencem ao grande caldeirão da «cultura», sem métricas científicas clarificadoras para uma aferição estritamente técnica das virtudes da obra (regra geral, são sempre obras-primas), a coisa agudiza-se na hora da escolher a quem atribuir o pilim: a horda de «artistas», agentes, amigalhaços e consagrados arrasta-se ruidosamente, embora em surdina, na direcção dos «centros de decisão». O «artista» português pode não saber mais nada, mas qualquer tentativa de vingar no meio artístico-cultural português impele-o compulsivamente a assimilar esta máxima: mais do que uma comadre mística nas alturas, o «artista» precisa de um compadre tutelar no milieu.

Seria interessante que Daniel Oliveira retirasse (no dia de São Nunca à tarde, eu sei) as lunetas que só lhe permitem observar os seus ódios de estimação (familiares incluídos). Chegaria, certamente, a duas prodigiosas conclusões. A primeira: nenhum «artista» com paizinho proeminente na sociedade portuguesa, deveria ser alvo da mesquinha assumpção de que «só foi escolhido por ser filho de quem é». A segunda: o suposto favorecimento de que gozou Ana de Macedo, não difere mais do que uns milímetros das centenas de favorecimentos que bafejam muito «artista» português. Nem que seja por via da mais cândida, honesta e objectiva simpatia.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Fazer parte da solução

Uma central sindical – a UGT – decidiu manter-se dentro do «jogo» da negociação, recusando virar costas. Objectivo: dentro das vicissitudes, dos condicionalismos e da putativa «desvantagem» negocial, defender até ao fim os seus representados, tentando minimizar prejuízos.

Outra central sindical – a CGTP – decidiu abandonar as negociações em sede de concertação social, para salvar a face de «eterna, verdadeira e intransigente» defensora dos «trabalhadores». Objectivo: o orgulho de não dar uma imagem de fraqueza e de derrotismo, no eterno jogo do «nós» (os verdadeiros defensores dos fracos) contra «eles» (o governo e os patrões vampiros).

Qualquer pessoa que, por um minuto, dispa a jaqueta ideológica, ponha de parte a lúdica partidarite e tenha uma noção clara do estado a que chegou o país, perceberá quem foi corajoso e agiu de boa-fé, mandando às urtigas eventuais danos na imagem romântica do sindicalista «proletários de todo o mundo, uni-vos!». Acima de tudo, quem agiu com a coragem própria de quem sabe que a realidade é a possível e não a que idealizamos.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

terça-feira, janeiro 17, 2012

domingo, janeiro 15, 2012

Much ado about... same old same old

Vasco Pulido Valente, Público 14/01/2012

Uma velha história 
"O Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência, muitíssimo bem pagos. O que produziu um escândalo de certa maneira inesperado. Não me lembro de um único primeiro-ministro que não tenha prometido não empregar a eito a sua clientela partidária, como não conheço nenhum primeiro-ministro que não acabasse por a empregar. Isto é uma tradição portuguesa que vem do liberalismo e que até hoje sobreviveu imune à contínua (e, às vezes, radical) mudança do Estado e da política. À superfície, não se vê por isso o motivo por que um acto, por assim dizer, normal de Passos Coelho provocou agora tanta indignação e tanta conversa. Mas, pensando bem, a explicação é simples e já foi interminavelmente dada e repetida. 
De qualquer maneira, não se perde nada em voltar ao assunto. Por um lado, a inexistência de um "sector privado" com oportunidades de trabalho, carreira e ascensão social, virou sempre a parte letrada (ou, se quiserem, "instruída") da sociedade para o Estado e para aquilo que dele directa ou indirectamente dependia (obras públicas, bancos, monopólios, grandes companhias). Por outro lado, o domínio do Estado sobre a economia, excepto sobre uma parte importante da agricultura, fez com que a influência oficial se tornasse necessária, mesmo para entrar e prosperar no "sector privado". A classe média que nasceu e cresceu por este processo é inevitavelmente uma classe média do Estado, cujo bem-estar ou a fortuna dependem do Estado. Sem ele, morreria, e morreria depressa. 
As clientelas partidárias não são por acaso o sustentáculo dos partidos, como o serviço ao partido (ou a uma facção dele) não é por acaso indispensável ao sucesso pessoal e profissional da mais pequena e melancólica ambição. O muito lamentado conúbio entre o "poder" económico e o "poder" político começa aqui e não há reforma que o remova, porque está na natureza das coisas. Esperar que Passos Coelho o removesse à força de retórica só atesta a credulidade do indígena. Infelizmente para Passos Coelho, a crise do Estado e a crescente miséria do funcionalismo não lhe permitem aumentar e distribuir com mão larga a sopa do convento e provoca a inveja, o ressentimento e a fúria daqueles que ficaram sem o seu prato de lentilhas. Disfarçado em virtude, o escândalo das nomeações não passa disto."

sexta-feira, janeiro 13, 2012

A bruxa má

João Pereira Coutinho, Correio da Manhã 13/01/2012

Obrigado, camaradas


"Manuela Ferreira Leite declarou que os maiores de 70 anos deviam pagar as respectivas hemodiálises. Partindo do pressuposto de que a drª Ferreira Leite não é o Conde Drácula, imagino que se referisse aos maiores de 70 anos que podem efectivamente pagar. Mas nem esta hipótese razoável sossegou as almas primitivas que lutam por um serviço de saúde universal e gratuito, ou seja, um serviço onde ricos e remediados não pagam nada porque os impostos de todos já pagam tudo.


Eu, por mim, não me oponho à fantasia; e aconselhava a direita ‘neoliberal’ a não se opor. Na sua obtusa cruzada estatista, a esquerda pretende, no fundo, que os tratamentos hospitalares dos mais ricos continuem a ser desproporcionalmente suportados pelos mais pobres. Se isso significar, a prazo, a degradação da qualidade do sistema, também não há drama: quem tem dinheiro emigra para o privado – e quem não tem fica com as sobras.


Às vezes, a defesa do grande capital vem de onde menos se espera."

Que nem tordos

'What Could Possibly Motivate Israel to Kill Iranian Nuclear Scientists?'
Por Jeffrey Goldberg (The Atlantic)
A Goldblog reader writes:

You have to explain to me why the Zionists are so committed to picking a fight with Iran? What could possibly motivate Israel to kill Iranian nuclear scientists? It makes no sense, unless Israel is looking to start a war to extend its military domination of the Middle East (everyone knows Israel has the strongest military in the Middle East). So you'll have to explain this to me, please.

There seems to be an epidemic of thickness on this question. Let me be clear: Just because I think an attack on Iran's nuclear complex is a bad idea doesn't mean I think Iran poses no threat to Israel. Do you want to know why Israel is taking the actions it may be taking against Iran? Because Iran has been engaged in full-blown but subterranean war against Israel for almost three decades. The Iranian regime is committed to the physical elimination of Israel. That's right -- a member-state of the U.N. is advocating the complete destruction of another member-state. The Iranian leadership regularly uses Nazi-style rhetoric against Israel and Jews, frequently resorting to epidemiological metaphors -- Israel is a cancer, Israel is a tumor, language that smacks of Mein Kampf.

But more important than Iran's eliminationist rhetoric is Iran's actions: Iran is the prime sponsor of Hezbollah, an avowedly-antisemitic terrorist organization that seeks to kill Israeli civilians. Iran is also a prime supporter of Hamas, which also seeks out Israeli civilians to kill (and it even brags about the number of Israeli civilians it has murdered). Hezbollah and Hamas, just like Iran, seek the physical elimination of Israel. Their agenda isn't to create a Palestinian state in Gaza and on the West Bank; their agenda is to replace a Jewish state with an Arab-Muslim state. If you were an Israeli leader, and you understood that Iran works assiduously to murder your civilians, and to bring about an end to your people's collective existence, and then you learned that Iran may be trying to build a nuclear weapon, well, is it so unreasonable to think that Israel might choose to fight back?

Which brings me to another letter just received in the Goldblog inbox:

Why shouldn't Iran have a nuclear weapon? Israel has it. Why does Israel think it needs a nuclear weapon and Iran doesn't. Why should Israel have nukes in the first place?

This letter-writer, it seems to me, lacks imagination. Why shouldn't Iran have a nuclear weapon? Well, because it's an anti-democratic theocracy that menaces its neighbors, oppresses its own people, and calls for the destruction of another Middle Eastern state. It is profoundly anti-American, anti-Israel, and anti-Sunni. It is in the American national interest to see Iran denied nuclear weapons. Nuclear weapons are dangerous. They are especially dangerous in the hands of totalitarian regimes, and so these regimes should be discouraged from acquiring them.

And why does Israel think it needs nuclear weapons in the first place? Well, Israel was founded shortly after one-third of the world's Jews were murdered in the Shoah. The Shoah, if nothing else, was an object lesson on the perils of defenselessness. Israel was, at independence, set upon by its neighbors. It continues to battle countries and organizations that seek its destruction. Here is a real failure of imagination: I'm not arguing that you have to endorse Israel's nuclearization, but if you can't understand this from Israel's perspective, then you're just not trying. By the way, I understand why Iran's unelected supreme leader might believe that nuclear weapons are in his country's best interests. I don't agree that he should have them, but I understand why he would want them.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Tão querido, o Igor

Desagrada-me a ideia de obrigar cidadãos a declarar que pertencem à Maçonaria, quando assumem funções públicas, de carácter político. Há um acórdão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que contraria essa intenção. Em democracia, e num Estado de Direito pleno, a liberdade de associação, como outras liberdades (a de expressão, religiosa, etc.), é um direito inalienável. Por outro lado, a Maçonaria tem inscrito na sua génese e história, um papel de filantropia e de combate à ditadura que não pode ser escamoteado.

Dito isto, só a turma do Winnie The Pooh pode deixar de reconhecer o quão bizarro é, no actual estado civilizacional (com toda a parafernália de garantias, direitos e liberdades asseguradas), a existência de sociedades secretas e o temor associado à descoberta da identidade dos seus membros. Se se pode compreender a necessidade de secretismo num tempo e espaço de proibições, perseguições, repressão e clandestinidade compulsiva, hoje em dia e a Ocidente, não.

No presente, só o Piglet, a Ru, o Tigre, o Winnie The Pooh e, especialmente, o Igor, podem desconhecer a propensão clientelista desta sociedade muito anónima. Paralelamente à sua natureza altruísta, e à intenção de promover ou potenciar as virtudes do homem, a Maçonaria representa, hoje em dia, quer gostem ou não gostem os mais antigos e «puros» membros da organização, uma discretíssima teia de interesses políticos e económicos, alicerçada nos deveres de lealdade e fidelidades inter pares.

Há um dever de transparência implícito ao exercício de cargos políticos de representação. Um deputado deve estar acima de qualquer suspeita. Se, como dizem os maçons, pertencer à Maçonaria é uma «vantagem para a sociedade», porque representa uma garantia de dedicação à causa pública e à prossecução, sem tréguas, dos ideais de fraternidade e de amor pelo próximo, a revelação de pertença deveria constituir uma atitude natural e instintiva, como quem, no exercício de um cargo de administração empresarial, revela que tirou um MBA em Harvard. No caso dos maçons, na Harvard humanitarista. Vantagem do povo, pois então.

domingo, janeiro 08, 2012

Così fan tutte

Alberto Gonçalves, Diário de Notícias 08/01/2011

A grande loja irregular
"Parece que um tal Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD e membro da Comissão Parlamentar que investiga as irregularidades no Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, pertence a uma loja maçónica chamada Mozart (em honra do músico - Cosi Fan Tutte, não é? - ou dos bombons?). Parece que um tal Jorge Silva Carvalho, ex-director do SIED e alvo da investigação, pertence igualmente à referida loja, metida numa história de tráfico de segredos de Estado. Parece que o PSD, na versão do PS, ou que o PS, na versão do PSD, censuraram as referências à maçonaria num relatório sobre a matéria. Parece, por fim, que o aborrecido episódio suscitou um daqueles escândalos fátuos com que a pátria sazonalmente se entretém. 
Eu também me confesso escandalizado, pelo menos com o facto de o público ainda se surpreender com duas ou três evidências, a saber: 1) a classe política nacional é, salvo escassas excepções, um entreposto de maçons ou folclóricos com propósitos no fundo similares (ver Opus Dei, sff); 2) à semelhança de qualquer sociedade relativamente secreta, a maçonaria é uma seita destinada a satisfazer interesses de facção, incluindo a obtenção de protecção e privilégio para os respectivos devotos; 3) os favores em questão, transaccionados em cauteloso recato, naturalmente constituem ou implicam a prática de irregularidades e puras ilicitudes. 
Pouco democrático? Decerto. Mas a essência da coisa é essa. Ou se interditam as associações do género ou se aceitam as manhas que lhes estão na natureza. Eu opto pela tolerância. É verdade que os maçons violam jovialmente os princípios da ascensão pelo mérito e saltitam nas carreiras à custa da "fraternidade", cá fora conhecida como "cunha". Porém, as injustiças cometidas não escapam ao castigo devido, quiçá divino. De que adianta um indivíduo conseguir emprego, influência ou o que toma por "prestígio" se tamanhas maravilhas obrigam a sujeição a rituais grotescos? Prestígio nenhum resiste aos aventais, aos cordões, aos bodes e à pompa balofa que criaturas adultas passeiam com inconsciência. Cada benefício implica uma humilhação muito maior. Não admira que a seita favoreça a ocultação. 
As milícias do velho Oeste americano herdaram a tradição inglesa de ridicularizar o próximo cobrindo-o de alcatrão, primeiro, e de penas, em seguida. Os maçons ridicularizam-se sozinhos e, ridículo supremo, nem sempre se apercebem. As últimas notícias dão conta de uma debandada de integrantes da loja Mozart por causa das penúltimas notícias. Talvez se mudem para a loja Haydn, talvez para a Mon Chéri. Do embaraçoso avental é que ninguém livra os pedreiros-livres."

Já não vem mais nada que seja tão bom

Miguel Esteves Cardoso, Público 08/01/2012

Começa o Inverno 
"Amanhã começa um mês de verdade. É a primeira segunda-feira desde sei lá quando em que não há festas nem feriados. Só acaba lá para o fim de Fevereiro, quando ocorrem o alívio do Carnaval e a brevidade do mês. É o tempo de mais trabalho e de mais desemprego; de mais doenças e suicídios. Dezembro foi doce de clima e de quadra. A primeira semana de Janeiro, com a passagem do ano e do Dia de Reis suavizou a queda que começa amanhã.

E de que maneira. Na sexta-feira de manhã fui à procura do forno de lenha onde - no coração de uma espécie mágica de garagem gastronómica, impossível de encontrar mas perto da Capela de São Mamede em Janas, cheia de cascas de ovo e de nozes acabadas de abrir - são cozidos os bolos-rei que são preferidos pelas populações das freguesias de Colares e de São Martinho.
Eu cá sou fã do bolo-rei da Pastelaria Garrett, no Estoril, em cuja avenida, a vinte passos de casa, morámos durante dois anos. Ela, mesmo assim, prefere o bolo-rei lisboeta da Confeitaria Nacional.
A verdade, difícil de engolir para muitos, é que o bolo-rei está a melhorar. Era seco, branco e avaro. Agora é húmido, amarelo e mais rico em ovos, passas, nozes e pinhões.

Os quatro melhores acompanhamentos, acho eu, por ordem de delícia são: um chá de uma quinta menos alta do Ceilão, um Moscatel de Setúbal bom mas humilde, um café de São Tomé ou, se for caso disso - porque não? - nada. Como o mês que aí vem, já não vem mais nada que seja tão bom."

Mais nada

Vasco Pulido Valente, Público 08/01/2012

Arcaísmo 
"A maçonaria (nas suas dezenas de encarnações) foi um produto do Iluminismo. Ou seja, um instrumento de protecção e de luta contra a religião, no caso a religião cristã, e a Igreja. Não por acaso, tomou algumas das formas mais típicas do inimigo: um trajo esotérico, a hierarquia, o ritual e por aí fora. Coisas que a mim pessoalmente me repugnam, mas que no século XVIII e em parte do século XIX são, pelo menos, compreensíveis. Nos países "protestantes", em que o Estado já dominava a igreja ou igrejas "reformadas", a maçonaria nunca chegou a ter muita importância, nem a intervir significativamente na política. Mas nos países católicos, em que a aliança do "trono e do altar" era uma realidade sólida e activa, acabou por se tornar um instrumento indispensável de subversão.
Organizou ou contribuiu para organizar a resistência ao "absolutismo" e, quando os liberais se estabeleceram no poder, escolheu o pessoal do governo ou mesmo, em certos casos, governou ela própria directamente. Por isso, nas regiões de influência católica a sua força (e o horror oficial que inspirava) sobreviveu até muito mais tarde. Disseram alguns comentadores que Hitler e Mussolini a perseguiram com especial rancor. Não é verdade. Como é lógico, as grandes perseguições vieram de Pétain e de Franco, que detestavam a República e queriam fortalecer a Igreja, e também acessoriamente de Salazar, tão devoto e monárquico como eles. Não admira que a maçonaria (o Grande Oriente Lusitano) ainda existisse em Portugal no "25 de Abril" e ajudasse a fundar o primeiro PS de Mário Soares.

Mas de então para cá deixou de ter razões para continuar. Não há monárquicos, nem a mais vaga hipótese de restauração da Monarquia. A Igreja em grande decadência pesa pouco e, sobretudo, não ameaça ninguém. O PS já não anda atrás da "irmandade"; e o PSD, ao princípio protegido e pupilo do catolicismo tradicional, é hoje um partido sem um carácter definido, sempre disposto a recolher a última novidade política. Por isso, apareceram de repente a Grande Loja Regular de Portugal e a Grande Loja Legal de Portugal, duas maçonarias sem história, nem explicação. Porquê? Porque a presença do Grande Oriente Lusitano diminuíra no Estado e no governo e era preciso outra organização (ou organizações) para o substituir em nome da entreajuda secreta que a fraternidade fornece e dos negócios que patrocina ou que a patrocinam. Mais nada."

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Viva a Jerónimo Martins

Por Vasco Pulido Valente, Público 06/01/2012

Pingo amargo


"A firma Jerónimo Martins (mercearias finas) merece todo o respeito e consideração. Primeiro, porque antigamente comprou azeite a Herculano. Segundo, porque ajuda hoje a divulgar o interessantíssimo pensamento de António Barreto, que por enquanto não vende azeite. Mas, de repente, Portugal inteiro resolveu vociferar contra a Jerónimo Martins. O Parlamento, a televisão e os jornais, já para não falar de um ou outro "indignado" em transe, berram a sua justiceira fúria. E por que razão? Porque a Jerónimo Martins, muito lógica e prudentemente, resolveu transferir a sede social da sua holding para a Holanda, como, de resto, antes dela, 19 grupos dos vinte maiores do PSI-20: a PT, por exemplo, a Galp, a Mota-Engil e o BES, contra os quais não se ouviu à época qualquer murmúrio.


Agora, não. Esse acto medonho foi qualificado de ilegítimo, imoral, intolerável e até, algumas vezes, de traição à pátria. António Capucho, um homem normalmente tranquilo, apelou mesmo ao boicote do Pingo Doce e a esquerda, com a sua irreprimível tendência para o suicídio, vai propor uma lei que impeça no futuro abusos do género. Escusado será dizer (ou repetir) que a operação da Jerónimo Martins é uma prática corrente e permitida em Portugal e na "Europa". E que, na Holanda, para onde se mudou, tem vantagens fiscais, crédito e previsibilidade que não tem em Portugal e não terá pelos tempos mais próximos. Nada disto importa a quem vivia do Estado e está neste aperto fundamentalmente preocupado com o buraco em que o Estado caiu e com o dinheiro que não recebe.


Claro que a polémica sobre a Jerónimo Martins provocou, como era inevitável, a costumada retórica sobre a diferença entre os "pequenos" que sofrem e os "grandes" que aproveitam, entre os que arranjam sempre maneira de fugir e os que nunca podem escapar à dureza das coisas. Muita gente citou a célebre frase do dr. Cavaco sobre as belezas da "equidade" e por um pouco não se voltou ainda às "200 famílias do dr. Cunhal". Não ocorreu a ninguém que (apesar do azeite de Herculano e do dr. Barreto) a Jerónimo Martins não é uma organização de beneficência e que o seu dever é fortalecer a sua posição e aumentar os seus lucros. Se ela falisse, ou enfraquecesse, haveria com certeza uma enorme choradeira e a "inteligência" indígena voltava a lamentar a falta de empresários. Como não faliu, serve por aí de bode expiatório."

segunda-feira, janeiro 02, 2012

25 resoluções para 2012

  1. Escrever um livro de culinária;
  2. Não voltar a ver o Eixo do Mal;
  3. Evitar, a qualquer custo, programas do género «Portugal no divã» (vulgo Prós e Contras);
  4. Desligar a televisão sempre que surja um vislumbre de Alfredo Barroso ou Basílio Horta;
  5. Desligar a televisão sempre que surja um vislumbre de comentário político nos canais de informação;
  6. Desligar a televisão;
  7. Acabar de ler o War and Peace, na tradução de Anthony Briggs;
  8. Evitar discussões sobre a dívida com militantes ou simpatizantes do Partido Socialista;
  9. Premir a tecla «mute» sempre que a Ana Mesquita se prepare para verbalizar qualquer coisa;
  10. Continuar a acreditar que o João Galamba é uma excelente pessoa e que eu sou um pouco parvo;
  11. Voltar a Borges;
  12. Esperar que 2012 seja pior que 2011;
  13. Dizer mais palavrões;
  14. Explicar, a quem precisar, o significado da expressão «não há dinheiro»;
  15. Abrir uma garrafa de champanhe quando Pacheco Pereira se reequilibrar/reencontrar;
  16. Comer menos e melhor;
  17. Beber mais e melhor;
  18. Inscrever-me nas aulas de surf, em Odeceixe;
  19. Comprar um iPad;
  20. Continuar a influenciar a minha filha para que saia de Portugal, logo que termine o secundário (ou 3.º Ciclo ou lá o que é);
  21. Acabar de vez com a conta no Facebook;
  22. Aumentar para o triplo o número de vezes que recorri à bicicleta para me deslocar, em 2011;
  23. Rezar para que o ciclista Maradona passe por Évora;
  24. Estar mais tempo com os amigos;
  25. Não falhar o concerto dos Magnetic Fields.

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