O MacGuffin: Março 2004

segunda-feira, março 29, 2004

APONTAI, LEITORES


E AO PRIMEIRO DIA DA SEMANA (ONTEM)…
ressuscitou. Aleluia!

sábado, março 27, 2004

NÓS ESPERAMOS
Por enquanto, temos assistido apenas a acertos no template. Este último está melhor, embora a primeira versão fosse a melhor de todas (aquela que praticamente passou despercebida). Mas a malta espera. Porque esperar é uma virtude. Olaré.
in HOMEM A DIAS
"Eu tenho um Saramago no quintal. Chama-se Ernesto, é um cágado de trinta centímetros e é tão parecido com o escritor que todas as manhãs me assusto ao vê-lo. Para Nobel, ao Ernesto só faltam os óculos, uma carreira literária derivativa e a capacidade de proferir maluquices sempre que lhe apontam um microfone (eu sei, porque já lhe apontei vários e a resposta é sempre um sábio silêncio).
Gosto muito do Ernesto, o que não significa que não goste do próprio Saramago. Gosto sim. Acho giro que uma relíquia estalinista mantenha, em 2004, as capacidades da locomoção e da fala: o Homem de Lindow, por exemplo, é mais velho, mas não sai do Museu Britânico e é sujeito com quem se torna puxado manter uma conversa decente.
Claro que Saramago também não diz coisa com coisa, mas, ocasionalmente, faz-nos pensar, pensar de facto. Quando ele diz "a democracia ocidental está ferida de morte.", nós pensamos "o homem é parvo". Quando ele pede "uma revolução das consciências", nós pensamos "o homem é doido." Quando ele garante que vivemos numa "plutocracia", que como todos sabem é um regime dominado pelo cão do Mickey, eu penso que é altura de oferecer um computador ao Ernesto e esperar pela respectiva obra. Não que o Ernesto não tenha já obrado - a Caminho é que ainda não publicou."
(ainda não parei de rir)

sexta-feira, março 26, 2004

OS DEZ MANDAMENTOS...
para o feitiço de Scarlett Johansson.

quinta-feira, março 25, 2004

NA MINHA SCARLETT NINGUÉM TOCA
Reparo que a mãe de todas as questões continua a ser discutida: deverá a doce Scarlett despir a roupinha no próximo filme? Agora foi a vez da bombinha Charlie tocar no assunto, como só ela o sabe fazer. Junta-se assim à plêiade dos machos - constituída pelo Cruzes Canhoto, Terras do Nunca, Desesperada Esperança, Cibertúlia, Golpes de Vista e moi même – que, babados, discutem a possibilidade de ver a ninfeta como Deus a mandou ao mundo.

Escreve o Cruzes: “Mesmo a teoria do "quanto mais coberta mais misteriosa" não me convence. Afinal, isso torna as varinas da Nazaré com sete saias e meias de lã verdadeiras ejaculações ambulantes. E não consigo imaginar o JMF e o MacGuffin cheios de ardores perante catequistas de meia-idade com saias rodadas até aos tornozelos e pullovers XL.” Ora, Cruzes, entre a nudez e as “sete saias e meias de lã” vai uma distância sensivelmente igual à diferença entre a qualidade literária do Manuel Arouca e a do Philip Roth. E estou-me nas tintas para o facto da Scarlett Johansson ser uma actriz em que a sua função “é emprestar o corpo a personagens”, blá, blá, blá. Que se lixe essa objectividade. Na mais despida das épocas (olha aí, o Nelson outra vez…), i. e., na era das Britney Spears, das Cristinas Aguileras e de outras sirigaitas de mamócas ao leu e em pose recorrente de cio, já seria uma bênção se poupassem algumas das mais lindas mulheres do mundo (e Scarlett é-o, sem dúvida) ao sacrilégio que por aí as banaliza. Há lá coisa mais sensual do que as cenas da Scarlett ao piano no Barbeiro, sem que se chegue a ver pouco mais de 6.400 cm2 de pele (o equivalente a dois bracitos)?

Esta troca de ideias, fez-me lembrar o Disponível Para Amar, esse sublime filme de Wong Kar-Wai. Suponho que todos (à excepção do meu amigo maradona) o tenham visto. E suponho que todos sejam unânimes em afirmar que Disponível Para Amar é um filme tremendamente sensual, onde se assiste a uma dança constante de poses e silhuetas, em que a sugestão bate aos pontos a exposição. Toda a sensualidade que escorre, contida mas generosa, em cada cena é servida sem que, uma única vez, se vislumbre um corpo nu. Brindo a isso.

Acresce, ainda, um ponto: a minha Scarlett Johansson é, acima de tudo, a imagem que construí da Scarlett Johansson. Pouco me importa a Scarlett real e inatingível, i. e., a Scarlett provavelmente com alguma celulite, de anca larga e barriguinha excessivamente proeminente (sim porque, estou com Maria de Medeiros em Pulp Fiction: existe um nível de protuberância que é bem-vindo e desejável no que à tummy diz respeito) e com a boca a saber a papeis de música pela manhã. Provavelmente o encanto estilhaçar-se-ia. Ou não. Não sei, nem quero saber. E não, não tenho medo de mulheres nuas.


quarta-feira, março 24, 2004

CONCURSO: A MINHA É A MAIOR QUE A TUA
Igualmente, JMF. Quando passar pelo enterior desquecido e ostracizado, disponha de uma prateleira recheada de "obsessões". E aposto que a minha (prateleira) é maior que a sua.
BESTIAIS
(só para apreciadores de rap)
No MacGuffin’s Car CD Station ouve-se, esta semana, Ill Communication (Capitol Records, 1994), o mais perfeito álbum dos Beastie Boys (o único que consigo revisitar sempre com prazer). Afirmação, aliás, que não aceita nem admite a mais leve contestação. Um caleidoscópio onde o rap, o punk, o break (neck) beat e, sobretudo, o funk se entrecruzam com uma quantidade impressionante de samples e keyboards de chorar por mais. Uma espécie de joint-venture produtora de vagas de epilepsia. Oiça-se a sequência Get it Together (com Q-Tip), Sabrosa, The Update, Futterman’s Rule e Allright Hear This. Cool as…


NOTÍCIAS DE UM DÉSPOTA, NO PÚBLICO
Sobre as movimentações do Sr. Eduardo dos Santos, infelizmente nada de novo:

“Um relatório da Global Witness, que hoje é divulgado por esta organização não governamental com sede em Londres, apresenta novas provas sobre os esquemas ilícitos, que em Angola permitiram que a compra de armas, a negociação da redução da dívida à Rússia e o recurso a empréstimos com garantia de petróleo resultassem em avultadas transferências para contas bancárias privadas.
Segundo o documento, os beneficiários são altos dirigentes angolanos e russos, para além de pessoas que, a título individual, ou em nome de empresas, como a petrolífera francesa Elf Aquitaine (depois da aquisição pela TotalFina, transformada em Total), tornaram possíveis essas lucrativas operações.
A Global Witness aponta directamente figuras próximas de José Eduardo dos Santos - Elísio de Figueiredo, ex-embaixador em Paris, ou José Leitão, ex-chefe da Casa Civil - e o próprio Presidente da República de Angola, como tendo recebido dezenas de milhões de dólares em contas na Suíça, no Luxemburgo, algumas depois transferidas para instituições "off-shore" nas ilhas Caimão, um paraíso fiscal nas Caraíbas. O empresário de origem russa, Arkadi Gaidamak, e o homem de negócios francês Pierre Falcone, beneficiaram de elevadas somas de comissões.
"Este documento realça e confirma a quantidade de dinheiro que esteve envolvido, numa altura em que se sabe que ele [Falcone] não terá que responder judicialmente por isso", explicou ao PÚBLICO, Sarah Wykes, da Global Witness.
Pierre Falcone e Arkadi Gaidamak são ambos alvos de um mandado de captura internacional. O primeiro goza de uma imunidade diplomática desde que Luanda o nomeou representante de Angola na UNESCO em Paris, no ano passado. Arkadi Gaidamak recusou-se a comparecer perante o juiz Courroye que conduz a investigação do Angolagate em França.
Depois dos relatórios, "A Crude Awakening" (em 1999), e "All the President's Men" (em 2002), este novo documento "Time for Transparency" debruça-se sobre vários países. Além de Angola, o Congo-Brazzaville, a Guiné Equatorial, o Cazaquistão, e Nauru (no Pacífico Sul) têm em comum o facto das contas do petróleo encobrirem operações financeiras ilícitas, que ascendem a milhares de milhões de dólares.
Sobre o exemplo angolano, porém, a Global Witness realça: "Não há exemplo mais severo dos efeitos devastadores do desvio de receitas e da corrupção estatal do que o de Angola, onde uma em cada quatro crianças não viverá até aos cinco anos".
O objectivo do relatório não é desencadear uma investigação judicial, mas sim "motivar mudanças nas políticas governamentais, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento", esclarece Sarah Wykes. "Mas obviamente se as autoridades [que têm essa competência] considerarem que há matéria criminal, então compete-lhes a elas investigar".
Este documento surge numa altura em que o Governo de Angola tenta uma aproximação ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e se esforça por apresentar, a nível internacional, uma nova imagem de credibilidade e transparência.
E é publicado depois de em Janeiro último, o relatório de outra ONG internacional, a Human Rights Watch (HRW), ter comprovado o desaparecimento de quatro mil milhões dólares, das contas do Estado angolano, entre 1997 e 2002. Também com base em dados do FMI, a Global Witness vai mais longe e conclui que o desaparecimento de fundos eleva-se, em média, a 1,7 mil milhões de dólares por ano entre 1997 e 2001. O valor superior deve-se ao facto da organização somar às discrepâncias verificadas nas contas as despesas extra-orçamentais.
O receio da organização é que as mesmas estruturas instaladas para pilhar os recursos do Estado, durante a guerra, continuem em prática, não havendo por isso garantias de transparência no processo de reconstrução, considera o relatório, que realça ainda o facto de não haver ainda data para as eleições.
Além disso, tendo em conta os esquemas conhecidos em torno da negociação para a redução da dívida à Rússia, a organização considera preocupante a falta de informação sobre a negociação mais recente da reestruturação da dívida de Angola a Portugal, embora sem apresentar dados objectivos.
Algumas das somas transaccionadas no âmbito da negociação da dívida à Rússia, estão depositadas em bancos "off-shore" nas ilhas Caimão, onde continuaram a entrar somas relativas a recentes empréstimos, contraídos por Luanda depois do fim da guerra, segundo o relatório.
Esses empréstimos - com garantias de petróleo - são prejudiciais para o interesse nacional, por favorecerem práticas ilícitas mas também pelos elevados juros praticados em troca da disponibilização imediata do dinheiro. Essa era uma prática corrente durante o conflito e servia para a compra de armamento. Mas mesmo com a paz instalada, a Global Witness receia que os "mecanismos de desfalque enraizados durante a guerra sejam simplesmente redireccionados para lucrar com a reconstrução do país".
Ao contrário do que é recomendado pelo FMI, "o Futungo [de Belas] continua a contrair empréstimos garantidos com petróleo, e o rendimento petrolífero do país permanece totalmente não transparente".
Em 2003, o Governo angolano contraiu um novo empréstimo, de bancos estrangeiros (como a BNP Paribas ou a Société Générale) garantido por petróleo, através das ilhas de Caimão e que, dessa vez gerou mais de mil milhões de dólares. "Foi até agora o maior empréstimo de Angola", lê-se no relatório que realça ainda a possibilidade de estar a ser utilizada uma estrutura pouco transparente numa companhia "off-shore".
E conclui: "Dados os enormes valores que já desapareceram das contas do Governo, o uso de uma estrutura não transparente e tão complexa para gerir um empréstimo desta dimensão é claramente razão para grande inquietação".
PRONTO: NASCEU
O que pode resultar de um blogue que reúne o Pedro Mexia, o Pedro Lomba e o Francisco José Viegas? Arrisco uma resposta: excelência. Confirmem aqui.
APÓS MOTIM SEGUIDO DE SUÍCIDIO
Recebo, do meu amigo maradona (o link não está a funcionar), a seguinte missiva:

“Peço desculpa pela intromissão. O meu blogue suicidou-se e estava em pulgas por ofender o senhor Carlos Queiroz. Sei que abuso da boa vontade, mas, porra, quem é que aguenta?”

Não abusas nada. E sim, quem é que aguenta? Aqui vai o texto. Na íntegra.
(nota: o homem está mesmo zangado, pelo que desculpem alguns excessos de linguagem…)

O Carlos Queiroz é um Boi
por maradona
“As pessoas não gostam de desporto. Uma absurda maioria de dirigentes desportivos, de desportistas, de técnicos, de jornalistas desportivos, da corja fedenta a que chamamos habitualmente ‘adeptos do desporto’, não sabe viver fora do mundo mesquinho e aviltante da vitória e da derrota, do perder e do ganhar.

Porque não percebem nem retiram do espectáculo desportivo nada mais que a mesma miserável contabilidade invejosa com que estão habituados a bolinar pela própria vida – o carro do vizinho, o gabinete do colega, a tiragem do livro do rival, o Porto, o blogue daquele gajo com as sobrancelhas coladas -, limitam-se a absorver, a julgar, a pensar e a comentar apenas - e só - a estatística; não a arte, a excelência ou o eventual génio de um praticante.

Estou habituadíssimo a ver humilhado o meu amor pelo desporto, muito em particular o meu fanatismo pelo futebol. Recalco até ao máximo humanamente possível a escandalosa e brutal leviandade com que todos os dias vejo tratado pela comunicação social qualquer caralho de jogo. Mas não consigo que me parem os dedos quando a traição vem de alguém que dirige tecnicamente a actual equipa do Real Madrid.

Esse auroque que dá pelo nome de Carlos Queiroz decidiu vir dizer que a política de contratações do Real Madrid “não é a mais adequada” e que, por isso, terá que ser “reajustada”. Filho de um comboio de putas! Deus me cegue se não tiro a carta de pesados e lhe passo uma roda pelos miolos. O que vale é que o Valdano já o colocou no lugar dele, ou seja, a cargo do sistema de co-incineração lá do sitio.

Parece não estar contente com o que tem: o segundo melhor guarda redes do mundo, o melhor defesa esquerdo do mundo, o melhor médio centro do mundo de sempre (que é o actual - e no futuro longínquo - melhor jogador do mundo e um dos três melhores de sempre da história do futebol), o melhor tiro/passe de pé direito do mundo, o melhor avançado do mundo e quarto melhor jogador de todos os tempos, o melhor jogador espanhol, o melhor central espanhol, o melhor defesa direito espanhol, o melhor jogador português e ex-melhor do mundo. Aliás, há seis ou sete anos que o melhor jogador do mundo pela FIFA é um jogador do Real Madrid.

[Esqueçamos os campeonatos e taças de Espanha (em número de três), as Ligas dos Campeões (em número de duas), as super-taças (em número de duas), as super taças europeias (em número de uma), as Taças Intercontinentais (em número de uma), tudo em monte perfazendo 9 títulos nos últimos quatro anos, sendo que o resto são quase finais. Sim, enterremos esta ninharia toda.]

Mesmo esquecendo os parêntesis rectos, o conjunto restante parece não ser suficiente para o senhor Carlos Queirós estar contente e pensar que reúne as condições para fazer um bom trabalho. E como não é suficiente para o senhor Carlos Queirós estar satisfeito, decorre que a política de contratações tem que ser alterada, presumivelmente para que nunca mais se volte a juntar tanto bom jogador na mesma equipa.

A quantidade de alarvidades que todos os dias se diz sobre o plantel do Real Madrid e sobre a forma como foi construído não tem paralelo. No essencial, não me aborrecem. A burrice raramente me chateia, tendo há muito perdido a esperança de ver apreciado e valorizado - independentemente da aleatoriedade de um resultado - a arte de um gesto humano excepcionalmente bem feito ou a beleza atingida por um colectivo de foras-de-série.

Mas quando quem fala é alguém que pode influenciar decisivamente o bonito caminho que o Jorge Valdano vem trilhando com aquele clube, um caminho que obedece à mais maravilhosa filosofia desportiva alguma vez REALmente posta em prática, então talvez seja a hora de estrepitar aqui do cantinho, depois do cherne grelhado com azeite de Moura (pior que o do ano anterior, diria eu).

O mais ridículo de tudo, o que revela a mais atroz estupidez de uma mente, naquilo que se pode considerar o maior afloramento além fronteiras da tacanhez portuguesa, é que eles têm tido resultados desportivos, como (escusadamente, aliás) demonstrei atrás.

Mas mesmo que não tivessem, oiçam bem, mesmo que não tivessem tido o melhor conjunto de resultados desportivos desde o Milão de Sacchi e Capelo, caralhos me fodam, será que não valeria a pena ficar em terceiro na Liga Espanhola, não passar dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, ser eliminado pelo Badajoz da Taça do Rei, mas ter na frente uma bola a circular de um Zidane para um Raul, de um Raul para trás para um Roberto Carlos, deste para o Beckham, do Beckham, num passe de 190 metros com 6 ângulos de 90 graus, para o Ronaldo, e depois, em maravilhoso culminar, assistir a uma correria do gordo com oito pessoas magras em pânico atrás dele? Vão apanhar no cu!

Será que não é evidente o suficiente que nunca se trocou a bola assim antes? Que nunca se jogou do meio-campo para a frente com tanta excelência? Que aquilo é arte pura? Que para ver metade dos gestos técnicos perfeitos que acontecem em meia parte de um mau jogo do Real Madrid é necessário condensar uma jornada inteira de qualquer campeonato europeu (ou toda a história do futebol português, no nosso caso?).

Não! Pelos vistos isto não é suficiente. Perante o mínimo insucesso (Deus me salve de assistir às reacções de um eventual insucesso total), aproveitam todos para arrotar um de pelo menos dois peidos:

1) ou dizem que a equipa não tem um banco à altura - valha-me um Deus qualquer!....!... gostaria muito que me explicassem, e o artiodáctilo do Carlos Queirós em particular, como é que se arranja um banco que esteja à altura de um Zidane ou de um Ronaldo... é preciso lembrar que se o Real Madrid tivesse todos os jogadores do mundo no banco, e uma vez que em campo jogasse o Zidane e o Ronaldo, esse banco seria sempre “desequilibrado”?
2) ou apelidam a defesa de “buraco” – socorro, preciso de ajuda..!.....!... será que não percebem que não existe defesa no mundo que não seja um buraco se a mesma for constituída apenas por cinco elementos? Não vêm que para desfrutarmos na frente de tanto génio junto temos que abdicar de qualquer coisa cá atrás, que no mundo não existe um conjunto infinito de opções, como diz o Kissinger? Querem pôr o Ronaldo a marcar em cima, é, palhaços? Ou talvez, não sei, deixar o Ronaldo no banco e contratar o Gatuso para fazer marcações serradas.

Minhas grandessíssimas mulas: do que é que se lembram com mais saudades: do Brasil ofensivo e criativo de 82, ou da grande traição de 94? Qual deles é que ganhou, e qual deles é que ficou pelos quartos?

Mas mais importante que isso, mais importante porque falamos do desenho de uma política desportiva alternativa - que não seja cobarde como as são todas hoje em dia - , não será evidente para todos que o Real Madrid se sujeitou voluntariamente, para beneficio de todos nós - e risco exclusivo próprio -, a uma política de equilibrista de arame, na qual se substituiu a habitual rede pára-quedas por um caldeirão de azeite a ferver (queriam defesas, não era?), que se resume no seguinte: tendo dez milhões de contos para gastar por ano, então gaste-se os 10 milhões de contos por ano num único, mas grande, muito grande, jogador.

Existirá idealismo ou utopia mais bonitos que estes, um idealismo e uma utopia cujas (eventuais) consequências negativas só afectarão quem os pratica, mas cujos (certos) benefícios se dispersarão pela terra inteira, como um raio de luz numa manhã de orvalho....

Esta estratégia assenta numa premissa la paliciana, mas da qual se retira um corolário corajoso, genial e inaudito: se é verdade que o futebol é um jogo de resultado incerto, então mais vale arriscar a derrota, jogando bem e atractivamente, do que a vitória, jogando mal e sem génio.

Todas as outras equipas mundiais são geridas sobrepondo a estatística probabilística à estética: como quem defende melhor que ataca tem mais hipóteses de ganhar do que quem ataca bem mas defende mal, opta-se por construir planteis, como é vulgo dizer-se, de “trás para a frente”. O mal que isso fez e faz ao futebol está em exibição todas as semanas em Itália, na Alemanha, em Portugal (excepção feita ao Porto), um pouco por todo o lado; mesmo em Espanha, no futebol mais aberto de todos, mais de metade das equipas pensa assim (como o esforçadinho Valência).

Meus amigos: no desejo de vitória deste Real Madrid (ou, no máximo, do Arsenal), não está só o meu fanatismo clubístico (aliás, bastante variável: quando o Figo jogava à bola era fanático do Barcelona), está também o desejo de que se propague pelo mundo uma determinada filosofia do futebol, aquela que mais hipóteses tem de fazer proliferar os Zidanes sobre os Gatusos, os Ronaldos sobre os Makeleles, os Pedro Barbosas sobre os Tingas.

Não perceberão vocês, minhas cavalgaduras, que está na vossa (nossa) mão transformar aquele caldeirão de azeite a ferver em palmas ao seu heroísmo, para o caso de queda desamparada? Que só assim, proporcionando-lhes uma boa cama para continuarem a fazer aquilo que manifestamente ninguém faz melhor, é que esta experiência poderá ter seguidores?

E reparem: esta cama é tanto mais importante agora quanto se verifica que o Real Madrid tem no seu comando técnico uma junta de bois decidida a ajeitar o caldeirão de azeite a ver se não a equipa o não falha na queda.

O senhor Carlos Queiroz, certamente coadjuvado por essa estrela do firmamento (a começar pelo nome) que é o José Peseiro, já nos informaram a quem devemos atribuir as culpas em caso de falhanço. Não há sorte ou ao azar de um jogo, não a uma época menos conseguida (que também as há), não ao facto de que o jogo da época de cada equipa que joga contra o Real Madrid é esse jogo contra o Real Madrid, não ao facto de Arsenal e Milão terem também grandes equipas, não à sua eventual menos feliz direcção técnica; não, não e não:

A culpada é, já sabemos, a “política de contratações”, responsável, entre outras desvantagens competitivas, por ter reunido na mesma equipa a maior quantidade de jogadores extra do mundo. Olhem: se a seguir ao velho paralítico de cadeiras de rodas tiver que ir outro...”

OLHA, OLHA...
O JMF também lê, e, suponho, aprecia Nelson Rodrigues. Quem diria? E espero que tenha lido todo o Nelson para além de "Flor de Obsessão". Por exemplo, e ainda a propósito de nudez, leia-se "A Cabra Vadia", página 18:

"O biquini tem a idade do impudor, que podemos estimar em para mais de, sei lá, 40 mil anos. Digo 40 mil anos, como poderia dizer milhões. Bastam os 40 mil. O impudor era certo, natural, consagrado, na mulher pré-histórica. Mas, quando a mulher se tornou um ser histórico, o pudor foi a sua primeira atitude, o seu primeiro gesto. Mesmo as mais degradadas preservaram um mínimo de pudor. E eis que, de repente, em nossos dias, há todo um movimento regressivo. Aí está o biquíni"




etc. etc...

terça-feira, março 23, 2004

NELSON RODRIGUES E A PERSPECTIVA DE UMA SCARLETT
JOHANSSON COMO DEUS A MANDOU AO MUNDO


"No tempo em que que a nudez tinha mistério, tinha suspense, era um dos mais altos bens da mulher. Mesmo a mulher mais destituída de encantos tinha essa nudez latente debaixo do seu vestido. E isso era fascinante. Uma pobre-diaba vestida era salva, não pelo gongo, mas por uma possibilidade de nudez."

"A nudez feminina perdeu todo o suspense e todo o mistério. Vivemos a mais despida das épocas."

"Como é triste o nu que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém."

NELSON RODRIGUES
E COMO NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS...
Pergunta, ainda, JMF:

"Está uma carrinha branca estacionada na rua, o condutor dentro, vidro do seu lado aberto, de onde sai uma claríssima canção árabe. Aviso a polícia? Ou a TVI?"

Caro JMF: nem uma coisa, nem outra. Pões um cd do Oldham a tocar de forma a abafares a seca da canção árabe.
O SONDADO RESPONDE
Pergunta o caro JMF:

“Scarlett Johansson deve, ou não, pôr-se nuínha no próximo filme?”

A minha resposta: não. Nestas coisas (como em quase todas) sou terrivelmente Nelson Rodrigueano.
AS SONDAGENS NO TERRAS DO NUNCA
JMF arrisca uma sondagem "manipulada":

"Se nos próximas dias houver um atentado de grandes dimensões da Al-Qaeda nos EUA ou na Europa, quem devemos culpar?
a) Zé Luis Zapatero;
b) Ariel Sharon."


Não, caro JMF. Devemos culpar os terroristas que perpetrarem o atentado. Neste caso a Al-Qaeda. Ou não?

segunda-feira, março 22, 2004

TODOS QUANTOS SE SERVIREM DA ESPADA, À ESPADA MORRERÃO*
(* mil perdões ao Pedro, mas ocorreu-me o mesmo título)
Eu sei que foi um ataque surpresa e brutal; sei que foi morto um ser humano que vivia numa cadeira de rodas; sei também que esta acção poderá incendiar uma região já de si abrasiva; sei que muitos o apelidavam (eufemisticamente) de «líder espiritual»; sei que é uma acção contrária ao espírito de um Estado de Direito. Eu sei isso tudo. Mas, por favor, não me peçam para sentir pena. Ou para condenar. Desculpem. Qualquer coisinha.

domingo, março 21, 2004

CITAÇÃO
"We love peace, as we abhor pusillaminity; but not peace at any price. There is a peace more destructive of the manhood of living man than war is destructive of his material body. Chains are worse than bayonets."

DOUGLAS JERROLD
AMÉN
(post inspirado na campanha televisiva de recrutamento da GNR)
Jovem!: se tens mais de dezoito anos e tens as vacinas em dia, se és robusto e levemente pachola, se não tens nada para fazer e a carreira na Guarda Nacional Republicana não te excita, se procuras um meio para exercitares a tua latente demagogia e aprecias os unanimismos inconsequentes, se és adepto dos slogans gratuitos e se desejas gritar as maiores banalidades e aquilo que ninguém em teoria e na posse das mais elementares faculdades mentais pode contestar (por exemplo “a paz”), se queres juntar-te a meia dúzia de iluminados que presunçosamente se julgam os donos da bondade e do altruísmo e, finalmente, se sonhas um dia poder andar de braço dado com os gurus, junta-te a nós em mais uma Manif contra a guerra e contra o terrorismo (o de Estado, evidentemente).
E AGORA UMA AVENIDA
O catálogo
por Vasco Pulido Valente
in Diário de Notícias 20-03-2004
"As reacções ao 11 de Março esgotaram o catálogo da idiotia, da irrelevância, da vaidade e do mais torpe sentimentalismo indígena. Houve de tudo. Primeiro, os que se descobriram e se declararam em «guerra total», quando manifestamente a «Europa» se propõe ficar pelo reforço da polícia (e da «vigilância»), um gesto defensivo sem consequência. Segundo, os que pretendem já negociar, como o dr. Mário Soares, sem se darem ao trabalho de esclarecer com quem (com Estados muçulmanos, com a Al-Qaeda, com grupos terroristas que não reconhecem qualquer autoridade?) e o quê (a nossa segurança contra a existência de Israel, a livre imigração, ajuda, vassalagem?). Terceiro, os que ainda querem «combater» as «causas sociais» do terrorismo (a miséria, o atraso, a humilhação), desde que não seja à custa do seu bolso. Quarto (e ao contrário do anterior), os filósofos da «guerra de civilizações», que falam em «valores» e não falam da riqueza ocidental, cercada por um mundo em ruínas. Quinto, os que se especializaram em «civilização islâmica» e sabem distinguir entre a «boa» (que acabou no século XIV) e a «má», que prudentemente nunca mencionam. Sexto, os que de repente se tornaram teólogos para pontificar sobre o que o Corão permite ou não permite. Sétimo, os que discutem a guerra do Iraque, como se a guerra no Iraque (infelizmente consumada) continuasse a ser o problema. Oitavo, os jornalistas que se atiram a Aznar, porque julgam que o triste fim do homem afirma o seu poder corporativo. Nono, os que se atiram a Aznar, na falta de se atirarem a Barroso. E décimo, as repelentes criaturas que vieram exibir a sua «dor», como se a «dor» do sr. B ou do sr. Z interessasse a alguém. O 11 de Março mostrou Portugal no seu pior. Como sempre."

sexta-feira, março 19, 2004

SAI MAIS UMA ALAMEDA VÊ PÊ VÊ PARA A MESA DO CANTO
O programa
por Vasco Pulido Valente
in Diário de Notícias 19-03-2004
“O PSOE ganhou. Sobre isso, um comentário. Quando chegou a Paris, depois de ter entregue a Checoslováquia a Hitler e garantido a guerra a troco de um papel e de um ano de paz, Daladier, o primeiro-ministro da França, encontrou uma enorme multidão no aeroporto. Supôs que o iam matar. Não iam: foi um triunfo. «Idiotas», disse ele. De facto. Seja pelo que for, e sabendo ou não o que fazia (o sentimento e a virtude aqui não contam), o eleitorado espanhol escolheu uma política, a da Esquerda. E o que é essa política? Na ordem externa, isolar a América e reduzir a influência americana no mundo; transformar a UE num Estado federal (com uma Constituição e uma polícia própria); negociar com todo o terrorismo (como Soares já recomendou); e só abandonar uma neutralidade de princípio por um interesse evidente da «Europa». Na ordem interna, ceder a qualquer espécie de separatismo (a benefício de Bruxelas); impor uma tutela pública às multinacionais (porque se trata de uma «gigantesca Máfia»); e persistir num inviável «modelo social». Este programa, também defendido por Soares e, com nuances, pela Esquerda portuguesa inteira, não passa do clássico programa do apaziguamento e da trincheira com que sempre se espera resistir à mudança e ao perigo. Mas reflecte com exactidão a vontade da «Europa». Como aconselhava Salazar, a «Europa» quer que a deixem viver «habitualmente». Em segurança, sem incerteza, sem complicações. O programa da Esquerda parece responder a este deplorável desejo. Infelizmente, é a receita para a decadência e a catástrofe. Sem a América a «Europa» fica desarmada e o Islão (o «bom» ou o «mau», como preferirem), mesmo se lhe derem Israel, nunca aceitará o mais ligeiro compromisso.”
E PORQUE HOJE É DIA 19 DE MARÇO
O Contra a Corrente comemora o seu primeiro aniversário (e logo no dia do pai). Os meus agradecimentos a todos os meus leitores, amigos, antagonistas e à blogosfera em geral. Gosto disto, pá.

PS: e obrigado ao Miguel pela referência ao Berlin.
TODAY I WILL BE MOSTLY LISTENING TO...*
Django Reinhardt Swing From Paris



* uma homenagem ao The Fast Show


Trata-se de uma ofensa gravíssima!
AS CAUSAS DO TERRORISMO
Desta vez fiquei baralhado (a idade não perdoa). JMF escreve no Terras do Nunca: ”Não é possível qualquer diálogo com terroristas. Nem sequer me parece que seja isso que eles querem. Eles, os do terrorismo global, querem apenas espalhar o medo, um medo total e global, à sombra do qual sonham ser possível impôr as suas regras. Trata-se de algo profundamente estúpido, mas o terrorismo é estúpido (e isto não é um afirmação indignada, tenta ser uma análise fria...)”.

Contudo, logo a seguir, afirma: ”Já terei escrito aí algures que o combate ao terrorismo passa, em meu entender, por dois eixos centrais de acção: o trabalho dos serviços secretos; o combate às causas geradoras do terrorismo.
No primeiro caso, admito que seja necessário recorrer, em casos específicos, a meios mais pesados, incluindo armados, e que, igualmente em casos específicos, haja algum sacrífico, ponderado, das liberdades. No segundo, incluo o apoio ao desenvolvimento, o combate à pobreza, os incentivos a democratização.”


Até parece que os estou a ouvir:

Bin Laden: Estou em baixo...
Al-Zarqawi: Camarada, o que tens?
Bin Laden: É pá, os gajos não nos apoiam... o nosso desenvolvimento, tás a ver?
Al-Zarqawi: Estou, estou. E a comida?
Bin Laden: Uma pobreza! Só feijão com mogango.
Al-Zarqawi: E a democratização?
Bin Laden: Nem me fales nisso! Não nos ajudam em nada! Nem uma explicação sobre aquela coisa do método d'Hondt.
Al-Zarqawi: Tu sabes que ainda a semana passada eu solicitei o “Reflections on a Ravaged Century”, do Conquest, tás a ver, e nem isso me enviaram?
Bin Laden: E comigo? A mesma mer**: tinha pedido uma remessa do “Road to Serfdom” para distribuir pela malta e nada. Nicles!
Al-Zarqawi: É pá, chega de injustiça! Passa-me aí o róquete que eu vou-me a eles, cara***!!
PERGUNTEM AO ZAPATERO QUE ELE É QUE SABE
Escreve o Alberto, no Homem a Dias:
"O sentimento antiamericano cresce em todo o mundo", titula o «Público», baseado num inquérito a oito países. Quer dizer, chamar "países" a coisas como a Jordânia, Marrocos e o Paquistão (os mais antiamericanos) demonstra um espírito de abertura que não é para todos. E, no Ocidente, o inquérito resume-se habilmente a três estados, Inglaterra (totalmente pró-americana), França e Alemanha (nem por isso), os dois últimos modelos de comportamento que tantas alegrias nos têm dado. Mas pronto, a verdade é que o "mundo" odeia os EUA e não há nada a fazer, muito menos contrariar as manchetes de um jornal de referência.
Para confirmar esta inegável unanimidade, aguarda-se com ansiedade nova sondagem, desta vez realizada entre os cidadãos do Irão, Síria, Coreia do Norte, Colômbia e Papua Nova Guiné. O Iraque já foi sondado, mas os resultados são susceptíveis de desvirtuar uma tendência que dá um trabalhão a elaborar.


Uma sondagem realizada em Fevereiro deste ano pelo Oxford Research International, no Iraque, dá conta, entre outras coisas, do seguinte:

P: No geral, como diria que vão as coisas na sua vida hoje em dia?
R: Bem ou muito bem: 70%; Mal ou muito mal: 29%; Ns: 1%

P: Comparando com a situação de há um ano atrás, ou seja, antes da guerra, como é que estão as coisas?
R: Melhores ou muito melhores: 56%; Na mesma: 23%; Piores: 19%; NS: 2%

P: Qual é a sua expectativa para daqui a um ano: vão melhorar, piorar ou ficarão na mesma?
R: Melhorar: 71%; Na mesma: 9%; Piorar: 7%; NS: 13%

P: Tendo em conta o presente e a sua perspectiva do passado e do futuro, terá sido bastante acertada, relativamente acertada, errada ou totalmente errada a decisão dos EUA de invadir o Iraque?
R: Total ou relativamente acertada: 48%; Errada ou totalmente errada: 39%; NS: 13%

P: Aparte ter sido certa ou errada, considera que a intervenção militar...
R: Humilhou o Iraque: 41%; Libertou o Iraque: 42%; NS: 17%

P: Ataques às forças da coligação: aceitáveis ou inaceitáveis?
R: Inaceitáveis: 78%; Aceitáveis: 17%; NS: 5%

P: Quanto tempo acha que as forças norte-americanas devem ficar no Iraque?
R: Devem sair já: 15%; Devem ficar por mais uns meses: 8%; Devem ficar entre seis meses a um ano: 6%; Devem ficar mais do que um ano: 4%; Devem ficar até que seja restaurada a segurança: 18%; Devem ficar até que um governo iraquiano tome posse: 37%; Não devem sair nunca: 2%; NS: 10%

(todo o inquérito aqui)

Conclusões? Épá, valem o que valem...
SENILIDADE, ESTUPIDEZ OU CHACOTA?
O Dr. Mário Soares defende o diálogo com a Al-Qaeda. O Dr. Mário Soares acha que o diálogo com a Al-Qaeda (uma máfia terrorista com espírito de cruzada) poderia ser comparável com o diálogo que Portugal encetou com os movimentos auto-proclamados de libertadores das antigas colónias (movimentos com objectivos limitados).
Eu não pretendo contrariar o iluminado senador Soares. Até porque eu acho que o Dr. Soares estava a brincar. Ou isso ou...

quinta-feira, março 18, 2004

UMA OPINIÃO
Ganas de esperar
por Antonio Burgos
in El Mundo 15-03-2004
“Espero que a este paso no tengamos que ir todos en manifestación, con las pancartas de «Aznar culpable» por delante, a pedirle perdón a ETA por haber dudado alguien aquí un solo momento de su honorabilidade, de su humanitarismo y de sus sentimientos.
Espero que alguien se tome el trabajo de investigar por qué Otegi sabía tan temprano que habían sido los que habían sido y no habían sido los que no habían sido.
Espero que Otegi, que se lo sabe perfectamente, facilite al Ministerio del Interior el número de teléfono de la centralita de ETA para que, en ocasiones semejantes, se puedan dirigir, como él, directamente a la adecuada fuente de información.
Espero que alguien se tome el trabajo de recordar que Ibarretxe, y a las mismas horas, dijo exactamente lo mismo que dijo Acebes a las mismas horas.
Espero que me explique alguien por qué ante la sede del PNV, habiendo dicho Ibarretxe lo que dijo, no fue convocada manifestación espontánea alguna a favor de – cómo és? – ha, sí, la paz, la verdad y no sé qué más.
Espero que me digan alguma vez por qué lo que hace Television Española es manipulación y por qué eso mismo, pero más recargado de bombo y de platillo, emitido por Canal Sur Televisión, o por Euskal Telebista, o por TV3, es una lección de objectividad institucional en un medio público de información.
Espero que Luis Rojas-Marcos o Manuel Trujillo, los psiquiatras españoles residentes en Nueva York me expliquen por qué cuando el 11-S nadie culpó a Bush de los muertos de las Torres Gemelas y aquí han echado sobre Aznar la sangre de los trenes de Atocha. Y que de paso me digan cómo lo que unió a Estados Unidos ha sido precisamente lo que ha desunido a España.
Espero que alguien recuerde que hace muchísimo tiempo que estamos comprometidos con la guerra de Oriente Próximo, y que ele primero que nos metió de hoz e coz en la guerra en Irak, cuando la primera crisis del Golfo, al lado de los americanos, fue Filipe González, cuando mandó la fragata Santa María no con soldados profesionales, porque no tuvo arrestos para suprimir el servicio militar, sino con marineritos de reemplazo cuyas novias lloraban e lloraban al despedirlos en Rota.
Espero que alguien, tras tantas perplejidades, piense que España entera, con el luto, ha estado tres días enteros, tres, sin tener programas del corazón en las televisiones y que no sólo no ha pasado nada, sino que la moral colectiva ha salido robustecida.
Espero que alguien haya tomado las medidas oportunas, tras oír a Alfonso Guerra decir impunemente al salir de votar que hemos estado ocho años en manos de una pandilla de mentirosos.
Esperaba estas cosas mientras aguardaba el resultado de las elecciones. Una vez conocido, reconozco que son ganas de esperar las mías.”
WITTY


quarta-feira, março 17, 2004

TÍPICO
Lê-se no Barnabé: "Terrorismo e guerra, basta ya. Manif. Dia 20". E Daniel Oliveira recomenda: "Manda para os telemóveis dos teus amigos", género "colecciona já a tua caderneta de cromos do Chocapic".

Já cá faltava a manif da ordem.
MARADONA DIXIT
"Se o preço a pagar pelo fim do terrorismo é a troca de uma única palavra que seja com quem comete, defende ou desculpa estas ignomínias, então quero que continuemos a ser alvo das bombas. Se me pedirem como moeda de troca para o fim do terrorismo a cedência em um milímetro que seja nas reinvidicações dessas cavalgaduras, então que venham os corpos em pedaços. O mundo que me chega aos olhos parece-me muito pior sem a ameaça do terror. Ficaria pois envergonhado se estes loucos não vissem Portugal como um dos seus inimigos a abater. A minha opção é pela guerra."
REENCONTROS
Reencontrei o meu amigo Stephen King, um pastilhento de boa memória que escreve assim: "Apesar de talvez ser inutil, vou continuar a escrever. As histórias atormentam-me. Sonho, acordo, como com elas. É para lá que quero ir, mas as obrigações terrenas obrigam-me a ser apenas um visitante, um passageiro de caneta, ou mais propriamente, de teclado na mão. Mas não há problema. Em que outro cenário é que podemos ser um deus criador, ainda que o mundo feito corra o risco de não agradar? É o hino interno da liberdade, julgo eu. O problema é que não tenho grande voz... Mas ando a treinar."

Um abraço de urso, caro SK.
OBRIGADO
Faz precisamente 8h e 11m que este senhor elogiou um "liberal eborense". Estou fascinado. E emocionado.
PELOS VISTOS
Parece-me extraordinária a tese de que Aznar e sus muchachos se preparavam para sonegar a pista e os indícios da Al-Qaeda, durante três longos dias - durante os quais, atente-se, os espanhóis exigiriam saber “quem foi”. É, de facto, fantástico aventar a hipótese (para alguns é já uma «certeza») de que Aznar ensaiou um exercício de harakiri político. Porque estariamos em presença disso mesmo: puro suicídio político. Convenhamos que seria particularmente idiota ou débil mental o governante que se atrevesse a pensar que num Estado de Direito e numa democracia sólida se poderiam ocultar provas daquele calibre ou mentir de forma tão descarada e primária. Espanha não é propriamente uma república das bananas, Aznar não é um imberbe na cena política e a opinião pública espanhola não brinca em serviço. Se foram cometidos erros? Claro que sim. Foi, de facto, um erro insistir cegamente na tese da ETA sem deixar a porta aberta a outras hipóteses. Mas, sejamos honestos: dado o historial da ETA (repleto de mentiras, de mortes de civis inocentes, de tentativas recentes mas falhadas de orquestrar um atentado) e o facto de se estar a três dias de umas eleições que punham novamente no poder o partido que mais desmembrou o grupo terrorista basco, a hipótese Al-Qaeda era verosímil? Não era. Todos os espanhóis com quem falei eram unânimes: tinha sido a ETA. É certo que Aznar deveria ter sido mais hábil e prudente na gestão da presunção da autoria dos atentados (até porque, desde a primeira hora, o governo pediu informações aos serviços secretos israelitas, americanos e ingleses, alargando, dessa forma, o leque de suspeitos). Mas é, insisto, compreensível a insistência na ETA, tanto mais que todos os espanhóis exigiam explicações e um culpado. Ainda assim, Aznar errou. Ponto assente. Agora, do erro à mentira premeditada, com requintes de malvadez (como a esquerda continua a insinuar) vai uma enorme distância que só a má fé tende a desvalorizar. Nuno Rogeiro foi, aliás, implacável na forma como desmontou a tese da «mentira» e da ocultação de provas. Apelidou-a, até, de «garotice», lembrando que em toda a investigação estiveram envolvidas pessoas, instituições e altos cargos da nação que não eram propriamente a «voz do dono», nem sequer permeáveis a pressões. De resto, parece-me da mais elementar justiça esperar pelas explicações de Aznar e do seu governo. Explicações essas que foram sendo dadas ao longo das horas que precederam o acto eleitoral mas que uma comunicação social tendenciosa desvalorizou, preferindo dar voz e imagem às manifestações «espontâneas» contra Aznar e a favor da «paz», e aos comunicados do PSOE.

Quanto à interpretação dos resultados eleitorais, há quem coloque nos píncaros a ideia de que os espanhóis mudaram a sua intenção de voto porque o PP e o seu governo mentiram ou apostaram no cavalo errado. Paulo Gorjão acha que sim, ironizando: “pelos vistos, a decisão dos eleitores espanhóis foi manipulada por tudo menos pela insistência excessiva do Governo de Aznar na tese de que o atentado tinha sido executado pela ETA...”. Não creio que o eleitorado espanhol tivesse mudado por o governo ter sido injusto para com a ETA. Não creio que o móbil dessa mudança encontre justificações fortes na consciência de uma eventual «mentira» (embora também). Repito: as razões encontram-se, sobretudo, no medo e nos receios legítimos da população face à ameaça terrorista e nos resultados da demagogia de quem tentou culpar Aznar dos atentados e vender a tese da cabala em torno da ocultação de provas.

terça-feira, março 16, 2004

XIIII....
Tinha-me esquecido de o anunciar. Mas, como diz o povo e com razão, "mais vale tarde do que nunca": nasceu o Blasfémias, que é, também, o resultado da primeira grande fusão à direita na blogosfera (Mata-Mouros+Cataláxia+Cidadão Livre).

Longa vida, irmãos.
VERSOS QUE NOS SALVAM

Da Mulher Deitada
O ver-te nua é recordar a Terra,
a Terra lisa, limpa de cavalos.
A Terra sem um junco, forma pura
e cerrada ao porvir: confim de prata.

O ver-te nua é compreender a ânsia
da chuva que procura um corpo frágil,
ou a febre do mar de imenso rosto
sem encontrar a luz da sua face.

O sangue soará pelas alcovas
e virá com espadas fulgurantes,
mas tu não saberás onde se ocultam
o coração de sapo ou a violeta.

Teu ventre é uma luta de raízes,
teus lábios uma aurora sem contorno.
Debaixo das rosas tépidas da cama,
à espera de vez, gemem os mortos.

Federico García Lorca
PONTOS NOS IS
Nunca pus, nem porei, em causa os resultados eleitorais em Espanha. O sistema democrático funcionou: o povo votou e o povo é soberano. Como escreveu Pedro Mexia, "uma mudança política é um resultado natural e legítimo. O PP estava há oito anos no poder. Os espanhóis decidiram confiar no PSOE. Nada mais democrático."

Mas a questão, caro João, não é essa. Zapatero pode estar a defender os interesses espanhóis ao mandar regressar as suas tropas. E os espanhóis tiveram as suas razões – legítimas e que só a eles dizem respeito - para mudar a sua intenção de voto. Há, contudo, uma questão que importa analisar: como é que tudo isso aconteceu. Que condições, que circunstâncias influenciaram o eleitorado espanhol. Ora, que eu saiba, os espanhóis foram violentados psicologicamente por uma barbárie inqualificável. A decisão dos eleitores espanhóis foi manipulada - pelo medo, pelo receio, pela confusão, mas também pela chantagem psicológica e por uma propaganda de última hora totalmente desleal por parte de quem se atreveu num momento de dor colectiva à demagogia e ao contorcionismo de ordem moral (como já alguém afirmou, foi política eleitoral feita em cima de cadáveres.) Não está em causa a decisão, em si. Estão em causa as causas e circunstâncias excepcionais que tudo fizeram mudar. A meu ver, abriu-se um precedente perigoso. Bin Laden percebeu, agora, que as suas acções têm o poder de influenciar democracias, ao ponto de maniatar decisões políticas ou estritamente individuais. Isso, sim, é inquietante. E existe, ainda, outro foco de inquietação, embora mais previsível e recorrente: a existência de gente que, a ocidente, desculpabiliza assassinos, justifica «castigos», inverte a culpa e se arroga no direito de subverter as regras do jogo democrático, subjugando-as à urgência de aproveitar um clima confuso e delicado para desferir uma estocada final sobre quem visceralmente odeiam.
VASCO
A matança
por Vasco Pulido Valente
in Diário de Notícias, 13 de Março de 2004
"A matança de Madrid inspirou a litania do costume: nada justifica o terrorismo; o terrorismo tem de ser combatido com absoluta intransigência; e nunca por nunca vencerá. Isto não passa de uma hipocrisia sem nome. Um dia e uma noite com a televisão, a Internet e os jornais não deixam sobre esse ponto a mais remota dúvida. Ninguém se atreveu, evidentemente, a «perceber» a ETA. Mas toda a gente trata o nacionalismo basco como se fosse um direito natural. Nesta campanha, o PSOE chegou a prometer um alargamento da autonomia, que tarde ou cedo levaria à independência do Euskadi. E a Esquerda catalã «dialogou» clandestinamente com a ETA, de potência a potência. As bombas de Madrid não rebentaram no meio da hostilidade geral a uma causa absurda, desacreditada e falida. Nem a «Europa», pronta para o gesto simbólico, agora ou antes declarou que não aceitaria o País Basco na Comunidade, coisa que resolveria definitivamente o caso. Pior ainda: quando apareceu a suspeita da Al-Qaeda, a conversa mudou. Finalmente, havia uma «razão» para o ataque, o apoio a Bush, e um culpado, Aznar. Num «debate» da SIC, a inconcebível Ana Gomes desatou logo a perorar sobre o Iraque e Guantánamo e os perigos que Portugal corria pelo mesmo pecado de vil consórcio com a América. Por aqui e por ali, o Islão bom e «tolerante» também veio ao falatório do costume, embora não se saiba ao certo onde ele fica, porque esta inexistência serve para esconder o facto de que o Islão inteiro se revê com alegria na Al-Qaeda, cujas causas fervorosamente partilha. O massacre não se pára só com retórica e polícia. O terror vive à sombra da respeitabilidade política que indirectamente lhe concedem. O nacionalismo basco é absurdo; e o mundo islâmico é uma civilização medieval e falhada. Convém começar pelo princípio."
MENDACIDADE E MÁ FÉ
Escreve Michael Radu na Frontpage Magazine:
"First the mendacity - “We want the truth before voting!” The bombings occurred on Thursday, and the government was rapidly moving the investigation ahead. French, British, American and Israeli help was requested and received; the Moroccan government, normally not in good relations with Madrid, was cooperating; and arrests were being made. The government, naturally enough, was in the midst of dealing with a humanitarian disaster, while openly informing the public of both main directions of investigation – ETA and Islamic terrorists. No government could have done better or differently, and there were no “lies.”
Second, the stupidity - “Our dead, your war!” screamed ignorant youths with “Peace” signs. Translation: Aznar’s participation in the war against Islamic terrorism and Saddam’s criminal regime was responsible for the deaths on Thursday. To begin with, that assumes that the demonstrators knew better than the government who the perpetrators were, and that they were Islamists – an assumption based on flimsy evidence. While there are some indications that an Islamist group was behind the attacks – and three Moroccan and two Indian Muslims were arrested – that is far from sufficient. The al-Qaeda associated group that initially claimed responsibility for the bombings, has also claimed it for last August’s New York area blackout – a patently false claim. On the other hand, there are also strong indications that ETA could have been behind it, despite its denials.
Further, it assumes that fighting terrorism produces terrorism, an argument repeated here by a number of Democrats and other war opponents who believe that removing Saddam made al-Qaeda mad. Finally, “your war” clearly means Aznar’s, and implicitly America’s war and thus places the blame not on Islamists but on those opposing them, and demonstrates once again the intensity of the mindless anti – Americanism haunting Europe. Never mind that Bin Laden has, for years, declared that he sees the Islamic “recovery” of Al Andalus (Muslim Spain and Portugal of the 8th – 15th centuries) as one of his goals. Are those clueless or ill intentioned sloganeers suggesting that Aznar should have returned Spain to Muslim rule in order to prevent the Madrid attacks? This is defeatism of the basest kind."


Entretanto, Francisco Louçã vomitou mais um pouquinho da sua demagogia e hipocrisia ao dizer que "o primeiro destes dirigentes [os «da guerra», claro está] submetido a votos, desapareceu perante a coragem dos...". Blá blá blá. À imagem do que aconteceu no 11 de Setembro, interessa agora esquecer tudo em nome da propaganda e de uma retórica mendaz. O 11 de Março já lá vai e tudo se passou como se nada tivesse acontecido. Louçã esquece (esquece?) que no dia 10 de Março de 2004 o PP ia à frente em todas as sondagens, mesmo com a «cimeira da mentira», mesmo com o apoio a Bush e mesmo com os cerca de 1.500 soldados espanhóis a combater no Iraque. Ignora, tipo chico-esperto, que a dor e o receio emanados do 11 de Março e tudo o que a seguir se passou (o aproveitamente reles do atentado por parte da esquerda (radical?), as distorções de ordem moral sobre a culpa, as manifestações ilegais à margem do Estado de Direito, as insinuações caluniosas dirigidas a Aznar, as teorias da conspiração, etc. etc.) condicionaram as eleições em Espanha de forma indelével. E Louçã espera, agora e também, que outros governos da «guerra» caiam para que a debandada do Iraque (condição exigida por Bin Laden e, segundo Louçã, causa primeira do «castigo» e condição essencial para a «Paz») seja uma realidade. Que feliz que está Louçã.
A PAIXÃO DE MEL
Fui ontem ver A Paixão de Cristo, segundo Gibson.

Primeira observação: foram exageradas as acusações de anti-semitismo dirigidas a Mel, na medida em que qualquer adaptação minimamente fidedigna (e esta é-o sem margem para dúvidas) dos evangelhos acabaria por resultar num exercício tendencialmente anti-semita. Ou seja, a culpa, se é que há culpa, é do livro agora adaptado. São Marcos falava em “conspiração dos judeus” (Mc 14). São Lucas também (Lc 22). São Mateus idem. Até a referência, em jeito de ameaça, a César por parte dos sacerdotes, quando se dirigiam a Pilatos, relatada por São João, está presente. É óbvio que Mel Gibson não aligeirou a coisa e, como católico ortodoxo e fervoroso, tratou de fazer dos judeus (sumo sacerdotes, escribas e populaça em geral) os maus da fita. Se é um filme perigoso? Talvez. Vai haver muita alminha zangada com os judeus, as quais, já imbuídas pelo espírito dos tempos e pela proverbial ignorância em relação à História, farão a ponte com o Israel do Sec. XXI. Quanto aos romanos, o saldo acaba por ser positivo: observamos um Pilatos consciente da latente injustiça, embora incapaz de ceder ao seu papel de administrador de uma região e de um povo que não se queria revoltoso (uma angustia muito bem explorada no filme), bem como a presença de soldados sensíveis ao sofrimento de Jesus, apesar da demência de outros.

Segunda observação: o filme é contrário ao actual cânone sensitivo. Anestesiado pela banalização da violência via «caixinha que mudou o mundo», habituado a uma violência filtrada e pictórica via Nintendo e Sony, acostumado a desviar o olhar do horror, o ocidental médio sairá do cinema violentado pela forma como Gibson filmou a crueldade infligida a Jesus e pelo realismo de um corpo dilacerado vezes sem conta. Nesse sentido, a Paixão de Cristo é um filme hardcore, onde não há lugar para indirectas, evasivas ou filtros politicamente correctos.

Terceira e última observação: não é um filme excepcional e está longe de ser uma obra-prima. Ainda assim, é um filme que cumpre a sua função e foge elegantemente à tentação do «épico bíblico». A opção do aramaico foi uma aposta ganha. E há, pelo menos, três ou quatro cenas de antologia: a cena inicial no monte das Oliveiras, o flashback de Maria socorrendo o seu filho em pequeno e olhando agora o mesmo filho carregando a cruz, as três negações de Pedro e o diálogo entre Pilatos e Jesus – cenas contudo insuficientes para o empurrar para outros voos. De resto, a história e o argumento eram já bastante conhecidos.

segunda-feira, março 15, 2004

PÔSTÁCLARO
"A ver se percebo: se os atentados foram obra da ETA, a ETA é responsável pelos atentados; se foram da Al-Qaeda, os responsáveis são Aznar e Bush. É assim? Está percebido. Desculpem a maçada."
MDM
Há dias, a minha filha apareceu lá em casa com uns folhetos do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), editados em estreita colaboração com uma coisa chamada Fórum Social Português. Perguntam os meus leitores: o que é que uma menina de 7 anos faz com folhetos deste calibre? Não sei. Aguardo a resposta da mãe. Mas, insistem os caros leitores deste infame blogue, o que é, afinal, o Éme Dê Éme? Segundo o próprio, trata-se de um entre os muitos movimentos no feminino que representam uma “força social emancipatória, actores da construção de um Mundo Outro (sic), diferente e melhor, face aos retrocessos ideológicos (sic) e nos direitos das mulheres.” O tom geral é panfletário, arrivista, recheado de slogans e de referências nada inocentes do ponto de vista ideológico. Trata-se de um folheto (e, suponho eu, de um projecto) politicamente engajado, anacrónico, servido aqui e acolá por «conspirações», embrulhado num discurso encabeçado pelos nobres “direitos das mulheres” e pela “posição da mulher no mundo”. Não é preciso ser-se particularmente inteligente para perceber o que quero dizer com “politicamente engajado” se vos apresentar uma pequena lista de slogans e epítetos utilizadas em declarada hemorragia retórica: “globalização capitalista”, “desígnios ultrabelicistas do imperialismo”, “globalização das máfias”, “novas violências sobre os povos”, “dominação global”, “globalização neoliberal”, “forças neocolonialistas”. É notória a visita ao supermercado das frases-feitas-para-esquerdista-se-masturbar.
Pelo meio, incitam ao boicote dos produtos “israelenses” (sic) e americanos; apoiam “formas de produção tipo cooperativas” (sic); relembram, como é próprio de um certo quadrante político, a “luta contra a ditadura fascista” (para todos os efeitos, as outras não existiram); avisam-nos que o Estado (o «paizinho») se “desresponsabilizou” do papel de apoiar e fomentar a emancipação feminina. E, a páginas tantas, prega-se a solidariedade pelas “mulheres da palestina”, exigindo o controlo ou supressão imediata dos programas nucleares de Israel e dos EUA. Do Irão? Da Coreia do Norte? Da Líbia? Que ideia! Esses são países «amigos», com propósitos benignos que, ao contrário dos pérfidos EUA e dos temíveis sionistas, são faróis mundiais da democracia sob o rule of law, nos quais governos e centros de poder são escrutinados diariamente por uma comunicação social livre e independente, por uma opinião pública crítica, por organizações não governamentais atentas ao que se passa e por um clima festivo de celebração do melhor espírito libertário de Montesquieu e Locke.
Há uma componente cómica e, ao mesmo tempo, um comportamento patético em tudo isto. Será que este tipo de organizações para-políticas não enxergam o ridículo da sua descarada hipocrisia e a perversão da sua dualidade de critérios? Para esta gente, as “mulheres de Israel” pertencem ao lado dos maus (e dos ricos) e carregam no ventre, durante nove meses, as sementes que mais tarde ajudarão a perpetuar o «jugo do povo palestino» - razões mais do que suficientes para as não tornar elegíveis para efeitos da sua solidariedadezinha bacôca. Para esta gente, as mães palestinas – mesmo as que incitam ao ódio e ajudam os seus filhos a cometer atentados suicidas – serão sempre olhadas como vítimas e moralmente superiores em relação àquelas que, do lado de lá, sofrem « «justificadamente» o assassínio dos seus filhos, dos seus maridos e dos seus amigos.
Finalmente, estes movimentos são prosaicamente ignorantes e tendencialmente idiotas. Apontam as armas à globalização sem sequer repararem que a prosperidade crescente de dezenas de países em vias de desenvolvimento – por via da growth-through integration - tem feito mais pelos direitos das mulheres do que todas as pretensões feministas anti-globalização que a ocidente se alimentam das mordomias do capitalismo. Exigem utópica e ingenuamente uma globalização «limpa» - de injustiças, tensões, ideologias concorrentes e capitalismos «inimigos» - e uma constituição mundial (bonita a imagem), mas recusam simplesmente parar para pensar. Pensar que a iniquidade, a injustiça e a mediocridade (venham elas de ricos ou pobres, do norte ou do sul), aliada ao imponderável e à multiplicidade de objectivos e valores, farão sempre parte do jogo. Pensar que a globalização "real" – aquela com inúmeros defeitos e que não espera por rodriguinhos e decisões em colóquios na Aula Magna – tem sido proveitosa, está a dar frutos e tem permitido que milhares de mulheres em todo o mundo se abriguem na concha do «mercado» para subverter o jugo de regimes e sociedades obscuras, arcaicas e violentas no que aos direitos humanos diz respeito. Foi a globalização e a livre troca de bens, pessoas e de conhecimento que permitiu que as mulheres sauditas se imiscuíssem no mundo do empresariado e soltassem as primeiras amarras. Foi a globalização e o maldito capitalismo que permitiu empregar milhares de mulheres em todo o mundo, democratizando a oferta e a procura do trabalho. Foi a globalização e a livre circulação de pessoas que permitiu que na India o papel da mulher vá a caminho dos 180º. Só mesmo uma intelectual esquerdista ocidental com a cabeça repleta de tralha propaganista não vê o que é, hoje em dia, uma evidência. Só as Anas Drago e as Anas Gomes a ocidente se dão ao luxo de, comodamente, criticar as condições de emprego que, para milhares de mulheres, são uma benção e representam um salto qualitativo relativamente ao que se passava antes da maldita multinacional se instalar no seu país (lá vêm os exemplos da Nike para contrapor a floresta...). Dir-me-ão que isso é mediocridade. Errado: perceber isto não é aceitar a mediocridade e o que de negativo tem a globalização. É aceitar que o mundo avança devagar, a um ritmo próprio, alheio a propagandas e ideologias. É aceitar que o saldo é positivo. Qualquer estudo minimamente sério e exaustivo consegue descrever uma linha de tendência conclusiva: a globalização tem sido benéfica e se há grupo que tem beneficiado com a globalização, tal qual ela é, esse grupo é o grupo das mulheres. Das mulheres que, devido a um obscurantismo de séculos, não podiam trabalhar, estudar, votar ou simplesmente destapar a cara. O segredo do negócio é entrar no jogo, não descartando a regulamentação mas percebendo que a onda tem de se apanhar. Como disse um dia alguém, pior do que ter sido atingido pela globalização é simplesmente nunca o ter sido.
REZEMOS, EM NOME DO POVO IRAQUIANO...
...para que um Zapatero não chegue a presidente dos EUA:

"O novo primeiro-ministro espanhol, José Luís Rodriguez Zapatero, reafirmou hoje que vai mandar regressar as tropas espanholas do Iraque."

E o João lembra: "essa é a principal reivindicação da Al Qaeda."

Mais uma vez: parabéns, Mr. Bin Laden. You've got them

VOLTARAM A BATER-SE RECORDES
Voltaram a bater-se recordes de estupidez e cinismo dois anos e meio após o 11 de Setembro e passadas escassas horas da barbárie que ceifou a vida a mais de duzentas pessoas em Espanha. Como cidadão do mundo livre, e como vizinho de um país que dizem nosso irmão, senti-me revoltado e violentado pela forma absolutamente canalha e desleal como se empunhavam cartazes com frases tipo “Aznar, por tu culpa pagámos todos” e pela gritante demagogia dos gritos de "Paz" dirigidos a um Aznar destroçado. Assim como me pareceu gravíssima a organização de uma manifestação ilegal em período de reflexão eleitoral, manifestação essa que Ricardo Costa, na SIC Notícias, apelidava ingénua e estupidamente de «espontânea» e politicamente «desinteressada». Foi triste verificar como certos espanhóis pegaram no jogo, «castigando» o Partido Popular à boca das urnas, quando, quatro dias antes, era quase certo que o PP iria ganhar as eleições. Amarga vitória a do PSOE. Amarga e injusta.

Que mundo é este, que gente é esta que inverte de forma pérfida a culpa, fazendo uso de uma má fé insultuosa? Como é possível culpar Aznar e o Partido Popular de um massacre ignóbil? Como é que se podem desculpabilizar os verdadeiros culpados e vacilar face à sua chantagem psicológica? Que mundo é este onde, sem um pingo de vergonha na cara e sem o mínimo sentido das proporções, se desvaloriza a brutalidade da ETA, fazendo dela uma espécie de Paula Bobone do terrorismo - que supostamente avisa sempre, pede licença e nunca mata civis inocentes? Como é possível esquecer e branquear o que a ETA fez no passado, quando matava civis inocentes, quando fazia detonar bombas em supermercados e cemitérios, quando enganava as autoridades relativamente ao local onde escondia os explosivos? Como é possível achar a tese da ETA «pouco provável» e «descabida», ou peremptória e insofismavelmente considerar que essa tese, defendida passadas poucas horas por Aznar e pelo seu governo, se tratava já de uma «manobra de diversão» ou de «uma mentira deliberada»? O que dizer, também, do aproveitamento reles do PSOE, fazendo eco da ideia da «conspiração» de tudo e todos (polícia, procurador, magistrados, ministros, chefias, etc.) para esconder a «verdade», quebrando o silêncio que se impunha a breves horas da abertura das urnas? E como foi possível permitir que as eleições se processassem neste clima de dor e de insinuações caluniosas?

Que eu saiba, e corrigir-me-ão se estiver equivocado, a Al-Qaeda encetou uma guerra contra o «imperialismo» e o grande Satã ANTES do Afeganistão e do Iraque 2003. Ao contrário do que cobardemente apregoam os terrorista islâmicos, este terrorismo moderno da Al-Qaeda não tem como combustível os «danados da fome», os injustiçados ou os que sofrem. O terrorismo da Al-Qaeda tem uma agenda política e um cunho indelével de fundamentalismo religioso. É organizado por gente abastada e servido por «intelectuais» que são, eles próprios, operacionais. É um terrorismo sofisticado, perverso, planeado ao milímetro. É um terrorismo que se aproveita da propaganda anti-ocidental levada a cabo há décadas nos países islâmicos, inventando a figura de uma espécie de «procuração colectiva» para agir em nome de. E, finalmente, é um terrorismo que se aproveita das fragilidades próprias das sociedades abertas - liberais, tolerantes e avessas a um securitarismo de má memória - bem como das fragilidades psicológicas dos seres humanos que, perante a monstruosidade, não hesitam em vacilar e sucumbir.

Parabéns ao Sr. Bin Laden: ele foi, de certa forma, um dos vencedores das eleições de Espanha. Parabéns ao Sr. Miguel Portas, pelo sorriso sacaninha de regozijo por um dos governos da «guerra» ter saído de cena. Nunca um sorriso foi tão grotesco. E, finalmente, parabéns aos jornalistas portugueses pela indizível cobertura do aftermath do 11 de Março e das eleições em Espanha. Como diz o Francisco "depois de ver os telejornais portugueses desta noite, fico mais aliviado: há jornalistas portugueses que, felizmente, também não votam em Espanha."

domingo, março 14, 2004

PORQUE É QUE EU AS VEZES ME ARREPENDO DE BATER NO MIGUEL SOUSA TAVARES
O Ridículo Causa Danos
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Público, Sexta-feira, 12 de Março de 2004
"1 - Aqui há uns anos, na televisão, havia um programa de conversas em que o jornalista Luís Osório entretinha um debate com o dr. Daniel Sampaio e uma figura retorcida, que se sentava sobre as pernas, fazia uns vagos gestos com as mãos e, volta e meia, soltava umas frases desgarradas, tipo-pós-modernas, restaurante dos Tibetanos ou Frágil. Entre os meus amigos, baptizámo-la de "A Vírgula", devido aos seus contorcionismos, e divertiamo-nos a imitá-la no dito programa. Mas, ao consultar a lista de deputados saídos das últimas legislativas, constatei com espanto que "A Vírgula" havia sido eleita suplente na lista do Bloco de Esquerda e, como tal, estava destinada - devido ao rotativismo igualitarista do Bloco - a aparecer ocasionalmente como deputada da nação, isto é, minha deputada. Cheguei a vê-la, aliás, numa intervenção parlamentar, onde já não apareceu sentada sobre as pernas e a pose era claramente de alguém que tinha passado a levar-se francamente a sério - embora com piores resultados.

Esta semana, nestas libérrimas páginas do PÚBLICO, "A Vírgula" - de sua graça, Ana Drago - apareceu-me a dissertar sobre o aborto, ao melhor estilo do "direito à minha barriga". Entre o panfletário e o patético, desabafava ela que "o Dia Internacional da Mulher é mais um dia em que procuro novos caminhos para saber o que faço da minha revolta com a sistemática condenação do direito ao meu corpo".

Eu - votante, discreto militante e fervoroso crente da despenalização do aborto e do direito ao aborto em hospitais públicos, com a assistência médica e os meios do Estado - confesso, todavia, que vomito este discurso. Na questão do aborto, o que menos me preocupa é o direito da deputada Ana Drago ao seu corpo: que faça com ele o que quiser. O que me preocupa, única e exclusivamente, é o direito de uma criança que vai nascer a ter um pai e uma mãe, condições de vida minimamente aceitáveis e alguém que se preocupe com ela, que a ame, que lhe ensine o milagre de estar vivo e a responsabilidade de sobreviver. Começa, porque o aborto não é um direito: é uma tragédia, uma tragédia que se assume, em desespero ou em consciência, quando o que se apresenta como alternativa é uma tragédia ainda maior. Segue-se que, se fosse direito de alguém, não se percebe por que haveria de ser apenas da mãe e não também do pai - e se o pai, contra a vontade da mãe, quiser ter o filho e se comprometer a criá-lo e educá-lo sozinho? Ah, pois, o útero, a barriga, o corpo: o corpo é da mulher, é ela que manda nele. E quem é que manda verdadeiramente no corpo da mulher? Serão os seus progenitores que a criaram, em vez de terem decidido abortar dela? Será ela própria, os produtos de beleza, os cirurgiões plásticos? Não, quem manda é a natureza. É a natureza que decide se uma mulher é fértil ou infértil, se adoece ou se tem saúde, se engravida ou se aborta espontaneamente. Por isso, eu vejo a questão do aborto, não como um problema ideológico ou religioso, mas como parte do equilíbrio profundamente instável das regras desse imenso jogo que é a vida - a vida, segunda as únicas verdades invencíveis, que são as da natureza. Na natureza, quando uma fêmea mata à nascença as crias mais fracas, não o faz porque as não queira ou não ame, mas apenas porque não tem condições para criar todos os filhos e opta por defender os que podem sobreviver. Na natureza humana, as condições são mais amplas, mais dolorosas e mais traumatizantes que a simples capacidade de sobrevivência física dos filhos. Entram em jogo outras e mais angustiantes coisas, como as condições psicológicas, financeiras, conjugais, amorosas. A decisão é de cada um, conforme a sua vida, a sua força, a sua convicção íntima. E se defendo a liberalização do aborto é porque entendo que o que é íntimo é impartilhável e escapa a Deus e a César. Não é, seguramente, porque a Igreja Católica e alguns fanáticos que julgam saber em exclusivo o que é a família são contra, que eu sou a favor. Mas também não sou a favor, certamente, por causa do direito à barriga da deputada Ana Drago.

2 - Por idênticos e primários raciocínios, caiu em cima de Luís Vilas Boas um coro de politicamente correctos, só porque ele se atreveu a dizer uma coisa óbvia: que um casal homossexual não oferece garantias para criar e educar equilibradamente uma criança. Uma vez mais, é o direito das próprias crianças a uma infância saudável que passa para segundo plano, cedendo ao direito dos homossexuais, mulheres ou homens, de brincarem aos pais e mães. Uma vez mais, a minha resposta é: olhem para a natureza. Já viram elefantes "gays" ou focas lésbicas a criarem filhos em comum? Peçam o que é legitimo pedir - igualdade de direitos conjugais e sucessórios, por exemplo -, mas não peçam o que não é natural pedir e ofende os direitos legítimos de terceiros inocentes.

3 - E no Dia Internacional da Mulher, o Presidente Jorge Sampaio foi almoçar com mulheres que vestem fardas - da polícia ou das Forças Armadas. Com aquele seu ar de quem carrega às costas a missão de justiçar o mundo inteiro, avançou para um grupo de mulheres-polícias e quis saber se tinham muitas dificuldades de relacionamento com os colegas homens. Elas entreolharam-se, surpreendidas com a pergunta: "Nenhumas", responderam. Lá morreu mais um Dia Internacional da Mulher.(...)"

sexta-feira, março 12, 2004

DE REGRESSO
A pedido de várias famílias, regresso ao conbíbio dos meus caros leitores, tentando satisfazer, para já, até à saciedade os que me escreveram, agradecendo, as citações de Samuel Johnson. E dirijo-me, em particular, ao Francisco, por saber que ele é, também, um indefectível do Dr. Johnson.
Por último, cumpre-me dizer que, ao contrário do que estúpida e ingenuamente me propus fazer, o meu afastamento de uma semana não foi sinónimo de “tempos livres” ou “lazer” - o que significa que a melhoria intelectual que há tanto procuro ficou mais uma vez adiada por tempo indeterminado.

“In all pointed sentences, some degree of accuracy must be sacrificed to conciseness.”

“Change is not made without inconvenience, even from worse to better.”

“It matters not how a man dies, but how he lives. The act of dying is not of importance, it lasts so short a time.”

"The great source of pleasure is variety. Uniformity must tire at last, though it be uniformity of excellence. We love to expect; and, when expectation is disappointed or gratified, we want to be again expecting."

"It it is better to suffer wrong than to do it, and happier to be sometimes cheated than not to trust."

"Marriage ha many pains, but celibacy has no pleasures."

"A man who exposes himself when he is intoxicated, has not the art of getting drunk."

“Patriotism is the last refuge of a scoundrel.”


e, por ultimo

“Classical quotation is the parole of literary men all over the world.”

sexta-feira, março 05, 2004

ALBERTO GONÇALVES, QUEM HAVERIA DE SER?
Torres e Peões
por Alberto Gonçalves
"Domingo passado, Portugal reparou na figura do autarca alvar e ficou em estado de choque. O alvoroço foi tamanho que levou a pronunciamentos do primeiro-ministro e do dr. Sampaio. Das duas, uma: ou somos de uma hipocrisia extrema ou de uma ingenuidade medonha.

Se não tínhamos notado, o sr. Ferreira Torres, embora seja “um caso”, está longe de ser caso único. Quando se fala do “país real”, e Deus sabe as vezes que enchemos a boca com tão bela imagem, é também do sr. Ferreira Torres que falamos. Dele, e dos Mesquitas, dos Narcisos e dos Vieiras que constituem desde 1975 a dimensão nada discreta dos poderes regionais e paralelos.

Em campanha, Lisboa chama estes espécimes ao palco para berrarem slogans e arrebanharem votos; no tempo restante, são largados na impunidade, que aproveitam para reforçar o domínio na paróquia, fazer “obra” e, se vier a jeito, baptizar a “obra” com as respectivas, e imortais, graças. Se há queixas, as queixas calam-se: na terra deles, mandam eles, munidos da legitimidade eleitoral e da arte do compadrio. O municipalismo democrático? Ei-lo. A regionalização? Não brinquem.

Por razões evidentes, os comentadores do ramo não partilham esta visão das coisas, preferindo usar o sr. Ferreira Torres como mero exemplo da promiscuidade entre a política e o futebol. Por um lado, a ideia é divertida, dado que o exemplo contrário – Rui Rio, quem haveria de ser? – tem ouvido o que Maomé não disse do vinho. Por outro lado, a ideia é divertida à mesma, visto pressupor que o estilo dos nossos autarcas-modelo deve-se à bola: tirem-lhes a dita e é vê-los espalhando polidez. Infelizmente, e à semelhança da construção civil, o futebol é apenas um meio propício à troca de influências, aquisição de “prestígio” e obtenção de benefícios. Se não existisse, o pólo aquático ou a apicultura teriam idêntico efeito.

As luminárias tipo Ferreira Torres foram, à esquerda e à direita, um produto do PREC, heróis do combate ao comunismo ou campeões do operariado. Tirando a gritaria nos saudosos plenários, porém, pouco acrescentavam, a não ser a manha necessária à perpetuação no poder, que esta democracia trôpega facilita. O regime já vai com três décadas e muito do entulho autárquico primordial resiste por aí, abrigado na pacatez das coutadas. Podemos queixar-nos das “redes” locais, dos mandatos infinitos e da cobardia dos políticos “sérios” – que elevam, por cálculo, o entulho às direcções nacionais.

A verdade é que, em última instância, os inúmeros Ferreira Torres são eleitos por sufrágio universal e livre. O espanto que eles suscitam é o espanto com que os portugueses periodicamente se descobrem. As descobertas são de facto a nossa vocação."


in Correio da Manhã

quinta-feira, março 04, 2004

GOSTARAM DA EVOCAÇÃO DO DR. JOHNSON? QUEREM MAIS? AQUI VAI
"Integrity without knowledge is weak and useless, and knowledge without integrity is dangerous and dreadful"

"A wise Tory and a wise Whig, I believe, will agree. Their principles are the same, though their modes of thinking are different"

"What is written without effort is in general read without pleasure"

"[Boswell] Sir, what is poetry?
[Johnson] Why sir, it is much easier to say what it is not. We all know what light is, but it is not easy to tell what it is."
O REGRESSO DO VELHO ÓDIO
Return of the Old Hatred
por Melanie Phillips
"Let us all agree on one thing at least. The more Jews warn that anti-Semitism has come roaring out of the closet, the more people don't like the Jews. Which is a bit of a problem if you believe, as I do, that the oldest hatred has indeed alarmingly resurfaced but is hiding under the respectable skirts of hostility to Israel.
This week, the European Union finally admitted there was a problem with rising Jew-hatred. While there was no comparison with the Holocaust, said European Commission President Romano Prodi, some criticism of Israel was 'inspired by what amounts to anti-Semitic sentiments and prejudice'. Yesterday, the Community Security Trust, a Jewish charity, reported the second largest rise in 20 years in attacks on synagogues, cemeteries and Jewish people in Britain.

Yet there were immediate moans in the press of 'grossly exaggerated' warnings about rising anti-Semitism. In an Economist debate at London's Institute of Contemporary Arts last week, those issuing such warnings were accused of being the 'new McCarthyites', waving the shroud of the Holocaust to stifle legitimate criticism of Israel.

So when a woman said to me one evening, 'I hate the Jews', I should have dismissed my shock as a 'grossly exaggerated' response. When I was listed in a newspaper as one of the Jews exercising sinister control over public debate in Britain, I should have said I brought this on myself by writing anything at all.
When I heard claims by a radio reporter that the Jews might have 'poisoned the water wells of Egypt' in 1947, I should not have wondered why one of the stock libels of medieval Jew-hatred was being broadcast as if it were true, since my concern was obviously shroud-waving.

And when in the ICA debate Tory MP Robert Jackson accused British Jews of dual loyalty, saying their Britishness was conditional on their explicit repudiation of the policies of Sharon, it was obvious the reason he was singling out the Jews as second-class citizens in this startling way was because they are McCarthyites.

Let's all agree on something else. Some Jews grossly over-react to perceived anti-Semitic bias. Their campaign of insults is as bad as the kind of insults which wing their way with monotonous regularity to me.

Nevertheless, as Chief Rabbi Jonathan Sacks told the EU conference, an unholy alliance between the Left, the far-Right and the Islamic street means millions are being told that alone among nations, Israel has no right to exist and that all the troubles of the world are the work of the Jews.

At the heart of this bitter disagreement is the conflation of the issue of Israel with the issue of Jew-hatred. The latter claim maddens people who feel they can't criticise Israel without risking being accused of anti-Jewish prejudice. The two, they say, are not connected. In theory, that's true. In practice, one issue often morphs into the other, both implicitly in the way Israel is described and explicitly in overt Jew-hatred.

Criticism of Israel is certainly legitimate, as is criticism of any country. I am myself critical of its policies. But a line has been crossed into something else - the demonisation and dehumanisation of Israel based on systematic lies, libels and distortions. As a result, a lot of decent people have been unwittingly caught up in a narrative of hatred.

Former Sunday Times editor Sir Harold Evans tried to show where that line should be drawn. It was not anti-Semitic, he said, to report Israeli ill-treatment of Palestinians or Sharon's past, or to deplore the long occupation of the territories. It was anti-Semitic to present Israel as diabolical, to invent malignant outrages, to condemn actions by Israel while not condemning worse elsewhere, and to vilify Jews so as to incite violence.

In all four categories, that line has been crossed. Diabolical? Israel is routinely described falsely as an apartheid or, worse, Nazi state. While its society is far from perfect, Arab Israelis not only have the vote but serve in the Knesset, supreme court and army. To label it 'Nazi' is to delegitimise it.

Malevolent outrages? Look at the so-called 'massacre' of Jenin, which has become an accepted fact even though there was no massacre: 23 Israeli soldiers and 52 mostly armed Palestinians died in that incident. There are some appalling and inexcusable incidents in Israel. But that doesn't explain why Israeli self-defence is systematically and falsely represented as malevolent aggression.

Double standards? British academics try to impose boycotts on Israeli universities. Yet they organised no boycotts against Kuwait, which expelled 350,000 Palestinians in 1991; or Jordan, which murdered tens of thousands of Palestinians; or Syria, which has occupied Lebanon. And increasingly, people are saying Israel should not exist at all, thus singling it out alone for destruction.

Inciting violence? People such as Lib Dem MP Jenny Tonge have come close to excusing the mass murder of Israelis in a manner they would never apply to the mass murder of other peoples.

Coverage of Israel is obsessive and disproportionate, and marked by a hysteria and malice not applied to any other conflict. And it cannot be divorced from the overt Jew-hatred that has now surfaced in Britain and Europe, particularly the give-away calumny of world Jewish power. The claim that Jews conspire to dominate the world is one of the oldest tropes of classic Jew-hatred. Astonishingly, claims made by the European Left are not far removed. It repeats claims that the 'powerful Jewish lobby' is now running American foreign policy. When Labour MP Tam Dalyell observed that a 'cabal' of Jewish power was behind Blair, he was thought a loveable eccentric. In the House of Lords, a meeting heard that Jews control the British media. One peer told a Jewish colleague: 'We've finished off Saddam. Your lot are next.'

The outcome is that an astonishing axis has developed between Islamic Jew-haters and the Left, marching behind the banners of 'human rights' on demonstrations in Europe producing chants of 'Hamas, Hamas, all Jews to the gas'.

Why? The main reason is ignorance of both the Middle East's history and its present. Next, the Left's hatred of Sharon is so great, along with its prejudice that America/the West is the oppressor and therefore the Islamic/Third World the victim, that it can't see what is happening.

Then there's the Left's deconstruction of the very concepts of objectivity and truth, so that it has become a conduit instead for propaganda and lies; and finally, its own history of Jew-hatred from Marx onwards. The final twist is that there are some Jews on the Left who subscribe to all the above too.

Former Archbishop Desmond Tutu said people were scared to say the Jewish lobby in America was powerful. So what? he asked. 'The apartheid government was very powerful but today it no longer exists. Hitler, Mussolini, Stalin, Pinochet, Milosevic and Idi Amin were all powerful, but in the end they bit the dust.'
So Jews not only have vast power, according to Tutu, but are on a par with those tyrants. Yet it was Tutu who could publish this calumny about the Jewish people, and thus incite yet more to hate them. But of course, any Jews who call this by its proper name are the new McCarthyites.

in FrontPageMagazine, March 1, 2004

terça-feira, março 02, 2004

GOOD OLD JOHNSON!
Um grande aforismo que tenciono seguir à risca:

"All intellectual improvement arises from leisure."
SAMUEL JOHNSON

segunda-feira, março 01, 2004

AND THE OSCAR GOES TO...
...Billy Crystal.

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