O MacGuffin: Fevereiro 2005

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Angry old man but nevertheless

Do grande VPV:

E a direita?
Por VASCO PULIDO VALENTE
O que vai acontecer agora à direita? Como vai ela sair do buraco onde Barroso, Portas, Santana e a coligação aplicadamente a meteram? O PP tem futuro? E o PSD? O PP tem um futuro deprimente. Com 12 deputados no parlamento, mesmo que Sócrates se aguente mal, não ganha nada com isso. Deixou de ser um partido anti-regime e não se tornou num partido de governo. Em 2009, não será com certeza o voto de protesto ou o voto "útil" e, sem sequer uma perspectiva de aliança com o PSD, está condenado a ficar indefinidamente à margem. De resto, Portas já gastou o capital ideológico que trouxe consigo. O nacionalismo (no fundo, uma reabilitação da guerra de África) sempre valeu pouco e é hoje uma curiosidade de almanaque. O referendo de Sócrates sobre o aborto tira a questão do campo partidário. E o apelo à pobreza e ao Portugal arcaico pesa pouco contra a realidade do dinheiro que o PS prometeu e tenciona dar. A demissão de Portas não foi o grande gesto que toda a gente por aí gabou. Nem ele, nem Nobre Guedes, nem Pires de Lima querem perder quatro anos em S. Bento, à frente de um PP moribundo e supérfluo.
No PSD, como se esperava, o formigueiro anda agitadíssimo. Há uma candidatura que parece, em princípio, razoável, a de Marques Mendes. Mas também há uma pequena multidão que se atropela para apanhar uma fatia do bolo; ou bolos, se contarmos com a Presidência e as câmaras. Não interessa muito seguir as tortuosidades da coisa. Depois da coligação e de Santana, o PSD precisa principalmente de uma política. Se ninguém a definir e a impuser, a barafunda continua, com o partido a cair de crise em crise e de chefe em chefe. Não chega dizer que o PSD rejeita agora o populismo e volta, como deve, à social-democracia. Esta banalidade e meia mentira não leva a parte alguma. Social-democrata é o PS, social-democrata é a "Europa"; social-democrata é hoje o Estado e o regime. O PSD não pode ser só essa etiqueta vácua. Infelizmente não se vê bem o que ele pode ser. Santana e a coligação desacreditaram a reforma "liberal", que o país pedia (e pede), com uma irresponsabilidade absoluta e uma derrota taxativa. Recuperar desse desastre exige tempo, paciência e paz doméstica, ainda por cima numa altura em que o partido vive obcecado com uma desforra rápida e a hierarquia (como Menezes prova) se dissolveu. O PSD balança entre uma "regeneração" difícil (sobretudo com aquele grupo parlamentar) e uma trapalhada endémica. E, por enquanto, não se percebe o fim da história.

Olha aí

O Insurgente. Transferências? Milionárias. Regressos? Incontornáveis.

Evocação do mestre


Sobre o filme...

...não estou, para já, em condições de dizer mais nada. Vi-o ontem, pela primeira vez. Oito horas antes de um grande momento de justiça no Kodak Theatre.


Já agora Um Porquinho Chamado Baby (aviso que estou irritado)

Baby por Hotel ou Baby por Babe, venha o diabo e escolha. O biltre confessa, em registo sobejamente conhecido (tão louquinho, não é?), que não gostou do Lost In Translation. Ou, eufemisticamente (desculpem, a palavra não existe), não lhe terá «enchido as medidas» (medidas que se adaptam diariamente a receber, por exemplo, três tacinhas de arroz-doce ao piqueno-almoço). Pelos vistos, o Million Dollar Baby (ou Hotel, ou Babe ou o raio que o parta) também não. Diz que há por ali “três ou quatro cenas emocionalmente loja dos trezentos”(sic). Grave. Quais, não diz. Em compensação, mostra-se na disposição de se «vender» a um filme onde, ao menos, se “gastou muito dinheiro”(sic).

Coerente. O que é uma loja dos trezentos ao pé da Hermès-Chiado? Ou da Ralph Lauren na New Bond Street? O que é a lágrima cabotina e piegas de Hilary Swank quando Clint lhe diz “sangue do meu sangue”, quando comparada com três ou quatro esgares do maluquinho do Hughes interpretado por esse portento chamado Di Caprio? Nada. Sim, o que são aquelas vidas gastas, aqueles sacos usados (humanos e não só), aquele ginásio seboso e decrépito ao pé de um «espe-cta-cu-lar!» (à lá Nuno Fernandes Thomaz) acidente de aviação a rasgar paredes? Nada. O que são aquelas representações contidas, irremediavelmente humanas e caras-de-pau, junto ao glamour ofuscante e larger than life das personagens de The Aviator? O que é aquela cara sulcada e sofrida de Eastwood ao lado da cara rabinho-de-bébé de Di Caprio? Uma ninharia.

"Está bem abelha"? Está bem, abelha. Digo-te: comparar o filme de Eastwood (que é uma obra-prima, sim, e com isso não melindramos um milímetro que seja os Perfect Worlds do nosso contentamento) ao The Aviator, é o mesmo que comparar a elegância, a classe e a discrição do smoking de Clint (provavelmente já usado) à farpela brand new que o Johnny Depp envergava ontem à noite (trezentas e noventa e duas vezes mais cara e mil e quinhentas vezes mais in). Acresce que, como diria o Anacleto Louçã (também tenho direito à minha demagogiazinha, se faz favor), tu não sabes o que é o «sorriso de uma criança». Ó pedantezinho! (não há maneira, não).

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

15 dicas para ser um bom Esquerdista*

Numa altura em que o país virou à esquerda (mentira, não virou nada), aconselho a leitura de um livro. O dito foi-me ofertado pelos bons amigos Jorge e Maria (dois esquerdistas às direitas) por altura do meu aniversário. A capa (uma foto do amigo Che) e o título* não podiam ser mais enganadores. Editado pela Hugin e da autoria de Jamie Glazov (Ph.D. em História, especialista em Estudos Soviéticos), este pequeno livro prende-nos logo a partir da primeira página, carregado que está de uma ironia avassaladora e de um sentido de humor raro. Os capítulos, em jeito de ‘dicas’, apontam o caminho:

DICA 1 – A culpa não é sua: é da sociedade.
DICA 2 – Odeie o Capitalismo: politize a sua raiva.
DICA 3 – Seja um socialista, mas não diga que é.
DICA 4 – Pense em classes e outros inimigos odiosos, como género e raça.
DICA 5 – Odeie a América.
DICA 6 – Odeie a Civilização Ocidental.
DICA 7 – Rejeite a livre vontade
DICA 8 – Faça-se mártir
DICA 9 – Mantenha um fosso entre as suas convicções e os seus actos.
DICA 10 – Coloque-se num plano moral superior.
DICA 11 – Nunca assuma responsabilidades pessoais.
DICA 12 – Reprima as emoções.
DICA 13 – Jogue futebol de esquerda.
DICA 14 – Vá a manifestações.
DICA 15 – Deseje morrer.

Como se pode ler a propósito do autor, Jamie Glazov “aspirou a ser esquerdista, mas falhou redondamente”. Em 1998 escreveu este pequeno tratado no qual, em pouco mais de noventa páginas, reflecte sobre as contradições e a hipocrisia de um certo ideário esquerdista, cujo modus operandi e cujas cosmovisões conduziram ao fracasso da empresa levada a cabo por Glazov. O livro é particularmente fulminante para com os Louçãs e Rosas que por aí pululam: os tais que, do alto da sua superioridade moral, costumam passear-se dentro de sapatinhos Lotusse nos restaurantes mais in da capital depois, claro está, da salvífica jornada de luta em nome do «povo» (que eles, no fundo, abominam). Atinge também os que, deglutindo avidamente o leitinho da mansa loba Ocidental, não se coíbem de a vergastar no minuto seguinte, em nome, por vezes, de monstros que nem sequer o permitiriam. E não deixa de apontar baterias para os denominados jovens «revolucionários», que se julgam detentores da verdade e abusam das lunetas que transfiguram o mundo num filme a preto-e-branco, em que só constam bons e vilões. Eis um pequeno excerto:

”É muito importante começar por um profundo sentimento de alienação em relação à sociedade e, simultaneamente, total cegueira para as causas reais dessa alienação. Primeiro, mantenha uma atitude superior para com os vulgares desejos e negócios humanos. Ambos são governados por uma «má consciência» que será removida quando as coisas forem organizadas como deve ser. Ao mesmo tempo, nunca olhe para o seu passado ou tente perceber a sua pouca capacidade para se relacionar com as outras pessoas. Não pergunte porque é que quase todos os esquerdistas que conhece nunca «alinharam» normalmente, na adolescência, com os seus ou as suas iguais. Não se questione sobre o que terá provocado este desenvolvimento separado, ou o efeito que ele teve nas suas maneiras de ver.
Ignore que os humanos estão indefesos quando crianças. Em vez disso, lembre-se da observação de Rousseau: «Os homens nascem livres». A sociedade é que os acorrenta.”(…)

“Mostre-se frustrado e oprimido. Não avalie o que você realmente sofreu, em comparação com outras pessoas no mundo.
Minimize a realidade de - em termos de oportunidade educacional, posse de bens de consumo e acesso a assistência médica – você estar entre as pessoas mais felizes do planeta. Pense que sofrer é relativo. Diga: «Sim, há pessoas presas em Cuba, e torturadas por discordarem politicamente, mas eu sou brutalizado pelas séries televisivas americanas».”(…)

“Acredite firmemente que você é um grande revolucionário e o epicentro da luta mais decisiva e importante da História da Humanidade. À medida que os anos forem passando e a vida, devagar, mas segura e tragicamente, começar a ensinar-lhe que você é um pequenino microcosmo no universo, comece o processo de depressão. Quando as suas convicções já não puderem resistir às realidades deste mundo que lhe saltam à vista, introverta-se e sinta monstruosidades interiores. A solução-chave, aqui, é não permitir que isso leve a uma auto-reflexão honesta. Se isso acontecer, então, a depressão nervosa será uma bênção disfarçada, porque nessa altura poderá iniciar a fuga à negação de si próprio e, gradualmente, começar a viver a sua vida. Isso está fora de questão. Continue centrado nas estruturas sociais impostas e interprete a sua angústia mental em termos políticos. Faça do capitalismo o seu bode expiatório. Desse modo, aumentará o seu desespero de afastamento. Isso é bom. Seja um bom esquerdista.
Sobretudo, imagine que só você – e talvez mais um ou outro bom esquerdista – possui um grande segredo, algum profundo saber pessoal. Concentre-se, então, na «justiça», mas faça-o como se aqueles que não concordam consigo não a quisessem. Não fique tão preocupado em investigar a verdade como em proclamá-la. Fale aos outros como se fossem uns falhados. Coloque-se num plano moral superior.”(…)

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Devendra Banhart: génio

Check it out!. Ligações para Devendra: 1 2 3




PS: é de referir que o biltre nunca tinha ouvido falar.

Leitura recomendada


Mais um grande momento de humor

Ontem, no programa Quadratura Do Círculo, José Magalhães, do PS – repito, do Partido Socialista – disse que o PS tinha iniciado em Portugal um «choque ético». Atentem na junção de «Partido Socialista» com «Choque Ético». Atentaram? Não é de morrer a rir?

O precedente

Não se trata de defender requentadamente o governo de Pedro Santana Lopes. Muito menos de lamentar o seu afastamento, ditado pelo resultado das eleições de 20 de Fevereiro. Parece-me, contudo, curiosa, para não dizer perturbante, a forma como muita gente diz, agora, que “Sampaio estava certo em ter dissolvido a AR porque, como prova o resultado eleitoral, o povo estava com ele”. O inefável José Magalhães já o repetiu até à náusea. Miguel Sousa Tavares também. Mas poucos foram os que, até à data, repararam no, ou quiseram aprofundar o precedente que se abriu (Rui Ramos foi, até agora, quem mais reflectiu sobre a questão). A decisão de Sampaio, baseada em pressupostos não inteiramente tangíveis e objectivos, não deixa de perigosamente evocar a tese segundo a qual a «verdadeira» soberania do povo está na «rua», e não propriamente (representada) no Parlamento, como se a composição deste tivesse resultado de um sufrágio simbólico ou truncado (ou, no limite, de um embuste), logo passível de ser desvalorizada ou menosprezado pela «realidade». Dito de outra forma, a decisão de Sampaio veio dar ênfase à ideia de que a opinião pública - corporativa ou unipessoal - e a opinião publicada devem ser levadas na exacta medida da de uma vontade expressa plebiscitária - informal mas a espaços vinculativa – que poderá, ou deverá, influir em decisões «maiores» sempre que a «rua», ou o «país eleitoral», deixe de coincidir com o espectro político-partidário presente na Assembleia da República, mesmo quando nesta subsista uma estável maioria parlamentar.

Agora, imaginemos que Sócrates resolve, como pretende, pôr mãos à obra, avançando com medidas reformistas «verdadeiramente» (advérbio recorrente no Sr. Eng.) austeras, incómodas, impopulares, sobretudo para o eleitorado de esquerda. Vamos supor que, revoltados com tamanha traição, o PC via sindicatos e o BE via «sociedade civil» (Fernando Rosas já o ameaçou), incendeiam a rua. Vamos, também, supor que os media (com a TVI como timoneira) e as sondagens dão conta de um país insatisfeito - miserável, carenciado, revoltado com a «crise» - e de um governo cuja imagem se vem deteriorando. A pergunta impõe-se: o próximo Presidente da República, cuja cor política pode, por exemplo, ser diferente da do governo, deixará de pensar no precedente?

E um pouquinho mais de discrição?

Eu não sei se ele o disse, mas se o não disse insinuou-o. Marques Mendes (Pacheco Pereira bem pode achá-lo «corajoso» mas, convenhamos, é um candidato que resvala para a mediocridade) pretende virar o PSD «à esquerda» e «reconquistar o centro» (se resultou com Sócrates, só pode resultar com Marques Mendes). Não é só absurda esta mania dos candidatos a lideres partidários anunciarem publicamente ao que vão e como o pretendem fazer. Anunciar estratégias partidárias desta forma acaba sempre por denotar um afectado grau de tacticismo – revelador de eventuais imposturas ou dissimulações - e alguma imprudência. Mas eles é que sabem. Consta que os partidos passaram a ter de se «abrir» à sociedade.

Degradação moral

Ontem, pela primeira vez, dei entrada num ginásio de musculação.

Beck is back


Parabéns, pá!

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Épi barsedei!

O Marretas alcançou a provecta* e linda idade de dois anos. Cheers!

*adj. que está adiantado; que tem feito progresso; consumado; abalizado; adiantado em anos.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

E o....

Não se estarão a esquecer de Jerome K. Jerome?

Bom, extraordinariamente* bom



* Bem, no caso de Oldham não é nada de extraordinário. É habitual.

Hip hip, hooray!

Ontem assisti a um momento único na têvê. Único de tão bizarro. O pobre do Sérgio Figueiredo tentava explicar essa coisa chata da escassez de recursos e meios, e também o facto de Portugal ter abraçado um modelo social e económico liberal, à imagem do Europeu, quando foi abruptamente interrompido pela Sra. Dona Odete Santos, mais o seu ar de actriz Brechtiana, para dizer uma coisa extraordinária: (parafraseando) “esse pensamento é muito fechadinho porque já um economista capitalista chamado Keynes nos ensinava que as pessoas têm é que ganhar mais porque se não ganharem mais não há dinheiro e a procura interna e a produção vêm por aí abaixo e morremos todos e tal” (da falta de inflação, certamente). Ainda não refeito do susto, eis que o publico aplaude, em apoteose, a intervenção da Sra. Dona Odete. E o Sérgio encolheu os ombros, como que a dizer “não vale a pena, pois não?”.

Faço, por isso, daqui um apelo ao Sr. Eng. Sócrates e aos empresários deste país. Ao Eng. Sócrates peço-lhe o favor de aumentar o salário mínimo para, sei lá, 1.000 euros. Que trate também da imediata convergência das pensões (vá lá, imediata não... daqui a seis mesinhos para não ser tudo a correr). Aos empresários deste país, apelo para que aumentem os salários, já em 2006, cerca de (um momento, por favor, enquanto faço as contas sob a doutrina Odete)… 50%. Mais coisa, menos coisa, deixemo-nos de picuinhices. Mas, atenção!: a excepção vai direitinha para os cargos de direcção e de administração. Essa canalha passará a ganhar metade do que aufere agora. E pronto. É só esperar para ver a procura a subir, o tecido empresarial a crescer, a produção a disparar, e, convenhamos, um tirozinho na fonte também pode, eventualmente, vir a ser disparado.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

O povo é quem mais ordenha

Da ordenha resultou que o país virou à esquerda. No caso do PS, mais por reacção do que propriamente por convicção. O centro virou à esquerda não só por Sócrates lhe ter declarado o seu amor (fazendo passar uma imagem de homem de esquerda tolerante, comedido e «moderno», com ténues laivos de socialismo), mas sobretudo por reacção à nódoa ‘PSL’. Passada que está a campanha e a noite eleitoral, é bom que nos entendamos: Sócrates é um vazio (o seu discurso de vitória ficará na história como um dos piores de sempre) e uma incógnita (ninguém, até à data, sabe o que vai sair dali). Mas o povo sempre preferiu o vazio e a incerteza - embriagado na monocórdica e repetitiva ladainha da «esperança» e da «confiança» – a ter de perpetuar no poder os que, de trapalhada em trapalhada, ficaram colados aos terríveis tempos de «crise». Como responsáveis ou impotentes. Com uma «massa» insatisfeita - que assistiu ao fim de certos privilégios e benefícios e escutava já os ecos de uma eventual cura de emagrecimento do Estadão - não se brinca.

À direita, Santana Lopes foi claramente castigado. Mas o castigo de nada, ou pouco, lhe serviu. O facto de Santana Lopes não ter tido a lucidez, a humildade e o bom senso de apresentar a sua demissão sem mais delongas, não augura nada de bom. Vêm aí tempos de convulsão no PSD e é bom, desejável e necessário que os que, no passado recente, a coberto da sombra ou à luz do dia, criticaram Santana Lopes, se apresentem agora ao serviço (e não, não me refiro a Marques Mendes). É mais do que provável que Santana Lopes pretenda, com o congresso extraordinário, agarrar-se ainda à liderança (ensaiando o já conhecido número do Calimero) e, en passant, lavar roupa suja. E que suja que está a roupa.

O Bloco de Esquerda, como era de esperar, mais do que duplicou a votação. A explicação é simples e não há que perder tempo com explicações ontológicas. Ao velho ditado “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão” é só acrescentar uma constatação que começa a ser recorrente nas sociedades ocidentais: a demagogia e o mais reles moralismo, em tempos de cólera e de agitação, colhem sempre dividendos. Nesse sentido, há que tirar o chapéu a Louçã: para além de «passar» bem na televisão, o líder do Bloco foi um exímio batedor dos que, não se revendo num «sistema» que alberga o temível establishment de «chupistas» interesseiros que se deixam corromper e maniatar pelo «grande capital», provavelmente ficariam em casa.

No CDS, Portas anunciou que vai para casa. A diferença entre o discurso dos dois derrotados (Santana e Portas) espelha bem a diferença abissal de carácter entre estes dois «animais» políticos. Portas soube sair com total dignidade. Santana não. Wishful thinking: pode ser que regresse ao jornalismo...

Por último, uma palavra para o «simpático» Jerónimo de Sousa que, sem saber muito bem como, conseguiu inverter a tendência negativa do Partido Comunista. Os portugueses sempre apreciaram a presença de «um dos nossos» nestas andanças. De resto, pode sempre concluir-se que, por vezes, ou quase sempre, mais vale ficar calado.

PS: Querida Isabel Goulão: esperemos que não seja como uma nódoa de ameixa.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

2 aninhos

Incontornável, perene e exquisite Intermitente: parabéns, pá!

Leva daqui um grande abraço do Mac. Cheers!

Francis

Devo, contudo, acrescentar: é o Sinatra quem me tem salvo. Ele e o Gershwin, o Porter, o Berlin, o Mercer…

It hasn’t happened yet

(William Shatner/Bem Folds)
I was crossing the snowfields in front of the Capitol Building
It was Christmas and I was alone
Strange city
Strangers for friends
And I was broke
As the carillon sang its song, I dreamt of success
I would be the best
I would make my folks proud
I would be happy
It hasn’t happened yet

Yes, there are nods in my direction
Clap of hands
A knowing smile
But still
I’m scared again
Foot slipped
Pebbles fall and so did I, almost
(I’m high) on Yosemite, the big grey wall (fear of falling)
Where to put my foot next (fear of failure)
I’m afraid I’m gonna fall (be at one with the mountain)
I whispered in the air
(fear of falling, fear of failure, fear of losing my hair, falling)
When is the mountain scaled?
When do I feel I haven’t failed?
I’ve got to get it together man
It hasn’t happened yet
It hasn’t happened yet
It hasn’t happened

People come up and say hello
Okay, I can get to the front of the line
But you have to ignore the looks and yet
I’m waiting for that feeling of contentment
That ease at night when you put your head down
and the rhythms slow to sleep
My head sways and eyes start awake
I am there not halfway between sleep and death
but looking into eyes wide open
Trying to remember
What I might have done
Should have done
At my age I need serenity
I need peace
It hasn’t happened yet
It hasn’t happened yet
It hasn’t happened yet
It hasn’t happened

Eleições?

E agora para algo completamente diferente. Do grande Tennyson:

Nothing Will Die
When will the stream be aweary of flowing
Under my eye?
When will the wind be aweary of blowing
Over the sky?
When will the clouds be aweary of fleeting?
When will the heart be aweary of beating?
And nature die?
Never, oh! never, nothing will die;

The stream flows,
The wind blows,
The cloud fleets,
The heart beats,
Nothing will die.

Nothing will die;
All things will change
Thro’ eternity.
‘Tis the world’s winter;
Autumn and summer
Are gone long ago;
Earth is dry to the centre,
But spring, a new comer,
A spring rich and strange,
Shall make the winds blow
Round and round,
Thro’ and thro’,
Here and there,
Till the air
And the ground
Shall be fill’d with life anew.

The world was never made;
It will change, but it will not fade.
So let the wind range;
For even and morn
Ever will be
Thro’ eternity.
Nothing was born;
Nothing will die;
All things will change.


All Things Will Die
Clearly the blue river chimes in its flowing
Under my eye;
Warmly and broadly the south winds are blowing
Over the sky.
One after another the white clouds are fleeting;
Every heart this May morning in joyance is beating
Full merrily;
Yet all things must die.
The stream will cease to flow;
The wind cease to blow;
The clouds will cease to fleet;
The heart will cease to beat;
For all things must die.
All things must die.
Spring will come never more.
Oh! vanity!
Death waits at the door.
See! our friends are all forsaking
The wine and the merrymaking.
We are call’d – we must go.
Laid low, very low,
In the dark we must lie.
The merry glees are still;
The voice of the bird
Shall no more be heard,
Nor the wind on the hill.
Oh! misery!
Hark! death is calling
While I speak to ye,
The jaw is falling,
The red cheek paling,
The strong limbs failing;
Ice with the warm blood mixing;
The eyeballs fixing.
Nine times goes the passing bell:
Ye merry souls, farewell.
The old earth
Had a birth,
As aal men know,
Long ago.
And the old earth must die.
So let the warm winds range,
And the blue wave beat the shore;
For even and morn
Ye will never see
Thro’ eternity.
All things were born.
Ye will come never more,
For all things must die.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

That's me trying

Yeah, right...

Assunto sério

Esqueçam tudo o que escrevi sobre discos em 2004. O disco do ano de 2004 foi este . E não se fala mais nisso. Não admito mais conversa.


Grandes invenções do séc. XX

Fraldas descartáveis, folhas de cálculo, agrafadores, Francisco Louçã.

E pronto, aconteceu

A Mão Invisível tornou-se visível.


quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Esta música não me sai da cabeça

Na voz de... Vocês sabem quem. "Na voz" já diz tudo.

You Go To My Head
Words & Music by Haven Gillespie & J. Fred Coots
You go to my head
You go to my head,
And you linger like a haunting refrain
And I find you spinning round in my brain
Like the bubbles in a glass of champagne.

You go to my head
Like a sip of sparkling burgundy brew
And I find the very mention of you
Like the kicker in a julep or two.

The thrill of the thought
That you might give a thought
To my plea casts a spell over me
Still I say to myself: get a hold of yourself
Can't you see that it can never be?

You go to my head
With smile that makes my temperature rise
Like a summer with a thousand Julys
You intoxicate my soul with your eyes
Tho I'm certain that this heart of mine
Hasn't a ghost of a chance in this crazy romance,
You go to my head.

O homem que se recusa a usar gravata

O homem que se recusa a usar gravata não conseguiu esconder a sua desconfiança patológica relativamente às empresas, aos empresários, à «banca», ao «capital». O homem que se recusa a usar gravata não conseguiu sonegar o facto de, recorrentemente, ter pesadelos com banqueiros anafados, de charuto na boca e dólares a transbordar dos bolsos, que impiamente espezinham a ralé. Não é de admirar: para o homem que se recusa a usar gravata, a palavra ‘lucro’ é anátema. É sinónimo de «exploração», de uns viverem «à custa» de outros, de «privilégios» inauditos e imorais. Daí que o homem que se recusa a usar gravata tenha anunciado, à boca grande, perante o (seu) «povo», os lucros da «banca». Meu Deus!: milhões de euros, enquanto, ali ao lado, os pobrezinhos e os toxicodependentes definham sob a pata do «grande capital»? Não pode ser. Queriam provas? O homem que se recusa a usar gravata mostrou-as: os banqueiros anafados do Santander receberam uma «isenção». Horror! Escândalo! O eleitorado do homem que se recusa a usar gravata bramou “O que seria de Portugal sem este justo?” Os mais incautos pensaram “Só este homem levanta a voz contra os ricos!” É claro que, como é seu hábito, o homem que se recusa a usar gravata não contou tudo. Não podia. Não explicou, por exemplo, que esta «isenção», que surgiu da sua boca como uma intrujice, está prevista na lei. Que é praticada há anos. Que é tema estafado. Não explicou que há muito que se espera a prorrogação do regime de isenção previsto para os processos de reorganização empresarial. Uma medida da mais elementar sensatez.

(O Decreto-Lei nº 404/90, de 21 de Dezembro, estabelece um conjunto de incentivos fiscais para empresas que procedam a actos de cooperação ou de concentração, como por exemplo os processos de fusão ou cisão, que na maior parte dos casos implica a transmissão de imóveis entre as empresas envolvidas, logo sujeitas, à partida, a IMT (ex-sisa), e a imposto de selo à taxa de 0,8%. Este benefício vem, aliás, no seguimento do regime de neutralidade fiscal em sede de IRC previsto para as fusões, cisões e entradas de activos. Medidas que incentivam a reorganização e reforçam a competitividade das empresas e grupos (para mais explicações, dar um saltinho aqui).)

A seguir, o homem que se recusa a usar gravata insinuou, com aquela voz grave e grávida de certezas, que as empresas que declaram sucessivamente prejuízo são guarida de vigaristas e salafrários, que sugam o dinheiro do Estado – por via dos subsídios ou dos benefícios fiscais – para, depois, se amanharem clandestinamente. Que deviam, por isso, ser investigados. Com mais esta explicação, o homem que se recusa a usar gravata já não escondia o caminho: Albânia forever!.

Ao homem que se recusa a usar gravata não se lhe afigura possível haver empresas que tenham prejuízo porque - segue momento Lili Caneciano - os custos suplantam os proveitos. O homem que se recusa a usar gravata não quer perceber, ou quer fazer do seu «povo» um bando de ignaros, que uma conjuntura adversa - aliada, ou não, à eventual incapacidade de certos empresários (são os que temos...), ao inicio de um novo ciclo de actividade ou a uma reestruturação do negócio - pode empurrar as empresas para o campo dos resultados negativos. O homem que se recusa a usar gravata não percebe, por ignorância ou estupidez, que as empresas podem dar prejuízo e, mesmo assim, sobreviver durante alguns anos – pagando inclusivamente ordenados - sem que isso seja sinónimo de aldrabice. Qualquer aluno de gestão ou economia percebe a diferença entre Fluxos Operacionais e Resultados Operacionais.

Não, o homem que se recusa a usar gravata não se comove. Porque o homem que se recusa a usar gravata, para além de ser um idiota da objectividade, está-se marimbando para tudo isto. Condição, aliás, sine qua non para quem um dia resolveu abarcar a profissão de justiceiro moralista com a de demagogo de serviço.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Efeméride

Há precisamente um mês e quatro horas que o nosso Homem a Dias publicou o seu último post. Ao que isto chegou.

Volta, Alberto. Estás perdoadíssimo! (do quê, não sei)

Tudo

Com a devida vénia, reproduzo o poema de James Doherty (poeta irlandês), publicado no Tradução Simultânea, do meu caro Nuno Miguel Guedes. Sim Nuno, está lá tudo.

I’d Swear For Her
I'd swear for her,
I'd tear for her,
The Lord knows what I'd bear for her;
I'd lie for her,
I'd sigh for her,
I'd drink Lough Erne dry for her;
I'd 'cuss' for her,
Do 'muss' for her,
I'd kick up a thundering fuss for her;
I'd weep for her,
I'd leap for her,
I'd go without any sleep for her;
I'd fight for her,
I'd bite for her,
I'd walk the streets all night for her;
I'd plead for her,
I'd bleed for her,
I'd go without my 'feed' for her;
I'd shoot for her,
I'd 'boot' for her,
A rival who'd come to suit for her;
I'd kneel for her,
I'd steal for her,
Such is the love I feel for her;
I'd slide for her,
I'd ride for her,
I'd swim against wind and time for her;
I'd try for her,
I'd cry for her,
But - hang me if I'd die for her
Or any other woman!

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Cuidado


Deus nos salve

Ainda não consegui perceber se José Sócrates é um hipócrita, um ingénuo ou um ignorante quando se dispõe a proferir certo tipo de afirmações com o ar mais sério e convicto do mundo. A plasticidade do seu discurso não dissipa as dúvidas. A forma como insulta a inteligência alheia amplifica-as. Repare-se na forma como Sócrates continua a observar, à distância, o consulado guterrista, ao ponto de estupidamente glorificar, sonegando a verdade, o exercício de governação de um executivo que conseguiu a inédita façanha de conciliar uma nefasta mistura de irresponsável utilitarismo Benthamiano, com o facilitismo de um neo-socialismo de terceira via requentado, que mais não fez do que conduzir o país ao consumo desenfreado sob a ilusão de que tudo eram rosas e de que o Estado, essa entidade maravilhosa, estaria sempre disponível para aparar os espinhos.

Eu não queria voltar a ver Santana Lopes em São Bento, mas tremo de pensar que a cadeira de primeiro-ministro está prestes a ser ocupada por um homem que diz, repito, com o ar mais sério e definitivo do mundo, que “[n]o Governo de António Guterres nós sempre tivemos um desempenho melhor que os outros”(sic) e que na era guterrista “[nos] aproximámos; agora regredimos relativamente à Europa”(sic). Não sem antes, repare-se, mandar às malvas essa coisa chata dos “ciclos económicos”.

Deus nos salve.

Yes, Minister

Fala-se muito em Portugal (falamos muito, não é?) do peso do Estado na economia; da deriva empregadora da Administração Pública no Portugal democrático; da forma como a burocracia em Portugal continua a remeter o incauto cidadão para sucessivos Catch-22 ou a transfigurá-lo em figurino Kafkiano; da total displicência organizacional e da atávica letargia nos serviços públicos (hospitais, tribunais, finanças, etc.). E por aí fora. Há muita gente, de facto, a falar mas, no fundo, pouca gente convencida. A causa está longe de reunir adeptos. De singrar, então, é melhor nem falar. Não é de admirar: a maioria dos que emudecem ou assobiam para o lado são filhos do «sistema». Servem-no com devoção e exigem dele total protecção. Inclusivamente contra a sua própria mediocridade e o seu militante amorfismo. Há quem culpe as chefias e poupe as «bases», esquecendo que, por via de um acéfalo carreirismo, as chefias já foram «bases» e que apenas se limitam, agora, a legitimar a manutenção do «sistema». Do mesmo «sistema» que os criou e ajuda a sustentar. Que nunca os incomodou ou os chamou à pedra. No meio de tudo isto, dá para imaginar o ensurdecedor “olhó qu’este queria…” de cada vez que alguém «de fora» ousa perturbar o calmo e ordeiro servicinho.

Vem isto a propósito de um episódio da mítica e sublime série Yes, Minister: Equal Opportunities. A propósito da questão da paridade Male/Female na Administração Pública (uma questão macguffin no contexto do epísódio), este episódio é um verdadeiro tratado sobre disfunção, imobilismo, inércia e marasmo em sede de funcionalismo público. À excepção do Dr. Louçã e do Sr. Jernónimo (nesta matéria nada os move ou comove), o engenheiro, o animal político e o guerreiro menino deviam ser obrigados a visionar este episódio até que ele deixasse uma marca indelével, já não digo no cerebelo, mas pelo menos na testa. Para que, por exemplo, pela manhã, sempre que se olhassem no espelho, se lembrassem do que há para fazer. A não ser, claro, que se chegue à conclusão de que somos e temos o que merecemos. Ou vice-versa. Nesse caso...

Lembrando as palavras de Jim Hacker: "The three articles of Civil Service: 1) It takes longer to do things quickly; 2) It’s more expensive to do them cheaply; 3) It’s more democratic to do them in secret."


Lapsos Freudianos?

(via email)

Por que será que os apoiantes do PS (jornalistas incluídos) acham que apresentar a fotografia de antigos governantes do PS e colocar a pergunta “Você quer mesmo que eles voltem?” é fazer campanha negativa?

Fernando Gomes da Costa

Os colos e os travestis

(via email)

A exemplo de qualquer bom cidadão, intelectual, comentador ou político, ou mais ainda dos esclarecidos pensadores que virtuosamente acumulam esses atributos, sou totalmente contra a utilização de aspectos da vida privada, nomeadamente orientação sexual ou religião, no processo de escolha política ou de qualquer outra função pública.

A única diferença em relação a muitos deles, e convenhamos que não é pequena, é que esta minha posição não varia conforme o sector ideológico de quem acusa ou é acusado. Basta lembrar, por exemplo, que muitos dos indignados de última hora ainda há pouco tempo ficavam indiferentes ou mesmo activamente aplaudiam o afastamento do senhor Buttiglione devido às suas convicções religiosas, faziam piadas sobre a faceta playboy do Primeiro Ministro ou assobiavam para o lado quando o socialista Carlos Candal acusava o “lobby gay” (atacando Paulo Portas) de dominar a política.

No meio de tudo isto há no entanto um aspecto, mais sócio-cultural que politiqueiro, que é interessante salientar:

Reparem que ninguém se incomoda por aí além com a prática corrente e antiga de se fazerem acusações mútuas sobre aspectos relevantes da personalidade dos intervenientes políticos. Insinuar ou mesmo classificar os adversários como desonestos, incompetentes, vigaristas, tiranos, estúpidos, ou até como inimputáveis, palhaços, e intelectualmente diminuídos, são moeda corrente no discurso político, em comícios, discursos na Assembleia, declarações e escritos nos média. Não sei se por hábito, se por enfiar a carapuça, ninguém se indigna com o facto, sem bem que ultimamente com a curiosa e púdica excepção de isso aparecer nos “outdoors”. Provavelmente esta ressalva é devida à eterna mentalidade burocrática que nos anima. Afinal cartaz é cartaz, e o que lá está escarrapachado fica em documento escrito para a posteridade.

No entanto, com ou sem “outdoor”, a alusão a situações que não são de modo algum insultuosas nem negativas, mas onde o preconceito está mais presente, causa de imediato um clamor inusitado. Lembro a menção à deficiência física de Sousa Franco (“um senhor que usa óculos esquisitos”) e a mais actual referência aos “colos”, interpretada como remoque à eventual homossexualidade de um candidato.

Note-se que em ambos os casos nunca houve a implicação de causalidade “tem esta característica, logo não pode exercer o cargo” mas apenas a mera e neutra insinuação de que essa característica existirá, esperando (e aí estará a baixeza do procedimento) que o impacto disso nas mentalidades mais retrógradas tenha efeitos eleitorais.

O mais lamentável é que essa postura preconceituosa de um significativo sector da população acaba por ser poderosamente reforçada pela reacção de quem, em outras alturas, passa vida a exibir-se contestando a discriminação e a apelar (bem) à aceitação de condições como a homossexualidade ou handicaps físicos ou psíquicos como algo de natural e a respeitar.

Na verdade, em ocasiões em que a indignação dá mais votos (ou em que os instintos básicos vêm à superfície) esses mesmos timoneiros da modernidade acham que rotular alguém com esses atributos é “insultuoso”, “porco”, “difamante”, “baixo” e muitos outros epítetos similares que agora se podem ler e ouvir todos os dias. Mesmo a principal reacção dos atingidos é geralmente dizer que são boatos falsos, como quem afasta uma peçonha. A própria dimensão do alarido, que não mereceria mais que o desprezo dado a um fait-divers, só é possível num país onde afinal os indignados têm uma abertura de espírito muito longe do que apregoam, acabando por ser eles próprios a sugerir que a homossexualidade ou outras divergências da norma não parecem ser assim tão aceitáveis.

Ao fim e ao cabo, estes dias têm demonstrado claramente que o verniz politicamente correcto de muito bom neo-moralista pós-moderno, não passa frequentemente de um moralismo balofo travestido (e aqui travesti não é insinuação).

Fernando Gomes da Costa
Médico, sexólogo

sábado, fevereiro 12, 2005

Strangelove

- Olhe, se faz favor, era um Kubrick vintage, da melhor safra, para esta longa noite. Gelo? Não precisa, obrigado. Água? Você disse "água"? Do you want to impurify all of my precious bodily fluids, you scumbag!?

(O script, todinho, aqui)



PS: Zazie!

Parabéns, Zé Mário!

A pequena Alice chegou ao mundo. E o pai babado já grita: é linda! é linda! Parabéns aos pais. Felicidades para todos, neste país da maravilhas.


O fim?

O JPT anuncia o fim do Ma-Schamba. Vamos torcer para que não seja verdade. Está bem?

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

As melhoras

ou Epidemia Gripal Invade A Blogosfera

Desta vez, coube ao Pulga. Estimo as melhoras do díptero.

A seguir

Atentamente. O Sinédrio. Para já, directamente para os «cá de casa». Já.

Dr. Santana: vá para casa, está bem?

Aviso à navegação

Não quero, de modo nenhum, estragar a festa aos socialistas e ao país, em geral, agora que se prepara a recepção do novo salvador da pátria, Sócrates de seu nome. Mas não posso deixar de mencionar dois factos que, não tendo a mínima importância, teimam em pairar estupidamente sobre as minhas saturadas meninges.

O primeiro tem por nome Freeport. A notícia hoje veiculada pelo Independente é, no mínimo, interessante. Ao que tudo parece indicar, José Sócrates levou a Conselho de Ministros a decisão de alterar a Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo. Uma decisão polémica, que surgiu talhada à medida de «certos e determinados» interesses económicos. Fê-lo três dias antes das eleições legislativas, já o governo de Guterres estava em gestão. Et pour cause? As decisões referentes ao Freeport (Alcochete) foram todas, repito todas, do mesmo dia: 14 de Março de 2002. Sócrates pode ser bom rapaz e um pouco tímido até (como nos ensina a canção). De acordo. No fundo, somos todos bons rapazes. E, claro, existe sempre aquela coisa da «presunção da inocência». O problema é que este caso lança sérias dúvidas sobre a «verticalidade» e santidade do próximo timoneiro de S. Bento.

O segundo facto, bem mais difuso e subjectivo, tem por base as declarações de Sócrates sobre o facto de Paulo Portas ter dado a conhecer as caras de um eventual futuro executivo. Recorrendo à já notória soberba e arrogância que o tem vindo a caracterizar, Sócrates desdenhou do episódio afirmando tratar-se de pequenas diatribes próprias de «pequenos partidos«(sic). Meras «brincadeiras»(sic) do Dr. Portas. «Eles sabem que nunca serão governo»(sic), rematou o engenheiro. Longe de mim sair em defesa de Paulo Portas, mas aquilo que o PP fez deveria ser consagrado como regra a cumprir escrupulosamente por todos os partidos. O que será mais grave, ou criticável: um «pequeno partido» mostrar as «caras» responsáveis pelas diversas áreas de governação (mesmo sem perspectiva alguma de contituir governo), ou um «grande partido» que nem sequer se digna a informar antecipadamente os eleitores de qual vai ser o possível elenco de um futuro governo de Portugal, como se quisesse esconder eventuais regressos de gente de má memória?

Perfilhar-se-á, no horizonte, um pequeno ditador adepto acidental, ou inocente, do compadrio e permeável aos «interesses»? A ver vamos, como dizia o cego.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Revista à blogosfera

A pergunta que se impõe
Como é que este cinéfilo e ilustre colega blogueiro consegue «cascar» no The End Of The Affair e «gostar tanto» do The Mask Of Zorro? Se ele me disser que é por causa da Catarina, calo-me já.

E duvido que cheguem a perceber
O Bruno escrevia, há dias, a propósito do rapto de uma jornalista iraquiana, que “[a]inda não compreenderam que não há nada de surpreendente com o rapto de alguém que "até foi contra a guerra””. Pois não, caro Bruno. Sérgio Viera de Mello já foi esquecido. A lógica e o alcance do terrorismo não são, nunca foram, o bem estar das suas populações, o desenvolvimento dos países que supostamente representam, retaliações acidentais contra agressões de igual proporção. O terrorismo serve uma lógica enviesada: um misto de ressabiamento ideológico, fundamentalismo religioso e sede de poder. O terrorismo não sai da esteira de um desinteressado grupo de injustiçados anónimos. Não representa um grito de raiva espontâneo.

Responsabilizarei Zeus!
A Charlotte continua enferma. Temo que Zeus não ande a cumprir as suas obrigações.

Manda lá a cassete BASF Fr
“Como isto anda, o Marques Mendes parece-me quase tão bom como”... Tózé Seguro?

Flight of the bumblebee
Neste blogue, tocam agora em simultâneo quatro clips musicais. É obra.

Good stuff, indeed
William Shatner. Bem observado pelo André.

Nem mais
As tuas razões são as minhas razões. Ou, por que razão nunca suportei o Carnaval. Principalmente este, que calhou no dia dos meus anos. Argh!

Coisa mailinda
Via PSA dou de caras com isto.

As melhoras
Ao JAC. Que os micróbios o deixem em paz. Mas isso, claro, não invalida que não tente arranjar um butler. De preferência igual ao que consta no sublime filme que este senhor viu há coisa de dois ou três dias.

Toca a actualizar!

O Rua da Judiaria mudou de casa. Para aqui. Sempre.

Watch out, Condi!

Aniversário

O Picuinhices celebrou dois anos de blogosfera. A coisa difere dos canídeos: dois anos de blogosfera equivale a cinquenta anos (por sorte, a longevidade é bem maior que a dos mortais humanos). Estão por isso de parabéns, os velhos e sábios picuinhas. Cheers!

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Sobre a Direita

(corrigido e aumentado)
Público: Já escreveu que em Portugal se vive um clima em que existe como que uma espécie de superioridade moral da esquerda, remetendo a direita para o papel de alguém que só é chamado para administrar as contas...
Rui Ramos: Esse é um quadro de desequilíbrio político que tem raízes no comprometimento das direitas com o Estado Novo. Isso leva até a que a direita nem se assuma como direita, quando muito coloca-se à direita da esquerda. E também leva a que os partidos de direita não dêem aos seus projectos uma dimensão política e tenham tendência em afirmá-los pela sua dimensão económica. Ora defender o "crescimento" ou o "equilíbrio das contas públicas" é reduzir ao esqueleto económico o que é um projecto político e é um sinal da nossa imaturidade democrática. O nosso sistema político tem imenso medo do confronto. Somos uma sociedade traumatizada pelo confronto, pelo que existe imenso medo que a afirmação de projectos políticos fortes, ideologicamente demarcados, possa resultar numa espécie de guerra-civil. Criou-se o mito de que estamos divididos acerca dos meios mas estamos unidos acerca dos fins. Isso é falso: estamos é divididos acerca dos fins e precisamos de nos entender acerca dos meios. E os meios são os da democracia.


Durante anos, quando me colocavam a sacramental pergunta “és de direita ou de esquerda?”, respondia invariavelmente “sei apenas que não sou de esquerda”. As razões para este understatement?

1. O facto de ter nascido numa época e num país onde estava enraizada uma «cultura de esquerda» de inspiração francófona, cuja marca se fazia notar um pouco por todo o lado (nos jornais, nas academias, nas artes e espectáculos, no milieu onde se movimentava a «inteligência» lusa), contribuiu para uma certa pusilanimidade na hora de assumir partidos e convicções. Quando alcancei a idade da razão, o clima de que falava Nelson Rodrigues, em relação ao Brasil dos anos 60, vivia-se em todo o seu esplendor: só se era intelectual, artista, cineasta, arquitecto, ciclista ou mata-mosquito com a aquiescência da esquerda. Esta «cultura de esquerda» - que evoluiu exponencialmente por via da frenética actividade dos anti-corpos que combateram a ditadura salazarista (paternalista, autoritária e, a espaços, estranhamente socialista) – contribuiu impudicamente para transfigurar o substantivo «Direita» em adjectivo e anátema: a «direita» como a ideologia dos mais fortes contra os mais fracos; a «direita» defensora dos «interesses»; a «direita» precursora do egoísmo contra o comunitarismo; a «direita» apologista do autoritarismo contra a tolerância; a «direita» como receptáculo do espírito «conservador» contra o progresso e a modernidade; a «direita» glacial e insensível, incapaz de um gesto de bondade e de entreajuda. A própria Direita portuguesa também se colocou a jeito: foi a sua corrente autoritária e centralizadora quem mais adeptos agregou em Portugal. Dito de outra forma, os espíritos conservador e liberal que histórica e filosoficamente identificamos nos países anglo-saxónicos, nunca encontraram terreno fértil por terras de Viriato. No séc. XIX, a própria corrente «liberal» era já distinta: olhava-se o Estado como agente preferencial do «progresso» e da «civilização», observava-se a política como um «estorvo», relegada que estava à competição partidária e parlamentar. Convinha, aliás, que assim fosse. As chamadas «forças vivas» da nação – os proprietários, os comerciantes, os agricultores, os industriais – de «vivas» tinham pouco e nem com papas de serrabulho se haviam suscitado quaisquer «forças». O divórcio entre as instituições políticas e o «país real» (o dos «ignaros») estava consumado. O próprio «projecto» liberal - por insuficiente ou idiossincrático que fosse – foi, a partir da segunda metade do século XIX, sujeito a fortes críticas. Lembremo-nos de Oliveira Martins e da sua crítica à nefasta deriva das ideias liberais em torno do «individualismo» e da inconsequente «soberania individual». Lembremo-nos da «vida nova» de João Franco. Com o tempo, os liberais deixaram de ser uma classe política para passar a ser uma classe social. Com a República, praticamente desapareceram. O papel concedido ao Estado - omnipresente e omnipotente – serviu a corrente tendencialmente «autoritária» da praxis política portuguesa. À direita e à esquerda. Os radicalismos fizeram o resto.

2. Como lembrou Jaime Nogueira Pinto, foi a esquerda quem inventou as categorias, distribuiu nomes e contou a história. Eu diria «a sua história». Ao contrário da Direita, a Esquerda foi alvo de um trabalho de genealogia e de catalogação (mediática e não só), que lhe conferiu corpo e notoriedade. Cresci numa época e num país onde o recrudescimento do ideário esquerdista invadira por completo o espectro político-partidário, com reflexos evidentes na chamada sociedade civil. Lembro o que escreveu Paulo Portas em 1992, numa altura em que a ideia de se tornar num político lhe era totalmente avessa: “Devo a Vasco Gonçalves o facto de ser uma criatura irremediavelmente de direita. Olhei para ele e fiquei contra-revolucionário.” Quando se é novo, e à falta de uma educação política, navega-se à vista, com base em convicções mais ou menos difusas, resultantes mais de «reacções» do que «afirmações». Em Évora, cresci com a Esquerda a fazer-se ouvir nas tertúlias, nos cafés, na rua, no teatro, nas capelinhas culturais (faz, aliás, parte da sua génese essa forma de incitação explicita, esse esforço de arregimentar os outros, essa propensão para as causas audíveis e «fracturantes»). Ser de direita, em Évora, significava estar ao lado dos latifundiários preguiçosos e falidos que, envergando patilha farta e bota cardada autoritária, pareciam contrariar as forças «progressistas» e «reformistas», para além, é claro, de comerem ao pequeno almoço os que «trabalhavam a terra». Se o critério fosse esse – o da notoriedade, o do «barulho», o da capacidade de difusão - justiça lhe teria de ser feita: foi profícuo o trabalho dos homens de esquerda na difusão das suas cosmovisões, da sua sensibilidade, dos seus convencionalismos, aliado a uma presunçosa superioridade moral. Bem vistas as coisas, essa «invenção de categorias», e a proeminência do que era um verdadeiro código de tiques, posturas e atitudes, foi essencial na produção de «reacções» e de um crescente cepticismo face às bebedeiras colectivas, às «vagas de fundo» e à acidental passeata. Para o bem e para o mal, a Esquerda era claramente «aquilo». Gente houve, principalmente a mais nova (onde eu humildemente me incluí), que cedo reconheceu que «aquilo» não lhe servia. Desconhecia, contudo, as origens, os princípios e a forma contrária “daquilo”. O que não é de estranhar: autores como Hayek, Oakeshott, Arons, Berlin, von Mises ou Popper, para só falar nos contemporâneos, não pertenceram, durante anos, ao cânone instituído.

3. Há quem advogue, hoje, que a boa e velha dicotomia está morta ou que, no mínimo, já não interessa. Que, afinal, os fins são iguais. Não são. Nunca foram. Mas isso fica para mais tarde.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Conan O'Brien

Com o tempo, a minha admiração por este maluco senhor tem vindo a aumentar desmesuradamente.


Como é possível?

Eu, que passo a vida a falar no The Searchers, acabo por me esquecer deste, que revi este fim-de-semana. Imperdoável é que vos digo.


Very funny, ah ah ah

Caro Jorge: que tal se prestasses alguma atenção ao que se vai escrevendo no campo dos infames? E, já agora, em quem vais votar, jovem?

sábado, fevereiro 05, 2005

Teríamos homem

Desta vez, o Dr. Augusto Santos Silva debruça-se (Público 05.02.2005) sobre os modos de «consolidar» (ou «cumprir») a democracia portuguesa. Segundo o «professor universitário», há por aí «fingimento» a mais na maneira como certos plumitivos se revelam às massas. O Dr. Santos Silva acha que o mal reside na putativa hipocrisia dos que, apresentando as vestes de independentes e imparciais (como é o caso dos jornalistas), não passam de gente engajada com o poder, o partido A ou B, a ideologia X ou Z. Como diria o Dr. Ferro Rodrigues: uma patifaria!

Para inicio de conversa, seria bom que o Dr. Santos Silva reconhecesse que o próprio é um dos que contribui para a confusão. Seria bom que mandasse acrescentar à condição de PROFESSOR UNIVERSITÁRIO com que assina as suas opiniões, o título de "Militante e Dirigente do Partido Socialista”. Para efeitos de «clarificação» só lhe ficaria bem.

Se quisesse continuar a contribuir para o debate de forma correcta e elevada, o Dr. Santos Silva acrescentaria ao elenco dos “casos inqualificáveis”(sic) (onde se limitou a incluir o nome de Luis Delgado) o nome do plumitivo e seu amigo Luis Osório – de longe a figura mais patética na noite do debate entre Santana e Sócrates, ao ponto de fazer de Delgado o mais imparcial dos homens à face da terra.

De seguida, o Dr. Santos Silva falaria na sua trupe: a trupe dos "políticos-no-activo-que-acham-por-bem-botar-opinião-com-o-ar -mais-sério-e-independente-do-mundo", que por estes dias tomou de assalto as páginas de opinião dos jornais e semanários portugueses (salvo raríssimas excepções). Falaria à maneira do Dr. Gomes da Silva: não há país nenhum na Europa onde a promiscuidade entre políticos, dirigentes partidários, jornalistas e redactores, por entre resmas de publicações autoproclamadas «sérias», atinge níveis tão magnificentes. O que talvez explique a ingénua constatação do professor universitário, em jeito de reprimenda, de que “opiniões públicas sobre os conteúdos do debate político são opiniões políticas” e não “apreciações técnicas”. Não me diga?

Por último, apontaria o modelo anglo-saxónico, como aliás o fez timidamente no derradeiro paragrafo da sua crónica, como o mais saudável dos modelos, em que todos assumem o que são e para onde vão. Em prol da transparência e da honestidade intelectual.

Se assim fosse, teríamos homem.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Poor Charlie

Que Zeus te ajude. Melhoras rápidas, querida Charlie de olhos garços. Tal como Atena.

Correio 2

Da colega Ana Albergaria:

"Li o post sobre o dr. Louçã e decidi repartir contigo algumas ideias. Claro que concordo contigo, mas queria ir mais longe. Porque apesar de ter de me encharcar em anti-histamínicos quero falar-te do dr. Louçã tal como o vejo: um injustiçado! Sim senhor. Fazemos-lhe muitas injustiças. Passamos a vida a falar dele e de Trotsky (cheguei a imaginá-los aos dois, de braço dado, com lindas foices na mão a caçar gambozinos nas estepes de Alma-Ata, mas confesso que sou muito dada a sonhos eróticos... ) e está mal. Ele, de Trotsky tem pouco. Ele - até as sondagens o confirmam - é muito mais importante que isso: é um líder nato. Um timoneiro. Só podemos, se quiseremos ser justos, compará-lo a esse grande democrata que foi Josef Vissariovich Djugatchvili, aka Zé Estaline! Não, não tremas. Ainda agorinha ouvi uma publicidade à Grande Reportagem desta semana, na TSF, e o texto é bem explícito: Louçã é o papão da direita! Só um cego não vê o paralelismo, pá. Não é Louçã, tal como o Zé Estaline, um superprotagonista político? Não exerce influência aquém e além fronteiras? Lembra-te sempre da Holanda... Um primeiro entre os demais e mai'nada! A diferença - para já - é que Louçã é um teórico e o Zé foi um rapaz mais pragmático. Mas dá-lhe tempo; dá-lhe tempo!... Faz, comigo, este pequeno exercício: custa-te imaginá-lo, quando o ouves ou lês, a participar na revolução bolchevista de 1917? E a patrocinar umas fériazitas na Sibéria? Imaginar que, por ordem sua, milhões (poucos porque Portugal só tem 10) de compatriotas terão oportunidade de alargar os seus horizontes e conhecer novos mundos, mais gelados e, por via disso, ter de trabalhar para aquecer? Imaginar que aquela postura professoral não lhe ficou de Lenine? Ter escolhido BE porque PCUS podia ter conotações sexuais? Aqui estás tu a pensar: olha lá, ó minha parva, mas não foi o Estaline que perseguiu Trotsky? Foi. Foi mas isso é como aqueles namoros em que um bate e o outro quer. Além disso não te admires se daqui a tempos encontrarem ex-aliados, e não aliados, num mar de sangue com tesouras de poda espetadas nas costas. Sim, porque esse é o destino de quem for incapaz de aceitar a sua "incontroversa superioridade moral e intelectual". Ele até o pode negar hoje, mas a mim não me engana. Sei reconhecer um líder com este calibre quando o vejo. Seria trigo limpo farinha Amparo. Mais paralelismo: qual é a cartilha política, qual é? Todos os meios são bons para atingir o objectivo: o poder absoluto da "verdade"; e quanto mais totalitário melhor que, isto já se sabe, não faltam reaccionários... E purgas políticas? Diz-me que não imaginas Louçã a fazer grandes purgas colectivas que e até te dou um prémio! Primeiro os que não geram vida, depois quem ouve fado e vai às touradas; depois - já mais democrata- toda a gente que tem a lata de o contrariar. Colegas de partido incluídos. 'Tou mesmo a imaginar o cabeçalho - único - do jornal A Pravda Louçã (será o mais lido de todos, claro ): Czar de todos os lusos! A religião de estado mudava : marxismo-leninismo à portuguesa.Não delegava poderes, a não ser no colaborar que - apesar da linhagem -viu a luz ( pela frincha das PORTAS ); uma espécie de «general Inverno ». Depois, e ajudado pela meteorologia, decretava a «guerra quente » e nada seria capaz de o deter. Cortinas de ferro fundido seriam obrigatórias em todas as casas e viveríamos todos felizes para sempre. Quer-se dizer...acabaria por aparecer um Khruchtchev à portuguesa , digo eu; mas sei que sou uma optimista e o optimismo não garante resultados.

Mas esquece. Esquece isto tudo.Divago e deliro. Eu só quero dizer que somos, de facto, muito injustos com o dr.Louçã. E esta é que é a verdadeira Verdade.

Ana"

Correio

Do leitor Carlos A. Conceição:

"Caro MacGuffin:
Seria difícil concordar mais consigo no que toca ao Dr. Louça, o arauto da “Verdade” e “natural Guardião dos Guardiães do Templo da Verdade e da Moral”, que espuma de raiva de cada vez que se dirige aos que cometem a heresia de pensar diferente dele (observe-se atentamente o tom obsessivo com que carrega nos “r’s” e pense-se no que de facto o distingue, no tom e no registo, do mais feroz inquisidor da época moderna ou do dominicano Savonarola – a comparação serve para evitar epitáfios como energúmeno, possuído ou endemoninhado).

O Dr. Louçã usa de uma violência verbal, para mim, que sou mais jovem do que esta nossa democracia, sem precedentes: da frase assassina à sentença sem recurso, do mais simples excesso à mais clara intolerância, o gélido frio da sua navalha palavrosa quase mutila (às vezes parece que não lhe falta vontade!).

Já discordei totalmente do que diz, na substância e na forma. Agora, em relação às suas ideias, a minha indiferença confunde-se com o mais profundo desprezo. Acredito na liberdade e como penso que não há delitos de opinião, respeito. Está, em absoluto, no seu direito.

A isto chamaria ele de tolerância, vocábulo de que não gosto, porque sugere uma suposta superioridade por parte daquele que tolera. Portanto, sendo o Dr. Louçã uma entidade moralmente superior, que se lhe permita tolerar. A arrogância assenta-lhe como uma luva.

A isto prefiro eu chamar de liberdade ou de pluralidade. E às vezes dou comigo a pensar se esta subtileza interpretativa não será também uma das diferenças entre a Esquerda e a Direita…"

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

A Verdade do Dr. Louçã

Francisco Louçã insiste em falar na “verdade”. “O partido da verdade”, “falar verdade aos portugueses”, “a política da verdade”. Contra, obviamente, a “política da mentira” e “os mentirosos” – que é toda a ralé que não se revê no partido “da verdade”. Alguém escreveu, há uns tempos, que não há política sem demagogia. Totalmente de acordo. A mensagem política encerra, em si, elementos que concorrem para o seu exercício. Um discurso político vazio de demagogia corre o risco de se tornar hermético, tecnocrata, insípido, uma maçada. Churchill utilizou-a (lembrem-se do emotivo “Blood, Toil, Tears & Sweat”). De Gaulle aussi. Kennedy also. Quando José Manuel Durão Barroso – Mr Barroso na Europa – afirmava, há uns anos atrás em campanha, que o seu governo não iria construir um novo aeroporto porque era sua intenção canalizar o dinheiro para a Saúde, estava descaradamente a pisar o campo da demagogia (os «dinheiros» não se «transferem» assim). Mas a maioria dos portugueses percebeu a mensagem: as prioridades de Barroso seriam outras, que não as obras públicas (se cumpriria, ou não, essa ordem de prioridades, seria questão a avaliar em momento oportuno). Não há volta a dar: a demagogia faz parte do discurso político contemporâneo. Facto, até certo grau, tolerável e, horror dos horrores, necessário. Tanto mais que o seu exercício encaixa que nem uma luva na «orgânica» das sociedades hiper-mediatizadas. São elementos indissociáveis, que se alimentam reciprocamente.

Onde está, então, o limite? Observem o Dr. Louçã. A postura do Dr. Louçã é um hino à demagogia. Louçã faz questão de ultrapassar todos os limites vezes sem conta (até os do «bom senso», caro Miguel). A grave encadernação freirática com que Louçã envolve o fraseado moralista que sai da sua boca em tom doutoral, é a prova de que há limites e que esses limites estão a ser violentados. Louçã acusa os outros de mentir e de usar a demagogia, mas, na realidade, faz bem pior. A forma como enche a boca de vocábulos mortais e definitivos, em pose casta e moralista de homem desinfectado, santificado e abençoado sabe-se lá por quem, permite-nos verificar como a demagogia pode ser ofensiva de petulante, insolente e moralista. Repare-se num ponto: Louçã ainda não explicou, uma única vez, de que forma financiaria o seu Estado Socialista. Em boa verdade, Louçã ainda não explicou nada. Subiria os impostos? Quais? Cortaria na Despesa? Como? Estimularia a economia? Como? Quando? Resolveria o problema do fundo de pensões? De que forma? Caso concreto: há três dias atrás, Louçã exclamava, em tom tenebroso, que o Bloco de Esquerda não permitirá a deslocação de empresas para o estrangeiro. Como? Colocando barreiras policiais à porta das ditas? Detendo domiciliariamente os donos do capital? Fechando as fronteiras? Em que mundo vive o Dr. Louçã? É esta a sua Verdade? E se, quando falasse em “Verdade”, fosse dar banho ao cão?

Olha, olha...

...não é que mudei o template sem dar cavaco a ninguém? 'Tá mal.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

The Conservative Philosopher

Reparem só no elenco e depois digam alguma coisa.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Actualidades

”A trombeta soará”
por Vasco Pulido Valente
in Expresso, 16-10-1978
”Ultimamente não se fala senão em sebastianismo. Na televisão ou nos jornais, no Parlamento ou nos comícios, de Manuel Alegre e Magalhães Mota, de Hermano Saraiva a obscuros colunistas hebdomadários com bons sentimentos. São deputados e psicólogos, historiadores e «mestres de pensar». O que dizem merece meditação.

Dizem-nos, fundamentalmente, três espécies de coisas. Primeiro, que a visão sebastianista é uma visão irracional: resultado ou manifestação de ansiedade e insegurança, «desejo do pai», personalização «projectiva» (e megalómana) do poder político. Segundo, que a visão sebastianista revela uma abdicação e uma recusa de participar na vida colectiva, que é uma atitude demissionária, um horror escondido a sujar as mãos e a enchê-las de calos em prol da Pátria. Terceiro, que a visão sebastianista é moralmente reprovável, que é má: por ser irracional, claro, e por não ser democrática. Sebastianismo, nesta teoria, equivale praticamente a fascismo: obediência ao chefe, ditadura, anulação do «eu» civil na massa «histérica» dos convertidos. Numa palavra, e para usar a saudosa linguagem do PREC, «sebastianismo fascista».

Não interessa muito expor os motivos imediatos destas contorsões intelectuais, que oscilam entre a detestação e o medo ao Dr. Sá Carneiro e a detestação e o medo ao general Ramalho Eanes. Interessa mais tentar perceber o que é, na verdade, o sebastianismo, para perceber a natureza e o modo de funcionamento do sistema político português.

Com ligeiras qualificações, os anti-sebastianistas que por aí proliferam partem, como se notou, invariavelmente do princípio de que o sebastianismo constitui uma forma irracional e inadequada de considerar a realidade política nacional. Na sua qualidade de pessoas cultas e civilizadas, só podem atribuir semelhantes aberrações à ignorância, a lamentáveis tendências da psique ou, pura e simplesmente, às péssimas intenções de alguns oportunistas sem escrúpulos. Partamos, porém, aqui, do princípio inverso: a saber, o de que o sebastianismo é ainda hoje, para a informação acessível à maioria do público e para as categorias políticas dominantes, uma interpretação da História do País e uma resposta às condições dele perfeitamente racionais e adequadas. Vejamos porquê.

O que é o sebastianismo? Como a maior parte das formas de milenarismo, o sebastianismo consiste, esquematicamente, no seguinte: 1. Na crença de que de um estado de conflito, injustiça, privação e infelicidade se passará, de um momento para o outro e a curto prazo, para um estado de harmonia, justiça, abundância e felicidade – o milénio; 2. Na crença de que essa passagem, anunciada ou não por um profeta, será operada por uma força ou criatura sobrenatural; 3. Na crença de que a maneira mais eficaz de propiciar a transformação reside em manifestar e espalhar a fé nela. Tomemos cada parte por si.

O milénio - Está provado que o milenarismo ocorre sobretudo em poopulações que não acreditam, ou já não acreditam, no melhoramento parcial e progressivo da sua intolerável situação. Não se podendo ter nada, espera-se tudo. Trata-se de uma defesa assaz lógica, em geral e, em particular, nas conhecidas circunstâncias portuguesas.

De resto, desde o 25 de Abril, que esta expectativa foi explorada por todas as formações políticas. Prometeram-nos a «sociedade sem classes» (ver Constituição), o «socialismo do povo e mais nenhum», a cornucópia da «Europa que estava connosco». Sempre o paraíso ficava atrás da porta, se apenas acreditássemos. Acresce que a omnipotência do Estado e os cortes abruptos com o passado (com o fascismo, com o «gaonçalvismo») encorajam e confirmam a ideia de que o «salto» para um mundo novo é simples e fácil. E porque não há-de ele ser um mundo bom da próxima vez? De existirem falsos profetas não se segue necessariamente que não existam profetas verdadeiros. Ninguém nunca negou a impossibilidade da profecia. Ainda pior: que aí nos não anuncia futuros radiosos, da prosperidade democrata-cristã aos anos 80 socialistas?

Em suma, não é racional interpretar a História do País em termos de sucessivos milénios abortados? Não era 1820 uma «Regeneração» com maiúscula, como a de 1851? E a «Vida Nova» de Oliveira Martins? E os «Endireitas» de Lopo d’Ávila? E a República? E a República Nova de Sidónio? E o Estado Novo? E a «Reconstrução» e «Reestruturação» do 25 de Abril? E não cantámos nós, em ocasiões solenes, «Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal…»?

Por outro lado, o que nos resta senão o milénio? Que reformas nos trouxeram vantagens duradouras? Que avanços sólidos, embora pequenos, fizemos que nos indiquem um caminho e sustentem uma esperança? Porque é, então, inadequado esperar pela absoluta salvação e o absoluto salvador?

O salvador - No caso do sebastianismo, o salvador, o introdutor do milénio, depositário da verdade e do poder, é um homem e um homem encoberto, que se descobre apenas no acto redentor. Para não rebuscar muito pense-se só: quem conhecia Salazar em 1926? e Otelo antes de 1974? ou Cunhal? ou Soares? quem conhecia o companheiro Vasco antes do chamado «golpe Palma Carlos»? e Eanes antes do 25 de Novembro? Não são eles uma respeitável colecção de «encobertos»? Que há de irracional e de inadequado em contar com mais outro? Quem, excepto meia dúzia de privilegiados, conhece a lógica profunda e secreta que os catapultou para a cena política? Para milhões e milhões de portugueses, eles vieram, como D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro.

A fé - Sustentam os anti-sebastianistas que o sebastianismo leva a esperar passivamente uma salvação que não depende de nós próprios, mas da intervenção alheia. O que não é exacto. A visão sebastianista não provoca uma acção política em sentido estrito. O que, em Portugal, seria – isso, sim - irracional e inadequado. Onde agiríamos nós? Nos municípios falidos, desorganizados e impotentes? Nos partidos centralizados e caciqueiros? Nos sindicatos controlados pelo Dr. Cunhal? Paz, portanto. A visão sebastianista exige uma outra acção, lógica e apropriada às condições do País: a manifestação de fé. Fé no milénio e no homem providencial. Sem ela não há um nem outro. Com ela, com a exibição dela, talvez que alguém se candidate com êxito a D. Sebastião.

Não, não é o sebastianismo que é absurdo e mau. O sebastianismo, se assim se pode dizer, está «certo». O que está errado, e profundamente errado, é Portugal. E se não começamos a emendá-lo, a trombeta do juízo final tornará a soar. Ninguém alimente ilusões.”

Disfuncionalismo público

1. Repartição de finanças, sexta-feira passada. Seis secretárias dispostas em “u”, mais duas ao lado (se não me falham as contas, oito no total), para atendimento dos contribuintes. O placard luminoso à minha frente, com o “Número 138” e a “Mesa 4”, indica-me que tenho de tirar senha. Tiro a senha. Sai-me o número “124”. Antes de entrar já tinha perdido a vez. Sentadas, à minha frente, duas pessoas estavam a ser atendidas. Uma outra aguardava a sua vez, de pé. Como ninguém cantou “bingo”, dirijo-me a um dos cinco funcionários presentes (três secretárias estavam vazias) e pergunto se é preciso tirar senha. “Se quiser pode tirar mas nós não estamos a chamar pelo número mas sim pela ordem de chegada.” Ainda tentei responder com um “não é a mesma coisa?” mas temi pela resposta. Volto ao meu lugar, acabrunhado. Pergunto à minha companheira de fila porque razão não avança. Pois que não, que lhe disseram para se deixar estar quietinha uma vez que apenas dois dos cinco funcionários estavam em funções de atendimento. Entretive-me a ver o que faziam os outros. Um rasgava ao meio folhas A3 com a ajuda de uma régua, régua esta que, já sobre o formato A4, o ajudava a riscar umas linhas paralelas e outras perpendiculares. Um quadro, pensei. O engenho humano em todo o seu esplendor. Outro retirava com dedicada minúcia primatas do nariz enquanto olhava esbugalhadamente para o monitor do pc. O terceiro auxiliava uma das «colegas» atendedoras nas explicações a um pobre e certamente estúpido contribuinte. Passaram dez minutos. Nada mudou naquela sala. A sensação de tempo suspenso. Entram mais duas pessoas. Uma tira senha, outra não. A que não tira senha dirige-se ao homem dos primatas. “Ah, olá e tal”. Amigos de longa data. Ouve-se, ainda, um “vamos já ver isso”. O homem dos trabalhos manuais atende, entretanto, o telemóvel. "Sim, eu passo pelo supermercado assim que daqui sair". Um dos atendedores de serviço fica livre. A minha colega contribuinte avança. “É só um bocadinho” diz-lhe o funcionário. Sai da sala. Cinco minutos depois regressa com um copo de plástico numa das mãos e um pacotinho de açúcar na outra. Está visivelmente feliz. Magnânimo, dá então inicio ao atendimento. O terceiro elemento, que auxiliava a «colega», passa a outra função: remexer papéis. O homem dos trabalhos manuais ausenta-se da sala. Chega, finalmente, a minha vez. Expliquei ao que ia. A senhora não se convenceu: “Mas quem é que o mandou cá tratar disto?”. Explico que tinha sido um colega dela, de outra «secção». Nitidamente contrariada, debruça-se sobre o assunto, não sem antes assoprar. Uma maçada, aquela função. Passados uns minutos, o meu assunto está praticamente resolvido. Os olhos brilham-me. “Agora vá à tesouraria e depois de pagar traga o papel”. Dirijo-me à Tesouraria. O homem dos trabalhos manuais discute futebol com um colega. Enquanto espero (+ 5 minutos) o homem dos trabalhos manuais sai. Pago o que tenho a pagar. Aproveito para saber do paradeiro de um cartão de contribuinte solicitado há mais de um ano. Por sugestão do homem da tesouraria, dirijo-me à «senhora que trata dos cartões». “Não recebeu nada em casa?!”, exclama, surpresa, a senhora dos cartões. Digita o meu número de contribuinte no pc e informa-me que não «consta» nenhum pedido no «sistema». Explico que tenho comigo um papel que prova que fiz o pedido. “Ah, isso foi há mais de um ano, não foi? E foi lá em baixo na Direcção de Finanças, não foi? Pois, é que entretanto o «sistema» mudou. Os pedidos são agora feitos aqui. Provavelmente o seu pedido perdeu-se”. Provavelmente. Claro. Decido fazer novo pedido. “Pague na tesouraria, se faz favor. Depois traga o papel”. De volta à tesouraria, quatro funcionários exercitam amena cavaqueira. Apenas um ocupado. Depois de pagar, entrego o papel à senhora dos cartões, regresso ao poiso inicial, e vejo que o homem dos trabalhos manuais está de regresso e tira, agora, fotocópias. O terceiro ainda remexe papeis, de uma forma, diria, «eficaz». Enquanto espero para entregar um papel e levantar outro, o homem dos trabalhos manuais entretém-se a dobrar as folhas fotocopiadas (formato A3). O resultado final assemelha-se vagamente a umas pastinhas para guardar processos. O engenho e a arte, novamente. O homem dos primatas desapareceu. Entrego, finalmente, o papel. Entregam-me, finalmente, um papel. Passados 45 minutos sou um homem livre.

2. A escola (Básica) da minha filha tem quatro salas de aula. A cada sala correspondem cerca de vinte alunos. Significa isto que se encontram permanentemente na escola, em média, cerca de oitenta alunos. Segunda a lei, a escola tem direito a apenas um «auxiliar de acção educativa» (vulgo «contínuo»). O critério é o número de salas. O número de alunos é irrelevante. A solitária auxiliar deve, portanto, atender o telefone, auxiliar as professoras, limpar as salas de aula, distribuir o lanche, besuntar acidentais arranhões com Betadine, colocar lenha nas salamandras e, agora, face à preocupação manifestada pelos pais sobre a falta de segurança na escola (registada em carta entregue em mão na sede do Agrupamento), deve também zelar pela segurança dos alunos e controlar as entradas e saídas da escola, nas chamadas "horas de ponta", precisamente nos minutos em que supostamente deveria estar a limpar duas das salas que aguardam a turma da tarde. Soube-se, entretanto, que essa auxiliar vai «meter baixa» (termo heróico) para auxiliar, por sua vez, o filho que vai ser sujeito a intervenção cirúrgica. A escola está na iminência de ficar sem a única auxiliar por tempo indeterminado. Ninguém, ainda, no Agrupamento e na Direcção Regional pensou no assunto ou comunicou o que quer que seja. Pode sempre fechar-se a escola.

Alexandre, o Grande

"Garcia Marquez, el dumbass más grande en el mundo
As piores pessoas no mundo: as que chamam Garcia Marquez de “Gabo”. Toda a literatura latino-americana é especialmente amada por idiotas, que evitam a literatura anglo-saxã por instinto e política. Digamos que demonstram uma prontidão para ler Cortázar que não costumam ter para ler Dickens. Depois dos latino-americanos (Borges não é latino-americano; não cresceu no bairro de Palermo, mas na biblioteca do pai dele, que era o ponto mais extremo sul de Londres), amam os europeus do leste. A França lhes mete medo, a Inglaterra lhes mete nojo.

O fato é que não conheço nenhum idiota que ame Dickens. Quando vou para o cinema encontro muitos indies na fila que estão falando sobre Cortázar, Hilda Hilst ou "Gabo"; mas nenhum que esteja falando sobre Thackeray, William Hazlitt ou Evelyn Waugh. Citam trechos de Neruda ou Garcia Lorca de cor, mas certamente nunca Robert Browning. A literatura inglesa afasta imbecis, e a latino-americana os atrai de volta."


in Alexandre Soares Silva
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