O MacGuffin: Agosto 2008

quinta-feira, agosto 28, 2008

Sobrevalorizado

Roger Kimball in Standpoint (Setembro 2008)

John Stuart Mill

Together with Rousseau, John Stuart Mill (1806–73) supplied nearly all of the arguments and most of the emotional weather – the texture of sentiment – that have gone into defining the Left-liberal vision of the world.

Mill’s peculiar brand of utilitarianism – a cake of Benthamite hedonism glazed with Wordsworthian sentimentality – accounts for part of his appeal: it provides a perfect recipe for embellishing programmatic shallowness with a cosmetic patina of spirituality. It is a recipe that has proven irresistible to those infatuated with the spectacle of their own virtue.

Another large part of Mill’s appeal rests on his “feminism” – his conviction, put forward in The Subjection of Women, that differences between the sexes were accidental and that, as Leslie Stephen put it, “women could be turned into men by trifling changes in the law”. Both are indispensable elements in the intoxicating potion that constitutes Mill’s appeal and makes much of his thinking seem so contemporary.

Mill’s arguments and pronouncements about man as a “progressive being”, the extent of individual autonomy, the limits of acceptable moral and legal censure, the importance of innovation and (perhaps his most famous phrase) “experiments in living” are all familiar to the point of invisibility. Likewise his corollary insistence on the poverty of custom, prejudice and tradition. Mill’s contentions on these subjects are nowadays less objects of debate than of reverence.But the public success of Mill’s teaching (especially in his manifesto On Liberty) says nothing about the cogency of his arguments. In fact, Mill’s central arguments are open to – and have from the beginning been subjected to – serious criticism. Yet they have raged like wildfire through the Western world, consuming everything that stands in their path. Which means, among other things, that they exert an appeal quite distinct from any intellectual merit they may possess.

As for the nature of Mill’s arguments, consider, for example, his famous plea on behalf of moral, social and intellectual “experiments”. Throughout history, Mill argues, the authors of such innovations have been objects of ridicule, persecution and oppression; they have been ignored, silenced, exiled, imprisoned, even killed. But (Mill continues) we owe every step of progress, intellectual as well as moral, to the daring of innovators. “Without them,” he writes, “human life would become a stagnant pool. Not only is it they who introduce good things which did not before exist; it is they who keep the life in those which already exist.” Ergo, innovators – “developed human beings” is one phrase Mill uses for such paragons – should not merely be tolerated but positively be encouraged.

The philosopher David Stove called this the “They All Laughed at Christopher Columbus” argument. The amazing thing about the success of the Columbus argument is that it depends on premises that are so obviously faulty. Indeed, as Stove observes, a moment’s reflection reveals that the Columbus argument is undermined by a downright glaring weakness.

Granted that every change for the better has depended on someone embarking on a new departure: well, so too has every change for the worse. And surely, Stove writes, there have been at least as many proposed innovations which “were or would have been for the worse as ones which were or would have been for the better”. This means that we have at least as much reason to discourage innovators as to encourage them, especially when their innovations bear on things as immensely complex as the organisation of society.In On Liberty, Mill presented himself as a prophet of individual liberty. But if liberty was always on Mill’s lips, a new orthodoxy was ever in his heart. There is an important sense in which the libertarian streak in On Liberty is little more than a prophylactic against the coerciveness that its assumption of virtuous rationality presupposes. Mill hoped that liberty would replace the reign of prejudice with the reign of reason. In fact, it has had the effect of camouflaging prejudices with rational-sounding rhetoric. The effort to unseat customary practice and belief has resulted not, as Mill predicted, in encouraging a drift towards unanimity but in increasing chaos.

Nor is this surprising. As Mill’s great critic James Fitzjames Stephen noted, “the notorious result of unlimited freedom of thought and discussion is to produce general scepticism on many subjects in the vast majority of minds”. Such “paradoxes” (to put it politely) show themselves wherever the constructive part of Mill’s doctrine is glimpsed through his cheerleading for freedom and eccentricity.

Mill claimed a monopoly on the word ¬“rational”. So long as that monopoly remains unchallenged our paralysis will be complete. The antidote to the moral helplessness that Mill’s liberalism generates is not to be found by digging deeper in the trench of liberal rationalisation. On the contrary, it begins with the recognition that no “one very simple principle” can relieve us of the duties we owe to the inhabited world that we, for this brief while, share with many others.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Aos 60 anos, a ingenuidade

Marcelo Rebelo de Sousa apela à paz no interior do PSD. Sugere, mesmo, um pacto de «unidade interna» (a expressão é minha, peço desculpa) para que o partido se concentre nos próximos desafios eleitorais, através, presumo eu, da suspensão momentânea do folguedo em que se vão envolvendo as mais proeminentes figuras (internamente proeminentes, diga-se) do partido, vai para três anos (após a derrota do menino guerreiro). Marcelo Rebelo de Sousa sugere e aconselha que figuras como Marco António Costa, Passos Coelho, Ribau Esteves, Alberto João Jardim ou Luís Filipe Menezes (só para citar a nata), sosseguem a verve, controlem os nervos, invoquem o sentido de responsabilidade e evitem as «críticas» (eufemismo para «conluio»). Em suma, que ponham termo à diversão.

Nobre e louvável proposta, a do professor. Acontece que, por distracção ou ingenuidade, o Prof. Marcelo não reparou num pormenor: em Portugal, partido apaziguado ou normalizado é sinónimo de: a) partido no poder; ou b) partido sem ambições de poder. Além disso, os nomes supracitados não devem muito à paciência, à discrição e ao bom senso. Maquiavel explicar-lhe-ia isto, não estivesse a cumprir as suas funções no inferno há mais de 480 anos.

terça-feira, agosto 26, 2008

O rapaz de Boliqueime visto pela rapariga de Lisboa

Clara Ferreira Alves resolveu, há duas semanas atrás, aliviar-se da embirração de que padece por Cavaco Silva – um saloio «não intelectual» que Clara, rapariga fina, intelectual, da capital, não suporta – amplificada pela declaração ao país de Cavaco Silva enquanto Presidente da República – declaração que Clara achou pífia, vazia e sem referências culturais de relevo.

Para Clara, a declaração ao país vem corroborar aquilo que ela há muito vislumbrou no personagem: ”Podemos tirar o rapaz de Boliqueime mas não podemos tirar Boliqueime do rapaz, dir-se-ia com crueldade.” Repare-se como Clara, a temente, ciente da «eventual» crueldade da frase – um reconhecimento em si louvável – acrescentou um salvífico «dir-se-ia com crueldade», como que a dizer «isto é cruel e eu não o escrevi, apenas fiz eco do que se poderia dizer». Sol de pouca dura, acrescento eu, porque, teimoso e ardiloso, o intelecto de Clara – um portento de perseverança - deu ordem imediata para que os delicados dedinhos de Clara debitassem o seguinte: ”O Presidente Cavaco é um rapaz de Boliqueime e isso não é uma coisa boa. Nem má. É o que é”. Traduzindo: «é cruel é, mas factos são factos e ele é de Boliqueime o que não é mau mas bom não é de certeza». E terminou a crónica com um tratado de sofisticação: "Num grande país europeu como a França, a Alemanha ou a Grã-Bretanha, Cavaco seria um apêndice, nunca um órgão político."

Volto atrás no tempo. 20 de Dezembro de 2005. Debate entre Cavao Silva e Mário Soares, em plena campanha para as presidenciais (que Soares viria a perder por uma larga margem). Abusando do pronome pessoal, e frente ao seu antagonista, Soares disse que «ele é rígido» (sic), «ele não fala» (sic), «ele não passa de um economista razoável» (sic), «ele é um ignorante em História» (sic), «ele não conhece o mundo» (sic). Lá está: já nesse tempo Soares sabia que o «rapaz tinha saído de Boliqueime, mas Boliqueime não tinha saído do rapaz».

A Clara foi, por isso, pouco original. Seguiu caprichosa e canideamente a voz do seu amigo Mário (com quem se encontra regularmente para filmar um programa que vai ficar na história pela erudição de ambos). Limitou-se a debitar o paleio habitual de um certo milieu intelectual da petite bourgeoisie alfacinha que odeia o saturado perfume dos provincianos (se lerem A Capital do Eça, encontrarão o modelo e o estilo adoptados) e sofre de achaques de cada vez que um hillbilly mais ou menos sofisticado e educado alcança cargos de destaque na vida política e cultural portuguesa (e que só mesmo o povo ignaro coloca no poleiro, indiferente ao génio de Clara e amigos). De resto, faltou-lhe em sagacidade e estilo, o que lhe sobrou em arrogância e mau gosto. Muito provavelmente, Cavaco nunca leu Paul Auster, autor que Clara trata por tu. Imperdoável, Clara.

E agora?

"World heading towards cooler 2008. This year appears set to be the coolest globally this century.".

(Estou certo que, dentro de dias, alguém algures - especialista, leigo, entendedor, mestre em retórica, o gajo do Verde Eufémia, etc. - vai explicar isto de uma das seguintes formas: a) é uma excepção a anteceder a catástrofe; b) é o canto do cisne; c) isto não quer dizer absolutamente nada; d) todas as anteriores.)

Pronto, Rui, estou emocionado

O Rui Tavares escreveu, ontem, prosa prodigiosa no Público: emocionante, a transpirar humanismo em todas as linhas, tratou-se de um heróico manifesto contra a vil ambição e a abjecta ganância do «ganhar, ganhar, ganhar». Excerto? Aqui vai:

”Pois bem, Marco Fortes, deixa-me tratar-te por tu: espero sinceramente que não consigam vergar-te, moldar-te, ajoelhar-te.”

Pela amostra, podem correctamente depreender que Rui Tavares bateu forte na falta de vergonha e de sentido das proporções dos portugueses, pelo menos dos portugueses que se «indignaram» selvaticamente contra o atleta e, pasme-se, o ridicularizaram.

Neste particular, devo, desde já, enfiar a carapuça. Fui, e sou, dos que não gostou de ouvir Marco Fortes (embora sem selvajaria). Para todos os efeitos, o homem estava a representar Portugal e a expensas do erário público (passo o pleonasmo). Confesso, contudo, que não consegui deixar de simpatizar com a personagem. Em primeiro lugar, acho que é do Sporting. Em segundo lugar, Fortes revelou nas suas declarações algo de muito português, de muito próximo (da mesma proximidade que me levou a simpatizar com o homem). Quem é que, como eu e o Rui Tavares, nunca teve vontade de ficar na caminha? Quem é que, como o Rui Tavares e o Marco Fortes, nunca chegou atrasado ao emprego por estar quentinho na cama? Quem é que, como eu, o Marco Fortes e o Rui Tavares, nunca esmurrou o despertador e se virou para o outro lado?

Marco Fortes só falhou num pormenor. Foi muito pouco português na forma como não disfarçou ou omitiu a coisa. A bonacheirice apoderou-se do homem e, publicamente, isso não se perdoa. Um português que se preze sabe mentir e, pelo caminho, inventar uma história que o salve e, melhor ainda, o coloque na posição de vitima ou de inocente. É aí que está a falha. O que os olhos não vêem ou os ouvidos não ouvem, o coração não sente. Para além de que num herói do Rui ninguém bate.

PS: ironias e opiniões à parte, aquilo que fizeram a Marco Fortes (recambiá-lo para Lisboa) foi indecente.

A tua vantagem é estares de férias (e teres tempo para isto)

Considero que, quando o maradona escreve:

”Eu não disse que a escrita do Carlos devia demasiado ao estilo (…)”

após ter escrito:

”[Trata-se de um] estilo que é essencialmente literário, que serve exclusivamente um propósito estético, e que não analisa”

se está perante um super-carapau-deixa-cá-ver-se-ninguém-repara-no-que-eu-escrevi-há-24-horas-atrás (se ninguém reparar decorre, imediatamente e por certo, que o maradona não escreveu nada daquilo), com uma assinalável dose de voluntarismo que deve ter a sua utilidade, mas que, temo, não tem qualquer interesse ou validade analítica nos casos concretos.

O maradona disse:

O Carlos falou em que se assumisse que a participação portuguesa teria corrido "mal", o que é, no mínimo, uma não verdade.

Não, não é uma «não verdade». No rácio ‘n.º de medalhas/n.º modalidades com participação portuguesa’, Pequim ficou atrás de Atenas e Sidney (até à data, o melhor resultado foi em Los Angeles). Na relação ‘qualidade dos resultados vs n.º de modalidades’ (independentemente das medalhas), Pequim voltou a ficar atrás de Atenas e Sidney. Dois exemplos: 31% dos atletas portugueses em Sidney conseguiram classificações entre os 10 primeiros lugares, contra 26% em Atenas e apenas 18% em Pequim; em Pequim, 56% dos atletas portugueses ficaram abaixo do 20.º lugar das respectivas modalidades onde participaram, contra apenas 40% em Sidney (embora deva dizer-se que Barcelona foi bem pior, com uma percentagem de 61% dos atletas abaixo do 20.º lugar). De resto, e não sou eu que o digo, o apregoado «melhor resultado de sempre» ficou muito aquém dos objectivos a que se propuseram os responsáveis olímpicos.

Só mais duas ou três coisas para terminar (pelo menos da minha parte) este vasto lençol de matéria publicada. Em primeiro lugar, eu nunca disse que a «bonacheirice», a «cagança» ou a «patetice» evidenciadas nas afirmações de certos atletas, estivessem na origem dos males. Tomei-os, isso sim (está bem assim, maradona?), como sinais. Lembro-me, inclusive, de ter escrito que a «cagança», ou, se preferirem, o excesso de favoritismo (a sobranceria, a arrogância, etc.) não seriam problemáticas (caramba, não me chamo Jacques Rogge). Quando referi a «bonacheirice» de Marco Fortes (que significa «ingenuidade») fi-lo no sentido de evidenciar mais um sinal de entre os que me levaram a concluir que houve «alguma» «falta de preparação», «alguma» falta de «disciplina» desportiva e «algum» «excesso de confiança» (utilizo o pronome indefinido da mesma forma que me referi a «alguns» atletas, embora o maradona tivesse feito disso tabula rasa) na participação portuguesa nestes jogos olímpicos. O ridículo, a ingenuidade e a arrogância presentes nas diversas declarações que se produziram da boca de alguns atletas, consubstanciadas pelo resultados menos positivos, foram, para mim, a evidência de que algo estava a correr mal. Aceito que não haja nada de cientifico nesta presunção e/ou dedução. Seja como for, os resultados falam por si. É também perfeitamente natural («natural» na medida exacta de se tratar de mais uma conjectura fantasiosa e entediante sobre a «alma» portuguesa que tanto chateia o maradona) que, agora, se saboreie publicamente mais uma farsa com a história do «melhor resultado de sempre» (é fabuloso como, em Portugal, o sofrível se transfigura em excelente ou o bestial em besta enquanto o diabo esfrega um olho e o Évora dá aqueles três magníficos saltos). Se me permitem, deixo o excerto de uma crónica de Fernando Tenreiro, que por ser Economista (9 points) e presidente do Panathlon Clube de Lisboa (10 points), será, decerto, escorraçado por falta de capacidade «analítica» e excesso de «ignorância» (de um Fernando para outro, entendam-me - e lá estou eu com a mania de aventar argumentos sobre opiniões que nunca foram proferidas):

”Os resultados de Pequim estavam à espera de acontecer. Há erros estruturais de desenvolvimento no desporto português que se repetiram de quatro em quatro anos desde sempre. Estamos no último lugar nas estatísticas desportivas europeias. Sempre tivemos atletas que vencem campeonatos europeus e mundiais e que perdem nos Jogos Olímpicos.

Portugal não estuda o desporto, não confronta as federações com os seus resultados, não incentiva as empresas, as universidades e as federações a dialogar e a produzir em competição no mercado aberto, pensa que a produtividade da administração pública é a mesma das empresas privadas e mesmo na produção de bens públicos, substitui políticas desportivas nacionais por actos mediáticos que embrulham eventos desportivos, tem critérios economicistas para financiar a actividade desportiva mesmo quando, tratando os sectores fragilizados da população, ocupa o seu tempo em actos jurisdicionais que atravessam décadas para produzir leis de bases ineficazes, não é exigente na nomeação dos líderes, nem na definição dos indicadores de performance nem na prestação de contas transparente da actividade desportiva.

Há que olhar em frente e, mais do que olhar para promitentes líderes, a definição das medalhas para Londres é o indicador a partir do qual todo o quadro conceptual da colocação de Portugal no mundo deve ser criado. Já tínhamos falhado em Atenas 2004, com o talento de Obikwelu e a sorte de Paulino, o que estava escondido porque não havia quantificação de objectivos (…)”


De resto, é tarde, muito tarde.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Eles que venham

Este blogue passa a ter disponível aquela coisa dos «comentários». O link, para esse efeito, encontra-se no sítio do costume (no rodapé por baixo do post). Disponham.

sexta-feira, agosto 22, 2008

A mad tea party

The table was a large one, but the three were all crowded together at one corner of it. "No room! No room!" they cried out when they saw Alice coming.

Alice

Vamos todos fingir que a escrita do maradona não deve nada ao estilo

É isso aí, Maradona. Portugal está invariável e pitorescamente entregue a uma mediania que o empurra para a categoria dos países - ainda bem, digo eu - cujo nível de miséria, altitude, humidade, fome e sede se revela insuficiente para produzir excrescências humanas quase sobrenaturais capazes de fomentar epifenómenos atléticos elegíveis para efeito da atribuição de medalhas olímpicas. Daí que, no caso de Portugal, a coisa só medre com organização, método, disciplina e muito, muito, muito trabalho (e, é claro, alguma dose de sorte e as necessárias características físicas individuais – no caso do Maradona, por exemplo, nem com trabalho olímpico chegaria aos mínimos da Trafaria no salto com vara ou nos 110 metros barreiras).

Se não subsistir um «sistema desportivo» ou uma certa ideia de «sistema desportivo» (não me perguntem qual é mas há gente supostamente versada na matéria e que também supostamente trabalha «profissionalmente» no milieu que saberá qualquer coisa sobre o assunto), aliado a uma mediana qualitativa sustentada por factores genéricos e díspares - como é o caso do número de piscinas por habitante, a qualidade e o tipo de orientação do desporto escolar, o número de treinadores e o seu nível de formação, os subsídios e a lei laboral que permitam ao potencial atleta prescindir da totalidade ou de parte do seu trabalho de assalariado, etc. etc. - se isso não subsistir estaremos eternamente entregues a génios isolados, a atletas medianos que numa probabilidade de um para dez milhões se excedem, ou, ainda, à fífia do adversário capaz de, por um acaso, elevar à categoria de supra-sumo uma existência até à data pautada pela mediocridade. O Maradona insiste na tese de que o número de variáveis e factores – que ele finge mais ou menos dominar em matéria de conhecimento adquirido na Marca ou através da conjugação de dados estatísticos que justapostos fornecem o combustível mental necessário para chegar às suas conclusões (o caso da Holanda vs Irlanda ou da Dinamarca vs Bélgica) – é de tal ordem complexo e aleatório que se torna imperscrutável antever o que quer que seja, até porque o nível de imponderabilidade, no que toca ao desempenho de seres humanos, endemicamente falíveis, estará sempre ao rubro. E resiste à ideia de que eventuais melhorias de natureza genérica – o número de piscinas, o desporto escolar, o número de pistas… - ou particular – os métodos de trabalho, a disciplina nos treinos, a dedicação à causa, alguma dose de humildade na postura desportiva… - em países que infelizmente não foram assolados pela fome, pelo calor e pela miséria, podem resultar numa melhoria, ainda que marginal, de resultados. Eu só digo que talvez não seja bem assim.

PS: mesmo um não «não consegui adaptar-me» (que revela esforço de adaptação, ainda que falhado) é diferente de um «não sou muito dada a este tipo de competições» ou de um «entrar neste estádio cheio bloqueou-me um pouco». Mas eu não queria discutir soundbytes.

E agora falando um pouco de coisas mais sérias

Vasco Pulido Valente in Público (22/08/2008)

O ideal olímpico

"No meio da tanta conversa sobre os Jogos de Pequim, quase não se falou dos Jogos de Pequim. Primeiro, da cerimónia inaugural (que vi em repetição), que lembrava irresistivelmente o congresso de Nürnberg de 1934, na versão de Leni Riefenstahl. A coreografia militar daquela massa indistinta e obediente não celebrava qualquer espécie de acontecimento desportivo, celebrava o novo poder da China e prometia o "triunfo" de uma nova "vontade". Sempre foi assim? Não exactamente. Apesar de tudo, nunca a América se atreveu a ir tão longe. Nem o Ocidente democrático era susceptível de engolir sem protesto aquele espectáculo. A conversa, evidentemente, mudou (como não mudaria?), mas não mudou a ameaça implícita da ordem, do número e da superioridade rácica.

Também não se disse uma palavra sobre o aberração em que pouco a pouco se tornaram os Jogos. O interminável aumento das "modalidades" levou a extremos de ridículo e desequilíbrio. A maior parte das provas "clássicas" só tem uma justificação "arqueológica" (e mesmo essa ténue: quem se interessa hoje pelo lançamento do dardo, do peso ou do martelo?). Outras disciplinas (a natação, a ginástica e o mergulho, por exemplo) são tão minuciosamente divididas, que um único atleta, como Phelps, consegue apanhar oito medalhas. Pior ainda: alguns "desportos" mais recentes (o triatlo, para começar) não fazem o mais vago sentido, excepto provavelmente comercial. E, como se isto não chegasse, o golfe (com dezenas de milhões de praticantes no mundo inteiro) não aparece e o futebol é um campeonato fictício entre equipas de terceira ordem.

Falta acrescentar o mais desagradável: os Jogos não aperfeiçoam o corpo, nem o espírito. O corpo é sistematicamente deformado a benefício dos resultados. Há "modalidades" que produzem monstros: montes de músculo ou de gordura, ou de músculo e gordura; esqueletos a que se pendurou um torso e umas pernas; máquinas concebidas para meia dúzia de gestos, sem beleza e sem uso. De resto, quanto ao espírito, e já para não mencionar as pré-adolescentes da ginástica (um verdadeiro abuso de menores), basta lembrar aquele nadador que ganhou, aos 21, uma medalha para que se tinha preparado 15 anos. Não se imagina nada de mais triste. O "ideal" olímpico acabou num horror sem alívio.

É lindo, não é?

jaeger

Para o meu Amor

Mutts

Dúzia e meia de coisas...

O segredo do xadrez está no deixar comer

O Maradona acaba de chegar onde eu acho, com toda a humildade mas também com alguma cagança, que ele deveria chegar:

”Apenas a suficiente [informação] para poder dizer com relativa segurança que o Carlos também não, muito menos para dizer que os portugueses arranjam desculpas para esconder, como é que é?, "a "notória falta de método e disciplina nos treinos e na preparação". Quer dizer, uma cena destas é "notória", e depois eu é que tenho acesso a "informação privilegiada"?.

Precisamente. No fundo, tudo isto não passa de mera opinião circunstancial e meio manhosa, fruto de silogismos e induções baseadas em premissas e observações adquiridas aqui e ali - em blogs, sites, no boteco da esquina ou na casa do melhor blogger português (que não digo quem é para não o envergonhar que ele é um tipo muito tímido e discreto). Eu não estive em Pequim, o maradona não esteve em Pequim, 99,956% (fiz as contas) dos que opinam sobre o desempenho da delegação não estiveram em Pequim. Dito isto, volto a opinar, se me derem licença.

Eu acho, do alto da minha ignorância, que certas afirmações proferidas por certos atletas (e não vale a pena voltar a repeti-las) indiciam alguma dose de irresponsabilidade, ingenuidade e impreparação (física e psíquica, do ponto de vista desportivo) que me levaram a deduzir que, em termos gerais, a participação portuguesa no que toca à organização e à preparação revelou deficiências de vária ordem. O Maradona acha que não. Acha que, do alto da sua sabedoria e sagacidade (repararam na diferença?), nada de anormal se poderá inferir do que aconteceu nesta edição dos jogos olímpicos no que toca à participação portuguesa. Esta foi a maior participação portuguesa nuns jogos olímpicos. Os objectivos traçados incluíam várias medalhas (de ouro, prata e bronze) e, salvo erro, 60 pontos. Alguns atletas vinham de marcas que os colocava no topo do ranking das suas modalidades. Criou-se – bem ou mal, errada ou exageradamente – uma expectativa que eu, como leigo na matéria, não contestei. No decurso das provas, à medida que os resultados iam aparecendo (ou, neste caso, não aparecendo), fui assistindo a um rol de justificações, queixas e ruído no seio da comitiva que, na minha vil e injusta opinião (segundo o amigo Jacinto), prenunciaram ou provaram a existência de um trabalho de preparação deficiente e de uma selecção de atletas mal conduzida (provavelmente, atletas houve que nem deveriam ter lá posto os pés). Isto é normal? Se calhar é. Não sei. Eu acho que não, até tendo em conta a história passada das nossas comitivas. O Maradona está praticamente a matar-se para me provar que sim – que é normal e que acontece sempre e um pouco por todas as delegações (sem descriminação de raça, credo ou nacionalidade). Até pode ser que sim. Mas o que me preocupa é a minha delegação (por acaso até não me preocupa muito, mas essa é outra discussão). E o que me preocupa é que, no meio de tudo o que aconteceu, alguém me venha com lições de moral (o caso do Jacinto, que nunca me viu mais gordo) e com lições de superioridade intelectual (o amigo Maradona) só porque eu conclui o que conclui. Se ofendi alguém, peço desculpa. É o que dá não ler a Marca.

Agora, sim, vou deitar-me.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Já pede caminha, o corpo

Estou certo que o Maradona: a) tem acesso a informação privilegiada; e/ou b) é um ser dotado de uma inteligência fora do normal. Só isso lhe permite afirmar, sem margem para discussão ou nesga para argumentos contrários (e apelidando os outros de ignorantes), e na certeza de que detém a mais próxima das próximas das ideias, que «os atletas portugueses, globalmente considerados, estiveram todos dentro do que se poderia legitimamente esperar» e que «a atitude classificada como "velhinha" e "portuguesa" não passa de algo observado em todo o lado onde o desporto vai aos jogos olímpicos sob a forma de uma delegação.»

De resto, e para concluir, o Maradona insiste que tudo foi «normal», que foi um fenómeno transversal a todas as delegações (basta dar uma vista de olhos pelos jornais belgas, tunisinos e austríacos para verificar o que para ali vai de discussão sobre much ado about nothing) e que só um atrasado mental disfarçado de provinciano (moi même) pode pensar o contrário ou ver coisas que não existem.

Pela parte que me toca, vou para a «caminha». Até amanhã. Uma boa noite para o Diego. E, já agora, se ele descobrir onde e quando eu terei afirmado ou insinuado que «os hipotéticos defeitos de carácter dos atletas portugueses são exclusivos ou mais frequentes entre os portugueses» ofereço-lhe uma coisa destas. Juro. Ou será que andamos a ver coisas que não existem?

Um, dois, três

O Czar Alexandre III, que faleceu cheiinho de saúde em 1894, era um alcoólatra. Bom, para não exagerar, digamos que era «amigo da pinga». Não sei até que ponto a ingestão hemorrágica de álcool contribuiu para o estabelecimento de um padrão de autocracia baseado em metodologias medievais e um nível de absolutismo capaz de transformar Luís XIV num democrata. Provavelmente, o álcool até amaciou a coisa. Seja como for, consta que ele se divertia imenso de cada que vez beberricava uns jerricans de vodka, champanhe, brandy, gin, amarguinha, Betadine ou uma outra qualquer substância purificadora: partia objectos, arrombava portas, dobrava delicadamente moedas apenas com o polegar. E por aí fora. Mas fazia-o às escondidas da czarina, a qual, compreensível e previsivelmente, não apreciava certas brutalidades (era uma senhora delicada) e os efeitos nefastos do álcool nas meninges do marido. Relata Zaionchkovsky que, à conta do controlo da czarina, Alexandre III especializou-se na arte do engano, apurando improváveis técnicas e gadgets no sentido de preservar a integridade física da garrafinha, longe do olhar de lince da czarina. Desde botas com compartimentos secretos à medida dos cantis, a garrafas enterradas em vasos, o Czar recorria a um pouco de tudo. Do mesmo período e contexto, há relatos de Alexandre III ter dado início a uma brincadeira inofensiva com o seu amigo Cherevin – um general igualmente adepto da pinga e afins – a que deram o nome de «A necessidade é a mãe da invenção». Consistia no seguinte: logo que a czarina se afastava para uma distância por eles considerada como regulamentar, o Czar sacava da inevitável garrafa e dizia para o general: «Um, dois, três. Necessidade, Cherevin?» - «Invenção, Sua Majestadade». E «um, dois, três»… bota abaixo.

Cento e tal anos depois, imagino a mesma cena. Desta vez entre Putin e Medvedev. A brincadeira: «O sonho é a mãe da invasão».

Putin: Um , dois, três. Sonho, Medvedev?
Medvedev: Invasão, Sua Majestade!

O nome do sonho? «Rússia, a Grande».

Esmagado mas ainda mexo

(este é longo e vai de rajada por isso desculpem qualquer coisinha - erros e tal)

Reza a lenda que no tempo da outra senhora, certo dia um não habitué do Grémio (um clube de latifundiários do Alentejo, sediado em Évora) permitiu-se entrar em tão selecto ambiente – ou tê-lo-ão deixado entrar, quiçá por caridade – onde terá beberricado uns néctares e provado umas late night iguarias. À saída, para sua surpresa, verificou que o capote que tinha deixado à entrada tinha desaparecido. Dirigiu-se ao porteiro, explicando-lhe isso mesmo. O porteiro ficou horrorizado, não pelo facto em si mas pelo mensageiro.

- Meu caro senhor, o senhor está a insinuar o quê? Que o seu capote foi roubado?
- Bem, não é bem isso que…
- O Senhor julga que está onde?
- Estou em Évora e…
- As pessoas que frequentam este clube são gente de bem!
- Estou certo que sim…
- Gente de boas famílias! Gente abastada para quem um capote não é absolutamente nada!
- Certo, mas…
- Isto é uma casa séria!
- Não digo que não, mas…
- Gente de fino recorte! Gente que cultiva o civismo!
- Já acabou de falar?
- Sim. Claro!
- O senhor está carregado de razão. É tudo gente de bem, sangue azul, até.
- Sim!
- Mas há uma coisa que eu sei. Sabe qual é?
- Não!
- É que me falta o capote.

Vem isto a propósito da resposta do Maradona (com maiúscula, pode ser?) ao meu anterior post. Segundo o Maradona - ele que até se cansa de explicar o óbvio à ralé - tudo (a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos) correu dentro da normalidade: as declarações dos atletas foram as habituais (normais) e pautaram-se dentro dos parâmetros permitidos pelo evento, época, local e clima; os resultados foram os possíveis (tal como os dos outros atletas); o nível foi razoável/bom, já que ficámos na mesma linha de países que são uma referência de civilidade e organização (por exemplo, a Finlândia); foi, em suma, o possível e o possível é o possível é o possível. É claro que perante a força deste genial argumentário, deixa de fazer sentido comentar alguma dose de palhaçada e o sentimento de desilusão que envolveu a nossa presença em Pequim. As declarações estapafúrdias de alguns atletas, a posição demissionária de Vicente Moura (terá sido por causa da normalidade?), os resultados medíocres de atletas que estão no topo do ranking mundial, as queixas de alguns atletas relativamente ao critério de selecção de outros (que acharam não ser dignos de representar a comitiva) – nada disto pode ser discutido. Perdido para sempre está o nexo causa-efeito e essa coisa chata da responsabilidade.

Como o Maradona explicou às criancinhas (ou melhor, a esta criancinha), o corolário do seu teorema é o de que tudo correu dentro do que era possível (argumento fortíssimo). Afinal, os atletas portugueses são todos bons rapazes – alguns, até, com um sentido de humor fantástico – e pouco ou nada há a dizer nestes casos. É um pouco como a história do capote: eram todos muito bons (por alguma razão ganharam uma presença nos J.O.), comportaram-se dentro do que é possível e disseram o que habitualmente se diz. O que ficou a faltar foi mesmo o capote.

Não sei se o maradona – perdão, Maradona - me está a acompanhar, mas a sua resposta veio encaixar que nem uma luva naquilo que eu previra que seria o tom e o teor da mesma. O que não deixa de ser manifestamente lixado para quem dissertou e expôs ao ridículo, com o seu habitual e esmerado brilhantismo, a característica prestidigitadora do meu texto. Bem espremida, a resposta do maradona – perdão Maradona – é todinha baseada na questão da imponderabilidade, da sorte e do azar, e na assumpção de que estar ali já é uma vitória e que as medalhas não são assim tão importantes. E acabou, como eu também previ, a tresler o que eu escrevi.

É óbvio que a «pressão» pode explicar muita coisa. É normal e transversal que assim seja. Mas a minha questão prendia-se com a necessidade, o valor e utilidade da utilização desse argumento. O Maradona que me desculpe, mas eu vou arriscar uma coisa complicadíssima de entender: todos os atletas estiveram sujeitos à «pressão», todos os atletas acharam as provas difíceis (excepto, talvez, o Bolt), da mesma forma que todos os atletas respiraram o mesmo smog. Eu não sei se o maradona – perdão, Maradona – me está a acompanhar, mas é absolutamente inconsequente, desnecessário e infantil justificar um mau desempenho com a história da «pressão», mesmo que a «pressão» tenha tido o seu peso no resultado. Se uma corrida de Fórmula 1 tiver que ser disputada por todos em pista molhada e, por imperativo pontual, tiver que ser obrigatória a utilização de pneus slick, a última coisa que eu quero ouvir, no final, da boca de um piloto a quem lhe correu mal a prova, é o argumento dos «pneus slick». Bem mais interessante é saber quem soube adaptar-se às condições da pista, quem soube superar com inteligência o handicap e quem teve mãos e sangue frio para chegar ao podium. E porquê. [Ou, eventualmente, saber se alguém empurrou alguém para fora da pista.] «Ah, mas o gajo que ficou em quinto e o outro que saiu da pista até era bons e, já se sabe, estas coisas acontecem a uns e a outros. É uma roleta!» De acordo. Mas naquela corrida, os melhores foram ao podium. E eu aposto um sprint de 50 metros com o Maradona (eu de botas e ele de ténis) em como a probabilidade de ganhar o gajo que treinou incessante e obcecadamente aquela corrida em vários pisos, e se preparou mentalmente para todo o tipo de situações e adversidades, é maior do que a do gajo que preparou a coisa «dentro do possível», entrou na prova a pensar que eram «favas contadas», deteve-se várias vezes nas mensagens que o público acenava em cartazes e passou o tempo a pensar que o malandro do corpo não parava de pedir «caminha». A não ser, claro, que seja um génio.

O meu ponto é simples e o Maradona vai certamente tentar acompanhar-me. Não estou a falar de ambição nem pretendo armar-me em especialista (nem me parece que o Jacinto Bettencourt esteja a falar a sério com aquela história do «vocês não sabem o que é acordar às seis da manhã e ter contas para pagar e mudar a fralda ao puto»; é demagógico demais para ser verdade). Estou a falar da velhinha atitude portuguesa de enfiar a cabecinha na areia e desculpar ou branquear o que é óbvio e notório. Eu não quero super-homens infalíveis nem gente que morra a correr porque supostamente o país assim o espera e o contrário (perder) é pior que a morte. O que eu queria era que, muito calma e serenamente, se percebesse e assumisse que a participação portuguesa nestes J. O. (apregoada como sendo a maior e com a ambição de pontos e medalhas fixadas pelo próprio Vicente Moura e não por mim) correu mal e que as evidências das causas vieram demasiadas vezes ao de cima (falo do laxismo, da bonacheirice, do excesso de favoritismo, da falta de entrega e de preparação de alguns - atenção de alguns). E que, de uma vez por todas, deixássemos de nos desculpar com os outros (ou porque fizeram igual ou porque esmagaram a concorrência). Só não vê quem não quer. E é este colectivo «não ver», aplicado a tantas outras áreas da sociedade portuguesa, que nos lixa e corrói. Só «ver» já seria bom, mesmo que, a seguir, se não fizesse nada. Mesmo que, a seguir, não tentássemos aprender com os erros e não tentássemos ser um pouco melhores.

PS: e eu também gosto da Naide Gomes ó palhaço!

E, de repente, (já) somos os maiores

Nelson Évora conquista a medalha de ouro no triplo salto.

nelson

E, de repente, o salto com vara

Descoberto aqui. Consta que não está presente nestes Jogos Olímpicos. Mal. Muito mal.

Allison stokke
Allison Stokke2
2006 Nike Outdoor Nationals

quarta-feira, agosto 20, 2008

É tudo ou nada, é

Vi há minutos a Aurora Cunha admoestar os maldizentes nas críticas aos atletas olímpicos. A Aurora explicou: «eles estão sujeitos a uma grande pressão». A carta da «pressão» vale um duque no naipe dos possíveis argumentos a utilizar para justificar/explicar/desvalorizar/compreender (riscar o que não interessa) a má prestação portuguesa em Pequim. «Pressão»? Pessoalmente, não consigo vislumbrar um evento desta natureza sem uma dose maciça de «pressão». Os Jogos Olímpicos também são isso: um sítio onde os melhores têm que correr, nadar, lançar, saltar, jogar como nunca sonharam conseguir fazer e, para além disso, provar que sabem lidar com a maldita da «pressão». Não há «pressão»? Não são jogos olímpicos. Invocar a «pressão» não passa de cocó de boi (bullshit em inglês). É o mesmo que dizer que as provas são «difíceis». Ou que os adversários são «fortes». Ou que nos jogos há poucas «tentativas» disponíveis. Pois é: é tudo ou nada.

E para arrumar de vez esta questão, gostaria de dizer o seguinte: o maradona só não tem razão naquilo que insinua (aposto que vai falar de probabilidades, imponderáveis, sorte, azar, que já é muito bom estar ali porque ali estão os melhores e um quarto lugar ou um sexto ou um décimo ou um trigésimo entre centenas já é um feito digno do caraças) porque tresleu o que escrevi. O que está em causa na generalidade da prestação portuguesa (e, repito: as generalizações são sempre lixadas) foi o que soçobrou das declarações e do comportamento no terreno e na hora da verdade: a falta de destreza e clareza mental para derrubar as «pressões», a notória falta de método e disciplina nos treinos e na preparação (como é que um atleta pode estar nuns jogos olímpicos e ainda assim queixar-se de ter apenas três tentativas ou de não estar habituado a competir tão cedo pela manhã ou, ainda, de chegar à conclusão que não tem assim muita vocação para este tipo de competições?) e uma dose assinalável de «cagança» e deslumbramento aparvalhado (embora este seja, de longe, o menor dos problemas). O problema é que isto foi regra, não foi excepção. Tirando isto – que é anterior, apriorístico, prévio a qualquer discussão que se debruce sobre a técnica, a estratégia, o vento, a qualidade do tartan, a profundidade da piscina, o fato made in Famalicão, a sorte, a imponderabilidade e por aí fora – fora isto, dizia, estaria na disposição de ser esmagado pela inteligência, pelos conhecimentos e pela memória RAM do cérebro do maradona. Mas, é claro, vou ser na mesma.

PS: escusado será dizer que a história da falta de «apoios» e de «dinheiro», ou a história de só se falar em futebol, também não passa de cocó de boi.

terça-feira, agosto 19, 2008

Omo lava mais branco

Em Pequim, os últimos doze dias da presença portuguesa nos Jogos Olímpicos deram à luz um pouco de tudo: o burlesco em discurso directo, o impertinente em comportamentos e a comicidade em reacções peripatéticas. É sempre de bom tom não confundir a nuvem por Juno, ou a árvore pela floresta (ando muito dado a clichés, by the way). Mas convinha, já agora, que se faz tarde, dizer algumas coisas relativamente simples e óbvias sobre a participação portuguesa nestes Jogos Olímpicos: da mediocridade ao sofrível, só muito esporadicamente a competência ou, se quiserem, o «profissionalismo» marcou presença.

Mas o obnóxio, a bronquice e a ingenuidade mais patética produziram coisas interessantes. Pondo de parte a discussão sobre o que é o espírito olímpico e se o mesmo, a existir, ainda marca presença no actual circo (a este propósito, estou com a Charlotte: a cerimónia de abertura deu à luz momentos de um pindérico picaresco), ninguém se atreve a negar a riqueza e a variedade comportamental dos atletas portugueses: atletas física e psicologicamente mal preparados; atletas que não conseguiram adaptar-se às condições climáticas (o nevoeiro fotoquímico ou a humidade encontram-se entre as justificações mais populares); atletas que foram a Pequim para ver as vistas (houve quem tivesse confessado que as pernas, regra geral, «pedem caminha» quando obrigadas a acordar estupidamente cedo); atletas que só no fim perceberam onde estavam metidos («eh pá, em Portugal temos seis tentativas!»); e, claro, atletas que se esforçaram e mostraram por que razão o Prof. Cavaco ainda se atreveu a falar em raça no 10 de Junho de 2008, para delíquio público e prazer secreto do Prof. Rosas.

Não se percebe, agora, o abespinhamento de certos atletas (a Naide Gomes e o Gustavo Lima, por exemplo) perante as críticas – quase sempre justas – à participação portuguesa em Pequim. Bem sei que as generalização são tramadas, mas perante os resultados, comportamentos, reacções e soundbytes que rodearam a presença portuguesa, seria no mínimo razoável que os atletas não tomassem as dores uns dos outros. Os verdadeiramente competentes, evitavam, com isso, enfiar uma carapuça que não lhes pertence. Os maus ou incompetentes deixavam de ser tratados como desgraçadinhos por via da atitude benevolente e branqueadora dos outros colegas. O resto da malta agradecia o pudor e o silêncio. Agora, quem deve andar lixado com tudo isto é o primeiro-ministro: por um lado, a distracção circense (Pequim) corre-lhe mal; por outro, a diversão bélica (Geórgia) está-se a acabar. Acresce, ainda, outro dado: a silly season entrou, agora, na sua fase de estertor. Não é por acaso que no meio do desespero, a história dos 150.000 empregos tenha voltado à baila, não vá o português voltar à sua endémica depressão (que o castiga e o desgasta, a ele, José Pinto de Sousa).

segunda-feira, agosto 18, 2008

Alexis

Maria Filomena Mónica in Público (17/08/2008)

Reler Tocqueville

"À medida que envelhecemos, acontece-nos com cada vez mais frequência reler alguns livros, uma experiência simultaneamente negativa e positiva. Se a releitura nos retira o prazer da epifania, dá-nos, por outro lado, as delícias da memória do tempo e do local em que, pela primeira vez, ouvimos aquela voz. Para mim, Da Democracia na América será sempre equivalente a Canterbury Road, Oxford, Outono de 1972.

O regresso a um autor não deriva de termos gostado vagamente de uma obra, mas de termos a impressão, quase sempre acertada, de que ele passou a habitar-nos, contribuindo para nos transformar naquilo que somos. Há por aí muita gente, até perto de mim, a sussurrar que eu não gosto dos franceses. Pelo menos no que à literatura diz respeito - Tocqueville fica melhor aqui do que na ciência política - não é verdade.

Ao começar este livro, a preocupação de Tocqueville não era a América per se, mas a observação, na prática, de como funcionava uma democracia. A sua visita constituiu uma espécie de experiência laboratorial. Como o próprio diz (pág. 34): "Todo o livro que aqui se vai ler foi escrito sob a impressão de uma espécie de terror religioso produzido na alma do autor pela visão desta revolução irresistível que avança desde há tantos séculos através de todos os obstáculos, e que vemos ainda hoje avançar por entre as ruínas por ela feitas." A tensão, visível nas suas páginas, deriva da crença na inevitabilidade da democracia, ao mesmo tempo que o espírito do autor resistia a abandonar a admiração pelos melhores traços da aristocracia inglesa. De tal forma Tocqueville se sentia dilacerado que chegou a descrever-se como uma democrata por necessidade e um aristocrata por emoção.

O seu método era simultaneamente descritivo, analítico e filosófico. Por isso, não reparou nalguns aspectos - os barcos a vapor, as fábricas têxteis, as novas urbes - que deliciaram ou horrorizaram outros viajantes. O que o interessava era ver como viviam as pessoas, anotar aquilo em que acreditavam e ver como a máquina do Estado estava montada. Foi isso que registou no que designava os seus "cahiers portatifs".

A liberdade era, para Tocqueville, o valor supremo. Para ele, a república devia consistir num regime que, partindo da igualdade, garantisse a liberdade política e consequentemente o autogoverno e o exercício do poder limitado, opondo-se quer às ameaças do pensamento igualitário (Rousseau), quer às do conservadorismo autocrático (De Maistre). Em Da Democracia na América (págs. 69/70), defendia haver uma paixão legítima pela igualdade, mas advertia que, a seu lado, existia um outro sentimento, negativo, o qual consistiria na tentação, por parte dos mais fracos para rebaixar os mais fortes até ao seu nível, convidando desta forma os homens a preferir "a igualdade na servidão à desigualdade na liberdade".

Ao comparar os historiadores da antiguidade clássica e os da era moderna, Tocqueville alertava para os perigos de uma abordagem demasiado positivista. Referia a tendência para, nas democracias, se pensar que as sociedades obedeceriam a uma força superior: "Os historiadores que vivem nos tempos democráticos não recusam pois somente a alguns cidadãos o poder de agirem sobre o destino do povo, mas tiram também aos povos a faculdade de eles próprios modificarem a sua própria sorte, e sujeitam-nos assim ou a uma providência inflexível ou uma espécie de fatalidade cega. (...) Não lhes basta mostrar como aconteceram os factos; comprazem-se ainda em fazer ver que não podiam ter acontecido de outro modo" (pág. 472). É contra o determinismo, que minimiza o papel do homem, que se levanta, sendo curioso que o tenha feito antes de Marx ter apresentado ao mundo o seu Capital e muito antes de os departamentos universitários, de direita ou de esquerda, terem criado gerações de jovens treinados a considerar que só as estruturas contam.

Quando, em 1835, o livro saiu, revelou-se um sucesso, o que constituiu uma surpresa não só para o autor mas também para o editor, o qual apenas tinha impresso 500 cópias. Em França, todos os anos teve de se imprimir uma nova tiragem. Não tardaram a aparecer, nas livrarias, traduções em inglês e em alemão. Ignoro de quando data a primeira tradução em Portugal: a PORBASE diz-me ser de 1972, mas não sei se a informação é fidedigna.

Seria Tocqueville um pensador de direita ou de esquerda, um aristocrata nostálgico ou um democrata relutante, um deprimido ou um optimista? Foi tudo isto, em doses e momentos diferentes. Veja-se o que, a 15 de Dezembro de 1850, escrevia ao seu amigo, Louis de Kergolay: "Não tenho tradição, não pertenço a partido algum, não tenho outra causa se não as da liberdade e da dignidade humana." Ou, em Outubro de 1836, a Eugène de Stoffels: "Sempre considerei que a república era um governo sem contrapeso, que prometia sempre mais, mas dava sempre menos liberdade que a monarquia constitucional."

Tocqueville era alguém que, antes de outros, entendeu a carga emocional que o sentimento de injustiça acarretava. Temia a revolução e admirava a ordem; detestava, acima de tudo, a demagogia; não amava a humanidade, pelo menos quando o termo era usado de forma abstracta. Como estudioso da democracia, é inultrapassável. Ninguém, como ele, apontou as suas fraquezas e as suas forças; ninguém, como ele, teve a percepção do que um governo democrático pode conseguir ou pôr em perigo; ninguém, como ele, entendeu o dilema entre a igualdade e a liberdade. Apesar da admiração pelos EUA, sempre temeu o despotismo das maiorias. "Não há pois sobre a terra", argumentava, "autoridade tão respeitável em si mesma ou revestida de um direito tão sagrado, que eu quisesse deixá-la agir sem controlo e dominar sem obstáculos" (págs. 229/230). Não teria ficado admirado de ver que fora ali que a moderna praga do "politicamente correcto" tivera origem.”

Crestomatia de frases características da participação portuguesa nos Jogos Olímpicos

(cont.)

"Entrar neste estádio cheio bloqueou-me um pouco. Acabei a prova fresco, o que é estranho."

""As pernas não responderam ao tiro de partida. Queria baixar dos 21 segundos, mas tem de se aprender com as contrariedades. Eu gosto de aprender. Foi bom ter apanhado aqui este banhozinho, esta tareiazinha e agora ir para casa descansar"

"Não sou muito dada a este tipo de competições"

"Não consigo é lidar muito bem com o facto de nestas provas fazermos só três lançamentos. Em Portugal normalmente há sempre seis."

"Foi por pouco tempo e não deu para nada"

domingo, agosto 17, 2008

Não, o maior

O maior (2)

O maior

Quando sorris

Sour times

Esta semana vou cortar a gadelha

Sugar Kane

sexta-feira, agosto 15, 2008

O inevitável (e desejável) regresso de Major Kong

major kong

quinta-feira, agosto 14, 2008

Pusilanimidade

Esther Mucznik in Público (14/08/2008)

O Parlamento Europeu e a natureza do Hezbollah

A actividade dos nossos representantes no Parlamento Europeu permanece um mistério para a grande maioria dos portugueses. Trabalham? Passeiam? Que posições políticas, que causas defendem? O silêncio que rodeia o seu papel - tal como o dos deputados de outros países - é, no mínimo, contraditório numa instituição que se pretende representativa dos cidadãos nacionais.

Vem isto a propósito de um texto que me chegou às mãos, assinado por vários deputados do grupo parlamentar socialista europeu, entre os quais um português, Paulo Casaca. O texto é uma proposta, dirigida ao mesmo grupo parlamentar, de declaração a subscrever pelo Parlamento Europeu solicitando aos Estados-membros a inclusão do Hezbollah na lista da União Europeia das organizações terroristas. A proposta invoca acções terroristas do Hezbollah, como seja o atentado contra o contingente francês no Líbano em 1983 e contra a embaixada francesa no Kuwait no mesmo ano, o atentado a um restaurante em Madrid em 1985, as acções em centros comerciais e vias- -férreas em França em 1986 que mataram 89 pessoas e feriram mais de 250. Lembra também a rede de células de apoio ao Hezbollah disseminadas pela Europa, bases potenciais para atentados em países europeus, assim como o teor das emissões da estação televisiva Al-Manar para a Europa, incitando ao ódio ao Ocidente e glorificando a violência e os bombistas suicidas, nomeadamente através da utilização de passagens do Corão. O texto termina lembrando que seis países, incluindo o Reino Unido e os Países Baixos, já inscreveram o Hezbollah na lista das organizações consideradas terroristas.

Estranhamente, o Grupo do Partido Socialista Europeu não achou por bem ouvir nem os signatários da proposta nem o Movimento Socialista Libanês. Limitou-se a enviar aos líderes parlamentares do grupo socialista europeu uma nota dizendo: "Convidamos os membros do nosso grupo a não assinarem a proposta de Declaração Escrita e a promoverem as iniciativas adequadas para prevenir os colegas das vossas delegações nacionais". Quais os argumentos do Grupo do PSE? Em primeiro lugar, "o recente acordo entre os partidos políticos, incluindo o Hezbollah, que constitui um passo positivo na resolução política do conflito interno libanês"; em segundo lugar, "a ausência de competência do PE para propor a inclusão ou exclusão de alguma organização dessa lista".

Não discuto as competências do PE, que desconheço. Mas, tal como Paulo Casaca lembra na sua resposta, houve um tempo em que o PE reconhecia o carácter terrorista do Hezbollah ao aprovar uma resolução sobre a situação no Líbano, "apelando à Síria a não tolerar nenhuma forma de terrorismo, incluindo o apoio às operações do Hezbollah e outros grupos armados" (10/3/2005). O Parlamento Europeu terá mudado de posição, mas o Hezbollah não mudou de natureza. Instaurando um autêntico cerco ao governo de Fouad Siniora, paralisando a vida política libanesa durante meses a fio, perseguindo, prendendo, torturando e assassinando quem se lhe opõe, o Hezbollah tornou a sociedade e o governo libanês reféns do seu poder militar violento. Só nos meses que precederam o acordo de Maio entre as diferentes facções libanesas morreram 81 pessoas e mais de 200 foram feridas pelos militantes do Hezbollah. Contrariamente ao que afirma o grupo parlamentar do PSE, os recentes acordos entre as forças políticas no Líbano não são um passo positivo na estabilização política do país. São apenas a confirmação de que o Hezbollah aumentou dramaticamente o seu poder no Líbano, graças à poderosa força militar que, desde a guerra do Líbano, o Irão e a Síria não pararam de alimentar nas barbas da UNIFIL, a força internacional encarregada de implementar no terreno a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU que, no final da guerra do Líbano em 2006, preconiza o desarmamento do Hezbollah.

Faz agora exactamente dois anos do fim da guerra. Durante estes dois anos, o Hezbollah triplicou o número de mísseis, nomeadamente de longo alcance, em flagrante contradição com a Resolução 1701. O armamento é essencialmente iraniano e contrabandeado via Síria. Apesar de algum material ser de origem síria, as armas mais letais são de fabrico russo. E quanto aos fins deste armamento é o próprio comandante das forças do Hezbollah na fronteira com Israel, Sheik Nabil Kaouk, que nos esclarece: "A Resistência está agora mais forte do que antes e isto mantém aberta a opção da guerra". O Hezbollah quer um Líbano na primeira linha de confronto com Israel e não o esconde: "Se me perguntarem se a destruição de Israel e a libertação da Palestina é o objectivo do Hezbollah, eu repondo: esse é o nosso principal objectivo", afirmou o líder máximo, Hassan Nasrallah.

Graças à sua força militar, o Hezbollah conseguiu impor a sua vontade nos recentes acordos que levaram à constituição do novo governo dito de união nacional, liderando uma oposição de bloqueio de 11 ministros, com direito a veto, entre os 30 que constituem o novo executivo. Mais importante ainda, o Hezbollah conseguiu que na declaração de política geral ficasse sublinhado o igual direito "do exército e da resistência" - ou seja, do Hezbollah - de libertar os territórios libaneses "ainda ocupados" por Israel. De nada valeu a tentativa da maioria governamental de precisar que "o direito à resistência deve ser exercido sob a égide do Estado". A minoria de bloqueio opôs-se... e venceu. Temos pois, em oposição flagrante à resolução 1701 da ONU, um poder dentro do poder e um equilíbrio extraordinariamente precário que apenas serve para reforçar o extremismo político e religioso no Líbano e na região. Aliás, desde o acordo, já morreram mais 29 pessoas. Mas isso o grupo parlamentar do PSE parece não ver.

Uma organização política, tal como uma sociedade, pode e deve ser julgada pelos ídolos que glorifica e pelos heróis que celebra. Em troca dos dois cadáveres dos soldados raptados pelo Hezbollah, o grupo terrorista recebeu Samir Kuntar, o terrorista assassino de crianças, como um herói da resistência. À sua chegada, um imenso estandarte triunfava: "Enquanto Israel chora lágrimas de dor, o Líbano chora lágrimas de alegria"... Será que a participação num governo mesmo de "unidade nacional" transforma a natureza de uma organização?

quarta-feira, agosto 13, 2008

Crestomatia de frases características da participação portuguesa nos Jogos Olímpicos

(fonte: TV e Rádio)

“A prova até começou bem”

“Ficou em 33.º mas bateu o record pessoal/nacional
[riscar o que não interessa]

“Sai de cabeça erguida”

“Nos J.O. todas as provas são uma final, o que se torna difícil”

“O atleta foi repescado mas”

“Apesar da repescagem”

“Ficou a um ponto de”

“Problemas respiratórios impediram o atleta de dar o seu melhor”

“O atleta sente-se desiludido”

“A poluição é horrível”

“Foi ao tapete”

"A falta de apoios foi preponderante"


(continua)

E assim vai o mundo

Morreu uma criança numa troca de tiros entre polícia e assaltantes. A criança estava dentro da viatura dos assaltantes. A culpa não é dos assaltantes que levaram uma criança para um assalto. É dos polícias (uns brutos) que:

Opção A: não deveriam andar armados;

Opção C: não deveriam dar uso às armas de fogo.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Como quem não quer a coisa

urso

sábado, agosto 09, 2008

Summertime e tal

sexta-feira, agosto 08, 2008

Reis

Com o meu amor, fui ao concerto dos Kings Of Convenience, na Cidadela de Cascais (festival Cool Jazz). Independentemente do que para aí escrevam os idiotas da objectividade, os especialistas encartados ou os intelectuais da linha (no duplo sentido da palavra), foi um concerto memorável. A simplicidade faz, por vezes, a diferença. Canções novas (muitas) entremeadas com as antigas em ambiente descontraído e cool, repleto de momentos deliciosos e regados por uma boa disposição a toda prova. No final, Eirik arriscou uma versão do Corcovado, num brasileiro minimamente competente. Erlend (the boy with the funny glasses) aproveitou a melodia para dissertar sobre a estadia de ambos em Portugal, recorrendo a uma letra no mínimo hilariante. Os solos do trompete vocal de Erlend (um mestre do improviso burlesco-desengonçado) ficaram na memória. A dança também. Tudo por culpa de uma guitarra levada a um extremo que a emudeceu. Como Eirik explicou, “we call ourselves Kings of Convenience because we find it convenient no to bring a spare guitar”. Por sinal, os riffs e os rendilhados delicodoces da guitarra de Erlend são de um bom gosto irrepreensível. Eu e o meu amor adorámos. Aguardamos (não muito) serenamente pelo novo disco. Rápido, ok?

Não me lixem

Em Portugal, sempre que se anunciam ou vislumbram medidas draconianas (leia-se cretinas) para refrear a utilização do automóvel nos grandes centros urbanos, fico sempre com a sensação de que os cérebros por detrás destas fantásticas iniciativas têm muito pouco respeito pelo seu semelhante. E das duas, uma: ou moram relativamente perto do seu local de trabalho ou nunca se aventuraram no mundo dos transportes públicos. Dito de outra forma: as pessoas não são estúpidas. Ou, pelo menos, não totalmente estúpidas.

Qualquer medida restritiva que não seja acompanhada, a montante, de medidas que melhorem radicalmente a qualidade e quantidade dos transportes públicos – ao nível do conforto, da rotatividade, da cobertura territorial e da diversidade – peca por insultar a inteligência alheia de forma rebuscadamente primária. É ponto assente que o futuro das grandes cidades passa pela implementação de sofisticados e eficientes sistemas de transportes públicos, e pela gradual substituição do actual parque automóvel por viaturas «amigas do ambiente» (peço desculpa pelo cliché) que consumam e poluam cada vez menos (desejavelmente nada). Mas até uma criança percebe qual destas medidas pode ser mais rapidamente implementada e qual produzirá mais efeitos secundários benéficos (a utilização dos transportes públicos ou semi-públicos permite, também, retirar mais carros das estradas, ruas, passeios, etc., quer poluam ou não muito).

Falar em introduzir ou agravar portagens no sentido de castigar quem utiliza – livremente, diga-se – o seu automóvel particular sem mudar aprioristicamente o que tem que ser mudado, é conversa imoral de pseudo-moralistas que, muito provavelmente, chegaram a um ponto das suas carreiras que homenageia de forma convicta o princípio elaborado por Laurence Peter.

Spoken word

Tomai nota do seguinte: o British Library Sound Archive lançou uma colecção de CDs que coloca em discurso directo gente da laia de W.H. Auden, Graham Greene, George Bernard Shaw, Evelyn Waugh ou H.G. Wells. E seguir-se-ão mais. Depois não me venham dizer que não avisei.

PS: sobre o assunto, leiam isto.

quinta-feira, agosto 07, 2008

A mana

O mano

quarta-feira, agosto 06, 2008

...get set...go!

on your marks

Ora bem

Brideshead Revisited Revisited

How to watch Evelyn Waugh.

By Troy Patterson (25-08-2008, Slate)

Evelyn Waugh is the greatest comic novelist of the last 100 years, and if you somehow dispute this fact, there is simply nothing to be done for you but a period of house arrest. One or another reputable online bookseller will deliver Waugh's fiction to the doorway of your awful little warren, and you can begin your re-education at the beginning, with the debut novel Decline and Fall, wherein hero Paul Pennyfeather, cast out of Oxford for the indecent behavior of running around without any pants on, assumes a teaching job (for which he lacks all qualifications) at a school in Wales (a country disparaged in the rude, cruel, achingly hilarious terms that anticipate the author's shabby treatment of Africa). You will go onward through the dark satire, brilliant viciousness, and unmatchable dialogue of Vile Bodies, Black Mischief, and, especially, A Handful of Dust, with its stunning climactic swerve from light social comedy to perfect desolation. If you haven't been converted by the opening chapters of Scoop—about a writer, incompetent even as a nature columnist, covering a war for a paper called the Daily Beast—then there is no hope for you, and you should just stay home forever.

But do not, when attempting any course of reading aimed at appreciating Waugh's wit, give undue attention to Brideshead Revisited, a misfit of a book, much loved, and often loved in the wrong way, as the vomitous stupidity of Miramax's new film adaptation attests. There's a comic novel in there, but it is not, as the common expression goes, struggling to get out. It's lodged there quite contentedly; the book's acid portraits of dull dons and rich oafs are enmeshed with its affectingly tender peeks at lost youth and also with its eagerly overwrought splendor and its sincerely bogus religiosity. This was the seventh novel Waugh published—the eighth he attempted—a grasp at grandeur written in a mere four months, during a leave from the British army in early 1944. "Waugh wrote Brideshead with great speed, unfamiliar excitement, and a deep conviction of its excellence," Martin Amis once remarked. "Lasting schlock, the really good bad book, cannot be written otherwise."

All apologies to Wuthering Heights, but Brideshead Revisited has a claim as literature's finest schlock. It sees narrator Charles Ryder reflecting, with a compound of sharp rue and magniloquent longing, on his past. In his youth, there was a powerful love for beautiful and doomed aristocrat Sebastian Flyte and a failed attempt to rescue Sebastian from alcoholism; in early middle age, a thwarted romance with Sebastian's sister, Julia, and a continuing passion for the Flyte family's huge and gorgeous country house. At 39, Ryder—and, with him, the credulous reader—is convinced that the world of the Flytes has expired and, with it, an essential part of the soul of England.

The rear cover of my copy finds a reviewer from the '40s calling Brideshead "Waugh's most deeply felt novel," prompting the belief that Waugh ought to keep his feelings to himself if he's going to insist on writing passages like this one, which expands a point of sunlit truth into a large gaseous orb:

"The languor of Youth—how unique and quintessential it is! How quickly, how irrevocably, lost! .... [L]anguor—the relaxation of yet unwearied sinews, the mind sequestered and self-regarding, the sun standing still in the heavens and the earth throbbing to our own pulse—that belongs to Youth alone and dies with it. Perhaps in the mansions of Limbo the heroes enjoy some such compensation for their loss of the Beatific Vision; perhaps the Beatific Vision itself has some remote kinship with this lowly experience; I, at any rate, believed myself very near heaven, during those languid days at Brideshead."

It should be noted that those sentences erupt in the 1959 edition, which saw Waugh, appalled by his book, trying to redo the overdone bits. But there's no tinkering with emotionality as thoroughly bombastic as Brideshead's. The only thing to do is to put it on-screen. Thus, in the fall of 1981, did a miniseries version of Brideshead Revisited emerge on Britain's ITV, soon thereafter airing on PBS and becoming a smash on both sides of what its fan would doubtlessly refer to as "the pond."

The producers at Granada Television gave the book a lot of room to breathe. The miniseries is 13 hours long: Though the density of Waugh's dialogue requires close attention, it's not difficult to read the book faster than that. The series goes heavy on voice-over narration—with Jeremy Irons, nicely haunted and hunted as Ryder, reading well-chosen slips of the book—and nearly follows the novel scene-for-scene. It's no insult to the craft of John Mortimer's script to say that the miniseries is not so much an adaptation of the novel as a straight-up televisualization of it, sensitive and servile.

The pleasure's in the leisure. The time opens up a space that creates a distance from some of the novel's excesses, humanizes some of its hokum, and allows you to submit to the flow of the characters' feelings and of Waugh's sentimentality. The miniseries gives texture to the efficient text of the original: cold shadows in the mansions; servants, stern and omnipresent, toiling amid the gaiety and the strife; the runny ruin on the sandy face of Anthony Andrews, who, as Sebastian, creeps from devil-may-care carousing to God-help-him squalor at an imperceptible pace. And there will never again be anything quite like the performance of Nickolas Grace as Anthony Blanche, a schoolmate of Ryder's who takes dandyism to its logical and fabulously degenerate nadir. It is not possible to compare the performance to anything except a bushel of perfumed plums or maybe an outtake from an imaginary cult classic in which Peter Lorre plays Dorian Gray.

The miniseries is also, to use a term of Tom Wolfe's, "sheer plutography," inviting the Masterpiece Theatre set not just to peep through the windows of a divine mansion but to move in for a considerable while. The Moment, the blog of T, the Times' style magazine, has recently deemed Brideshead Revisited "required viewing," ushering it into a nascent pantheon of screen fashion greats: "[T]he general mood of Edwardian opulence and the aristocratic languor of the summery white men's flannels are said to have inspired films like Chariots of Fire and A Room With a View." Could there be any more appropriate tribute to "lasting schlock"? Waugh's swooning elegy for the graces of yesteryear endures as a guide to all tomorrow's parties.

segunda-feira, agosto 04, 2008

De volta

ao trabalho.

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