O MacGuffin: Dezembro 2005

sexta-feira, dezembro 30, 2005

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A todos – leitores, bloggers, candidatos à presidência da república, trolhas, junkies, poetas, loosers, empresários, fiscais das finanças e eurodeputados – os meus votos de bom ano novo. Até já.

Cimento

Ode To Concrete

You’ll outlast me, good old concrete,
as I’ve outlasted, it seems, some men
who had taken me, too, for a kind of street,
citing color of eyes, or mien.

So I praise your inanimate, porous looks
not out of envy but as the next
of kin – less durable, plagued with loose
joints, though still grateful to the architects.

I applaud your humble – to be exact,
meaningless – origins, roar and screech,
fully matched, however, by the abstract
destination, beyond my reach.

It’s not that nothing begets its kind
but that the future prefers to court
a date that’s resolutely blind
and wrapped in a petrified long skirt.

Joseph Brodsky, 1995

E para acabar o ano em beleza

Notícia Correio da Manhã: “Miguel Esteves Cardoso regressa em Janeiro ao ‘Expresso’, onde brilhou antes de fundar ‘O Independente’, em 1988. A partir de dia 6, o jornalista e escritor passa a assinar no semanário uma coluna denominada ‘Como Quem Diz’.”


quarta-feira, dezembro 28, 2005

É já a seguir

Não tarda muito, publicarei aqui um post revelando ao auditório os meus discos preferidos de/em 2005. Para acalmar as hostes, posso já adiantar que dificilmente alguém roubará o primeiro lugar a este:


Fat Freddy’s Drop Based On A True Story

Isso agora pouco interessa: e as ADM’s, senhores?

(ou Deixem-me ser tremendamente primário)

Notícia Público: “As autoridades iraquianas anunciaram hoje a descoberta de uma vala comum na cidade de Kerbala que contém os restos mortais de várias mulheres e crianças.”

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Estou a perder qualidades

A sério. Uma inquietação surda pesa-me na alma. As eventuais qualidades empíricas que, de quando em vez, me permitiam apear do imperscrutável, parecem, de há uns tempos a esta parte, ter-me abandonado. Observo o branco e dizem-me que é preto. Provo o salgado e sai-me o sacarino. Deparo-me com a soberba e afiançam-me tratar-se de humildade. Ouço o insulto gratuito e explicam-me, por «a + b», que não passa de sofisticada contundência. Penso reconhecer o argumento abjecto quando, afinal, garantem os especialistas, é tão só nervo, firmeza ou eficácia. Deparo-me com a mais reles má-fé (haverá outra?) e chovem explicações poderosíssimas de que se trata de argúcia e verve. Parafraseando o good old doctor Johnson (agora em inglês, que isto é uma casa séria), they seem to find me an argument although they are not obliged to find me an understanding.

Vem isto a propósito do debate, de ontem, entre o Prof. Cavaco Silva e do Dr. Mário Soares (de agora em diante 'Cavaco' e 'Soares'). Para além do role de banalidades ditas «normais» ou, se quiserem, e para utilizar a palavra feia, «incontornáveis», a que nenhum candidato à presidência da república portuguesa se pode subtrair (em primeiro lugar, dada a natureza do cargo; em segundo lugar, devido ao modelo de debate adoptado - que põe a nu de forma inaudita a evidência de que, à falta de terreno fértil para a boa da peixeirada, pouco ou nada resta; e, finalmente, face ao nível qualitativo da política à portuguesa) assisti, ontem, a um incrível (no sentido pejorativo) desempenho de Soares, face a uma surpreendente (pela positiva) performance de Cavaco.

É óbvio, repito, que todos os candidatos, sem excepção, têm roçado o banal e acenado com o vago. É óbvio que as parcas e, nalguns casos, escabrosas tentativas de imiscuição em matérias «concretas» e «tangíveis», têm caído no saco do funcionalismo governativo – ao qual, como se sabe, só tem acesso quem para tal tem competências, o que não é o caso de um PR. Tudo isso é óbvio, tudo isso é fado. Mas há diferenças. E, nalguns casos, semelhanças.

Começo pelas semelhanças: estiveram ontem, frente-a-frente, dois candidatos que vestiram – ou vestiram-lhes – a casaca de «homens-providência». Soares bem pode tentar convencer-nos de que o casting para o papel de «salvador da pátria» recaiu, exclusivamente, sobre Cavaco. E que este o tem desempenhado de bom grado e com extrema dedicação. Mas só convencerá ceguinhos ou basbaques. Soares também usou e (mais do que Cavaco) abusou dessa pretensa condição de Deus super omnia, disfarçada aqui e acolá com assomos ad hoc de humildade, sob o manto turvo da já famosa «ética republicana». De resto, tudo diferente.

Cavaco foi um Senhor. Evitou a ofensa, a fulanização, a deselegância. Revelou-se paciente face à «irreverência» (eufemismo para «arrogância») de Soares. Falou dos problemas do país. Indicou caminhos. Falou das novas realidades e do futuro. Esteve bem com a História e não revelou encanitamentos pueris em torno das ideologias. Revelou-se, no fundo, um homem prático, voluntarista, com vontade de ver fazer e de ajudar a fazer. Um homem que pretende «espevitar» as mentalidades e os agentes do país para, lá vem novo cliché, enfrentar os «novos desafios». E àqueles que o acusam de criar falsas expectativas ou de mentir sobre hipotéticas práticas ou decisões que caem fora do âmbito do PR (por manifesta falta de instrumentos legais, formais e materiais), lembro um facto que qualquer criança alcança: indicar caminhos, falar sobre o que deve ser feito, elencar prioridades, dar a sua opinião sobre questões concretas, não é o mesmo que dizer que pretende levá-las a cabo ou chamar a si a responsabilidade de as concretizar. Trata-se de ter ideias para o país. Só, aliás, por má-fé se podem esquecer as dezenas de vezes em que Cavaco se referiu à moderação, ao diálogo e à ajuda que pretende dar ao(s) governo(s) da nação. Nunca, em tempo algum, Cavaco terá insinuado qualquer coisa em contrário, dando provas de que conhece os constrangimentos da função de PR e a forma como a mesma se encontra constitucionalmente balizada para outros voos.

Do outro lado, o «senador». O putativo paizinho da pátria (estatuto que ele pensa justificar quase tudo), esteve sobretudo empenhado, sob a complacência dos (fracos, muito fracos) entrevistadores, em denegrir Cavaco, em aviltar a sua personalidade, em menosprezar as suas evidentes qualidades (que ninguém, de boa-fé, pode sonegar). E tudo isto com base em premonições, sensações e palpites muito particulares (insuperavelmente subjectivos e quase sempre patéticos). Abusando do pronome pessoal, ouvimos de tudo: que ele é «rígido»; que ele não fala; que ele é distante; que ele «não tem formação»; que ele não passa de um «economista razoável» (ser-se economista é anátema, na boca de Soares); que ele é um ignorante em História; que ele não conhece o mundo que o rodeia. O delírio argumentativo, portanto, tendo em conta a «profunda» sagacidade de quem vislumbra, por aí, uma «cidadania mundial»(?), uma «economia global»(?), um «movimento transnacional»(?).

É claro que, em matéria de banalidades, Soares foi surpreendentemente inédito e singular: é pela liberdade, pelo diálogo, pela democracia e pelo pluralismo (assim, vejam bem, sem mais nem menos). E, obviamente, está ao lado dos desfavorecidos. Originalíssimo. Cavaco, como lembrou Soares, para além de pertencer à ímpia Direita (logo «insensível» e «rígido»), está mortinho para desestabilizar tudo e todos. Mortes na rua? Vão ser às milhares. Sim, que esta democracia já não é o que era.

No fim, ainda pensei: “Soares foi arrumado neste pseudo-debate, em que dois entrevistadores manga-de-alpaca foram coadjuvados por um instigador de serviço, cujas armas remeteram para a descortesia e para a retórica de vão-de-escada.” Mas depressa percebi que não. Os plumitivos, logo de seguida, explicaram. Eu, tenho bom remédio: ou aceito as regras do circo – do contorcionismo retórico, do arrazoado mendaz, da perpetuação monástica de estatutos e das eminências pardas – ou arrumo as botas. Seja como for, estou a perder qualidades.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Ainda e sempre igual

“Pessoalmente, é claro, deploro tudo. Não há uma palavra, um acto, um pensamento, uma necessidade, uma pena, uma alegria, uma rapariga, um rapaz, um medo, uma dúvida, uma confiança, um sarcasmo, um desejo, uma esperança, um medo, um sorriso, uma lágrima, um nome, uma face, um tempo, um lugar, que eu não deplore, para lá de tudo. Lixo, de principio ao fim. E, no entanto, quando me sentei na cerimónia de admissão, salvo o furúnculo no traseiro… O resto, lixo. As carrancas de terça, os resmungos da quarta, as pragas da quinta, os uivos da sexta, os ressonares do sábado, os bocejos de domingo, os carpidos da segunda, os carpidos da segunda. As bengaladas, os queixumes, as pancadas, os gemidos, as chicotadas, os guinchos, as ferroadas, os rogos, as estaladas, e os ganidos. E a pobre velha piolhenta terra, a minha terra, e a terra do meu pai e da minha mãe, e do pai do meu pai e da mãe da minha mãe, e da mãe do meu pai e do pai da minha mãe, e do pai da mãe do meu pai e da mãe do pai da minha mãe, e do pai do pai da minha mãe e da mãe do pai do meu pai, e da mãe do pai da minha mãe, e do pai da mãe do meu pai, e da mãe do pai do meu pai, e do pai da mãe da minha mãe, e do pai do pai do meu pai, e da mãe da mãe da minha mãe, e dos pais e mães das outras pessoas, e dos pais dos pais e das mães das mães, e das mães dos pais e dos pais da mães, e dos pais dos pais da mães, e das mães das mães dos pais, e das mães dos pais das mães, e dos pais das mães dos pais, e das mães dos pais dos pais, e dos pais das mães das mães, e dos pais dos pais dos pais e das mães das mães das mães. Um excremento. Os açafrões e os larícios que ficam verdes todos os anos uma semana antes dos outros e os pastos vermelhos com a placenta não comida das ovelhas e os longos dias de Verão e o feno recém-cortado, e o pombo-bravo de manhã e o cuco de tarde e o codornizão à noitinha e as vespas na geleia e o cheiro da giesta e o ar da giesta e as maçãs a cair e as crianças a andar nas folhas mortas e o larício que vira castanho uma semana antes dos outros e as castanhas a cair e o ventos uivantes e o mar a quebrar no molhe e os primeiros fogos e os cascos no caminho e o carteiro tísico a assobiar As Rosas Florescem na Picardia e o candeeiro de petróleo standard e, é claro, a neve e, escusado será dizer, a saraivada e, louvado seja, a lama gelada e de quatro em quatro anos o ruir de Fevereiro e em Abril águas mil e os açafrões e depois todo o estuporado circo a recomeçar tudo de novo. Um monte de merda. E se eu pudesse recomeçar tudo de novo, sabendo o que sei hoje, o resultado seria igual. E seu eu pudesse recomeçar terceira vez, sabendo o que saberia na altura, o resultado seria igual. E se eu pudesse recomeçar cem vezes, sabendo de cada vez um pouco mais do que o que sabia na vez anterior, o resultado seria ainda e sempre igual, e a centésima vida seria como a primeira, e as cem vidas como uma só. Uma diarreia de gato. Mas a este ritmo, vamos ficar aqui toda a noite.”

Samuel Beckett in Watt, 1943


quinta-feira, dezembro 15, 2005

SG

”He was a poet. He was a punk. He was provocative and funny. And he wanted to fuck Whitney Houston” Nicolas Godin.


Serge Gainsbourg


quarta-feira, dezembro 14, 2005

Novas entradas

De gente cá de casa: Vidro Duplo (da Sara), A Origem das Espécies (do Francisco), Vício de Forma (do Pedro) e, last but not least, Estado Civil (do Pedro).

Ah, é verdade, e este: Idade Média. Muito bom.
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