O MacGuffin: Março 2008

segunda-feira, março 31, 2008

A reeducação musical de Miss Charlotte (12)

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sexta-feira, março 28, 2008

Demagogia querida

O primeiro-ministro afirmou hoje que uma descida de impostos «é sempre desprezível para quem é rico mas não para quem é pobre» (sic), garantindo que a redução do IVA terá efeitos benéficos na economia, nos preços e nas expectativas.

É óbvio. O primeiro-ministro tem razão. A partir de Julho, uma mulher pobre que se dirija a uma loja Camper – marca muito popular entre empregadas de limpeza – para adquirir este modelo - um best-seller entre a classe profissional pelo conforto e durabilidade - já não terá que desembolsar a elevada quantia de 99 euros. Apenas 98,18 euros. Uma redução de 0,82 euros, portanto. Tendo em conta que, em média, uma mulher pobre que trabalhe nas limpezas adquire este bem de primeira necessidade cerca de 4 vezes por ano (são duráveis mas não aguentam assim tantas escadas e pavimentos abrasivos como, sei lá, uns Tod’s), estamos a falar, caros leitores, de 3,28 euros (4 x 0,82 euros) a menos no orçamento anual de uma família. As expectativas estão, por isso, ao rubro. Os efeitos benéficos na economia serão evidentes. Os preços dos bens essenciais darão um trambolhão. A malta vai fingir que a taxa de 21% abrange os bens essenciais que os pobres avidamente consomem. E eu adoro este primeiro-ministro.

twins camper

Declaração de caducidade afectiva

Vasco Pulido Valente, in Público (28/03/2008)

O novo casamento

Não sei se o meu currículo (quatro casamentos; dois com a mesma pessoa) me impede de escrever sobre essa venerável instituição, se ainda é venerável e, sobretudo, instituição, que, suponho, seguindo o admirável Zapatero e o amor nacional pelo "moderno", o PS pretende agora reformar. O casamento era, para o Estado, um compromisso legal e, para a Igreja, um sacramento. Criava deveres, como criava direitos. Mas, segundo Alberto Martins, parece que já não deve assentar na lei, seja ela qual for sempre coactiva. Deve assentar na consoladora liberdade do afecto. Ou, por outras palavras, deve passar de um contrato perpétuo a uma espécie de encontro temporário, logicamente revocável, se o afecto de qualquer das partes, por natureza etéreo e fugidio, deixar de existir.

O PS também pretende abolir a culpa do processo de divórcio, abolindo o divórcio litigioso. Para começar, porque a própria noção de culpa tresanda a cristianismo e à sua variante católica, tradicionalmente obcecada pelo pecado da carne e pela influência corruptora da mulher. E depois porque a consciência contemporânea se emancipou da culpa, quando não se trata de multiculturalismo ou feminismo, de pedofilia ou de ambiente, ou, pior do que isso, de um atentado cego e celerado contra o nosso divino corpo, como por exemplo fumar um cigarro. Aí o Estado não hesita em proibir e punir. Quanto ao resto, o Estado pretende, e muito bem, tornar fácil o prazer, que nos justifica e alimenta. A inconveniência de um cônjuge ou o estéril escrúpulo de o abandonar pode (vem nos livros) coibir esse prazer. Declarar o afecto caduco resolve o assunto.

Infelizmente, não ocorreu ao PS (como antes não tinha ocorrido ao Bloco) que o novo casamento, se merece a palavra, só beneficia a classe média próspera. E, dentro da classe média próspera, beneficia o homem mais do que a mulher, porque evidentemente o homem ganha em média mais do que a mulher. Quanto à multidão que sobra, e pela mesma razão, a vantagem do homem é arrasadora. Fora que o mercado de trabalho favorece o homem e desfavorece a mulher (invariavelmente a última contratada e a primeira despedida) e que a mulher fica em geral com os filhos, um encargo sem preço. Dito isto, falta esclarecer um mistério: para que serve agora o casamento de homossexuais?

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quinta-feira, março 27, 2008

Sobre a presença de Angela Merkel na Knesset

Esther Mucznik, no Público (27/03/2008):
Mais do que qualquer outro dirigente alemão, Angela Merkel reflecte a nova realidade do relacionamento judaico-alemão. Seja na Knesset, dirigindo-se aos deputados, ou no memorial do Yad Vashem, ela é autêntica, sincera, comovente. No seu estilo discreto e claro, não ameniza as palavras, não busca subterfúgios, quando se refere à "vergonha que para nós alemães representa a Shoah". Neste como noutros aspectos, Angela Merkel difere da maioria dos outros dirigentes alemães e europeus. Por ser mulher? Talvez também, mas a diferença está em que ela representa o melhor da consciência crítica da Alemanha, numa Europa que substitui de forma demasiado ligeira a reflexão de fundo sobre o Holocausto por um rápido bater com a mão no peito. O seu sentimento de responsabilidade face ao Holocausto é ainda agravado pela hostilidade feroz face a Israel por parte da Alemanha de Leste - onde Merkel cresceu -, quando fazia parte integrante do bloco soviético e negava qualquer responsabilidade no genocídio dos judeus.

Criada na impropriamente denominada República Democrática da Alemanha, Angela Merkel viveu suficientemente o quotidiano totalitário para adquirir uma clareza moral e política que lhe permite ver o mundo e nomeadamente o Médio Oriente com uma perspectiva diferente daqueles para quem a liberdade, de tão óbvia, se tornou banal. Melhor do que muitos, ela poderá entender Israel não apenas como uma nação em luta pela sobrevivência, mas como símbolo e palco do combate de morte que hoje se trava entre os valores de liberdade e democracia e os do obscurantismo e da barbárie. Talvez a experiência amarga da ausência de liberdade lhe permita entender que a defesa de Israel hoje não é apenas um resgate do passado, mas um combate civilizacional decisivo.

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Paul Johnson em discurso directo

A partir do minuto 24, durante 24 minutos, Mr Paul Johnson sobre A History of The American People. Em especial, ao cuidado deste senhor, fã confesso de Johnson.

quarta-feira, março 26, 2008

Larkin

This Be The Verse

They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don't have any kids yourself.

Philip Larkin

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Brodsky

Stone Villages

The stone-built villages of England.
A cathedral bottled in a pub window.
Cows dispersed across fields.
Monuments to kings.

A man in a moth-eaten suit
sees a train off, heading, like everything here, for the sea,
smiles at his daughter, leaving for the East.
A whistle blows.

And the endless sky over the tiles
grows bluer as swelling birdsong fills.
And the clearer the song is heard,
the smaller the bird.

Iosif Brodskii

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sábado, março 22, 2008

O declínio

Uma aluna agride verbal e fisicamente uma professora, numa escola «normal», ou, se quiserem, não «problemática». As filmagens dessa agressão chegaram ao YouTube. Aparentemente, um coleguinha filmou tudo.

Do que é que estamos a falar?

Da amoralidade vigente entre os «jovens», onde o «respeito» é uma bizarria própria dos fracos e o «certo» e o «errado» noções à la carte, apreendidas entre a apatia generalizada dos progenitores e os episódios dos Morangos com Açúcar?

Da criminosa ausência do exercício da autoridade por parte de pais, educadores de infância, professores e auxiliares, para quem a criança passou a ser um misto de papão - a quem é preciso tratar com cuidado sob pena de «revolta» - e vítima - permeável a traumas indizíveis?

De uma cultura pop estupidificante e acéfala, onde, em matéria de educação e maneiras, se cultiva a bestialização de tudo o que seja clássico e antigo – numa palavra «quadrado» - e se glorifica toda e qualquer next big thing?

Do facto de ter passado a ser anedota a velha máxima de que “a idade é um posto”?

Da falta de prestigio e de respeitabilidade dos professores nas escolas, consequência de políticas educativas que burocratizaram e baralharam a sua função, e conferiram aos professores um estatuto de fragilidade e vulnerabilidade que faz com que seja vox populi a ideia de que «o professor não só não manda como já nada pode fazer contra os alunos mal comportados»?

Não. Dizem-nos que não. O mundo, aparentemente, mudou. Os paradigmas são agora outros. A moral deve adaptar-se a «contextos», a «especificidades» acessórias e transitórias. Perante o vídeo da agressão da aluna à professora e da atitude abjectamente contemplativa dos colegas, há que enveredar por congeminações relativistas sobre a cronenberguiana «extensão natural do corpo» que constituí um telemóvel, ou por criticas em relação ao comportamento do agente que detém o poder – neste caso a professora – apelidando-o, depois de aturado estudo, de «desadequado», «desajeitado», «impróprio» ou até mesmo «agressivo» (facto que potenciou o desvio comportamental da jovem e inocente aluna). Ou, ainda, desvalorizando aquilo que apelidam de «epifenómenos» (isolados e extraordinários). Elucubrações, aliás, vindas, provavelmente, de psis, pedagogos e intelectuais que, nos seus papeis de pais, também falham em «domar» a «besta» que habita lá em casa (por ausência ou benevolência exacerbadas) e fogem do óbvio para disfarçar a sua própria indigência moral.

Os «valores» de «antigamente» são isso mesmo: despojos de um mundo extinto, sobre o qual já não interessa falar e que apenas certos líricos ainda crêem ser possível sustentar. É este o caldo cultural e social em que vivemos. E agora, reparem: para cúmulo, é este o caldo que potencia a vertigem legalista de governos centralistas, maximalistas e paternalistas (como é o caso do presente), que crêem que a função do Estado é também a de cunhar uma nova linhagem de homens ou a de moldar a actual por decreto. Até à perfeição.

sexta-feira, março 21, 2008

Logo eu, que detesto paradas de «orgulho gay»

Brindo a este post de José, o Alfredo, que descobri na minha outra casa (para além, é claro, desta) graças ao bravo Nuno (bravo, entre (muitas) outras coisas, porque, como conservador de velha cepa, ainda não abandonou a plataforma Blogger).

quinta-feira, março 20, 2008

Lição n.º ______

"Without good humour, learning and bravery can only confer that superiority which swells the heart of the lion in the desert, where he roars without reply, and ravages without resistance. Without good humour virtue may awe by its dignity and amaze by its brightness, but must always be viewed at a distance, and will scarcely gain a friend or attract an imitator."
Samuel Johnson

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Meiguinhos

Constança Cunha e Sá, in Público (13/03/2008)

Tempos de antena

Confesso que nunca fui apologista das chamadas reportagens intimistas que supostamente mostram o "outro lado" dos políticos através dos seus pequenos hábitos e das suas pequenas revelações. O líder da oposição em família, com a namorada a chamar-lhe "meiguinho", ou o primeiro-ministro, num dia de chuva, a dissertar sobre a "melancolia" que lhe desperta o "nevoeiro" de Lisboa são ficções desinteressantes que servem, antes de mais, os interesses da propaganda e as tácticas em que se enredam as agências de comunicação. De uma forma geral, dispenso estas encenações sobre a intimidade de quem nos governa ou de quem nos pretende vir a governar. Não me interessa a vida privada das figuras públicas, a forma como se relacionam com os filhos, o apoio que têm das mulheres, o carinho que lhes dedicam os pais ou mesmo os desabafos premeditados com que invariavelmente "humanizam" a sua "distante" imagem pública.
Aliás, a distinção entre o político e o homem que este tipo de reportagem procura mostrar é meramente artificial: o homem que se pretende expor não é mais do um simples simulacro do político que se quer promover. O resultado final deste equívoco chega a ser, por vezes, confrangedor. Como se viu, na semana passada, com os "tempos de antena" apresentados pela SIC sobre a vida pessoal do eng. Sócrates (que ele, e bem, não exibiu) e a irreprimível "espontaneidade" do dr. Menezes, visto em família, numa espécie de Big Brother à moda de Gaia, com direito à exposição dos filhos, dos pais e da namorada e às aventuras do seu dia-a-dia: dos treinos de futebol e dos almoços em família até à apoteose final de uma ida à barbearia onde ele, qual pintainho da política, se deixa filmar de cabeça molhada, no momento em que lhe aparam o seu escasso cabelo, enquanto um engraxador lhe puxa o brilho aos sapatos e se regista a ausência inexplicável de uma manicura que lhe trate convenientemente das unhas.
Ao contrário do que diz Alcides Vieira, director de informação da SIC, estas reportagens estão longe de mostrar "conversas soltas e desprendidas" por contraponto às entrevistas mais "teatralizadas" que se fazem em estúdio. Mesmo quando estas últimas são de tal forma "teatralizadas" e "preparadas ao milímetro" que acabam por se transformar num insuportável exercício de subserviência ao poder como aconteceu na última entrevista da SIC (e do Expresso) ao eng. Sócrates, onde os temas estavam combinados à partida e os jornalistas se sentiram na obrigação de pedir desculpa por fazerem uma única pergunta que podia incomodar o primeiro-ministro.
A "falta de autenticidade" do eng. Sócrates ou a programada "espontaneidade" do dr. Menezes são consequências naturais deste tipo de encenações que confirmam apenas que eles são políticos como os outros, dependentes da propaganda e de várias assessorias. O que me incomodou nas reportagens apresentadas pela SIC não foi tanto a "afeição pela melancolia" do primeiro-ministro ou as tácticas de futebol do líder da oposição: foi o triste papel a que se prestou a jornalista, deslumbrada com a sua própria irrelevância e com a inebriante proximidade do poder. Diante do eng. Sócrates, Raquel Alexandra não saiu literalmente do átrio a que o primeiro-ministro a prendeu. Não fez uma pergunta relevante, não foi capaz de uma observação pertinente, não conseguiu sequer fingir a conversa "solta e descontraída" de que tanto se orgulhava o seu director.

Subjugada pela presença do primeiro-ministro, Raquel Alexandra, com os olhos brilhantes de emoção, contemplou, em silêncio, a sua "bonita" caneta Parker, ouviu embevecida a história sobre o seu Zangado de peluche e embatucou com a "profundidade" das suas reflexões existenciais. Sentada, no carro, a seu lado, a jornalista da SIC deixou o eng. Sócrates entregue a si próprio, discorrendo sozinho sobre os seus acessos de melancolia, os seus dias de nevoeiro e as suas necessidades contemplativas. Quando o primeiro-ministro, com alguma dificuldade, chega a Cesário Verde, ao Sentimento de Um Ocidental e a essa "absurda necessidade de sofrer" provocada pela neblina e pelo cheiro da maresia que se estende sobre a Baixa lisboeta e o coração do poeta, Raquel Alexandra, exibindo a sua fina sensibilidade, pergunta-lhe baixinho se ele é "um homem romântico"; e, mais à frente, para não perder o fio à meada, tenta saber se ele costuma "fazer poemas". No resto (que foi bastante) a jornalista fez gala de um sentimentalismo piegas, reduzindo a acção política do Governo aos estados de alma do primeiro-ministro. Mais uma vez, o "lado humano" do eng. Sócrates vem em socorro da sua política, apoiado na propaganda oficial e na vacuidade da jornalista.
Se a artificialidade do eng. Sócrates suscitou os comentários do costume, a subserviência de Raquel Alexandra passou quase desapercebida. Salvo raríssimas excepções, ninguém estranhou este indecoroso tempo de antena que a SIC proporcionou. É natural! O jornalismo português está assim: solene e engravatado, rendeu-se à propaganda do Governo, às vantagens do poder e às necessidades da actual maioria. E depois ainda fala de um clima de claustrofobia!

Este país não é para ninguém

A M. teve um acidente há dois anos atrás que a deixou paraplégica. A M. praticamente morreu – se não fisicamente pelo menos animicamente. Mas sobreviveu. E, a pouco e pouco, à cadência das horas e dos dias e dos meses, a M. reaprendeu a viver. Durante mais de um ano, viveu acamada, aos cuidados de terceiros. Devido ao seu estado, a M. perdeu o emprego e ficou praticamente na miséria. À M. o Estado atribuiu uma pensão de invalidez de 236,47 euros e outra de complemento de dependência de 2.º grau (por se encontrar acamada) de 163,72 euros. Ao todo 400,19 euros por mês. Para: pagar a uma auxiliar, pagar a fisioterapia, pagar as deslocações, pagar os medicamente e, claro, a comida. Estão a ver, não estão?

Há dois meses atrás, a M. melhorou e pôde, finalmente, sair da cama e passear-se pela casa numa cadeira de rodas. Aventurou-se, há um mês, a sair para a rua. Primeiro resultado deste «atrevimento»: perdeu o complemento de dependência de 2.º grau por «já não se encontrar acamada».

A M. recebeu, há coisa de duas semanas, o convite de uma empresa para trabalhar, sob condições especiais, no departamento de secretariado. Ficou radiante. Andava animadíssima com a perspectiva de voltar a trabalhar. Ao fim de dois anos, a sua condição passava a fazer mais sentido na exacta medida em que se aproximava da condição social e emocional do comum dos mortais. Do seu semelhante. Voltaria a ter amigos e conhecidos, a ter com que ocupar o tempo e as suas capacidades intelectuais (intactas, ao contrário da sua coluna vertebral).

Há dias, recebeu esta singela notícia: devido ao «elevado» montante que passará a auferir (já lá iremos) por conta doutrem, perderá o direito à pensão de invalidez, ou seja, aos 236,47 euros.

A M. continua numa cadeira de rodas. Segundo os médicos, para toda a vida. Continua a precisar de alguém que, por exemplo, a ajude a tomar banho, a cuidar da sua higiene pessoal, de manhã e à noite, a assisti-la quando os inúmeros problemas de saúde colaterais se agudizam. E por aí fora.

Para o Estado, não. Para o Estado, M. não só deixou de ser paraplégica por artes mágicas, como putativamente se passou para o lado dos assalariados capitalistas, com um astronómico rendimento de… (preparem-se…) 500,00 euros (antes de descontos).

Mas a M. é uma lutadora. Continua a sorrir para a vida. Apesar deste país.

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quarta-feira, março 19, 2008

5

Hoje, este blog faz cinco anos.

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Instrução moral para os dias que correm

"In civilized society, personal merit will not serve you so much as money will. Sir, you may make the experiment. Go into the street, and give one man a lecture on morality, and another a shilling, and see which will respect you most."
Samuel Johnson, in James Boswell: Life of Johnson

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Diário da Perna (6 e último)

A liberdade

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terça-feira, março 18, 2008

Separados à nascença (2)

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Separados à nascença (1)

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Diário da Perna (5)

O Levante

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Diário da Perna (4)

A convalescença

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Diário da Perna (3)

O regresso à enfermaria

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Diário da Perna (2)

O recobro

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sábado, março 15, 2008

Isto é extraordinário

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And the Oscar goes to Benard

João Benard da Costa, in Público (02/03/2008)

Oscaradas

1. "Ninguém se lembra de uns Óscares assim (tão bons)" lia-se na primeira página do PÚBLICO de 24 de Fevereiro, no dia (ou na noite) deles. Remetia-se para o P2, onde se percebia que "tão bons" ou "tão maus" tanto fazia, como o branco e o tinto de Álvaro de Campos e exactamente para o mesmo acto. Citava-se até a Newsweek: "The Oscars must die" e falava-se de um "diagnóstico terminal".
Com os fusos horários a desajudar entre Los Angeles e Lisboa, a hora a que a festa acaba já não dá para novas nos matutinos do dia seguinte. Mas, na Terça, 26, as estatuetas voltaram às primeiras páginas e ao P2 para anunciar o que "toda a gente" sabia há 24 horas. Alguns portugueses ensonados que se arrastaram por uma noite em que o "marketing" vendia atmosfera (juro pela minha rica saúde que esta frase constava de um depoimento) murmuravam, desalentados ou resignados, que "a Oscarmania em Portugal não existe". Se não existe, não é por culpa dos chamados "media", menos ainda por culpa dos chamados "críticos", que puxam pela cerimónia o mais que podem, dando largo espaço a palpites pernósticos.
Aproveito para perguntar porque é que escrevem "Óscares" em português, com maiúscula e tudo. Como não há nenhum Óscar envolvido na história dos prémios (nem sequer o daquela história apócrifa em que uma secretária olhou a estatueta e disse que esta lhe lembrava um tio Óscar que teria), não vejo qualquer razão para o aportuguesamento do plural da palavra. Por isso, insisto com o meu revisor: deixe estar oscars que eu não estou a escrever nem sobre o Marechal Carmona nem sobre Óscar de Lemos. Adiante.

2. 80 anos comemoraram os oscars, sete anos mais velhos do que eu. Mas, durante mais de metade da minha vida e mais de metade da vida deles, os oscars nem na América vinham na primeira página. Embora o oscar com mais adequada designação que eu conheça tenha acontecido logo no primeiro ano da atribuição deles, foi anunciado meses antes da sua entrega, como se fazia e faz com os Nobel ou com os Pullitzer. Refiro-me a Sunrise de Friedrich Wilhelm Murnau, premiado "melhor produção de qualidade artística", título que 80 anos depois lhe pode continuar a caber. Ninguém deu por isso e duvido que o justíssimo prémio tenha levado aos cinemas de então mais um espectador que fosse ou que seja.
Durante os anos 30, em que ainda foram premiados realizadores como Capra (três vezes), Ford ou McCarey, foi frequente que as vedetas mais "papabile" (se a expressão me é permitida) nem pusessem os pés na cerimónia, ao princípio maçudo jantar. Claudette Colbert, que ganhou o oscar de melhor actriz em 1934 por It Happened One Night (primeiro filme na história de Hollywood a receber todos os oscars principais, o que só voltou a acontecer em 1975 e em 1991) soube da notícia por um telegrama que recebeu num "wagonlit"; Walt Disney, que ganhou 40 entre 1932 (Mickey Mouse) e 1966 (ano em que morreu) nem se dava ao trabalho de os ir receber. Os oscars foram inventados para dar caução moral e artística ao cinema ou, como disse Douglas Fairbanks (esse que em Portugal era conhecido por Douglas Faz-Bancos) num jantar de 1927: "são imperativas acções construtivas para pôr fim a ataques que nos desacreditam e estabelecer na opinião pública a ideia que o cinema é uma instituição legítima e respeitável e os que nele trabalham pessoas honradas". Nem sequer como chamariz publicitário funcionavam muito. Prova: a austríaca Louise Rainer (n.1910 e que celebrou há pouco 98 anos) chegou à América em 1935, foi contratada pela MGM, e em 1936 e 1937 recebeu consecutivamente o oscar de melhor actriz por The Great Ziegfeld de Robert Z. Leonard e The Good Earth de Sidney Franklin. Na história dos oscars, capítulo actrizes, nunca foi suplantada e só Katharine Hepburn a igualou em 1967 e 1968. Pois bastaram três anos para a senhora se evaporar e mesmo na Cinemateca dou um doce a quem se lembrar dela.

3. Seguramente, os anos 30, 40 e 50 foram os anos de maior cinefilia no mundo chamado ocidental (América, Europa e satélites ou prolongamentos). De vez em quando (e em revistas especializadas) lá se dizia que o filme Y tinha tido vários oscars ou a que actriz Z o ganhara. Mas ninguém ligava muito e sobretudo ninguém estabelecia juízos de valor com base nas estatuetas. Cinco dos maiores cineastas que já trabalharam em Hollywood (Hitchcock, Hawks, Sternberg, Lubitsch e Fritz Lang) nunca ganharam um oscar na vida deles, como também nunca os receberam Greta Garbo ou Marlene, Cary Grant ou Montgomery Clift.
Não consigo precisar que idade teria eu quando ouvi pela primeira vez a palavra oscar, mas seguramente já sabia bem palavras muito mais feias e nem sequer fui muito precoce nesse último domínio. Mas, às vezes, desde que começou a tal oscarmania, dou comigo a pensar nos foguetes que teriam saudado 1941 se algum de nós tivesse voto na matéria em tão recuado ano. Ouçam só: melhor filme: How Green Was My Valley de John Ford, o filme que eu escolhi em 2006 para abrir o Ciclo da Gulbenkian "Como o Cinema era Belo"; melhor realizador: John Ford (a receber o prémio pela terceira vez); melhor actriz: Joan Fontaine em Suspicion de Hitchcock; melhor actor: Gary Cooper em Sergeant York de Howard Hawks. Ford, Hitchcock e Hawks num só ano, nem Barca Velha 66.
Quando eu comecei a ficar espigadote e a botar catadura em coisas de cinema (estou a falar dos meados dos anos 50) era até de bom tom, entre os conhecedores ou candidatos a tal, rir ou sorrir desprezivamente quando se lhes falava de oscars. Marty de Delbert Mann em 1955, o ano de East of Eden de Kazan, de Rebel Without a Cause de Nicholas Ray, de Moonfleet de Fritz Lang, de Land of the Pharaohs de Hawks, de The Night of the Hunter de Charles Laughton? Brincamos ou quê...? Nem sequer nos indignávamos. Hollywoodices oscaradas. Around the World in 80 Days de Michael Anderson? A publicidade já fez bom barulho em 59, com os 11 oscars ganhos pelo Ben Hur de William Wyler, mas este teria razões para dar voltas no túmulo (morreu em 1981) se a comparasse com a que fizeram, trinta e oito anos depois, a Titanic de James Cameron ou quarenta e quatro anos depois, a Lord of the Rings: The Return of the King, únicos filmes que conseguiram os mesmos 11 oscars das corridas de galeras de Charlton Heston. Só com o dinheiro dispendido na publicidade aos dois últimos, fazia Wyler um Ben Hur 2 e um Ben Hur 3 se os tempos fossem disso quando John F. Kennedy foi eleito Presidente dos EUA.
Último exemplo para perceberem como mudámos de planeta. Em 1965, a Academia premiou The Sound of Music de Robert Wise, ou seja, o celebérrimo Música no Coração que ganhou 5 oscars. Os Cahiers du Cinema, à época, nem crítica publicaram ao filme. Numa curta nota que dava conta doutras estreias, escreveram que "era um filme a não ver, sob nenhum pretexto". Não discuto razões ou desrazões. Pergunto apenas se alguma revista séria de cinema (ou mesmo não séria) se permitiria dizer isso hoje do filme dos irmãos Coen. Naquela altura é que muitos países não estavam para velhos. Agora estão-no e para os mais assustadoramente decrépitos. Mas, como dizia uma senhora que eu cá sei: "Acabou-se o romantismo" e o cinema como as outras artes (que lá chegarão, lá chegarão) medem-se a percentagens do PIB e não por conceitos mofentos de "qualidade artística".

4. Entretanto corria a água debaixo das pontes e a crónica crise transformava-se em caso sério. Foi isto pelo começo dos anos 70 e, a pouco e pouco, achou-se que era preciso curar a ferida com o pêlo do mesmo cão. Não estou aqui para escrever dos "movie brats" (Coppola, Spielberg, Scorsese e outros sexagenários de hoje) mas se a indústria os abraçou tão depressa foi porque não se podia dar ao luxo de os ter de fora. Como não se podia dar ao luxo de ter de fora os Fellinis, Tatis, Bergmans que andavam por essa Europa a chegar à Taprobana. Dessem-lhes alpista e deixassem-nos pousar.
Exemplo sumarento desta progressão é o caso Buñuel em 1972. Esse antigo proscrito que os Estados Unidos tinham posto na rua (leia-se México) nos anos 40, quando descobriram, segundo Iris Barry, que ser republicano em Espanha não queria dizer a mesma coisa que ser republicano na América, viu o seu filme Le Charme Discret de la Bourgeoisie ser nomeado para o melhor filme em língua estrangeira. Como a publicidade aos oscars já começava muito antes (foi no ano de The Godfather, lembram-se?) alguns jornalistas cotados foram até ao México para entrevistar Don Luis e perguntar-lhe se ele tinha esperanças de ganhar o prémio. "Esperanças?", respondeu Buñuel abrindo muito o olho do espanto, "não tenho esperanças, tenho certezas. Paguei o prémio por bom dinheiro e os americanos podem ter muitos defeitos, mas para eles, negócio feito é negócio feito".
Estavam asseguradas as manchetes e um escândalo dos diabos. Buñuel comprara o júri? Da Europa, o produtor Silberman telefonava-lhe fulo: "Tínhamos boas hipóteses. Você deitou tudo a perder". Muita gente se mexeu a explicar em Hollywood que o homem era um provocador mas era um génio. E, na noite dos oscars, em Março de 1973, Buñuel ganhou o de melhor filme estrangeiro. Quando lho disseram, ele respondeu calmamente: "Eu não lhes tinha dito? Os americanos podem ter muitos defeitos, mas negócio feito é negócio feito".
Fiquemo-nos com essa certeza.
Fiquemo-nos com a globalização e pensemos que, dos 18 realizadores com mais do que uma estatueta ganha, 14 o conseguiram antes de 1968, ou seja, na primeira metade da vida dos oscars. Nos últimos 40 anos, com quatro excepções (Forman, Oliver Stone, Spielberg, Clint Eastwood) tem sido um ano um realizador. Todos os viveram, como a rosa, o espaço de uma manhã. Amanhã ninguém se lembra de nada. Nem vale a pena lembrar.

sexta-feira, março 14, 2008

Dedicada


A reeducação musical de Miss Charlotte (11)

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A reeducação musical de Miss Charlotte (10)

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Diário da Perna (1)

Miguel Esteves Cardoso, in Público (14/03/2008)

O dia da operação

Enquanto o leitor trincava a sua torradinha estava eu virado de lado, como uma corpulenta odalisca, a sentir tremer as ancas sob o efeito do ópio epidural e as burilações do Black & Decker do cirurgião ortopédico. Enquanto os ossos do leitor avançam naturalmente para a decrepitude, um dos meus - a minha anca novinha em folha - terá escassas horas de uso, com todas as suas danças do ventre ainda pela frente. Como os ossos são o que fica de nós além da morte, os hospitais ortopédicos têm uma dignidade especial. Não é apenas dos vivos que cuidam - também estão a ajudar os arqueólogos dos séculos vindouros. Se hoje posso estar um bocadinho gordo, consola-me que daqui a uns séculos seremos todos magros. As ossadas parecer-se-ão muito umas com as outras. Descontada a carne, até é provável que o meu esqueleto seja considerado mais bem constituido do que o do trinca-espinhas do Brad Pitt. Mas esses ossos serão ninharias para os arqueólogos. Onde a vassourinha há-de deter-se é na beleza da minha prótese. Depois de soltá-la e soprá-la, hão-de flecti-la nas mãos, admirando a engenhosa construção e pronunciando-a avançadíssima. Para a época, claro. Acabará, com certeza, nalgum museu, junto às ferramentas da idade do Bronze. Como merece. Há uma breve parte da nossa vida em que os ossos se substituem a eles próprios. Mas depois dessa ilusão dos dentes de leite, nunca mais é a mesma coisa. Ao contrário das caudas das lagartixas e das pinças das sapateiras, os humanos têm de recorrer ao exterior para substituir as peças faltosas. Numa primeira fase, são peças pequenas e exteriores, como coroas dentárias. Depois já são necessárias peças maiores e interiores, como a minha anca. Aproveitem bem os dentes de leite, que essa mama não volta a acontecer!

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Sem partido (ou com partido momentaneamente ocupado?)

Vasco Pulido Valente, in Público (14/03/2008)

A direita sem partido

Em 1979 e 1980, fiz duas campanhas pelo PSD, ou, para ser exacto, uma pelo PSD, interna, e outra pela AD. Nessa altura o PSD era ainda em substância o partido do país rural, católico e conservador e, geograficamente, o partido do centro, do Norte e do Nordeste. Ou, por outras palavras, do Portugal em que a oposição à ditadura fora rara e disseminada e mais tarde o PREC mal tocara. Em Lisboa e no Porto, mas sobretudo no Porto, ainda duas cidades do passado que mal começavam a mudar, parte da velha classe média e da pequena burguesia tradicional também votavam PSD, por horror à "revolução" e medo de qualquer espécie de socialismo. O PSD parecia o único partido "nacional", coisa de que ele próprio se gabava (falsamente porque pouco penetrava no Sul) e o único partido, como se dizia, "interclassista".
De qualquer maneira, logo do princípio houve uma claríssima divisão entre o PSD rural, católico e do Norte e o PSD urbano e secular, que aspirava à modernidade; entre PSD da "Marinha" (de Cascais, claro) e o PSD das "bases", como já à época ele gostava de se descrever. Várias cisões (nenhum partido teve tantas) provaram, de resto, a natureza heterogénea e volátil dessa aliança, que não podia durar. Em 1980, Sá Carneiro uniu o PSD (e a direita) contra a esquerda e, a seguir, em 1987, Cavaco conseguiu formar um grande "bloco" contra a herança do PREC. Estes dois triunfos deram uma falsa impressão da força e da vitalidade do PSD. De facto, Sá Carneiro e Cavaco ganharam, apesar do partido e não por causa do partido. Quando um morreu e o outro saiu, o partido voltou ao caos.

E, desta última vez, voltou ao caos num Portugal diferente. Num Portugal até certo ponto "modernizado", em que a influência da Igreja deixara de pesar decisivamente, o interior rural se "desertificava" e aparecera uma nova classe média, produto do regime, com uma intensa vontade de ascensão social e sem vestígio de respeito pelo precário equilíbrio antigo PSD. O partido de Menezes, que só por acaso usa o mesmo nome, é o partido dessa nova classe média e não representa mais do que 20 a 30 por cento do eleitorado. Talvez suba ocasionalmente nas sondagens por impopularidade de Sócrates, mas, salvo desastre, a maioria do país nunca lhe confiará o governo; a ambição nua e crua, a brutalidade táctica e um populismo meio louco valem o que valem. Entretanto, dividida e desorientada, a direita responsável do PSD está sem partido. E precisa de um.

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quinta-feira, março 13, 2008

“Borbulhagem”, diz ele

Constança Cunha e Sá, in Público (13/03/2008)

Um Vazio Complicado

No início da semana, o dr. Luís Filipe Menezes encarava as inúmeras críticas suscitadas pelas alterações ao regulamento interno do partido com o optimismo natural de quem conta com o apoio das "bases", do "povo" e de outras entidades metafísicas que ele, por pudor, se absteve de referir. Segunda-feira, no rescaldo do Conselho Nacional, todas essas declarações tinham uma dimensão reduzida, revelando apenas "alguma borbulhagem" que andava "no ar", fruto do sucesso "evidente" da sua notável liderança. Compreensivo, o dr. Menezes explicava com um saber de experiência feito: "Em quatro meses, trouxemos o partido de uma situação em que não pensava na vitória para uma situação que pensa na vitória" acrescentando didacticamente que quando um fenómeno, como este, acontece, "o comportamento das pessoas altera-se e passa a haver mais ambição". Nesse dia, o que interessava era a fidelidade das "bases" e as renovadas expectativas do "povo" que ele e o "seu PSD" tinham subitamente desenterrado.

No dia seguinte, o diagnóstico mudou radicalmente: a natural "borbulhagem" da véspera ganhou novos e tenebrosos contornos, transformando-se, numa noite, num inqualificável ataque à fulgurante liderança do dr. Menezes. Em conformidade com esta diferente interpretação dos factos, a Comissão Permanente do partido decidiu que o dr. Rui Rio tinha que ir, com carácter de urgência, ao Conselho de Jurisdição explicar as suas "gravíssimas" e "intoleráveis" declarações, explicando nomeadamente como é que os actuais regulamentos internos podiam transformar o PSD numa próspera lavandaria de ordem financeira. António Capucho, por sua vez, viu confirmada a sua anunciada demissão da concelhia de Cascais com um "agradecimento pelos serviços prestados", uma velha fórmula salazarista que a direcção do PSD achou por bem ressuscitar, no que pode ser visto como um oportuno piscar de olhos a uma direita retrógrada e saudosista, depois de um salto inesperado para os protestos da "rua" e para o colo dos sindicatos. Este PSD do dr. Menezes é assim: previsivelmente imprevisível. Num dia, junta-se ao entusiasmo do PREC, no dia seguinte entrega-se aos pequenos requintes do salazarismo; num dia, regista uma auspiciosa "borbulhagem", no dia seguinte encontra um "intolerável" e "gravíssimo" ataque à sua irrepreensível liderança.

Num esforço meritório, os Ribaus, os Botas e os Lopes do partido, desdobraram-se em comentários e explicações que tornaram ainda mais precisa a posição adoptada pela actual direcção do PSD. Enquanto a maioria se escudou prudentemente no "assassinato político" do líder e no "ataque sistemático" às suas desenjoativas propostas, o dr. Santana Lopes, como já é habitual, sobressaiu pela ousadia dos argumentos e pela sua luminosa insensatez: começando, modestamente, na TSF, por considerar que foram "ultrapassados" todos os limites, o velho Lázaro da nossa pequena política acabou, gloriosamente, em Gaia, a denunciar "o clima de terror robespierriano" que, graças ao dr. Rui Rio e a outros elementos igualmente perniciosos, passou a existir no interior do PSD. Obviamente, comparar o "Terror", ou melhor, o "Grande Terror" da Revolução Francesa com as trapalhadas do PSD revela uma confrangedora ignorância da História. Mas, pior ainda, revela o estado em que se encontra um partido onde a irresponsabilidade é uma regra de ouro e o mais puro oportunismo se transformou na única estratégia política perceptível.

Os últimos quatro meses de que o dr. Menezes tanto se orgulha foram, de facto, uma festiva sucessão de delírios e piruetas políticas que culminaram, na semana passada, com a bombástica confissão de que, embora o PS já não mereça governar, o PSD ainda não se encontra em condições de o substituir - um "paradoxo" que o dr. Menezes, com a sua intuição apurada, considera que pode estar na origem de um "vazio complicado". Em momentos muito especiais, a democracia tem destas coisas!

A alteração dos regulamentos, impedindo a fixação dos cadernos eleitorais e abrindo caminho à perversão de qualquer processo democrático interno, é o reconhecimento desse "vazio" por parte de uma direcção acossada que apenas se mantém no poder por obra e graça dos interesses imediatos dos seus caciques locais. A forma como essa mesma direcção reagiu às críticas de Rui Rio e de António Capucho (a "purga", segundo Pacheco Pereira) confirma o autismo de quem vive à margem do país, entretido com pequenos jogos de poder partidário, e a impunidade de quem conta com os cálculos alheios e garante orgulhosamente que só "à bomba" é que o tiram da liderança que tão arduamente conquistou.

Se, em 2009, o dr. Menezes ainda se mantiver à frente do partido, como o próprio garante que se manterá, o PSD estará irremediavelmente condenado à sua própria insignificância: a maioria relativa do PS será naturalmente vista com mais uma vitória retumbante do líder e das suas bases que continuarão impunemente a mandar no partido; e a maioria absoluta, por sua vez, obrigará o partido e um novo líder a quatro anos de oposição, entregues a um grupo parlamentar difícil de descrever. Até lá, o dr. Menezes não deixará de ser o principal trunfo de um primeiro-ministro em queda, podendo mesmo, na recta final, adquirir um papel insubstituível na sua campanha eleitoral. Quem sabe se o tal "vazio complicado" não será mesmo demasiado complicado.

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quarta-feira, março 05, 2008

Parabenizar

O Tiago pelo quinto aniversário do Voz do Dezerto.

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terça-feira, março 04, 2008

Obviamente

sábado, março 01, 2008

Parabenizar

O Insurgente e o Blasfémias pelos aniversários (terceiro e quarto, respectivamente).

Happy-Birthday

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A crónica da semana

Mal-estar difuso
por Vasco Pulido Valente

Alexandre Herculano, o maior "intelectual" do liberalismo, que passara pelo exílio e combatera no cerco do Porto, deixou, já em agonia, um último juízo sobre a Pátria: "Isto dá vontade de morrer." D. Carlos, que foi de facto o último rei e o último reformador da Monarquia, achava Portugal uma "piolheira" e os portugueses, fatalmente, uma "choldra". Os republicanos não estimavam nem o país, nem a República e acabaram, quase sem excepção, "desiludidos". Basta ler uma dúzia de páginas dos Discursos para constatar o infinito desprezo que Salazar tinha por nós. Do PREC ficou o absurdo cadáver do PC. E esta democracia anda agora a chorar abjectamente o seu fracasso. Verdade que a famosa frase de Herculano é apócrifa (inventada por Bulhão Pato) e que D. Carlos só em privado se alargava sobre o seu reino. De qualquer maneira, não há dúvida de que Portugal sempre gostou muito pouco de si próprio.
Com uma certa razão, convém admitir. Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser "como a Europa" e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto e "modernizante" supunha que chegara "o dia". E "o dia" invariavelmente não chegava. A sociedade ia, como é óbvio, mudando: devagar, com dificuldade, aos sacões. Só que a distância que nos separava da Europa não diminuía. Os modelos não faltavam: ou modelo universal da França (até à República); ou os mais modestos modelos de países pequenos como a Bélgica no século XIX e a Suécia a seguir. O português copiava com devoção o que via "lá fora". Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso.
No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da "Regeneração", durante o "fontismo" e durante o "cavaquismo". Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política "civilizada" e de um crescimento económico razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar "mal-estar difuso". O "mal-estar difuso" é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E, como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.


in Público 29.02.2008

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