O MacGuffin: Novembro 2004

terça-feira, novembro 30, 2004

antonio.borges@gs.com


TOCA A TRABALHAR

Este rapaz já voltou ao trabalho, após uma curtas, mas ainda assim injuriosas, férias. Vamo lá a trabalhar, ó o caneco!

EU SABIA

Eu sabia que aquele discurso das incubadoras, para um primeiro-ministro, não tinha sido grande charuto (no mínimo). Já o mesmo discurso na boca do director da Maternidade Alfredo da Costa ter-lhe-ia granjeado longa fama e proveito imediato. Um erro de casting, portanto.

E FOI ENTÃO...

...que Jorge pegou no frasco de benzina.


Ao contrário de muitos, não me sinto contente. Ao contrário de outros, não me sinto triste. É a vida. E a vida é feita de nódoas. Passadas, presentes e futuras.

PLURALISMO VS. RELATIVISMO

Leio a Esquerda lusa – generalizo, eu sei – e deparo-me com níveis estonteantes de relativismo, associados a manifestações de pura intolerância. Vem isto, ainda, a propósito do caso Theo van Gogh, do multiculturalismo, da tolerância, etc. É gritante a confusão que a Esquerda faz entre relativismo e pluralismo (da mesma forma que a Direita, por vezes, se deixa enredar num monismo bacoco, incompatível com a natureza mutável de qualquer sistema moral razoável). Na ânsia de defender a diversidade (de valores, modos de vida, etc.) e de sustentar a ideia de que, não sendo incondicionais, os valores dependem do seu «contexto», a Esquerda esquece um pormenor importante: a existência de valores com autoridade suficiente para suplantar contextos e condicionalismos. Há valores secundários que podem, e devem, reflectir diferenças (a tal ideia de «diversidade»). Mas importa perceber que, ao fazer depender a pluralidade de valores (de todos os valores) do seu contexto, se está a excluir a possibilidade de crítica ou de justificação objectivas, bem como a nivelar valores secundários a valores primários (não necessariamente absolutos). Não perceber isto pode ser, a médio prazo, algo de pernicioso para as sociedades ocidentais.

segunda-feira, novembro 29, 2004

E PARABÉNS AOS QUERIDOS QUEVEDOS

A Carla: ”O não-auto-estimado não percebe quando alguém gosta dele, mas essa é outra história, nomeadamente a do Macguffin.” ?!?!?!?

Vai haver porrada, vai.


(a gata Sophia, para a Charlotte)


AINDA SOBRE O PCP E O SR. JERÓNIMO

Vale a pena ler.

AS LEITURAS SÃO COMO AS CEREJAS

Se me pedissem para eleger o jornalista/ensaísta que, até há data, mais me encheu as medidas, poderia hesitar uns bons minutos mas estou em crer que Clive James levaria a taça. E se me pedissem um texto de James para exemplificar as suas qualidades, indicaria a sua própria introdução à colectânea de ensaios Even As We Speak. É impressionante como, em apenas oito páginas, James consegue dizer tanto e tão bem, num estilo vibrante, contagiante, único. Clive James é, de facto, “uma brilhante cambada de tipos”. Todos em estado de graça.

Na já referida introduction (a que volto sempre que preciso de ganhar novo alento para ler, aproveitando, en passant, para saber o que este mitra anda a perder), lê-se, a certa altura:

“If I had wanted to be thought deep, I would have spent the last thirty years proposing something a lot less scrutable than the elementary proposition that democracy is even more important for what it prevents than for what it provides. Some quite complicated issues grow out of that proposition – the most troublesome being that a free nation is bound to provide opportunities for incitement to the very kind of suffocating orthodoxies whose hegemony it exists to prevent – but there is something complicated about the proposition itself, beyond the consideration that historic circumstances drilled it into my head almost before I could spell the words in which it is written.”

E lembrei-me de Popper:

“A diferença entre uma democracia e uma ditadura reside no facto de que numa democracia podemos desembaraçar-nos do governo sem derramamento de sangue e numa ditadura não.”

Daí até Hayek foi um pulinho:

“Democracy has been used to describe various kinds of things which have little to do with the original meaning of the term, and now is even often used where what is really meant ‘equality’. Strictly speaking it refers to a method or procedure for determining governmental decisions and neither refers to some substantial good or aim of government (such as a sort of material equality), nor is it a method that can be meaningfully applied to non-governmental organizations (such as educational, medical, military or commercial establishments). Both of these abuses deprive the word ‘democracy’ of any clear meaning. (…) Though democracy itself is not freedom, it is one of the most important safeguards of freedom. As the only method of peaceful change of government yet discovered, it is one of those paramount though negative values, comparable to sanitary precautions against a plague, of which we are hardly aware while they are effective, but the absence of which may be deadly.”

E, finalmente, Jorge Sampaio:

“Já no final do mês de Novembro de 2004, apercebi-me da inevitabilidade da sua demissão." (*)

(*) excerto de "As Minhas Memórias", de Jorge Sampaio, a que o Contra a Corrente teve acesso. A publicar daqui as uns aninhos.

AUTO-ESTIMA

Interessante este post da Charlotte. Interessante e certeiro. Não há, de facto, muita pachorra para aquelas pessoas que se melindram por tudo e por nada, e que cogitativamente tratam de truncar ou acrescentar sentidos obscuros a palavras, gestos e atitudes. Regra geral, a culpa é da auto-estima: são pessoas que gostam muito pouco de se olhar no espelho. Falando um pouco de mim, sou dos que sofre, de vez em quando, e ainda que ligeiramente, de falta de auto-estima. As razões são múltiplas. Para além das de ordem particular – que se prendem com a nossa educação e com a nossa história - são sobretudo outras as razões que abanam o edíficio (apesar das boas fundações) da minha auto-estima: a noção exacta das minhas limitações e, como ser humano, a percepção clara da propensão humana para o mal, para o falhanço, para a mesquinhez, para a corrupção. Mas, ao contrário do que afirma a Carla e parece ser norma, no meu caso a coisa tem dado para uma acérrima defesa de uma cultura de honestidade e frontalidade, para o cultivo e preservação das amizades, e para um sentido apurado do que significa a palavra «tolerância» quando, por vezes, tudo o resto parece falhar nos «outros». E digo “parece” porque, com o passar dos anos, aprendi que nem sempre o que parece é, e nem sempre o que é prescinde de uma segunda leitura: a que advém da tentativa de nos colocarmos na pele do «outro». No fundo, é aquela coisa do “benefício da dúvida” e da boa-fé na hora de perceber as razões do «outro» (e há muita gente que nem sabe, nem nunca perceberá, o que isso é). O problema são mesmo os casos clínicos.

CAMARADA JERÓNIMO

Lê-se no Público: “O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, foi eleito sem votos contra, com apenas quatro abstenções, na primeira reunião do novo Comité Central (CC) comunista, anunciou hoje Luísa Araújo, da mesa do XVII Congresso partidário.
A eleição foi feita por braço no ar, tal como a eleição dos organismos executivos, comissão política e secretariado.
A comissão central de controlo, que foi consagrada órgão jurisdicional do partido, foi eleita por voto secreto e por unanimidade, disse à Lusa um dirigente comunista.
Jerónimo de Sousa foi eleito na primeira reunião do novo CC com 176 membros, que decorreu na madrugada de hoje, à porta fechada, no complexo de Desportos de Almada, onde hoje termina o XVII Congresso do PCP.”


Há por aí quem ainda se surpreenda com esta notícia, reveladora, dizem, de um elevado, logo alarmante, nível de «unissonância» e de potencial falta de «democraticidade» . Há quem afirme que, assim, o PCP «não vai lá», e que caminha, afinal, para a decadência e para a fossilização. Que tudo aquilo, acrescentam, não se compadece com o «pluralismo», com o exercício da liberdade de voto e do direito à dissonância. E por aí fora. Longe de mim estragar mais um momento de indignação e espanto, hoje em dia tão em voga, mas seria bom lembrar duas coisas.

A primeira, mais do que óbvia: «aquilo» é o PCP, e o PCP sempre foi «aquilo». Dito de outra forma, não há PCP para além «daquilo»: o centralismo democrático, a omnipresente cúpula, o omnipotente aparelho, a ortodoxia vigente (sempre solicita a avançar com as «propostas irrecusáveis»), a cassete da «unidade interna» e da «união externa», em prol das eternas «jornadas de luta» contra o capitalismo e o neoliberalismo (o filho mais novo daquele). A tese, repito, é óbvia e já velha: no dia em que o PCP se «abrir», no dia em que o PCP se «renovar», no dia em que o PCP abandonar os slogans, no dia em que o PCP se «liberalizar», poderá continuar a chamar-se Partido Comunista Português, mas por essa altura já terá assinado a sua própria certidão de óbito.

A segunda, tem que ver com os próprios partidos: todos eles são, mais ou menos, «aquilo». O PCP e o BE (outro notável caso de «pluralismo» e «debate interno») poderão ser os casos mais extremos, mas não esperem dos partidos aquilo que eles não são: espaços de «democraticidade», «pluralismo» ou de «elevado debate» ideológico. Para além das balelas ideológicas que, de vez em quando, são aliviadas em congressos (que as bases, aliás, não entendem e consideram uma seca) os partidos são projectos de carreira e de poder, mais ou menos fulanizados, servidos por um aparelho devidamente burocratizado onde se vão gerindo interesses através de uma lógica de negociata inter pares. Qualquer projecto de poder de tipo partidário, precisa de «consensos alargados» - forçados ou induzidos - de «unanimismo» e de «unidade», coisas que o debate dito «pluralista» e «democrático» não serve por aí além.

Voltando ao PCP, estarei eu a defender a continuidade como futuro? Couldn't care less.

ESTAMOS ENTREGUES AOS BICHOS

(do Comentador Oficial do Eixo do Mal)
Ontem, no programa "O Eixo do Mal", e com a cumplicidade de todos os presentes, o tema foi: “A total descredibilização da Justiça em Portugal e a prematura absolvição de Carlos Cruz.”

Nada nem ninguém – judiciária, ministério público, juizes, procurador, prisões, polícia, trolhas – foi poupado. O retrato é claro: a justiça em Portugal é uma merda. En passant, a absolvição de Carlos Cruz esteve ao rubro. Clara Ferreira Alves, por exemplo, agitava o livro de Carlos Cruz e quase que gritava “eis a Verdade”. Daniel Oliveira garantia, como só ele consegue garantir: o processo já nasceu torto e vai acabar morto. Sobre as vitimas, nada se disse. Houve apenas uma referência ao facto de «as crianças raramente dizerem a verdade» ou «mentirem muito» (o que vai dar ao mesmo). As vítimas, aliás, passaram a ser todos (arguidos, queixosos, advogados, etc.), o culpado, esse é só um: a justiça portuguesa. O velho princípio da “presunção da inocência” veio à baila dezenas de vezes, mas ninguém ousou presumir um resquício de competência a magistrados e investigadores, apesar de, e para além dos inevitáveis erros de um mega processo extremamente complexo e com muita gente interessada em achincalhá-lo (o que se poderá também presumir é a infalibilidade dos presentes nas suas profissões). Depois, mostraram-se imagens de populares a gritar «morte aos pedófilos», e a coisa ficou composta. Ninguém se mostrou na disposição de esperar pelo desenrolar e fim do julgamento, porque a disposição é já outra: tudo não passa de uma grande farsa! Por que é que esta cambada de idiotas não leu o livrinho do Cruz e pronto? Para quê tanta investigação? E os jornalistas, igualmente trucidados no programa por via da generalização, por que razão foram mexer na porcaria? Em suma: estamos entregues aos bichos. E assim aconteceu: estiveram todos de acordo, todos se revelaram esclarecidos. O tema era, afinal, trivial e as conclusões «evidentes». Bonito, o programa de ontem. Quero mais.

sexta-feira, novembro 26, 2004

O EIXO DO BEM

O «pograma» Eixo do Mal - Sábados à meia-noite, SIC Notícias - tem, à partida, um mérito: o genérico contém a música Enishie de Seigen Ono, do sublime Nekonotopia Nekonomania (colecção Made To Measure, vol. 29). O programa reúne, à mesa, Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira, Pedro Mexia, José Júdice e Nuno Artur Silva (este mais como moderador/orientador). Faz lembrar um pouquinho a saudosa Noite da Má Língua. No meu caso, ajuda a confirmar duas ou três coisas. A primeira: José Júdice é, de há muitos anos a esta parte, um dos espíritos mais witty cá do burgo. Pedro Mexia destaca-se pelas melhores razões (embora, verdade seja dita, o gostasse de ver sem «receios» de afrontar algum dos presentes). Daniel Oliveira revela-se, desgraçadamente, igualzinho ao Daniel Oliveira que escreve no Barnabé. Quando deixará o Daniel de ser tão previsível e dogmático? (ele que até tem ar de gajo porreiro). Clara Ferreira Alves é a desilusão: num registo que roça o snobismo e acolhe a presumança (sempre com aquele ar de quem parece estar sempre a ver o filme todo), a doce Clara denota excesso de seriedade e de certezas. É pena. Gosto da moça.

Conclusão? Vale a pena ver.


TUDO EXPLICADINHO

Meu caro Francisco: se não for acometido de uma valente dose de nervoseira (leia-se também "parvoeira"), prometo que tudo será explicado.

HIP-HOP, YO!

Meu caro Alberto,
Confirma-se: nós, os stupid white men, lá vamos encontrando alguns livritos mais ou menos interessantes no meio da chafurda que são certas «ilhas» fnaquianas, recheadas de Moores e companhia ilimitada. Quanto ao excremento do hip-hop (vês, eu não escrevo palavrões no meu blogue), eu acho que muito em breve vamos ter oportunidade de, ao vivo e em directo, dirimir posições e, eventualmente, andar a chapada por causa dessa merda. Até lá, e para inicio de conversa, podias ir escutando isto ou isto.


quinta-feira, novembro 25, 2004

APONTAI, IRMÃOS

“No tempo das Farpas estava ainda no período bárbaro da forma.”

Eça de Queiroz (justificando porque se viu forçado a “limpar, catar e endireitar muito o estilo”, antes de enviar os textos a Ramalho Ortigão para publicação.)

ESCARLATE , 2

Repito: fez anos. Esta rapariga.


ESCARLATE, 1

Esta menina fez anos. Não fui convidado. Ela sabe que tenho estado com escarlatina. Desde O Barbeiro.


NÃO IMBECILIZEMOS AS CRIANCINHAS

Lembro-me como se fosse hoje. No princípio dos idos 90, António Santos apresentava um programa na RTP1 intitulado Controvérsias, subordinado ao tema do Acordo Ortográfico, então muito na berra. Contra o acordo, Miguel Esteves Cardoso, Maria Isabel Rebelo Gonçalves e Leonor Buesco. A favor do acordo, Costa Ramalho, Anibal Pinto de Castro e Carlos Reis (a primeira vez que travei conhecimento com essa criatura absolutamente insuportável chamada Carlos Reis). Foi também nesse programa que ouvi, talvez pela primeira vez, um dos argumentos que os partidários do acordo juravam justificar a queda das consoantes e dos sinais distintivos nas palavras: facilitar o ensino do português – no nosso país e no estrangeiro. Segundo Costa Ramalho e respectivos séquitos, as criancinhas, em Portugal, estavam sujeitas a graves sevícias mentais, devido ao confronto diário com um sem número de consoantes mudas, as quais, para além de desnecessárias, só «complicavam». É claro que a excelente Maria Isabel Rebelo Gonçalves avançou com o argumento que se impunha: se as criancinhas inglesas aguentavam com os straightforward, os thoroughly e os ninetieth, por que razão não podiam as nossas aguentar com o cê em “acção”ou em “jacto”? Seriam mentecaptas ou atrasadas mentais?

Esta tendência para «imbecilizar» as crianças – que não é mais do que uma forma de menosprezar e desvalorizar as suas reais capacidades - vem de longe e continua presente em muitas discussões sobre o «ensino». Repare-se no mais recente caso, ou no mais recente anátema, que meia dúzia de pedopsicólogos e pedadogos acaba de lançar à liça: os «trabalhos para casa», vulgo TPC’s.

Não posso deixar de pensar que algo de muito errado se está a passar nas nossas sociedades, quando insistimos em perder tempo a discutir o que era suposto ser pacífico, dando tempo de antena a meia dúzia de «especialistas». Ainda recentemente, numa reunião de pais, a professora da minha filha – uma excelente e dedicada professora - fez questão de lançar para cima da mesa a questão – elevada, agora, a «problemática» - dos TPC’s, pedindo aos pais a sua opinião: se concordavam com os ditos «trabalhos», se os achavam excessivamente extensos ou trabalhosos, se defendiam a introdução de nova metodologia. Entendo, e agradeço, a preocupação de professores em dialogar com os encarregados de educação, abordando os mais diversos temas, mas não posso deixar de presumir que, em certas questões, o grau de inocência na abordagem é baixo e duvido que a iniciativa seja puramente pessoal. Estou em crer que, nestas questões, a mãozinha do ministério e dos pedagogos de serviço marcam presença. Voltando à reunião, a resposta dos pais foi a óbvia: que os TPC’s eram importantes, que não eram, de todo, excessivos, e que cabia à professora decidir essas coisas. Não que tais opiniões e tomadas de posição interessem, sensibilizem ou melindrem as cabecinhas pensadoras que, agora, vêem nos TPC’s uma ameaça ao são convívio familiar (se os pais estão cada vez menos com os filhos, para quê ocupá-los com estas «maçadas»?.) e uma fonte de stress para as crianças (na forma como as impedem de brincar e de fruir a sua doce inocência).

Com a devida vénia, pasmo. A não ser aqueles professores que eventualmente sofram de perturbações mentais, duvido que algum professor envie TPC’s numa quantidade que exceda a razoável. Que dão trabalho, lá isso dão. Afinal de contas, por alguma razão se chamam «trabalhos» (antigamente, no tempo dos nossos pais e avós, apelidavam-se de «deveres»). Mas mesmo em momentos de maior «intensidade», qualquer TPC – e falo do ensino básico - é resolvido em menos de uma hora. Uma hora é, aliás, muitíssimo. Qualquer aluno minimamente concentrado, que esteja numa sala com a televisão desligada e com a presença de um adulto para o orientar q.b., faz o que tem a fazer num abrir e fechar de olhos. Interessa perguntar: «perder» uma hora por dia a fazer os trabalhos de casa poderá ser considerado traumatizante, stressante, fatigante?

O problema talvez seja outro. O que é quantitativamente razoável para a professora, e o que se afigura perfeitamente normal para crianças igualmente normais que vivem em ambientes familiares também normais, pode colidir com aquele que, para mim, talvez constitua o busílis, ou o gérmen, do problema: o estilo de vida e de organização adoptado pelos pais. A questão não é fácil, e muito menos simples. Mas antes de falarmos nos já famosos «horários de trabalho», nas «filas de trânsito», nas «horas extraordinárias lá na empresa», nos «jantares de negócios», seria interessante perguntar aos progenitores, onde eu humildemente me incluo: o que têm feito ultimamente em prol dos vossos filhos? Têm procurado estar com eles? Têm procurado acompanhá-los nos trabalhos de casa? Têm incentivado o estudo? Têm ajudado os seus filhos a organizarem-se? Têm evitado recorrer à babysitter virtual chamada televisão? Têm deixado de os descarregar em ATL’s ou na casa de amigos? Disperso-me. Voltemos aos TPC’s.

Jonathan Rauch, escritor residente na Brookings Institution e correspondente da The Atlantic, escrevia, na penúltima edição da revista (Novembro), um pequeno artigo cujo subtítulo rezava assim: ”There’s a way to raise student achievement that’s sensible, cheap, and ridiculously straightforward.” Qual? ”Add more homework.” Segundo Rauch, o simples facto de haver trabalhos de casa – subentendendo-se que são para fazer - aumenta o índice de realização do estudante. Pelo menos, acrescenta, em anos lectivos mais avançados (o equivalente ao secundário e ao universitário). A situação nos EUA não é famosa: segundo a National Assessment of Educational Progress, cerca de 60% dos alunos na faixa etária dos 17, dedicam menos de uma hora por dia aos trabalhos de casa e ao estudo (o equivalente a cerca de dez minutos por disciplina). 40% chegam a casa e nem sequer os fazem. Pergunta Rauch: o que estará por detrás deste cenário? Podemos sempre avançar com a explicação de que os pais não verão com bons olhos os TPC’s por se afigurarem como uma espécie de intromissão da escola no quotidiano familiar. Mas Rauch vai mais longe, e arrisca mesmo a L-word: “lazyness”. De acordo com Tom Loveless, do Brown Center, se os tais 40% passassem a dedicar uma hora por dia ao estudo e aos trabalhos de casa (embora pouco, seria alguma coisa), os níveis de sucesso escolares subiriam não pouco, mas substancialmente. Ah, claro, com stress...

EQUÍVOCOS

Querida Sara: vamos por partes.

1. Se foi pelo biltre, foste, certamente, bem vergastada (evitem, por favor, visualizar o que quer que seja). Seja como for, não se trata de ter a “cronologia bélica do Médio Oriente na ponta da língua”. Nem se trata, sequer, de apontar os maus e os bons (coisa que, se reparares bem, Vasco Pulido Valente não fez). Trata-se, tão só, de uma questão de memória. Se deixares de lado a «complexidade do conflito» (expressão retórica que significa tudo e coisa nenhuma) e se te esforçares um pouquinho no sentido de te distanciares dos mais ínfimos pormenores que constituem o lufa-lufa na região (a construção do muro, os colonatos, os check-points, a água, etc.), talvez entendas o que Vasco Pulido Valente quis dizer. Basta pensares em duas coisas: no comportamento dos países da região - alguns ainda hoje se recusam a reconhecer o Estado de Israel e permitem que nas escolas se diabolizem os judeus - e na solução que a maioria dos países árabes preconiza para o problema dos refugiados. De resto, tinha já abordado esta questão aqui.

2. Muito admirado fico por não teres percebido a ironia e a graçola contidas no meu post Querem Mais Provas?. Explico: quis apenas dizer que aquilo (o congresso) estava a ser tão mau e tão pobre, que os próprios protagonistas (Santana & Co.) deveriam ser os primeiros interessados em esconder a coisa. Das duas uma: ou o meu sentido de humor habita, por estes dias, as trevas, ou o teu sentido de humor precisa de espevitamento. Venha o diabo e escolha.

quarta-feira, novembro 24, 2004

SOCORRO!

Os The Gift estão de volta!

(Desculpa, caro Jorge, mas eu acho que é mais do mesmo, o que já por si é mau, sem ponta de fingimento. E o primeiro álbum que tinha sido tão promissor...)

RESTA ACRESCENTAR

quem lhe tem proporcionado a leitura do Economist na Trafaria.

WHO CARES?

A Sara citou Vasco Pulido Valente, colocando em título um “Importa-se de repetir?”. Mais à frente, confessa: ”[a]quela afirmação irritou-me.(...)”, não sem antes nos dar conta de certos «bombardeamentos». Querida Sara: não sei quem te bombardeou e porque razão o fez. Digo-te apenas isto: a História também me irrita, de vez em quando.

Eis a frase de VPV:

O mundo árabe, na Palestina ou fora dela, quer simplesmente destruir Israel, o símbolo do mal e o bode expiatório do seu fracasso. Israel quer muito logicamente sobreviver.

ENTRETANTO

Recebo notícias do meu «contraditório» no Pastilhas: o Luis Rocha. O Luis é mais um daqueles cientistas que, em boa hora (para ele), deixou a pátria e zarpou para os EUA, estando agora a leccionar na Universidade do Indiana, como Professor Associado em Informática e Cognitive Science (esteve, antes, ligado a coisas secretíssimas em Los Alamos, fazendo parte do Modeling, Algorithms, and Informatics Group). Tem um blogue, que vai servir para me «irritar», tal como o meu o «irrita» a ele. Mais sobre este ilustre emigrado aqui.

Um grande abraço, Luis.

AGORA? OBRIGADINHO, TÁ?

Agora que já vem a caminho mais um camião da Amazónia, é que este homem me diz que este livro é sublime? Vê lá se passas a avisar com mais antecedência, pá!


ATÉ ESTAVAM SENTADAS, SENHORES!

Juro que ainda não li (como referi, andei afastado das grandes linhas editoriais), mas aposto que mestre Daniel Oliveira (peço desculpa se estiver a incorrer em grave delito de opinião) e a generalidade da esquerda bem pensante está neste preciso momento «indignadíssima» perante a actuação (deixem-me ver se arranjo a palavra certa) «desproporcional» (costuma ser esta) das forças de segurança, no caso “Canas de Senhorim Diz Não a Nelas!”. Até porque, garantia um senhor de Senhorim: “tratava-se de uma manifestação pacífica, as pessoas até estavam sentadas”. Pois é. Estava esta boa gente sentada, de mãos dadas com os grilos e as ervinhas do campo, ao som de Nick Drake, e vieram de lá aqueles gajos do cacete, ó o camandro! Já nem o povo é respeitado. Este Santana não tem emenda.

E VOLTO,

também, porque não podia deixar de saudar e mandar daqui um abraço ao Ricardo, pelo primeiro aniversário do Babugem. Até dia 5.

terça-feira, novembro 23, 2004

O FIM DO INTERREGNO?

Há vida para além da blogosfera? Parece que sim.

Por razões óbvias (trabalho, família, livros, George Steiner, Gertrude Anscombe), o interregno de cinco dias serviu, também, para pôr em prática uma experiência que me propus realizar vai para mais de um mês, pensada no preciso momento em que fingia ouvir um gajo qualquer num qualquer bar de Évora sobre um assunto que agora me escapa (não querendo especular, embora a então alegre coabitação de uma garrafita de Cartuxa com três copitos de Jameson me obriguem, agora, a fazê-lo, a coisa andaria à volta dos propósitos políticos de Hegel, nomeadamente se tinham sido pró-conservadores ou mais para o liberal), que passava (a experiência) por, de um dia para o outro, deixar de escrever sem dar cavaco a ninguém.

Finda a dita e dolorosa observação, estou em condições de comunicar duas coisas: 1.ª) a filosofia política de Hegel continha elementos pró-liberais e pró-conservadores, que pelo sentido e forma ainda hoje ajudam a baralhar catalogações e categorias; 2.ª) na paróquia (leia-se "blogosfera"), um gajo pode deixar de escrever durante cinco longos dias que terá duas coisas como certas: 2.1) ninguém se dignará a perguntar o que quer que seja; 2.2) o mundo continuará, indiferente à produtividade do blogue. Ou seja, um tipo pode estar a morrer de uma unha encravada ou de uma inflamação na apófise mastóide, que ninguém – nomeadamente os «queridos» leitores e amigos - se importará. Como se ouve na SIC Notícias, Toda a Verdade é esta: à excepção de uma grande senhora – à qual respondi, armado em pedante, andar muito ocupado com o George Steiner e tal – ninguém se dignou a escrever um mailzito. Umzinho. É certo que o post que imediatamente antecede o presente, era objectivamente indigente. Falava de «traques» (nem todos têm a possibilidade de arranjar um salvífico best of's para não fazer puto). Mas, caramba!: pois que fossem todos assim (salvo seja)! Que é feito do humanismo, da preocupação, do interesse pelo próximo, do multiculturalismo (eu que tenho uma tia de ascendência maubere)? Volto a dar razão ao Mencken (nunca, aliás, lha tirei): vós, queridos leitores, sois cruéis, distantes, cold hearted, indiferentes às minudências alheias.

Perante isto - a que acresce a importante e estranha circunstância de ter passado a figurar na galeria das "Criaturas Hipersensíveis e Melindráveis", por conta de certas e determinadas individualidades (esta e esta) - não me resta outra opção: continuar. Acabrunhado, sensibilizado, mas continuar. De cabeça erguida como a selecção e aquela equipa de futebol que é treinada por um tipo chamado Peseiro. Só não contem comigo para mais nada.

quinta-feira, novembro 18, 2004

TRAQUE

As conclusões da Alta Autoridade para a Comunicação Social (ou Arranja-me Aí uma Couve e um Sardo), são aquilo a que se pode chamar, em registo português-pimba, um peido.

CHIUU

Ando a ler a Oriana. Aquela, a Fallaci. "A Força da Razão" (Difel, 2004). Mas isto não se pode dizer. É perigoso.

ANSCOMBE, G.E.M. (outra vez)

Another false avenue of escape is to say that I really ‘do’ in the intentional sense whatever I think I am doing. E.g. if I think I am moving my toe, but it is not actually moving, then I am ‘moving my toe’ in a certain sense, and as for what happens, of course I haven’t any control over that except in an accidental sense. The essential thing is just what has gone on in me, and if what happens coincides with what I ‘do’ in the sphere of intentions, that is just a grace of fate. This I think was Wittgenstein’s thought in the Tractatus when he wrote: ‘The world is independent of my will’ and…
‘Even if what we wish were always to happen, this would only be a grace of fate, for it is not any logical connexion between will and the world that would guarantee this, and as for the presumed physical connexion, we cannot will that.’ (6.373, 6.374).
That is to say: assuming it not to exist, willing it will be ineffectual. And I think that this reasoning applies to the effectiveness of any act of will. Hence Wittgenstein wrote in his notebooks at this time: ‘I am completely powerless’.
But this is nonsense too. For if nothing guarantees that the window gets opened when I ‘opened the window’, equally nothing guarantees that my toe moves when I ‘move my toe’; so the only thing that does happen is my intention;(…)

in Intention, 1957.

PORQUE ME PREOCUPO COM OS MEUS AMIGOS

Ricardo, já viste?



quarta-feira, novembro 17, 2004

TRISTE, MUITO TRISTE

Ele há coisa mais triste e patética do que observar o Dr. Tózé Seguro a fazer-se passar por político? Há: este biltre a renegar a sua própria natureza. Uma comadre será sempre uma comadre, diga ela o que disser. Bem pode, agora, tentar limpar-se, fazendo-se passar por “um excelente jogador de futebol” (Deus, ele nem driblar sabe?!). Quanto ao “dava ao cu aos adversários como ninguém”, aí há, de facto, um fundo de verdade.

PS: e porque a sua atitude só pode despertar em mim comiseração, ajudá-lo-ei hoje, a titulo excepcional, no número de visitas.

terça-feira, novembro 16, 2004

JÁ O TINHA DITO?

Acho que já o disse uma vez. Não interessa. Ando a ouvir este disco e não me perdoaria se não recorresse ao velho cliché da «ilha deserta»: levá-lo-ia com toda a certeza. E tocá-lo-ia quando começasse a perder a noção de coolness e quisesse evocar a presença do génio na musica de raiz popular. À noite, claro, quando todos os gatos são pardos e a voz do Sr. Kurt adquire uma dimensão bizarra e, ao mesmo tempo, melancólica.

A LER

"Manual Para Enganar Tolos", I, II e III. O João Miranda. Em grande forma. Como habitualmente.

ANSCOMBE, G.E.M.

"29. The difficulty however is this: What can opening the window be except making such-and-such movements with such-and-such a result? And in that case what can knowing one is opening the window be except knowing that that is taking place? Now if there are two ways of knowing here, one of which I call knowledge of one's intentional action and the other of which I call knowledge by observation of what takes place, then must there not be two objects of knowledge? How can one speak of two different knowledges of exactly the same thing? It is not that there are two descriptions of the same thing, both of which are known, as when one knows that something is red and that it is coloured; no, here the description, opening the window, is identical, whether it is known by observation or by its being one's intentional action.
I think that it is the difficulty of this question that ahs led some people to say that what one knows as intentional action is only the intention, or possibly also the bodily movement; and that the rest is known by observation to be the result, which was also willed in the intention."

in Intention, 1957.

E agora, vou-me deitar. Amanhã, continuaremos.



E A MUNTADA?

O Alberto já escreveu sobre a problemática da «Muqata», expondo a questão com o seu habitual sentido de humor. O Daniel Oliveira já contrapôs, com a sua habitual tendência para deturpar e diabolizar o que os outros dizem.

O que ambos não devem saber, e que eu acabei de saber agorinha mesmo, é que, após deixar a luta nos campos de batalha, e até 2001, Arafat dividia o seu tempo entre a Muqata e a... Muntada. Os especialistas que anotem.

PARABÉNS II

O Observador faz um aninho e eu mando-lhe daqui, desta cidade que ele bem conhece, um grande abraço e votos para que fique por cá, à conversa, mais uns anos. Cheers!

PARABÉNS I

Este rapaz celebra um ano de blogosfera. Só lhe digo uma coisa: obrigado.

segunda-feira, novembro 15, 2004

O REGRESSO

Mais esperado. Da (agri)doce Charlotte. Mainada.

BIG BROTHER IS WATCHING YOU

Concordo com o Pula Pula Pulga (que faz o obséquio de ler o Contra a Corrente numa base diária): ”o acesso a informações e documentos bancários, previsto na Lei Geral de Tributária (artigo 63.º-B), foi alterado em 2002 (Decreto-Lei n.º 320-A/2002, de 30 de Dezembro). Parece ter-se encontrado um ponto de equilíbrio entre o direito à privacidade e a necessidade imperiosa de o Estado ter à sua disposição mecanismos de fiscalização. A proposta agora apresentada é uma violação grosseira do direito à privacidade.”

Para o tranquilizar (ao Pulga), devo esclarecer que concordo, à partida, que não seja amputada a possibilidade do fisco ter acesso a informações bancárias, no âmbito de uma fiscalização tributária. Deve permitir-se o levantamento do sigilo bancário. Resta saber de que forma e em que circunstâncias.

E é aqui que a fêmea do porco torce o respectivo traseiro. Há quem defenda que o sigilo bancário não pode ser levantado em nenhuma circunstância (nem sequer por ordem judicial). Há quem defenda que pode ser levantado, mas unicamente a coberto de uma decisão judicial. Há quem diga que o sigilo bancário pode ser levantado «administrativamente», tal como está previsto na actual redacção do art. 63.º-B da LGT - onde se lê, expressamente, que ”[a]s decisões da administração tributária referidas nos números anteriores devem ser fundamentadas com expressa menção dos motivos concretos que as justificam, pressupõem a audição prévia do contribuinte e são da competência do director-geral dos Impostos ou do director-geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo, ou seus substitutos legais, sem possibilidade de delegação” e que ”[o]s actos praticados ao abrigo da competência definida no número anterior são susceptíveis de recurso judicial, o qual terá efeito suspensivo nas situações previstas no n.º 2.”. Há, finalmente, quem concorde com a proposta do Bloco de Esquerda, que inclui a generalização do levantamento do sigilo bancário, obrigando, por exemplo, o contribuinte a anexar à declaração de IRS toda a informação bancária.

Julgo que a minha posição coincide com a do Pula Pula Pulga: o actual regime é satisfatório e equilibrado. Desde logo porque contempla, inequivocamente, o levantamento do sigilo bancário. Depois, porque tipifica uma série de requisitos para esse efeito (ou seja, não pressupõe que os contribuintes sejam todos culpados à partida e até prova em contrário). A seguir, porque obriga à auscultação prévia do contribuinte, dando-lhe conhecimento de que está a ser alvo de uma inspecção e concedendo-lhe a possibilidade de explicar e justificar a sua situação, antes de se avançar via informações e documentos bancários. Por último, dá ao contribuinte a possibilidade de recurso judicial com efeito suspensivo, ou seja, permite que em instância superior e imparcial se possam dirimir dúvidas e posições.

Sobre esta questão, recebi de Mário Almeida a seguinte missiva:

Sr. MacGuffin,
Via Acidental, leio o seu post "E NÃO ME VENHAM COM O “QUEM NÃO DEVE NÃO TEME”! ". Não lhe vou dizer isso, mas pergunto : Tem medo de quê, Sr.Macguffin ?
No dia 18.Setembro escrevi este post no meu blog, que me permito transcrever para melhor clarificar a minha pergunta:
Ministro da Finanças defende fim do sigilo fiscal e diminuição do sigilo bancário É apenas "uma opinião pessoal" do ministro, que diz "não ter qualquer receio de transmitir", mas o simples levantar da questão é sempre bem-vindo para quem como eu não tem qualquer medo de mostrar às Finanças e à Justiça a minha conta bancária e os impostos que pago. Mas não tenho ilusões. Não vai passar de "opinião pessoal". Todas as pessoas que fogem aos impostos vão-se manisfestar, mais ou menos camufladas. Vão falar de perda de "liberdade", de perda de "privacidade", do risco de "fuga de capitais", vão dizer que a "democracia está em risco", e que "não é com medidas destas" que se combate a fuga fiscal. Talvez. Mas seria um bom começo. Enquanto não tentarmos .... Mas é curioso ver que a Direita, sempre tão pronta a aumentar as penas de prisão, não se lembre que talvez esse fosse o caminho. Se por exemplo, qualquer pessoa apanha a fugir fosse obrigada a restituir 20 vezes mais o valor que tentou esconder, talvez pensasse duas vezes. Se o médico ou o advogado que não passa o recibo corresse o risco de suspensão de licença talves pensasse duas vezes. Se a empresa apanhasse uma multa extensível aos gerentes talvez esses mesmos gerentes pensassem duas vezes. Talvez. Mas seria um bom começo. Enquanto não tentarmos .... A classe média em vez de se "levantar em armas", olha para os ricos com inveja e para os pobres com desprezo. Olha para os ricos e em vez de criticar a fuga aos impostos, pensa antes como pode fugir também. Não quer acabar com o estado das coisas, mas antes fazer parte dele. E é claro que não consegue. Mas esta lavagem cerebral serve os interesses dos ricos e priveligiados, porque assim podem continuar a ser ricos e priveligiados sem ninguém os incomodar. A não ser talvez o Ministro das Finanças quando se pôe a dizer o que pensa.


Eu sou daqueles que ainda pensa (e digo "ainda", porque a coisa começa a rarear) que o Estado – essa entidade abstracta recheada de funcionários sem rosto – não tem o direito de se imiscuir «por dá cá aquela palha» na vida particular dos cidadãos, para vasculhar, por exemplo, informações e registos de natureza financeira. Sou daqueles que defende a existência de um espaço privado - restrito, inalienável, inviolável - que subsista a coberto da devassa, da curiosidade alheia ou do livre arbítrio de teor burocrático. No balanço entre os deveres e os direitos, entendo que há direitos – como o direito à privacidade e à reserva de informações de carácter pessoal – que não podem ser subvertidos de ânimo leve em nome de certos deveres – como o dever pagar impostos – ou de certas cruzadas moralistas. O que me assusta nas declarações do ministro é a natureza arbitrária e leviana de que se podem passar a revestir os trabalhos de fiscalização e de controlo dos contribuintes, por parte da administração fiscal. Assusta-me, e incomoda-me, pensar que um mero funcionário possa ter acesso, à distância de um clique ou de um número de fax, a informações de carácter privado, como são as constantes num extracto bancário, sem que o visado tenha disso conhecimento. Por que razão pode o Sr. Antunes, funcionário ou inspector tributário, consultar a minha conta bancária sem qualquer aviso prévio? Eu posso ver a do Sr. Antunes, ou ele é, à partida, melhor cidadão ou contribuinte do que eu? Que direito tem o Sr. Antunes de suscitar junto da minha instituição bancária dúvidas sobre a minha conduta (“um gajo das finanças acaba de pedir o extracto bancário do MacGuffin. O gajo deve andar a fazer merda”)? Se há uma discrepância entre, por exemplo, o carro que eu conduzo, e aquilo que eu declaro, não é da mais elementar justiça que me peçam primeiro explicações antes de consultar nas minhas costas as minhas contas bancárias?

Não está em causa o levantamento do sigilo bancário, procedimento hoje em dia indispensável para detectar casos de fraude ou evasão fiscal. O que está em causa são as formas e circunstâncias. Eu entendo que o levantamento do sigilo bancário deve ser despoletado em último recurso e sempre com o conhecimento e a audição prévia do contribuinte. É só.

ACONTECIMENTO ABSOLUTAMENTE EXTRAORDINÁRIO

O Pinilla marcou um golo.

domingo, novembro 14, 2004

QUEREM MAIS PROVAS?

Acredito cada vez menos na tese que sustenta a ideia de que Santana Lopes pretende controlar, manipular ou condicionar os media em Portugal. Ou seja, é cada vez menos provável que os senhores Gomes da Silva e Morais Sarmento estejam entretidos numa maquinação que impeça a passagem, através dos media, dos putativos sinais de desnorte e fraqueza do governo e do PSD. Se assim fosse, este congresso do PSD não estaria a ser transmitido em directo por vários canais, incluindo o público. Ou seja, nem um jornalista seria autorizado a pôr lá os pés.

sábado, novembro 13, 2004

SACKED

Boris Johnson – editor da The Spectator, membro do Partido Conservador inglês, ministro sombra de Michael Howard para as Artes (mais ou menos o equivalente, em Portugal, à pasta da Cultura), jornalista e colunista - acaba de ser afastado da posição que mantinha no Parlamento. Boris terá mentido a Howard sobre o affair secreto que supostamente mantém com Petronella Wyatt, a menina Singular Life da The Spectator, filha do falecido Lord Wyatt de Weeford. Em Inglaterra, a conduta privada de um MP volta a fazer estragos na sua carreira política.

Boas notícias para os que, dentro do partido, nunca foram à bola com o lado joi de vivre e ambíguo de Boris, mais por inveja do que por outra razão. Por mim, péssimas notícias para os tories, que perdem um talentoso, inteligente, corajoso e updated politician. À tua, Boris.


LE PEN NUNCA TERÁ RAZÃO

Escreve-se por aí que Theo van Gogh era conhecido pelas críticas que fazia aos árabes. Não só. Theo van Gogh era também conhecido pelas referências anti-semitas e anti-clericais. Theo van Gogh era um libertário e um provocador, uma espécie de «agitador de consciências» - por vezes de forma excessiva e injusta, na maior parte das vezes de forma certeira e por isso incómoda. Para o caso, pouco interessa. Nada justifica o que veio a acontecer. Theo van Gogh foi baleado sete vezes e posteriormente degolado não por um fanático judeu, não por um católico fervoroso, mas por um radical muçulmano. Ironicamente, o episódio deu-se no seio da pluralista e tolerante sociedade holandesa.

É óbvio que só um imbecil pode afirmar, perante estes factos, que todos os muçulmanos são radicais, fanáticos ou potenciais assassinos. Mas também é verdade que só um idiota pode achar que uma sondagem – segundo a qual 40% dos holandeses querem ver os muçulmanos expulsos do seu pais – é reveladora de ódio «semeado» e/ou «ideologizado» (que parasse, ao menos, para pensar e compreender o porquê daquele resultado após a morte do realizador). E só um radical e um extremista se atreve a concluir “um fanático assassina outro fanático”, como se o putativo fanatismo de uma câmera de filmar fosse equiparável ao real fanatismo de uma arma de fogo.

Vivemos hoje, a ocidente, uma situação curiosa: para contrariar, ou prevenir, uma suposta islamofobia pós-11 de Setembro, passámos a emudecer face à intolerância e ao fanatismo, a tremer perante a perspectiva de um rótulo depreciativo («racista», «reaccionário», «extremista de direita» ou coisa que o valha). Ken Livingstone, o inefável Mayor de Londres, ainda recentemente abriu os braços a Yusuf al-Qaradawi, com direito a conferência de imprensa e a mordomias tidas por convenientes (o The Guardian noticiou o acontecimento). Para quem não o conhece, lembro que o Dr. Yusuf al-Qaradawi aceita, e defende, o espancamento de mulheres; advoga a perseguição, e o eventual extermínio, de homossexuais (tipo Buttiglione, estão a ver?); apoia incondicionalmente os atentados suicidas contra Israel, incluindo os perpetrados por jovens e crianças; reza em voz alta para que os «infiéis» sejam pulverizadas da face da terra; e, last but not least, jura a pés juntos que o McDonald’s e a Pizza Hut fazem parte de um conspiração judia à escala mundial.

Sei que, desgraçadamente, no seio das sociedades ocidentais há quem seja racista e xenófobo relativamente a árabes e a muçulmanos em geral. Mas também sei que fazemos parte de uma sociedade que preza a liberdade de expressão, com capacidade para a auto-critica, uma sociedade capaz de suscitar na opinião pública posições e movimentações de sinal contrário (possibilitando e promovendo, por exemplo, a constituição de associações civis dispostas a lutar contra atitudes e sentimentos discriminatórios). Sei que vivemos em Estados de Direito, onde a Lei protege expressamente as minorias e é objectivamente contra atitudes discriminatórias e xenófobas.

Tenho, por outro lado, a certeza de que os sentimentos e a opinião do good doctor al-Qaradawi não são maioritários entre os muçulmanos (árabes incluídos). E sei, também, que são sentimentos e opiniões erradas, intoleráveis, contrárias à própria ideia de respeito pelo próximo e pela vida humana.

“Sementes de ódio”? “Ideologia do ódio”? Por favor, antes de as procurarem nos tais 40% de holandeses, procurem-nas nos al-Qaradawis que por aí pululam. Procurem-nas nas franjas radicais de algumas comunidades muçulmanas (por exemplo da inglesa). Procurem-nas no assassino que ceifou a vida a Theo van Gogh. Procurem-nas numa certa visão do mundo – reaccionária, intolerante, odiosa, ressentida - emanada da leitura enviesada e doentia do alcorão, influenciada muitas vezes por um corpo doutrinário de cariz totalitário, de inspiração ocidental.

Não estou, obviamente, a sugerir uma caça às bruxas, um movimento persecutório, uma política pró-segregação ou o fim do multiculturalismo – e só mesmo um imbecil o pode entender como tal. Digo, apenas, que devemos ter consciência do que significam as palavras. “Intolerável” significa que não se podem «aparar», «aceitar», «justificar» e muito menos «assimilar» certas opiniões, certos costumes, certos movimentos. Paremos de revisitar essa espécie de má consciência, portadora de uma atitude de comiseração patética dirigida a putativos representantes de outras culturas e povos, que nos tem levado, entre outras coisas, a adoptar uma postura amorfa, autista, relativista, em nome da tolerância, da diversidade, do multiculturalismo ou da «boa vizinhança». Há coisas que têm de ser repudiadas inequivocamente, sem olhar a comparações e a justificações. Há sinais que não devem deixar de se enviar, em defesa do que de mais significativamente positivo se produziu no secular ocidente, e em defesa das comunidades estrangeiras que devem e podem ser integradas (ia escrever «assimiladas» mas temi pela brigada do PC), ou seja, que devem ser chamadas a participar e a compreender que existem aqui valores e normas sociais inalienáveis, essenciais, supostamente second nature.

Mais importante do que vislumbrar eventuais “sementes de ódio”, é denunciar e repudiar veementemente o ódio já crescido, mortífero, pai das mais brutais violências. E o Estado não pode ficar indiferente a este fenómeno. Não pode virar as costas ao germinar de certas atitudes e à promoção de determinados costumes - os quais, repito, são intoleráveis.

Infelizmente, há sempre quem se apresse a «compreender» e a «explicar» um lado, e a esquecer ou a menosprezar o outro. Há quem se apresse a culpar a segregação e a «ghettização» de que supostamente são alvo certas comunidades estrangeiras, sem perceber, por exemplo, que, em muitos casos, são elas próprias que se auto-segregam e que deliberadamente se fecham em torno de dogmas e costumes que não devem nem podem ser praticados a coberto da tolerância, do multiculturalismo ou do cosmopolitismo. Há quem se apresse a citar Brecht contra Buttiglione, e a comparar as opiniões do italiano com as de Hitler, e emudeça perante afirmações, posições e acções incomensuravelmente mais graves. "Assim acontece", como dizia o outro.

EM PRIMEIRA MÃO

No próximo dia 2 de Dezembro, quinta-feira, às 18h 30m, Maria Filomena Mónica estará em Évora para apresentar a nova edição d'As Farpas.

A iniciativa partiu da inestimável e incansável livraria eborense Som das Letras, dos meus amigos Luis e Anabela. A sessão decorrerá no Clube da Bota Rasa, à Praça do Giraldo. Estão todos convidados.

AH POIS É!


sexta-feira, novembro 12, 2004

E NÃO ME VENHAM COM O “QUEM NÃO DEVE NÃO TEME”!

No Público: ”O ministro das Finanças anunciou ontem à noite, na Maia, que a partir do próximo ano o Estado poderá aceder às contas bancárias dos contribuintes sem os avisar previamente e sem que estes possam requerer o efeito suspensivo da consulta.”

Pergunta: serei o único a achar que esta medida é atentatória dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos? Ou serei já acusado de manter negócios escuros e registos obscuros na minha conta bancária?

Desculpem, mas isto - o Estado aceder às contas sem aviso prévio, quando lhe aprouver e sem que os contribuintes possam requerer o efeito suspensivo da consulta - é grave. No mínimo, preocupante. Quem é o Estado? Quem é que vai controlar quem? Significa isto que qualquer funcionário do fisco passa a poder entrar na minha conta bancária para saber onde estive, o que comprei, que empréstimos estão a decorrer, que dinheiro devo ou tenho disponível, etc.?

A TESE DAS “AMÉRICAS”

Há por aí uma tese que divide, ou desmultiplica (riscar o que não interessa), os EUA em várias «américas». Daniel Oliveira, por exemplo, no programa “O Eixo do Mal” (SIC Notícias), anunciava ex-cathedra, que «américas» há duas: a do interior e a das pontas (oeste e este). Outros há que defendem a existência de outras «américas». Por exemplo, uma «américa» autista, apática, inabalável, insensível, despegada (outra vez riscar o que não interessa), para a qual o 11 de Setembro passou ao lado ou foi episódio estranho. O João Pinto e Castro garante que sim, recorrendo ao óbvio ululante: os resultados eleitorais. Segundo este blogger, e como provam os ditos resultados, em Nova Iorque (a «américa» que sofreu o atentado) ganhou Kerry, no Dakota do Norte (a «américa» que não sofreu o atentado e que o viu pela têvê, enquanto fazia zapping, malhava uns hamburgueres e bocejava) ganhou Bush. E termina seguríssimo, em jeito de aviso, chispando orgulho pelo resultado de tão exaustiva elucubração: “E fico-me por aqui”. Ouviste, MacGuffin? Ele fica por aqui, ok!? Tu não o provoques, 'tá bem? Bom!

Eu também acho que sim, amigo João. É melhor ficares por aí. E desculpa lá o neo-marialvismo. Eu vou já ali cortar os pulsos. Não sem antes, claro, aparar as patilhas e o bigode, e arrumar as botas cardadas.

WINNING A BATTLE, LOSING THE WAR

Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain,
I'll be on my knees to feed her,
spend a day to make her smile again.

As the world is soft around her,
leaving me with nothing to disdain.

Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe and sound
to make sure that she is safe from harm.

The sun sets on the war,
the day breaks and everything is new.

KINGS OF CONVENIENCE, in Quiet Is The New Loud, 2001

MAIS UM BRUTAL CASO DE

O Rui discorda da minha posição porque, segundo ele:

a) Nunca nenhum ministro havia comentado, neste caso criticado abertamente, um comentário televisivo;

b) O facto de um ministro comentar um comentário televisivo é "uma forma brutal de pressão";

c) A novidade está no (maior) grau de ingerência deste governo nos media.

E aponta os casos “Marcelo”, “Fernando Lima” e “Central de Informações” como provas insofismáveis do excesso em Santana.

É uma opinião. Não vou explicar novamente porque razão penso que pensar que o comentário do ministro é uma “brutal forma de pressão” é um brutal exagero (quanto muito constituiria uma tentativa de pressão, porque a haver pressão alguém teria de se sentir pressionado). Digo, apenas, que equiparar o caso “Fernando Lima” ao caso “Marcelo”, fazendo daquele mais um caso de «pressão» sobre ou «manipulação» dos media, é, perdoar-me-ão a brutalidade da expressão, brutal (leia-se “absurdo”).

quinta-feira, novembro 11, 2004

GULA & LUXÚRIA

Não vou repetir o repetido, repetindo-o: o Fialho é uma instituição. Após um esforçado treino de ténis (das 18 às 20, temperatura ambiente a rondar os 6º C, especial incidência no smash, serviço e volley cruzado de esquerda), as minhas células gritavam, em uníssono: "queremos um Bife à Mário Cunha!", "queremos um Bife à Mário Cunha!" E eu fiz-lhes a vontade. Tinha de ser. Rumei para o Fialho onde, para meu consolo, e desconsolo dos manos Fialho, fui encontrar a sala de entrada só para mim. Lamentava-se o Amor Fialho: “O São Martinho já não é o que era. Há dez anos atrás, abalava daqui às quatro da manhã com a sala cheia! Sabe o que é: as pessoas têm medo da guarda. De soprar o balão”. Será?

As entradas foram as do costume: empadinhas de galinha, presunto pata negra, queijo de Serpa, espinafres com gambas. Main course: um Bife à "Mário Cunha", que não é mais do que um bife à café como manda a tradição, acompanhado com batatas fritas e esparregado. Sobremesa: um divinal leite creme. Mas o melhor estava ainda para vir. Em nome do dito santo (Martinho), Gabriel Fialho mandou vir castanhas fritas em azeite (diferente das tradicionais assadas), pasteis de mogango polvilhados com canela e açucar, passas de uva e passas de figo, nozes e marmelo assado. Só faltou a água-pé (que, dizem os Fialho, já é raro encontrar).

Saí de lá com o corpinho já todo dorido (do ténis), com a barriga «ligeiramente» retemperada (do repasto) e com a sensação de dever cumprido. Como se costuma dizer por aqui, “é o que a gente leva desta vida”.

INSTANTÂNEOS DE ÉVORA #1

Um Cão Na Rua João de Deus

E AINDA...

Sobre a morte de Arafat, recomendo, subscrevendo, o que escreve o Francisco (que recebe daqui um abraço).

ARAFAT

Há cerca de três anos atrás, escrevi, em artigo publicado no Público:

O paradoxo chamado Arafat
“Noticiava o Público em finais de Agosto: “Bloco de Esquerda repudia política de assassinatos de Ariel Sharon”. Ainda segundo a notícia, sublinhava o Dr. Louçã que “o governo de Israel está a seguir uma prática de assassinatos extrajudiciais contra cidadãos que não são condenados por nenhum crime, nem muito menos julgados.” A singela notícia reflectia a já habitual vertigem do Dr. Louçã para a hipocrisia e para a dualidade de critérios (já notada, por exemplo, em relação ao conflito basco). É incrível como certos comentadores apontam o dedo a Israel e ao seu governo, quanto à falta de procedimentos legais de acusação e julgamento de alegados criminosos, e emudecem face ao comportamento dos palestinianos – comportamento que, presumo eu, o Dr. Louçã considerará exemplar. Nunca, até à data, se vislumbrou da parte do Dr. Louçã ou do seu Bloco de Esquerda o mais leve gesto ou a mais exígua palavra de condenação ou repudio relativamente à violência indiscriminada e atroz dos palestinianos contra a população Israelita. Provavelmente porque o Dr. Louçã considera o terrorismo palestiniano um mal necessário para uma nobre e justa causa. Os fins voltam a justificar os meios. Todavia, existe uma diferença moral entre um «estado» que promove ou fecha os olhos ao terrorismo instituído contra outro estado vizinho (com alvos indiscriminados), e a intervenção de forças militares sobre supostos membros ou apoiantes de terroristas, ainda que sem julgamento ou condenação formal. Quando um suicida faz explodir um autocarro carregado de mulheres e crianças, ou provoca uma explosão à porta de uma discoteca frequentada por jovens, é sua intenção causar o maior sofrimento sobre inocentes, indiscriminadamente. Esperar-se-ia que o Sr. Arafat prendesse, condenasse ou entregasse às autoridades israelitas os autores materiais e/ou morais desses hediondos crimes. Mas não. Daí que me pareça particularmente ingénuo e desonesto falar em “julgamentos” e “condenações” à luz de princípios democráticos e formais de punição legal, tal como nós os conhecemos no ocidente. E daí que Israel se veja sem alternativas, para além das de carácter bélico, para se defender e, sobretudo, para prevenir mais ataques. Quando os helicópteros israelitas disparam sobre alvos palestinianos, a sua intenção não é a de matar civis (embora colateralmente o possam fazer), mas antes a de aniquilar objectivamente quem perpetra o terror ou quem o alberga. É intelectualmente desonesto não perceber e reconhecer esta diferença. Mas esta evidência não pode, por outro lado, sonegar, ou minimizar, a pouco recomendável política de Israel, de cerco e bloqueio às cidades palestinianas. Isto tudo para dizer o seguinte: julgo ser inexequível tomar partido de forma cega e unilateral por uma das partes quando se assiste a um conflito onde a razoabilidade, o bom senso e o primado da lei foram há muito esquecidos. Ainda assim, é bom não esquecer alguns factos. Yasser Arafat tem sido o denominador comum a décadas de conversações de paz para o médio oriente – as quais nunca deram qualquer resultado duradouro. Desaproveitou, de forma completamente estúpida, ocasiões soberanas de acordo (a este propósito basta lembrar que Ehud Barak esteve disposto, em Camp David, a entregar a quase totalidade da margem ocidental e metade de Jerusalém, a pôr termo às ocupações e ao desmantelamento de dezenas de colonatos judaicos). Tem sido dúbio na condenação efectiva dos extremismos anti-semitas (e sublinho ‘efectiva’ porque as palavras e as boas intenções não chegam). Começa, assim, a ser evidente que a sobrevivência política e financeira da sua Autoridade Palestiniana está manchada de sangue, na forma benevolente como se relaciona com os terroristas e na permitida propaganda anti-semita. É dos livros que um ditador tende a conservar-se no poder alimentado inimigos e conflitos, adiando investir o dinheiro em áreas bem mais prioritárias para o bem estar das populações – coisa que se pode aplicar a Arafat de forma perfeita. Mas, o pior de tudo é que Arafat, na sua notória mediocridade, representa hoje um monumental paradoxo no processo de paz, na medida em que, provavelmente, continuará a ser o único garante com que Israel pode contar para que a situação não piore drasticamente.(…)”

Yasser Arafat morreu hoje. Há quem diga que o «herói da resistência» acabou os seus dias como um ditador. Mais do que ditador, Arafat foi um estadista medíocre, um homem hipócrita e cínico, um governante incompetente. Foi, seguramente, um dos grandes ou co-responsáveis pelo infortúnio do povo palestiniano. E vai ser um dos mais ricos do cemitério.

Ao contrário do que escrevi há três anos, quero acreditar que a sua morte venha a significar o começo de um processo de paz duradouro. Por um lado, Israel não pode, agora, negar-se a negociar a paz, já que o alegado empecilho desapareceu. A condição sine qua non, tantas vezes apregoada por Sharon – de que só falaria com um novo e renovado líder da Autoridade Palestiniana –, cumpriu-se. Por outro lado, do lado palestiniano, a morte de Arafat coloca em cima da mesa o maior desafio à AP desde a sua constituição: no imediato, conter a violência sobre Israel, através do controlo dos grupos e facções armadas (trabalho, diga-se, titânico); no médio prazo, aproveitar o dinheiro da UE e dos EUA para investir no seu povo, ou seja, para pôr em prática políticas pró-desenvolvimento (aquelas que Arafat esqueceu); no geral, demonstrar a Israel que algo mudou com a morte de Arafat, passando a bola a Sharon. Se esse trabalho for concretizado, haverá esperança.

Se eu acho que eles (Autoridade Palestiniana) o vão conseguir?

ESCRITA EM DIA

A propósito do meu post sobre as eleições americanas (Uma Lição Americana), recebi a seguinte missiva de Rosa Maria Medeiros:

”Sr. MacGuffin
Apesar do andiantado da hora, é impossível não lhe escrever a manifestar-lhe o quanto me sensibilizou este seu escrito. Hoje é, sem dúvida, um dia fértil em leituras deste tipo, já no Acidental me tinha também sentido "acompanhada" a respeito deste tema e dos resultados das eleições nos EUA.
Já Guantanamo (a que faz referência) não considero ser um erro assim tão grande; não esqueçamos que os "pobres detidos" não o foram por andarem a caçar passarinhos à fisga, aliás um dos que já foi libertado até veio posteriormente a planear e executar com êxito (muito sangue, muitas mortes) um atentado algures entre a Índia e o Paquistão. Por aí, estamos conversados. E quanto às condições de detenção, parecem até ser bem melhores do que as corentes e vulgares condiçoes de vida que qualquer não-detido teria na sua terra natal. Não têm liberdade? Too bad! Para quem tem como modo de vida e "missão" cortar cabeças e fazer ir civis pelos ares, não me parece mal essa privação de liberdade.
Mas tudo o que escreveu foi excelente, até a citação de P. Johnson. Bem-haja!
RMM”


Agradeço as amáveis palavras de Rosa Maria Medeiros. Sobre Guantanamo, a minha posição mantém-se: considero que muita coisa de errado se tem por lá passado, para além do que considero razoável ou defensável.

Guantanamo era evitável? Não sei. Melhor ainda: duvido. Qualquer país vitima de um atentado terrorista tem o direito – diria mesmo o dever – de perseguir, prender e julgar quem esteja envolvido na preparação, planeamento e execução de acções terroristas. É impossível que, no decorrer desse processo, não se venham a deter inocentes e que tudo corra dentro da «legalidade». Mais: estou em crer que a maioria dos que se encontram detidos em Guantanamo estiveram comprovada e directamente envolvidos em actos terroristas. O problema reside naqueles sobre os quais pendem acusações que são difíceis de provar formalmente, ou seja, de acordo com os trâmites de um «normal» processo penal. Compreendo, em parte, o dilema das autoridades norte-americanas: despoletar uma acusação formal e abrir à sociedade civil o julgamento desses firmados ou alegados terroristas, poderia ser a forma mais rápida de libertar gente mais do que duvidosa, mais ainda nuns EUA onde, em certas áreas do direito penal, existe um manifesto excesso de «garantismo». Acresce, ainda, o facto de já ter sido libertado um individuo que veio a envolver-se, posteriormente, num mortífero atentado terrorista. Mas o contrário também já se verificou: indivíduos que foram libertados sob um pedido de desculpas formal da parte dos responsáveis norte-americanos. O problema está, precisamente, aí: no caso dos que, sabendo-se inocentes, se sentem impotentes para provar a sua inocência, uma vez que lhes estão a ser negados os necessários meios de prova. É neste ponto que, a meu ver, os EUA têm pecado para além do que é razoável. Guantanamo tem uma aura de pre-crime que não se compadece com um Estado de direito. A pergunta que se deve colocar é esta: vale a pena correr o risco de deter eventuais inocentes – sem acesso a conhecer a sua própria acusação e sem poderem defender-se – de modo a reduzir o risco de libertar falsos-inocentes? Eu acho que não. Essa é, aliás, a essência de um Estado de direito. Mesmo sabendo que em Guantanamo vigora um regime de excepção, não me agrada que os EUA dêem argumentos, e desta vez válidos, aos seus detractores.

segunda-feira, novembro 08, 2004

RELATIVISMOS

ou Levem O Que Quiserem

Fiquei a saber, hoje, da morte do pai de um colega da minha filha. Tinha 31 anos. Embolia cerebral enquanto içava uma botija de gás.

Acabei de chegar a casa e constato que fui assaltado. Roubaram toda a roupa que se encontrava, desde ontem, no estendal do terraço, a saber: umas calças Levis vintage, boxers CK, um conjunto de toalhas turcas, um tapete Habitat, uma camisola da minha companheira, meias, etc.

Em condições normais, estaria medianamente lixado. Hoje, e a partir de agora, estou-me a cagar.

PS: a referência a marcas neste post não era para ser entendida como uma manifestação de soberba ou vaidade. Servia apenas para enfatizar como, em face da morte e da insustentável fragilidade da vida, há questões que se revelam mesquinhas, insignificantes, desprezíveis.

DÚVIDAS

Sobre a suposta pressão, ou manipulação, exercida sobre a comunicação social por parte dos poderes (político e económico), e vice-versa - questão despoletada pelo incidente “Marcelo” -, não consigo deixar de me espantar, ainda que de leve, com o que têm escrito os «meus» Vasco Pulido Valente, José Pacheco Pereira e António Barreto - pessoas que sempre tomei, e continuo a tomar, por lúcidas, inteligentes e, para o caso, desassombradas. Nuns casos (JPP e VPV) mais do que noutro (AB), o actual registo não disfarça uma pitada de ingenuidade e uma boa dose do mais puro e visceral ódio relativamente à personagem que ocupa a cadeira de primeiro-ministro de Portugal. Quem os tem lido após o affair "Marcelo", ficará com a sensação de que, para estes colunistas, a chegada de Santana inaugurou um inédito e monstruoso patamar de manietação e tentativa de controlo dos merdia (expressão feliz de Clara Ferreira Alves, outra subscritora da tese). Concomitantemente (esta também é gira Jorge), à tese tem-se juntado um sem número de notícias avulsas que se desunham até à exaustão por a corroborar (a última, no Público, reza assim: ”Pais do Amaral pode precisar de apoio da CGD e do BES” - ou seja, só uma besta não percebe logo o que está aqui em causa: Paes do Amaral feitinho com o poder executivo). Longe de mim estragar a festa, que vai no auge, mas arrisco aliviar-me de umas quantas inquietações:

1) Antes de Santana Lopes (com Durão, Guterres e Cavaco), reinaria a paz, a concórdia, a honestidade e a inocência por entre uma galeria de bons rapazes?

2) Reconhecerão, agora, a Santana tamanha coragem e capacidade para engendrar um masterplan deste calibre?

3) Se Santana nada inaugurou, significa isso que a diferença está no facto de, anteriormente, as coisas se passarem de forma mais discreta, género “quem não vê não sente”, a contento de tudo e todos (jornalistas, comentadores, media, políticos e povo em geral)?

4) Haverá alguma democracia a ocidente - dita séria, liberal, plural, daquelas com os poderes hierarquizados à moda de Sieyès e separados em honra de Montesquieu – isenta de tensões e enleios entre os poderes constituídos e virgem da justaposição/intersecção de interesses entre o poder económico e o poder político?

5) O SCP conseguirá dar-me, logo, uma alegria?

PS: Resposta ao ponto 5): Não.

HELENA MATOS

Na Escolinha do Pensamento Único
Por HELENA MATOS
Sábado, 06 de Novembro de 2004
"Na vitória de Bush existem dados que de modo algum podem ser ignorados e um deles é a derrota do unanimismo. Do pensamento único. Do politicamente correcto. Ou de como se quiser chamar a essa arrogância que tem levado milhões de almas a considerarem que apenas os estúpidos, os ignorantes, os intelectualmente intoxicados e, claro, os que representam obscurantissimos interesses discordam das suas teses. Aliás uma das características do pensamento único é essa estruturação em função do inimigo externo. É a esse inimigo que dedicam grande parte dos seus discursos, subestimando um programa político. Nazis, fascistas e comunistas, expoentes ideológicos do pensamento único, são disso um bom exemplo. Ironicamente é pela sua relação com os inimigos que acabaram a ser julgados na posteridade: os campos de extermínio, a tortura, as execuções sumárias - ou seja as formas a que recorreram para se desembaraçarem dos inferiores - sobrepõem-se àquilo que fizeram ou se propuseram fazer com aqueles que os apoiavam.

Nas democracias, os continuadores desta gente de convicções sólidas sobre o QI e o carácter dos outros, são os zelosos arautos do politicamente correcto. E estes arautos instituíram Bush como o inimigo. Logo ao mesmo tempo que o depreciavam intelectualmente, apresentavam-no como isolado do mundo da cultura. Listas de cantores, realizadores de cinema, jornalistas, escritores... foram-se declarando anti-Bush e essa tomada de posição era apresentada como um acto de resistência pese ser absolutamente consensual no mundo de que provinham essas pessoas. O aval dos intelectuais e dos artistas a determinados líderes e a sua rejeição a outros funciona não apenas em termos obvia e directamente mediáticos mas também de forma muito mais profunda apelando a que haja uma identificação entre o líder apoiado e a inteligência. O líder rejeitado, antes pelo contrário, é apresentado como anti-cultura, anti-inteligência. No mundo do pensamento único está instituído que Bush é estúpido pois Michael Moore - tão culto e que tem tido tantos prémios de cinema - provou que ele é estúpido. Faz tanto sentido acreditar na estupidez de Bush a partir dos filmes de Michael Moore quanto presumir que os alemães eram uma raça superior após visionar os documentários de Leni Riefenstahl, mas uma das características do pensamento único é precisamente o conseguir renovar constantemente os objectos dos seus ódios e paixões, sem nunca questionar a sua disponibilidade para acreditar naquilo que quer e precisa que seja provado.

Bush será provavelmente tão ignorante e estúpido quanto Jimmy Carter. Exactamente esse que foi presidente dos EUA e que os europeus transfomaram dum produtor de amendoins incapaz de perceber o mundo num misto da bondade da Madre Teresa de Calcutá e da inteligência de Albert Einstein, desde que declarou que o escrutínio na Flórida podia não ser fiável. Mas esse mesmo ex-presidente norte-americano, quando estava na Casa Branca chamou com carácter de urgência, o físico Fran Press. Porquê? Carter tinha lido num jornal "Do Sol chegam menos neutrões do que se esperava". O conselheiro científico confrontou-se com um alarmado Carter que lhe perguntou "O que podemos fazer, Press?" Será esta história de pacotilha verdadeira? Não faço ideia mas é do mais elementar bom senso não se avaliar por este episódio a cultura de Carter, sendo que me parece absolutamente normal que Carter tenha reagido como reagiu. Mas quantas pequenas histórias como esta temos ouvido com o propósito de corroborarem esse dogma inquestionável que é a estupidez de Bush?

A este subestimar constante dos adversários - note-se que nunca se subestima a sua força, antes se exagera porque o pensamento único precisa de inimigos apenas se subestimam as suas capacidades intelectuais e o seu perfil moral - junta-se o culto dos líderes do pensameto único. Os baús da História estão cheios de fotografias retocadas, biografias amputadas ou pura e simplesmente inventadas. (A quem quiser contemplar este exercício numa versão praticamente extinta recomendo o site da Coreia do Norte http://www.korea-dpr.com ou o jornal cubano Granma na sua versão digital http://www.granma.cu ). Na versão mais corrente e próxima temos já não a criação de personalidades exemplares de Chefes, Queridos Líderes, Grandes Timoneiros, Generalíssimos... mas sim títulos como "John Kerry, aristocrate de gauche" ( jornal "Le Monde" de 26 de Julho) que revelam não só um profundo desconhecimento quer do programa quer da biografia de John Kerry como uma enorme e inquietante disponibilidade para sobrevalorizar um homem, no caso Kerry, em detrimento de outro, no caso Bush.

Independentemente do candidato que se tenha apoiado, as eleições norte-americanas acabaram por ilustrar a cegueira a que conduzem os consensos inquestionáveis e os unanimismos. Contudo no nosso dia a dia, eles estão aí, às vezes tão absurdamente evidentes que já não nos espantam nem indignam. Veja-se, por exemplo, a forma como, esta semana, foi relatado o assassínio do realizador Theo van Gogh: "O realizador holandês da curta-metragem Submissão, Theo van Gogh, foi ontem assassinado, em pleno dia numa rua de Amesterdão. O controverso cineasta acabara de realizar um filme sobre o assassínio do político populista e de ultradireita Pim Fortuyn, morto em Maio de 2002. O suspeito, de 26 anos, foi descrito como tendo barba comprida e estar vestido como um muçulmano." Ou seja, segundo esta notícia do jornal "A Capital", igual nos seus preconceitos a tantas outras que relataram esta morte, o assassino é o único que tem direito a um tratamento isento: apesar de estar vestido como muçulmano e de mais à frente se ter acrescentado que possuía nacionalidade marroquina ninguém o adjectiva de nada. Não é controverso, não é fundamentalista islâmico, não é racista, não é anti-ocidental.

Imaginemos que Theo van Gogh em vez de fazer um filme sobre a violência a que o Islão submete as mulheres ou sobre o "político populista e de ultradireita Pim Fortuyn" tinha optado por tratar a vida de Chico Mendes, o líder dos seringueiros brasileiros assassinado em 1988 e que o homem que o matara tinha nacionalidade brasileira. Então esta notícia seria mais ou menos assim: "O cineasta conhecido pelas suas corajosas posições de apoio à luta dos povos da Amazónia acabara de realizar um filme sobre o assassínio do carismático líder seringueiro Chico Mendes, barbaramente assassinado no final de 1988 por homens a soldo dos grandes fazendeiros do estado do Acre. A possível ligação do assassino de Theo van Gogh aos responsáveis pela morte de Chico Mendes parece ser inevitável." Como Theo Van Gogh não escolheu os temas certos é um assassinado "controverso".

Moral da História: no pensamento único nada se perde, tudo se transforma."

domingo, novembro 07, 2004

A CAUSA FOI DESLOCADA

Ah pois foi!

CALMA, MUITA CALMA

Caro Rui,
Julgo não teres percebido a razão de eu ter chamado à colação o número de páginas do livro de Paul Johnson. Não as referi (ao número de páginas) com o intuito de puxar dos galões, nem sequer de entrar numa comparação de «arsenais» (quem leu mais e melhor sobre os EUA, até porque o Vidal, o Boorstin, o Kissinger e o Tocqueville estão ali, a acenar-me da estante). A razão porque as mencionei (às páginas) foi apenas no sentido de contrariar a ideia por ti avançada (poderá ter sido erro de interpretação, admito) de que Paul Johnson teria reduzido em artigo ou em dois ou três parágrafos a história dos EUA. Não o fez. Até porque esse tipo de «reduções» e simplificações não jogam com o modus operandi de um historiador (Johnson) a quem se pode acusar de tudo menos de leviano ou não meticuloso.

Como tu próprio acabas por reconhecer, no teu primeiro post acabaste a simplificar a questão quando a ela te referiste como “um grupo de puritanos, uns índios benevolentes e uma natureza agreste”. Dizes, agora, que não simplificaste em demasia. Eu acho que sim. Desde logo porque reduziste séculos de história a uma série de acontecimentos iniciais, com referências à pré-revolução e à revolução, mesmo sabendo que se trataram de acontecimentos seminais para a história daquela nação.

De resto, acabas por colocar uma pedra sobre o assunto, e muito bem, quando agora dizes “eu não disse que os americanos tiveram a vida mais fácil do que os outros povos. Eu apenas disse que as dificuldades nunca foram transcendentais quando comparadas com a de outros povos.” Inteiramente de acordo! Não acho é que se pudesse ler, nem sequer subentender, nada em contrário da citação de Paul Johnson.

Já em relação à parte final do teu post, quando escreves “Eu acredito que a História americana (no sentido Fukuyamesco do termo) acabou com o fim da Guerra Civil. A partir dai deixou de haver discussão séria na américa acerca do modelo de sociedade a seguir, da mesma forma que a Queda do Muro de Berlim acabou com essa discussão na Europa. Tudo o que aconteceu posteriormente foi uma consequência natural da vitória de Lincoln na Guerra Civil”, dela discordo veementemente. Se tiver tempo, e paciência, voltarei ao assunto.
PS: espero que não leves a mal o tratamento por “tu”.

sábado, novembro 06, 2004

OLHA, OLHA: ESTA NÃO SERÁ À MARGEM DO DIREITO INTERNACIONAL?

No Público:

"Chirac ordena a destruição dos aviões militares da Costa do Marfim."

"Em comunicado, o ministério dos Negócios Estrangeiros afirma que o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, foi informado da decisão de Chirac."

"É dado conta também que os membros do Conselho de Segurança, que estão reunidos neste momento, estão a par da situação."


Ilegal, ilegítima, ilícita? Nã, ele «informou» da intervenção...


GUERRA...

...é guerra.

NOVECENTAS E NOVENTA E SETE

Caro Rui: não se trata de um artigo. Trata-se de um excerto do livro A History of the American People. Antes daquela passagem, encontram-se 997 páginas onde Paul Johnson tenta contar a história de um povo e de uma nação. Novecentas e noventa e sete páginas que explicam, e eu penso que muito bem (mesmo tendo em conta que sou um indefectível de Johnson), as convulsões e as dificuldades por que passou um povo, e as razões das diferenças (escuso de entrar em qualificações ou comparações) entre a Europa e os EUA. Nesse sentido, não julgo que possamos reduzir a historiografia e a história dos EUA a um embate entre um grupo de puritanos, uma natureza agreste e um bando de pacíficos nativos, numa caminhada de quatrocentos anos relativamente fácil e linear. Não concordo com as tuas palavras, mas também não pretendo refutá-las para além disso. Penso que este blogue perderia irremediavelmente os seus milhares (cof, cof) de leitores, sem paciência para suportar uma longa e chata lucubração sobre esta questão, durante a qual teria de falar sobre a Revolução Americana; o conflito entre Patriots e Loyalists; a guerra civil de 1850 a 1870 (na qual podemos encontrar muitas das causas e consequências do que são hoje os EUA); a imigração em massa; as tensões raciais e religiosas; as duas guerras mundiais; as crises e revoluções económicas; etc. etc. Tudo para concluir que foram imensas as adversidades por que passou aquele melting-pot. Ao contrário do que parecem indicar as tuas palavras.

MUITO BEM

Agora sim, está perfeito.

sexta-feira, novembro 05, 2004

A LER

UMA LIÇÃO AMERICANA

”[T]he story of America is essentially one of difficulties being overcome by intelligence and skill, by faith and strength of purpose, by courage and persistence. America today, with its 260 million people, its splendid cities, its vast wealth, and its unrivalled power, is a human achievement without parallel. That achievement – the transformation of a mostly uninhabited wilderness into the supreme national artifact of history – did not come about without heroic sacrifice and great sufferings stoically endured, many costly failures, huge disappointments, defeats, and tragedies. There have indeed been many setbacks in 400 years of America history. As we have seen, many unresolved problems, some daunting size, remain. But the Americans are, above all, a problem-solving people. They do not believe that anything in this world is beyond human capacity to soar to and dominate. They will not give up. Full of essential goodwill to each other and to all, confident in their inherent decency and their democratic skills, they will attack again an again the ills in their society, until they are overcome or at least substantially redressed. So the ship of states sales on, and mankind still continues to watch its progress, with wonder and amazement and sometimes apprehension, as it moves into the unknown waters of the 21st century and the third millennium. The great American republican experiment is still the cynosure of the world’s eyes. It is still the first, best hope for the human race. Looking back on its past, and forward to its future, the auguries are that it will not disappoint an expectant humanity.” PAUL JOHNSON, in A History of the American People (Phoenix Press, 2000)

Contra a «vontade do mundo» e as «revoluções psicológicas» apregoadas pelo Dr. Soares; contra a jactância europeia (que exigia a eleição de Kerry e não evitou enviar um grupo de observadores a terras americanas, como se aquelas eleições fossem no Kazaquistão); contra a sobranceria dos que, durante quatro anos, fizeram do seu presidente um «idiota» chapado; contra o vaticínio contido no já famosíssimo “Eles mentem, eles perdem”; contra a «paz» e os «apaziguamentos»; contra tudo e contra todos, os americanos escolheram, de forma livre e em consciência. E escolheram George W. Bush, o Tirano. Estiveram, é bom dizê-lo, positivamente cagando para os editorais à la Osório, para a posição da intelligentsia francesa sobre o assunto, para as Cassandras que pululam na abnegada e nobre Europa, para a difusa opinião pública mundial. Uns chamar-lhe-ão arrogância, irresponsabilidade, burrice. Eu chamar-lhe-ei liberdade, independência, frontalidade.

As reacções – quase sempre em registo apocalíptico - não se fizeram esperar. Umas mais audíveis e aveludadas (“O medo venceu a esperança” declarava o Eng. Ângelo Correia), outras à boca pequena e mais crispadas (“os americanos provaram que são estúpidos”), de tudo se tem ouvido e lido. E, no meio do pavoneamento dos «especialistas», uma coisa fica bem clara: todos fizeram questão de revelar a sua endémica incompreensão sobre o que são os EUA.

Não era, aliás, de esperar outra coisa. Estamos a falar de gente que já esqueceu o que não sofreu, de gente que tende a aplaudir o «sacudir a água do capote», de gente que, se pudesse, colocava tudo como dantes, na lodosa, doentia mas «legal» ordem mundial pré-11 de Setembro. Nunca, obviamente, perceberão o que foi o 11 de Setembro e nunca vislumbrarão o seu verdadeiro impacto na consciência de um povo. Nunca perceberão de que estirpe e grandeza se pode revelar o sentimento de união de um povo em torno do seu commander-in-chief, sobretudo em tempos difíceis e incertos. Foi Vaclav Klaus, o presidente checo, que o disse: ”Em tempos difíceis, Bush provou ser um verdadeiro líder do seu país e os eleitores americanos mostraram o seu reconhecimento”. Quem não perceber isto dificilmente perceberá o que é ser norte-americano.

A ferida 11/9 continua aberta e não sarará sem deixar marcas. Para a maioria dos americanos, os EUA estão em guerra – uma guerra que não pediram mas para a qual foram empurrados. Neste contexto, nunca encaixará na mentalidade americana optar-se pela tibieza e pelas meia-tintas, pela hesitação e por pedinchar «compreensão» e «ajuda», sobretudo a quem fez e faz questão de se anunciar moralmente superior. Perante um ataque sem precedentes na história daquele país, continua a ser claro para a maioria do povo americano que não há melhor defesa do que o ataque. A determinação dos americanos, na adopção de uma atitude pró-activa e não contemplativa face aos desafios e aos problemas, será sempre contrária à gaguez, à indeterminação e à incoerência tantas vezes revelada por John Kerry.

Para um povo que sofreu no seu próprio solo a barbárie da estupidez, do fundamentalismo assassino e da intolerância religiosa e cultural, este não é um tempo de condescendência, de «apaziguamento». Muito menos de desistência. Mais do que nunca, os americanos sabem que dependem deles próprios e de mais ninguém. Não é de admirar que tenham excluído da presidência um homem que prometia arrepiar caminho, que prometia «diálogo» e «concertação» com quem, no passado, os tinha acusado de «unilateralismo» e os tinha remetido para a categoria de bárbaros e mentirosos. Não é de admirar que tenham votado em quem apoiava inequivocamente os seus homens no terreno, em quem fez sempre questão de lembrar que aquela era uma guerra justa, que valia e vale a pena travar.

Os americanos são um problem-solving people. Recusam-se a acreditar que existem coisas no mundo que escapam à capacidade, à vontade e ao engenho humanos – apesar de, lá no fundo, saberem que sim. É essa tenacidade que os leva a não abrir mão do que acreditam ser melhor para eles e para o mundo, e que os conduz a lutar e a defender acerrimamente os seus ideais - que são, foram, ou deviam ser os nossos. Nos EUA, expressões como «Mundo Livre», «Liberdade» e «o Bem contra o Mal» conseguem passar pelo crivo do cinismo e da hipocrisia, alcançando com igual sentido e força o common man, o intelectual, o académico ou o político - ao contrário do que acontece na sofisticada Europa.

Há quem se assuste com a carga de fé e perseverança presente num saloio texano de olhar símio, que para o bem e para o mal vai continuar sentado na cadeira do poder da mais poderosa nação à face da Terra. É essa, precisamente, a diferença: os americanos estarão sempre próximos de quem transmitir força e determinação, de quem recusar parar para ver as vistas ou desistir para evitar canseiras, seja qual for o grau de sofisticação e o estilo adoptado. Os americanos estarão sempre ao lado de quem não hesita quando se trata de defender os valores do tal «mundo livre» - a tolerância, a liberdade de expressão e de culto, o respeito pela vida e dignidade humanas - contra a campanha fundamentalista que pretende condicionar politicamente as democracias ocidentais e o quotidiano das suas gentes, mesmo que no passado eles próprios tenham perpetrado injustiças ou tenham cometido, pela sua acção ou inacção, erros mais ou menos graves (e estou a lembrar-me, hoje, de Guantanamo).

Para quem tende a desvalorizar e a menosprezar estas ameaças; para quem pensa que tudo não passa de um conjunto de receios totalmente infundados; para quem acha que o 11/9 foi um incidente isolado, longínquo, dirigido a quem há muito estava a pedir uma carga de poetic justice - nada disto faz sentido. Mas foi por a maioria dos americanos pensar de maneira diferente que Kerry perdeu. Once in motion, the job has to be done, pensaram eles. E, provavelmente, não pensaram mal.

É A TUA SORTE

Não soubesse eu o que ele pensa desta merda toda, e o “Tanta gente ainda espantada, por haver quem prefira as mentiras de uns às verdades de outros” já me tinha enfiado num bólide cujos cavalos me escuso aqui de mencionar, para lhe afiambrar um par de tabefes naquela cara de quem parece não comer vai para três dias.

quarta-feira, novembro 03, 2004

FATUUS FATUUM INVENIT

O Contra a Corrente errou, o Pula Pula Pulga ganhou. Ganhou, aliás, explorando, de forma leal e edificante, o estilo “conservador” (leia-se “reaccionário”) deste blogue, as pueris contradições que se vão por aqui enleando, a falta de lucidez aliada à atitude de subserviência para com os poderes instituídos, que caracteriza a prosa de quem ousou baptizar pateticamente o seu blogue de “Contra a Corrente”. Um trabalho elegantíssimo, minucioso, ex cathedra, cientifico, com um índice de infalibilidade a rondar os 100%.

Por estas e pelas razões que se seguem, sugiro que deixem de ler o Contra a Corrente.

13 Razões Para Deixar De Ler O Contra a Corrente E Passar A Ler O Pula Pula Pulga

1. No Contra a Corrente o “discurso”, apesar de “alegrete”, é “pobrete”. No Pula Pula Pulga não;

2. O Contra a Corrente tem “o seu quê de lúdico” mas falta-lhe “elaboração”. O Pula Pula Pulga, para além de lúdico, é extremamente elaborado;

3. O Contra a Corrente é “previsível”. O Pula Pula Pulga é totalmente imprevisível;

4. No Contra a Corrente o rigor é nulo. No Pula Pula Pulga é tudo devidamente fundamentado;

5. O Contra a Corrente está ao serviço do establishment, logo “a favor da corrente”. É o Pula Pula Pulga que está “Contra a Corrente”;

6. O Contra a Corrente acredita que o problema está com a democracia e não com Alberto João Jardim, apesar de achar que a democracia é o melhor sistema. O Pula Pula Pulga sabe que não é assim: os eleitores da Madeira é que são o problema (estúpidos há mais de 20 anos);

7. O Contra a Corrente insiste no dirty realism de pensar que a relação entre o poder político e os órgãos de comunicação social nunca foi, nem será, inocente, distante, circunstancial. O Pula Pula Pulga acredita no Pai Natal;

8. O autor do Contra a Corrente é, para alem de tosco, um idiota da subjectividade. No Pula Pula Pulga tudo é objectividade;

9. No Contra a Corrente as teorias da conspiração não têm lugar e o “cenário é tudo”. No Pula Pula Pulga não: é lá que “o” filme está em cartaz;

10. No Contra a Corrente “prefere-se a Spectator ao Pula Pula Pulga”. No Pula Pula Pulga não: a preferência vai inteirinha para o Pula Pula Pulga;

11. O Contra a Corrente alberga uma criatura “totalmente impermeável à realidade e à razão”. No Pula Pula Pulga não: quem lá escreve já viu a luz e a razão entra-lhe por todos os poros e orifícios;

12. O autor do Contra a Corrente vai prestando, de babugem em babugem, uma reverencial homenagem aos seus putativos mestres. No Pula Pula Pulga não: as referências vêm de dentro, ou seja, do próprio Pula Pula Pulga;

13. O Contra a Corrente é incapaz de realizar o óbvio: o Eng. Paes do Amaral é um mafarrico e o Prof. Dr. Rebelo de Sousa um santo;

PS: com a devida vénia, e agradecendo, desde já, as capacidades intelectuais de PPP, o Pula Pula Pulga passa a fazer parte dos “Muito Cá De Casa”.

terça-feira, novembro 02, 2004

ATCHIIIIIIIIIIIIIMMMM!

Esdou consdibado.

MY MOLESKINE


CORREIO

De Fernando Gomes da Costa:

Confissões de comedor de hambúrgueres
(“Size me up” ou “dumb me down”?)
Embora ciente do que isso significa como cedência ao poder económico/yankee dominante, confesso que costumo com alguma regularidade comer nos McDonald’s. Tenho no entanto fé (ups! estou a entrar por caminhos perigosos…), queria antes dizer, convicção, que tal fraqueza não será por enquanto motivo para me vedar o caminho a algum cargo público relevante ou mesmo a um qualquer lugar no Parlamento Europeu, e por isso lá arranjei coragem para escrever este testemunho.

Ainda não experimentei, não sei se por falta de imaginação se por falta de apetite, fazer como o protagonista e realizador do filme “Size me up”. Para quem não tem ouvido ou lido alguns dos nossos meios de comunicação que declaradamente o veneram, explico que se trata da última coqueluche na área dos filmes/propaganda/ensaboadela progressista ultimamente muito em voga.
O argumento, de uma densidade profunda e só igualada pela sua objectividade científica, consiste na metamorfose (Kafka não faria melhor) de um indivíduo que, por razões ponderosas, resolve durante um mês inteiro fazer um regime com três refeições por dia de apenas hambúrgueres e batatas fritas (versão super-menu quase sempre).

No final, num volte-face inesperado, o herói não morre, o que pode levar os mais malévolos a insinuar que afinal os Mac não são assim tão perigosos. Imagine-se, por exemplo, o que lhe fariam 30 dias de um regime muito mais português e muito menos globalizante de farturas e vinho, ou coiratos e enchidos, ou mesmo feijoada e jeropiga… Mas a verdade é que ele sai da aventura algo combalido, segundo parece com 13 quilos a mais e um colesterol elevado, embora os médicos que o seguiam atentamente nesta missão de alto risco não suspendessem a experiência, não sabemos se por ambicionarem ter o primeiro mártir artista/cientista da História, se por ele gostar mesmo muito de hambúrgueres e batatas fritas.

Não tendo sido o filme da minha vida, talvez por eu não ser um Eduardo Prado Coelho, confesso que me deixou a pensar. Por que razão irei eu aos McDonalds? Será que, mesmo sendo médico, tenho uma compulsão freudiana que não detecto? Será que a terrível dominação dos interesses económicos me obriga subliminarmente a mim e a tantos inocentes a lá ir comer? Será da adrenalina que causam as actividades de alto risco? Será que é por ser barato, rápido, saboroso, e não fazer mal de maior desde que, como com qualquer outra comida, não se abuse? (esta hipótese claro que é falsa). Não sei. Se calhar é porque, como diz um amigo meu, é a única situação em que ao mesmo tempo que se mata a fome e se pode ter o gozo de se estar publicamente a mandar aquela parte os sermões do progressismo revolucionário/chic e os fundamentalistas das sociedades alternativas. Se eu fosse publicitário, sugeria mesmo à McDonald’s o slogan “a única comida que também é ideologia”.

Pensando bem, acho que afinal a minha motivação principal é acreditar que sempre é melhor submeter-se ao pronto-a-comer do que ao pronto-a-pensar.

Fernando Gomes da Costa
(Nota destinada a todos os que generosamente zelam pela nossa liberdade, segurança, e nos protegem dos males da globalização e de outros maus caminhos: o autor destas linhas comunica publicamente que não foi, não é, nem nunca será accionista da McDonalds (embora gostasse…) ou de qualquer outro modo beneficiário de algum dos milhões de dólares que esta multinacional diariamente factura (com muita pena sua)).


DÃO-ME LICENÇA?


in The Economist

CORREIO (AINDA O “CASO BUTTIGLIONE”)

(revisto)
De Pedro Mexia:

”Meu caro:

Como sabes, tenho por costume não responder, em blogues, a textos que tenha publicado na imprensa. Caso contrário, nem me sobrava tempo para escrever posts. Abro uma excepção no teu caso, porque se trata de um blogue (e de um bloguista) que eu acompanho e admiro desde o início. E também porque se trata de um assunto que me diz muito.

O meu texto d’ O Independente é o texto de um católico que está crescentemente decepcionado com o catolicismo (penso que terás acompanhado esse processo desde A Coluna Infame). Nisso, o «caso Buttiglione» é apenas mais um episódio. É possível que tenhamos opiniões diferentes sobre o que se passou. Mas não são tão diferentes como isso: ambos achamos que o senhor Buttiglione (como qualquer pessoa) tem o direito a exprimir a sua opinião sobre qualquer matéria, por minoritária ou «incorrecta» que seja. Se o tivesse dito numa entrevista, noutro momento (como aconteceu doutras vezes), nem me merecia comentário. Mas ter caído daquela forma naquela armadilha pareceu-me uma tontice. Não se trata de uma defesa da dissimulação, como sugeres, mas apenas da precaução de não trazer para o foro público matérias do foro privado, como são as convicções religiosas. O «pecado» não é matéria que se discuta num parlamento.

Também não coincidimos na expectativa que essas frases lançaram sobre o (eventual) mandato do comissário indigitado. Pelos vistos, acreditas que a opinião de Buttiglione sobre a homossexualidade e o casamento não teria qualquer influência no seu desempenho no pelouro da Justiça (que inclui as políticas de não-discriminação). Eu temo que tivesse. Acho que, não obstante o decisivo distinguo entre moral e direito, não se pode ser activamente contra a homossexualidade e depois exercer um cargo onde se tem de proceder como se se considerasse a homossexualidade normal. Não creio que um militante católico conservador como é Buttiglione conseguisse fazer essa separação no futuro. E ficava sempre a suspeita, a cada decisão nessa matéria. Além disso, creio que a opinião de Buttiglione, embora respeitável, não traduz o pensamento maioritário sobre esses temas. Ora, num parlamento, o pensamento maioritário tem toda a importância. Repara que não confundo maioria e razão. A maioria está muitas vezes errada. Mas se existe uma maioria sociológica (e política) num determinado sentido, não é sensato que um político (que procura a aprovação de um parlamento) faça um escusado braço-de-ferro. E isto independentemente de eu concordar ou não com as opiniões de Buttiglione (não concordo) ou de achar que são ou não indiscutíveis para um católico (acho que são muito discutíveis). O meu ponto é que, por inabilidade ou provocação, o italiano causou uma crise que não era necessária. E uma crise na Europa, neste momento, tem consequências danosas.

E aqui chegamos ao ponto central do meu texto. Julgo que os católicos têm combatido combates errados. Dou os exemplos do cristianismo na Constituição Europeia e da adesão da Turquia. No primeiro caso, é uma guerra simbólica, sobre um assunto menor. Admito perfeitamente que isso fosse importante para alguns militantes, mas não que se fizesse disso um casus belli. Um preâmbulo de uma Constituição (como sabemos pela nossa) é uma balela, quando muito uma batalha semântica, mais nada. Já no que diz respeito à Turquia, acho lamentável que políticos cristãos desenterrem o argumento religioso, quando a Turquia é um raríssimo caso de islamismo moderado, que devemos defender em vez de afastar como ímpio.

O caso Buttiglione, para mim, é mais um sintoma de uma desastrada intervenção política dos católicos. Mais um. Que continua o repugnante papel que a Igreja Católica teve na guerra do Iraque. Não me esqueço facilmente do facínora «cristão» Tareq Aziz em Assis, a «rezar» pela «paz». Nem de padres e bispos a dizer que para o cristianismo a guerra nunca (repito: nunca) se justifica (pobre S. Tomás de Aquino). Estas coisas deixam-me indignado.

Se quiseres, eu identifico-me com uma concepção privada da esfera religiosa (como te recordarás, defendi isso mesmo várias vezes). Nesse sentido, subscrevo inteiramente as palavras que citas do João Pereira Coutinho: (...) essa foi a principal conquista do cristianismo: um espaço íntimo, intocável e privado, onde a «polis» não entra. Com essa concepção de cristianismo estou totalmente pacificado. Mas creio que esse espaço íntimo também não deve entrar excessivamente na «polis», visto que esta é laica e plural. Admito que um católico faça intervir a sua consciência religiosa em casos extremos (estaria mesmo disposto a admitir que o aborto é um desses casos); mas não creio que a permanente mistura entre a esfera religiosa e a esfera política dê (e tenha dado) bons resultados. Quer para a religião quer para a política. E sinto que os católicos estão cada vez mais interventivos no mau sentido, no mesmo sentido inaceitável da «direita religiosa» americana que certamente desprezas tanto quanto eu.

Quanto ao mais, totalmente de acordo: um cristão paga sempre mais caro as suas opiniões que outra pessoa. E claro que o jacobinismo regressou em grande. Mas não creio - mesmo enquanto católico – que à intolerância dos jacobinos se deva responder com a insensatez dos pregadores.

Desculpa a extensão do mail, mas esta matéria não é tipo Santana. É, para mim, muito «close to the bone». O que se passa em minha casa traz-me mais perturbação do que o que acontece na casa do vizinho.

Um abraço

Pedro


Caro Pedro,
Como era de prever, aproximámo-nos irremediavelmente. Concordo com muito do que escreves. Buttiglione tem o direito e a liberdade de poder exprimir a sua opinião, por minoritária ou «incorrecta» que seja. Por principio, matérias do foro privado devem permanecer afastadas do espaço público. Seria provável que se lançassem suspeitas sobre decisões de Buttiglione em matérias que envolvessem questões de «não-descriminação», e o próprio Buttiglione sentir-se-ia condicionado sob a iminência dessa «suspeita». A forma como a Igreja se tem imiscuído em matérias de natureza estrita ou marcadamente política, tem sido, no mínimo, infeliz (e tem conduzido a situações hilariantes, com gente que abomina a igreja de braço dado com esta). A concepção privada da esfera religiosa é uma questão fulcral, fundamental para o futuro da(s) religião(ões). Ambos comungamos do desprezo por uma certa direita religiosa americana (reaccionária, demagoga, estapafúrdia).

Dito isto, foi a «polis» que invadiu o «espaço íntimo», ou o contrário? Eu continuo a achar que foi a «polis» que amplificou, para além do razoável, uma convicção intima, pessoal, declaradamente «intransmissível». Buttiglione fez questão de frisar – e este é um ponto importante - que, para além de pessoal, aqueles «preconceitos» (sobre a homossexualidade, o casamento, etc.) em nada beliscariam as ideias de tolerância, respeito e não-descriminação inscritas na Constituição e na Carta dos Direitos Humanos, que ele próprio professa e jurou cumprir. Buttiglione não disse, aliás, nada de novo, nem de sequer de (muito) grave. Não penso, por isso, que tenha sido o «espaço íntimo» a invadir a «polis», mas sim a «polis» que se deixou deliberadamente invadir por esse «espaço íntimo», em nome do «politicamente correcto». Por outro lado, não sei até que ponto se justificava colocar o tipo de perguntas que levaram Buttiglione a responder o que respondeu (e Buttiglione poderia ter sido menos inábil, sabendo, de antemão, o que a casa gasta). A sensação com que se fica é a de que Buttiglione esteve na presença de uma comissão inquisitorial, a qual, dado o desenlace do caso, parece empenhada em sobrevalorizar matérias do foro privado, em detrimento de questões supostamente mais importantes para um cargo de comissário europeu, como é o caso da competência técnica/profissional. Imaginemos, por um momento, que todos os católicos pensavam como Buttiglione (não pensam, de facto). Ficaria claro que, na tolerante e multicultural Europa, nenhum católico poderia ocupar o pelouro da Justiça, a não ser, claro, um católico dissimulado. Esta ideia incomoda-me e revela bem da intransigência de uma certa elite intelectual e política, empenhada em cunhar na Europa o escudo do politicamente correcto.

Dizes, com razão, que o pecado não é matéria que se discuta num parlamento. O próprio termo «pecado» foi, nesta discussão, como tem sido noutras, elevado a anátema. A conotação dada por um católico ao termo «pecado» pode ser, e geralmente é, bem diferente daquela que um não-católico está disposto a conceder. Desde Rosseau que o homem deixou de nascer com o pecado original para vir ao mundo com uma espécie de «virtude original». A questão do bem e do mal passou a ser vista às avessas: como é que seres humanos inerentemente bons podem praticar o mal, aderir ao vício, transgredir ou desviar-se da norma. Buttiglione, na sua ingenuidade e nas suas convicções pessoais (que estão a milhas das de um fanático religioso), personifica um mundo velho. Um mundo absolutista, mais do que relativista. Um mundo repleto de pre-conceitos morais (que, na maior parte dos casos, não passam de ancestrais ideias sobre o mundo e a vida) e de convicções, incompatíveis com a pós-modernidade e com o que se achou por bem estabelecer como norma. Convém, por isso, expurgar da construção europeia todo e qualquer tipo de «incorrecções», «devaneios», «anacronismos». O futuro será perfeito. E, está visto, o Sr. Buttiglione não faz parte dele.
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