O MacGuffin: Fevereiro 2010

domingo, fevereiro 28, 2010

Como pode alguém defender a dobragem?

2.000.000.000 (short scale)

Sometimes it's hard to be a guy. We can surf easily between Chomsky's home page, Teen Anal, Theravada Buddhism and the cheat-code for Grand Theft Auto with scarcely a hiccup of bad conscience; the Net has externalised (and so part-socialised and normalised) a mental routine that hitherto had kept itself hidden, as we naturally assumed such ugly, unmodulated key-changes would be read as a sign of our moral degeneracy. Only an idiot would say this is a good thing, however; society is woven together by the collective denial of our nature. The leap from savannah to settlement to city was much harder for us, as our mind-and-skill-sets were far less easily transferable. Had women not adapted so perfectly in a few million years, we would have cheerfully, and properly, taken another two billion over it.

Don Paterson in The Blind Love - A Book of Late Advice (Faber and Faber 2007)


Maledicentia

Na Rua do Sol ao Rato

sábado, fevereiro 27, 2010

O declínio

Vasco Pulido Valente in Público 27/02/2010

O fim do regime?

Os regimes começam a cair pelos seus partidos. Portugal é um exemplo claro. Quando os partidos tradicionais da monarquia constitucional, o Partido Regenerador e o Partido Progressista, perderam qualquer espécie de identidade ideológica e programática, falharam sucessivamente no governo e se desintegraram em facções sem significado e sem destino, a República chegou. E, na República, quando o Partido Democrático de Afonso Costa, depois de 1918, deixou o seu jacobinismo original e passou a ser um conjunto de pequenos ranchos que se guerreavam, nada podia já impedir o 28 de Maio e a Ditadura. Mesmo a Ditadura se desfez, quando Salazar morreu, em bandos de "notáveis" que se detestavam e que pouco a pouco conseguiram paralisar Caetano.

A agonia desta II República, sob que vivemos, também está hoje à vista no calamitoso estado dos partidos parlamentares. O PC há 20 anos que não acredita na revolução e só quer impedir o governo de governar - seja ele qual for: da direita, do centro ou do PS. É um apêndice maligno, que dura contra todo o senso e toda a lógica. O Bloco, que não passa do PC da nova classe média, não serve para nada. Acabou por se tornar num grupo de protesto vociferante e vão, incompreensivelmente instalado em São Bento. E o PS, que Sócrates transformou numa tropa calada e reverente, vai desaparecendo agora, afundado (com razão ou sem ela, não importa) em escândalos de vária ordem e gravidade, e numa crise que não previu e não soube tratar. Como pode ele, sozinho, sustentar o regime?

Quanto ao PSD, Santana Lopes disse ontem que é, literalmente, uma "casa de ódios". Não vale a pena insistir na balbúrdia eleitoral em curso e na irremediável mediocridade dos candidatos. Ou no congresso extraordinário, que se reunirá em Março, ninguém percebeu ainda por quê e para quê. O PSD "precisa de salvação", como explicou Santana? Com certeza que sim. Mas, "precisando de salvação", como se propõe esse náufrago salvar o país? Falta falar do CDS ordeiro e laborioso de Paulo Portas, que não sai e parece que nunca sairá do seu cantinho. Por muitos méritos que lhe atribuam ou que, de facto, tenha, contar com ele não é realista. Na II República já não existem partidos. Existem sombras de partidos, restos de partidos, destroços de partidos. O regime não irá durar muito.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Cigarettes And Chocolate Milk

Estavas a dizer que

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Get out

The Testimony of Patience Kershaw

Série: pessoas muito engraçadas

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

E aos costumes disse...

José Sócrates falou ao país. E disse:

Sou infinitamente bom. Sou proprietário, administrador e CEO de uma boa vontade que salta aos olhos de todos os que, não toldados pela infâmia e pela calúnia, ou por uma mente ou alma tortuosa, conseguem ver mais além. Sou, também, uma vítima. Tenho sido, aliás, uma vítima, toda a minha vida. Quiseram, ao longo da minha providencial existência, envolver-me nas mais incríveis histórias, tentando, com isso, denegrir a minha pessoa, a minha família e os meus amigos. Tentaram lançar um anátema, utilizado-o também como arma de arremesso político, sobre o meu bom nome. Não percebo porquê. Não estou aqui a dizer que tudo o que dizem de mim é mentira? Não estou aqui a dizer que sou bom e honesto? Que mais precisam saber? Que mais precisam ouvir? Não vos basta a minha palavra? Só encontro, aliás, duas explicações para o que se está a passar: a inveja e a deformação moral. Só por inveja do meu sucesso enquanto governante, que pôs este país na ordem e com esperança no futuro, se pode pensar mal de mim. Só por deformação de ordem moral, com corolário na ingratidão, se podem confundir historietas e boatos, sem qualquer fundamento, com a verdade que as minhas palavras congregam, encerram e transmitem. A minha palavra é tudo. Tudo está contido na minha palavra. E a minha palavra é: esqueçam tudo o que de mal dizem de mim. É tudo mentira. Eu juro que é mentira. Não acreditam na minha palavra?

Lembram-se do que escrevi aqui? Dentro de um mês, voltarei ao assunto.

Para já: obrigado sr. primeiro-ministro. Não precisava de se incomodar. Muito obrigado. Estou, enfim, descansado.

The old man

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Hotel Citroën

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Cloroformização

Não querendo desalojar um espírito do conceito onde ele encontra segurança, disciplina, motivo de energia e auto-satisfação, este artigo do Pedro Marques Lopes é o mais próximo que podemos encontrar de uma anestesia (ou, se quiserem, bocejo) e de uma miopia mais ou menos induzida (retirando da corrida, por razões óbvias, os redigidos pelos indefectíveis de Sócrates, tipo Rangel, o Emídio). A tese do Pedro é óbvia mas irremediavelmente inconsequente. E não deixa de estar perpassada por um cinismo de baixa intensidade cuja intenção parece ser a de conferir à prosa uma aura de «eu é que estou a ver o filme todo e em matéria de coolness bato qualquer imberbe». Que Portugal vive num estado comatoso com empresas privadas que são mais públicas que a Paris Hilton (pela dependência económica ou por via estatutária), e em que o Estado, guiado pelo poder executivo, concorre como ninguém para a rarefacção do oxigénio que poderia manter vivas – leia-se independentes e autónomas – grande parte das empresas que perenemente pululam em torno da teta estatal (um circulo vicioso que dá armas para que o poder executivo mexa cordelinhos e promova negociatas tendo a faca e o queijo na mão), já todos estamos mais ou menos carecas de saber. Por outro lado, uma certa má-fé e um total enviesamento acabam por revelar-se quando se conclui que o movimento «Todos pela Liberdade» invocava a falta de liberdade (de imprensa, de expressão, whatever) como leitmotiv para a manifestação. Só abusivamente se poderá confundir a intenção com a eficácia. Uma coisa é a «tentativa», por parte do Eng. Sócrates e dos seus homens, de condicionar ou fazer diminuir a liberdade de imprensa e de expressão. Outra, é afirmar-se que «não existe» liberdade de expressão ou de imprensa. Acho que ninguém no movimento o afirmou. Pelo contrário: houve até oportunidade de esclarecer que não era isso. A gravidade está, também e obviamente, na «tentativa». No caso em apreço (trata-se do primeiro-ministro de um país), não pode haver lugar a rodriguinhos e a desculpas do tipo “ah e tal, toda a gente o fez, no passado, e vai continuar a fazer, de forma mais ou menos habilidosa, dada a dependência das empresas face ao Estado e à ingerência deste por via das sumptuosas golden shares, etc etc”. Bullshit. Por uma vez, deixemos de parte a bravata cínica e sarcástica e chamemos os bois pelos nomes. Condene-se sem misericórdia um acto que é abjecto, independentemente das razões (o excesso de poder não escrutinado, aliado a um sentimento de impunidade), das atenuantes (todos o fizeram no passado, embora em menor grau) e do contexto (Portugal). Não tomemos a nuvem por Juno.

Work in Progress

Andam a pintar o meu prédio. O serviço foi adjudicado em Agosto do ano passado. Começaram a empresa na segunda quinzena de Outubro, numa altura em que as condições climatéricas – chuva – e atmosféricas – humidade -, faziam prever uma carga de trabalhos. “Ainda não chove”, terá pensado o encarregado. Vieram as primeiras chuvas, uma semana após o início dos trabalhos. Os valentes pintores (umas vezes um, outras vezes dois, nunca mais do que três) não se deram por vencidos: continuaram. Um deles com qualidades de trapezista. Alguém, entretanto, os avisou que não dava para pintar à chuva. A tinta é uma coisa que, acabadinha de aplicar, tende a «escorrer» quando lhe é projectada H2O. É da física. Perceberam isso quando se aperceberam do caudal meio leitoso espalhado ao longo do prédio, contaminando já a via pública. Interromperam-se, então, os trabalhos. Retomaram-se, passadas duas semanas. Nova interrupção. Causa: chuva. Andamos nisto há meses. E andamos todos muito divertidos com o fenómeno. Há umas semanas, tivemos duas semanas de bom tempo, leia-se sem chuva. Os pintores? Viste-los. Ontem, enquanto chovia, avistei-os. Deviam estar a estudar a estratégia. Começa a notar-se uma compatibilidade endémica e tocante entre a disponibilidade de uns - pintores - e os caprichos de outra - a chuva. Temo que, por este andar, vamos poder assistir à reforma, por velhice, de uns; à reforma, por incapacidade permanente, do trapezista; à chegada de uma nova geração de pintores (provavelmente filhos destes), tintas (à prova de chuva, por exemplo) e trapezistas (Cirque du Soleil). Há já quem pense, lá no prédio, em acolher alguns na família. Os laços de solidariedade estão ao rubro. Assim que o tempo melhorar, arriscarei um churrasco. Não vá a coisa dar-se por terminada.

"Depois de morto, é obrigado a emigrar!"

Ainda a RTP

A propósito do que escrevi aqui sobre a RTP (o post revela a irritabilidade própria de quem anda f***** com o aquele clube da 2.ª Circular cujo estádio foi desenhado por uma estrela de home videos levemente eróticos da década de 80), o meu amigo e jornalista Paulo Nobre deixou o seguinte comentário:
Podes ficar-te com a informação das privadas, que essa, de certezinha, não é influenciada pelo poder político.
São totalmente dependentes da publicidade que recebem das grandes empresas dependentes do... Estado.
Logo portanto, mais vale ter uma informação dependente da publicidade das empresas dependentes do Estado que ter uma informação dependente do Estado.
Enviesamento e manipulação? Na TVI? Na SIC? Na TSF? No Correio da Manhã? Não! Só na RTP.
Cuidado com as modas!
Amigo: atenção que a distracção às vezes prejudica a clareza de raciocínio.
Antes de mais, gostaria de agradecer o comentário do Paulo. Em segundo lugar, cumpre-me avançar com algumas justificações que possam repor o meu bom óptimo nome, agora posto em causa por este comentário que pretende «decapitar» este blogue.

Eu vou muito em «modas», de facto. Defendo - insisto, aliás - que não há que ter cuidado com «modas». As «modas» congregam, são identitárias, apelam às vagas de fundo e à paridade, inovando, primeiro, para de seguida uniformizarem. Como sabes, a uniformização é um remanso. No plano restrito do vocábulo, a moda é, actualmente, o augusto alimento com que satisfaço o apetite voraz do meu hipotálamo. Não perco um episódio do Project Runaway («as you know, in fashion one day you are in, the next day youre out» e «make it work» são expressões que passei a utilizar regularmente) e o Fashion TV está sempre sintonizado, exceptuando os momentos em que a voz ou o bigode do Rui Tovar marcam presença no RTP Memória. Num plano mais «abrangente», mas desgraçadamente bem mais comezinho e, digamos, frívolo, embarquei, por exemplo, na «moda» de «dizer mal» (a maldita maledicência, meu caro, a infame e ingrata maledicência!) do Eng. José Sócrates. O Eng. José Sócrates é, como sabes, o primeiro-ministro de Portugal. Merece, por isso, todo o nosso respeito. Além disso, trata-se de um homem de carácter, de uma tolerância infindável e de uma postura democrática exemplar. Para além de ser, e isto é que é importante, competentíssimo. Mas, como disse, sou criatura de «modas». Não há volta a dar. E o que é da natureza, desculpa-se.

Quanto à RTP, não escrevi, afirmei ou sustentei que as privadas são sacrossantas ou que se recomendam cegamente. O problema, meu caro, é que eu pago as contas da RTP e, vê tu bem, tenho a estimável mas estúpida e, certamente, ingénua ideia ou esperança de que uma televisão pública que se arroga o dever de prestar um serviço público - supostamente isento (por exemplo, politica ou ideologicamente), de qualidade (e não escravo de audiências), transparente, contido e não despesista - devia rodear-se de alguns cuidados e cautelas. Sabes do que falo, certamente. Ora, a «minha» televisão, que é a pública, que é a tua e a dos contribuintes deste país, anda há décadas a fazer fretes a governos e à deriva no que respeita a critérios qualitativos (muito lixo tem passado por ali) e de identidade. E, nestes anos perdidos do socratismo, tudo se tem feito para provar à saciedade que a manipulação da tutela marca presença assídua na abordagem das notícias – por exemplo, no alinhamento das mesmas e em omissões providenciais. E estamos, hoje em dia, a falar de uma cadência diária de desinformação. Dou-te um exemplo crasso: a notícia das «escutas», referentes à primeira edição do Sol dedicada ao caso, foi para o ar vinte minutos depois da abertura do telejornal. Outro: ontem foram desencantar uma reportagem sobre as qualidades e os extraordinários atributos do Cartão do Cidadão. Fantástico, não é?

Tudo isto não significa que não haja boa gente (séria, não vendida) e bons profissionais na RTP. Que os há, como é óbvio. Significa, apenas, isto: se, como tu dizes, ninguém é impoluto e que de nenhuma estação de televisão se pode dizer estar a salvo de manipulações ou enviesamentos, o que se esperava da RTP (eu pelo menos) era que esta se mantivesse menos permeável aos ditames e às agendas do poder executivo ou dos grupos económicos, mantendo uma espécie de consistência moral e ética mínima, ao longo dos anos. Ora, meu caro Paulo, não é isso que se passa. E de pouco vale desculpar a RTP com o mal dos outros. Acho eu, que vou tanto em modas.

Actualizar a República (comic relief)

Parece que os artistas do regime querem agora mudar ou actualizar o busto da República. É, supostamente, antiquado. O meu conselho: querem mudar a imagem da República, comecem por mudar a bandeira. Aquele vermelho e aquele verde juntinhos são uma das maiores tragédias portuguesas dos últimos cem anos. Nenhum povo pode ser verdadeiramente feliz quando tem que envergar aquelas cores. Nenhum país pode medrar ou ser levado a sério quando tem para apresentar ao mundo e às novas gerações aquela histeria cromática. Propunha, por exemplo, o monárquico e respeitável branco e azul. De seguida, o hino: "às armas, às armas"? Please. Enfim, o busto pode esperar.

domingo, fevereiro 14, 2010

Esboroamento

Capoulas Santos já nos habitou ao seu papel de «cão de fila», subgénero «trauliteiro», disponível vinte e quatro por dia, dias úteis e fins-de-semana, na defesa intrépida e bárbara do chefe e do grupo. Achou-se, por estes dias, «indignado» (um país de indignados, este) com a tentativa de «decapitação» (tenebrosa palavra) do primeiro-ministro (uma vez mais, a vítima da urdidura e da… adivinharam: maledicência). Acenou, en passant, com a falta de coragem da oposição para apresentar uma moção de censura. Ai os velhacos querem retirá-lo? Avancem com a moçãozinha, se faz favor. Independentemente do país, claro. Lá está: o indefectível do chefe anunciando que até na política há um código moral e um conjunto de preceitos que invocam a lealdade: ou caem todos – governo – ou o chefe não sai. A avaliar pela postura deste estimado e rijo militante, receio que o Partido Socialista esteja a preparar o terreno para enfrentar um longo calvário. Capoulas Santos não percebe, por sabujice ou desonestidade intelectual, que José Sócrates passou a ser a «má moeda» do partido e do governo. O homem, perdão, o Sr. Primeiro-Ministro, tem por estes dias tanto de credível como a Calçada de Carriche tem de bucólico. O país só tinha a ganhar se ele, José Sócrates, com ou sem Capoulas Santos, se agarrasse a uma réstia de dignidade e se retirasse de cena. Mas temo que, como é tradição portuguesa, o drama e a toxicidade perdurem no ar até que este se torne irrespirável. E viva o Capoulas Santos! - que é homem que não se deixa impressionar.

sábado, fevereiro 13, 2010

Calma, muita calma

Os apoiantes e simpatizantes de Pedro Passos Coelho já abriram as hostilidades. Carlos Abreu Amorim parece ter dado inicio à vaga trauliteira anti-Rangel recorrendo a cartoons no mínimo patetinhos e a postas que supostamente revelam o cinismo de Paulo Rangel até à exaustão. Tenham calma, senhores. Ou acabam confundidos com a vaga de irritabilidade que o anúncio da candidatura de Paulo Rangel provocou nas hostes socialistas. E, by the way: não estou particularmente entusiasmado com os três candidatos que se apresentam à empresa, mas se fosse militante do partido votaria em Rangel. Sem margem para dúvidas.

Sem desculpa

Fernanda Câncio comparou o incomparável. Equiparar a justificação moral, não meramente de juri, de providências cautelares que visam impedir a devassa da vida privada (como foram o caso das despoletadas por Ricardo de Araújo Pereira ou por Manuela Moura Guedes), com providências cautelares que visam impedir o livre exercício de direitos e liberdades constitucionais, como é o caso da liberdade de imprensa, sobre matérias de interesse público, é de uma desonestidade intelectual pueril. Como bem lembrou Paulo Pinto de Albuquerque, «…as jornalistas do Sol agiram ao abrigo de uma causa de justificação, o exercício dos direitos já mencionados. E fizeram-no sobre um assunto de interesse público e por meio proporcional e adequado à importância e gravidade do assunto. Em síntese, pode concluir-se que as jornalistas cumpriram os requisitos substantivos e formais da licitude consagrados na jurisprudência constitucional e europeia.»

Desenganem-se

E perguntam V. Exas.: estará José Sócrates politicamente debilitado ou, quiçá, morto? Resposta: estão a brincar? Claro que não. As generalizações e as declarações grandiloquentes não são a minha chávena de chá, mas desta vez não estarei muito longe da realidade «concreta» se disser que José Sócrates está no lugar certo, no país certo e com o povo certo. Bastava ter prestado alguma atenção ao Fórum da TSF de há duas semanas, logo após a publicação da primeira tranche de escutas, para perceber que esta coisa da «liberdade» e esta coisa da «autoridade» têm muito que se lhe diga. As intervenções estiveram a cargo do grupo dos indignados, envergando o slogan «Está à espera de quê para se demitir?», e do grupo dos relativistas, com o banner «Estavam à espera do quê tratando-se da bruxa Moura Guedes?». Será possível? É. A tradição da liberdade em Portugal é tão consistente quanto a defesa do meu, salvo seja, Sporting Clube de Portugal. Entre sofrer os excessos de um jornalismo tablóide ou circunstancialmente temerário, ou os defeitos da sociedade do «respeitinho» e do combate à maledicência sobre os veneráveis, o português não hesita: escolhe o mais cómodo dos caminhos. Daí a tão conveniente defesa dos formalismos sobre a substância («as escutas são ilegais, não se podem ler ou valorizar»). Para muita gente, Manuela Moura Guedes e quejandos, tiveram o correctivo que mereciam. As manobras de Sócrates, perante tamanha desfaçatez e insolência (registada e valorada pelo Dr. Marinho Pinto), estão totalmente justificadas. Compreendem-se, toleram-se, nalguns casos acarinham-se. Afinal de contas, os «outros», com quem intermitentemente trocam de lugar, são iguais. Além disso, é o chefe que está a ser atacado. Não se afronta quem nos põe o pão na boca. Liberdade? Falem com a Câncio que ela explica e ensina tudo o que têm que saber.

Um homem imprudente e perigoso

António Lobo Xavier disse o óbvio: só por desatenção, engajamento político acrítico ou debilidade mental e moral, se poderia ficar surpreendido com o que as escutas publicadas pelo semanário Sol, vieram agora revelar. Há muito que a vida de José Sócrates daria um filme indiano. Ou melhor, siciliano. A entourage política do primeiro-ministro e a teia de ligações que o envolvem a ele e aos seus mais dilectos boys e colaboradores, deixam no ar mais do que suspeitas: a certeza de que o primeiro-ministro de Portugal é um homem que não olha a meios – humanos e materiais - para atingir os seus fins. José Sócrates é um homem obstinado e obcecado com o exercício do poder. E por isso imprudente. Os limites da lei, da moral e da prudência não lhes são desconhecidos: são antes pequenas barreiras que ele vai evitando, num slalom que percorre com especial gozo e notável determinação.

A equação metafísica de Jacinto de Tormes, louvada pela mocidade positiva do Odeon à Sorbona em 1866, era “Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade”. José Sócrates reescreveu-a e pratica, desde 2005, a sua própria equação metafísica: “Sumo Controlo X Suma Sobranceria = Sumo Poder”. Os distraídos perceberam agora isto. Mas não sei se perceberam que com este primeiro-ministro, Portugal caminha a passos largos para uma sociedade que só por aparência é livre. Esqueçam a «liberdade de expressão» ou a «liberdade de imprensa». Falem antes da Liberdade, tout court. Porque é essa que está a ser atacada. João Cândido da Silva dizia ontem, na SIC Notícias, que num inquérito realizado a empresários portugueses, apenas um tinha autorizado a publicação do seu nome. Os outros invocaram «receio de represálias». Basta falar com funcionários públicos, sobretudo os que exercem cargos de chefia, para perceber que a opção «caladinho» é a escolhida. Há jornalistas que, embora nunca tendo sido alvo de represálias ou de «controlo», auto-censuram os seus textos, dado o clima que se vive. Esta semana, no Fórum da TSF, um ouvinte começou por expressar a sua opinião sobre o caso das «escutas» citando, alegadamente, Fernando Pessoa com a frase «país de bananas governado por sacanas». A moderadora, notoriamente em pânico, impediu-o de continuar, aplicando-lhe, en passant, a reprimenda «pela escolha de linguagem não própria», passando, logo de seguida, a outro ouvinte. É este o caldo social em que vivemos.

A aposta deste primeiro-ministro, constatando as fragilidades e fraquezas sociais, económicas e morais endémicas, próprias de um povo amorfo e conformado, é a de aumentar a dependência da sociedade em relação ao Estado e ao poder executivo – dessa forma, enchendo as medidas de homem intolerante, arrogante, controleiro, egocêntrico. Com Sócrates, o Estado tenderá a ser tudo (pai, tutor, polícia, censor) e o Governo um colectivo de deuses, chefiado por um ser supremo que tudo vê e a tudo assiste. O corolário, não podia, nem pode, deixar de ser este: quem fala leva; quem aponta o dedo, é humilhado; quem denuncia, é afastado; quem critica, é censurado. Para José Sócrates, só por ingratidão ou má-fé se pode duvidar da sua boa vontade e das suas virtudes. O que é a doutrina da «maledicência», propalada pelo governo e pelo PS em peso, senão isto? A partir daqui, tudo pode vir a justificar-se.

Na Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith escrevia, no capítulo dedicado ao «carácter da virtude», que o homem prudente estuda séria e determinadamente para entender o que professa entender, e não apenas para persuadir os outros de que entende; nem tampouco se esforça para se impor por via de expedientes próprios de um impostor astuto, ou pelos ares arrogantes de um pretenso pedante, nem pelas afirmações confiantes de um pretendente superficial e impudente. Ou seja, o homem prudente é sempre sincero e sente horror ao mero pensamento de se expor à desgraça que se segue à descoberta da falsidade. José Sócrates é um homem imprudente: mente, esconde, movimenta-se nos bastidores e na sombra. Mas é também um homem perigoso: por ele não perpassa a mais leve aragem do que são os limites. José Sócrates é o primeiro-ministro do meu país. Coisa que me envergonha.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

De preferência, ele

Vasco Pulido Valente in Público 07/02/2010

"Alegadamente, o primeiro-ministro aprovou (ou, pelo menos, conhecia) um plano secreto e pouco saboroso para remover alguns críticos, que o irritavam, fazendo comprar a TVI e parte da imprensa por gente da sua confiança. As criaturas que ele queria exterminar eram, entre outras, o casal José Eduardo Moniz-Manuela Moura Guedes, como responsável pelo Jornal de Sexta, e José Manuel Fernandes, como director do PÚBLICO. Isto, a ser verdade, roça o absurdo. Nem o Jornal de Sexta, nem o PÚBLICO tinham o poder de pôr em risco o Governo ou sequer de afectar significativamente o prestígio e o estatuto de Sócrates. Se alguém tinha esse poder era o próprio José Sócrates, para não falar no grupo obscuro e anónimo, que, segundo se depreende dos documentos que o Sol revelou, o serviu zelosamente no terreno.

Não vale a pena insistir na ilegalidade e, sobretudo, na profunda imoralidade da operação, se por acaso existiu como a descreveram. Em qualquer sítio para lá de Badajoz, nenhum político sobreviveria um instante a essa grosseira tentativa de suprimir com dinheiro público o livre exame e a livre crítica, que a Constituição e os costumes claramente garantem. Mas não deixa de surpreender (e merecer comentário) que um primeiro-ministro de um partido que se gaba das suas tradições democráticas, declare por sua iniciativa, e sem razão suficiente, guerra aberta à generalidade dos media, que não o aprovam, defendem e bajulam. Não há precedentes na história deste regime de um ódio tão obsessivo à discordância, por pequena que seja, ou a qualquer oposição activa, de princípio ou de facto.

O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós."

domingo, fevereiro 07, 2010

Évora, 31 de Dezembro de 2009

Respondo (finalmente) ao repto do João. Antes de mais: obrigado João. Em segundo lugar: não me lixes, pá. Isto não se faz, ou melhor, não se pede: eleger um único filme da década é humanamente impossível. E animalescamente também. Quando muito, escolheria um realizador: Clint Eastwood. Nenhum outro realizador deu à luz tantos filmes que me tivessem enchido tanto as medidas, nos últimos dez vinte anos. Chega a ser irritante, digo-vos. Num outro registo, não deixaria de mencionar os que, nos últimos dez anos, mais me «divertiram» (no sentido em que o cinema é também, ou sobretudo, entretenimento sensorial mais ou menos despretensioso): Night Shyamalan e Wes Anderson. Shyamalan fez, aliás, um portentoso filme - que, tenho a certeza, levou alguns realizadores da velha guarda ao divã (tipo "cabrão do puto, deixou-me a ver navios"): Unbreakable (na altura, o saudoso João Bénard da Costa viu logo ali um talento imenso). Wes Anderson é irrepreensível na forma como trata assuntos sérios recorrendo ao humor e à ironia, num estilo pessoalíssimo cheio de referências a um passado recente. Anderson é o mais estiloso dos melancólicos e os seus filmes são uma colectânea de quadros a óleo repletos de camisolas de gola alta, peças de lego, cubos de Rubik, calças de bombazine, paixões de liceu, polaróides, Olivettis, caleidoscópios e gadgets esquecidos/ultrapassados, entre personagens desajustadas, meio à deriva. Quase sempre à procura de um ponto de referência e de um sentido para a vida. O humor Andersoniano nunca é imposto: é antes a expressão não esforçada de uma visão cómica e suavemente triste da vida, com epicentro nas relações familiares.

Pedindo desculpas ao João, subverto um pouco o seu pedido e alargo a lista aos filmes vistos (falhei muitos, eu sei) e realizados entre 2000 e 2009, que me parecem obrigatórios em qualquer lista de filmes de uma década:

2000
Unbreakable Night Shyamalan
In The Mood For Love Wong Kar-Wai
Wonder Boys Curtis Hanson

2001
The Royal Tenenbaums Wes Anderson
Mulholland Drive David Lynch
Ghost World Terry Zwigoff
L’ Anglaise et le Duque Eric Rohmer
Intimacy Patrice Chéreau
La Pianiste Michael Haneke

2002
25th Hour Spike Lee
L’Adversaire Nicole Garcia
Catch Me If You Can Steven Spielberg

2003
Mystic River Clint Eastwood
Saraband Ingmar Bergman
Lost in Translation Sofia Coppola

2004
Million Dollar Baby Clint Eastwood
The Village Night Shyamalan
2046 Wong Kar-Wai
The Incredibles Brad Bird

2005
A History Of Violence David Cronenberg
De Battre Mon Coeur s’est Arrêté Jacques Audiard
Match Point Woody Allen
The Squid and The Whale Noah Baumbach

2006
Letters From Iwo Jima Clint Eastwood
Little Children Todd Field

2007
Eastern Promises David Cronenberg
No Country For Old Men Joel & Ethan Coen
Sweeney Todd Tim Burton
Hotel Chevalier + The Darjeeling Limited Wes Anderson

2008
Gran Torino Clint Eastwood

2009
Vicky Cristina Barcelona Woody Allen
Inglorious Basterds Quentin Tarantino

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Do extracto do despacho do juiz

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

O homem da Cofidis

Vítor Constâncio, naquele tom de homem seríssimo levemente enfadado por ter de falar na direcção de uma esponja meio cilíndrica emoldurada por um logótipo de uma qualquer estação de rádio ou televisão, aliviou-se de uma presunção: dada a situação económica do país, o Sr. Governador presume que «alguma coisa tem que ser feita». E que coisa é essa? Ora deixa cá ver…. (difícil, tendo em conta a imprevisibilidade daquele encéfalo)… Arrisco: aumento de impostos? Acertei?

Claro que acertei. Não tinha como não acertar. Reparem: estamos a falar de uma figura que nasceu, viveu e, infelizmente, há-de um dia morrer aluído pelo eterno paradigma da planificação económica e da estatização da economia em nome, claro está, da igualdade e da justiça social.

Aparentemente, faltaram explicar-lhe o resto, na Academia, e de pouco lhe valeu viver, recorrentemente, durante mais de trinta e cinco anos, o processo pelo qual o seu paradigma deu os resultados que estão à vista. O socialismo é autofágico, não pelo jejum mas pela gula e obesidade mórbidas. No Estado socialista – que é o nosso - a riqueza produzida passa a estar ao serviço – um serviço indiscutível, eternamente sábio e incomensuravelmente bondoso, servido por gente irrepreensível – de um Estado que, chamando a si a distinta e apreciável função de redistribuir os rendimentos para suprir a falta ali e ceifar as excrescências acolá, se torna toxicodependente daquele que é o instrumento por excelência que lhe permite subtrair uma fatia da riqueza que cada ser humano «produtivo», ganha com o seu trabalho, e que dá pelo nome de «imposto» ou «tributo». A tendência do Estado socialista há-de ser sempre, por definição, a de cobrar mais para gastar mais, e a de gastar mais para justificar cobrar ainda mais. É um ciclo vicioso, imparável, sem direito a reversão ou correcção. Para o Sr. Governador, os impostos são o Cofidis do Estado: sempre disponíveis para tapar o buraquinho orçamental e para apregoar o papel «social» do Estado. Os impostos hão-de estar sempre ali, disponíveis, para salvar a face do Estado gordo e guloso, repleto de necroses e disfunções diabéticas. É esta a mentalidade do Sr. Governador, e é este o único paradigma em que esta singular democracia viveu.

Em trinta e cinco anos, nunca ninguém ousou baixar a carga fiscal, porque nunca o Estado e as mordomias que serve, pararam de crescer. Para quê? Para deixar o dinheiro nas mãos do malandro e néscio povo? Não tenham a mais leve das ilusões: a cada orçamento de Estado, haverá sempre um aumento de impostos à espera de si. E uns idiotas úteis que o justificarão com a cara mais séria do mundo. Em nome do mais nobre ideal. O povo - que não é malandro nem néscio - lá encolherá os ombros porque, let's face it: o povo doesn't want chatices.
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