O MacGuffin: Dezembro 2003

terça-feira, dezembro 23, 2003

BOAS FESTAS
O Contra deseja a todos os seus leitores um Feliz Natal e um excelente Ano Novo. Uma vez mais, agradeço a vossa atenção.

Agradeço, também, a todos os blogues que fizeram referência ao Contra a Corrente, incluindo aqueles com quem mantive acesas, mas justas, contendas. Sem eles e sem os «meus» leitores, este blogue não faria sentido.

E, agora, umas merecidas (?) mini-férias. Regressarei ao vosso conbibio na primeira semana de Janeiro, 2004.

Para terminar, a listinha da praxe, i. e., os Prémios Blogosfera 2003:

Melhores Blogues e Páginas Pessoais (ordem aleatória):
Aviz
Homem a Dias
João Pereira Coutinho
Liberdade de Expressão
Abrupto
Bomba Inteligente
Babugem
Comprometido Espectador
Dicionário do Diabo
Flor de Obsessão
A Memória Inventada
Voz do Deserto

Melhores Antagonistas:
Barnabé
Blog de Esquerda

Melhores Esperanças:
Desesperada Esperança
Rua da Judiaria

Melhor Regresso:
Catalaxia
Guerra e Pas

Deixam Saudades:
A Coluna Infame
Espigas ao Vento

De resto, todos os outros blogues que fazem parte da lista aqui ao lado (os Marretas, os Gatos Fedorentos, A Causa Foi Modificada, o conterrâneo Miniscente, todos os bravos da UBL, etc. etc.), encheram-me as medidas. A todos eles, obrigado.

Até breve.


segunda-feira, dezembro 22, 2003

E 'PRONTES': ATINGI AS 40.000 PAGE VIEWS
Por isso: OBRIGADO, OBRIGADO, OBRIGADO, OBRIGADO...

PS: E obrigado.
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Afinal, o João também se debruçou (mas não caiu) sobre a questão do 'outing'.
RETIRADO DO BLOGUITICA
(Actualizado)
post #1316
post #1324
Acho particularmente infeliz a forma como Paulo Gorjão aborda esta questão, amplificando uma noticia absolutamente inconsequente e até patetinha. Não, não sou homossexual. E não, não sou fã do Dr. Portas. Acho, apenas, que ninguém tem nada que ver com a orientação sexual de quem quer que seja - seja essa pessoa ministro, presidente da junta, empresário ou trolha. Assim como me parece um sinal inequívoco de urbanidade e civilidade saber respeitar a vontade de quem não quer expor publicamente a sua orientação sexual. Como tal, as declarações do travesti Lola não deveriam ser amplificadas. São desbocadas e encerram, em si mesmo, uma tentativa mesquinha de «apontar o dedo».
Por outro lado, não penso que um ministro, por ser homossexual, tenha de lutar pelos direitos dos homossexuais, assim como ninguém espera que um ministro filiado na Igreja Universal do Reino de Deus se preste à constituição de uma task force que vise a difusão do ideário da IURD.
Para terminar, penso que os direitos dos homossexuais são os mesmos dos heterossexuais, bissexuais, abstémios, etc. Sinceramente, penso que do lado dos homossexuais subsiste, por vezes, um excesso de auto-vitimização e um déficit de bom senso na forma como exigem protecção e um estatuto de excepção. Estou com Hayek quando ele afirma que as leis gerais - fortes, claras e abrangentes - são preferíveis a preceitos particulares e supostamente cirúrgicos.

PS: Paulo Gorjão afirma, com razão, que caí numa contradição ao ter amplificado, também, a notícia. Por isso mesmo, retirei o corpo dos posts, deixando apenas os links. A não ser que Paulo Gorjão entenda que, ao criticá-lo nesta questão, continuo a amplificar a notícia...
O PS DO DR. GAMA
Diz o Alberto, com propriedade (bonito termo, este), que se o PS fosse mais parecido com o Dr. Jaime Gama, o Dr. António José Seguro ('Tó Zé' para os amigos) teria de se mudar para o BE. E Dra. Ana Gomes? Baader-Meinhof anyone?
JOSÉ MANUEL: ONDE QUER QUE EU ASSINE?
Durão no Casamento de Luanda
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
in Público, Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2003
"Ela estava linda. Levava um vestido justo com cauda em seda selvagem, com um corpo de Ypres e mantilha de renda feita especialmente na Bélgica". Ela chama-se Tchizé, tem 25 anos e é filha de José Eduardo dos Santos. A descrição é de Augustus, um costureiro português que só para a boda da filha do Presidente angolano vendeu 50 vestidos.
Mas a descrição não está completa. Tchizé, informava ontem o "24 Horas" levava na cabeça, "claro está, uma coroa ornamentada com os cobiçados diamantes angolanos". Diamantes que não faltaram na festa. Como não faltaram lagostas, champanhe francês e carne argentina numa mesa servida pelo Ritz de Lisboa. E como também não faltou tudo o que os muitos dólares da elite angolana pode comprar, tudo o que não tem pudor de gastar numa celebração que durou três dias e envolveu 600 convidados. Convidados endinheirados pois ofereceram, em leilão, 30 mil euros pela liga da noiva e onze mil pelo laço do noivo.
A festa terminou na ilha de Mossulo e depois os noivos partiram para as ilhas Maurícias, em lua-de-mel. Lá, bem longe da imensa miséria de Luanda, dos seus bairros de lata a perder de vista, das suas infraestruturas podres, dos seus mercados onde se esmola a comida de cada dia. Lá, ainda mais longe de um território dizimado por anos e anos de guerra, onde se morre de fome, onde se é estropiado por minas, onde se vive sem esperança e sem alegria.
Tudo pago, naturalmente, por José Eduardo dos Santos. O Presidente. O homem que preside a um regime cleptócrata que pilha as imensas riquezas do país e as distribuiu pela numenklatura e pelos apaniguados. Pelos que estavam na festa. Pelos que importam carros de luxo, têm os filhos a estudar na Europa e não dispensam Rolex de ouro ou as criações de Augustus, mesmo quando estas custam mais de 1800 euros.
Espectáculo tão triste e vergonhoso foi ainda pautado pela hipocrisia - a noiva foi discretamente baptizada antes de casar, pois quando nasceu o pai ainda tinha o discurso do afro-estalinismo - e pela agressiva presença da segurança. Já não com medo da Unita, por certo, mas dos deserdados de Luanda.
Entre os convidados estava, para vergonha de todos nós, o primeiro-ministro Durão Barroso. Convidado como "amigo", porque o casamento não era de Estado. E que aceitou ir a Luanda nessa condição: "amigo" de um dos responsáveis pela desgraça de Angola, um homem com demasiado sangue nas mãos e demasiado dinheiro nos bolsos.
Nenhum interesse do Estado português, nenhum interesse português em Angola, público ou privado, justifica a viagem de Durão Barroso. E mesmo que esses interesses existissem e a viagem os promovessem, há actos de vassalagem que não se praticam - actos de vassalagem como ser convidado para uma festa de luxo e espanto num país que mendiga a ajuda internacional e não paga as suas dividas, designadamente a Portugal.
A viagem oficial de Durão Barroso a Angola já tinha decorrido num tom de cordialidade inaceitável quando se lida com gente da jaez de José Eduardo dos Santos. Esta sua viagem privada foi pior, porque implicou cumplicidade com o espavento de uma festa escandalosa.
Para além de que, mesmo privada, a ida de um primeiro-ministro ao casamento da filha de um Presidente, é sempre um gesto político. Neste caso, um triste e lamentável gesto político."

domingo, dezembro 21, 2003

ESTES TIPOS SABEM TUDO
Recebo mail do Sr. Byron Hurd:

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Estes tipos lêem-nos os pensamentos.

sexta-feira, dezembro 19, 2003

OUTRO
A dar os primeiros passos: Veritatis. Bem-vindo.

quinta-feira, dezembro 18, 2003

I'M LOVIN' IT
Psiuuu: «não digam nada a ninguém». Estou a rever The Royal Tenenbaums. Uma "comédia genial"? Muito mais que isso.


FINANCIAL TIMES
Lomborg cleared
Published: December 18 2003 4:00
"How can they have been so stupid? In a nutshell, this was yesterday's official verdict on the Danish committees on scientific dishonesty.
With imperious hauteur the committees had ruled in January that Bjorn Lomborg's book The Skeptical Environmentalist was "objectively speaking . . . scientific dishonesty". Purely based on the evidence of articles in the magazine Scientific American, the Danish environmental optimist became the scientific equivalent of a flat-earther and the cause of an almighty dispute about the science behind global warming. "The publication is deemed clearly contrary to the standards of good scientific practice," the ruling added.
Yesterday it was damningly overturned by the Danish Ministry of Science, which found that the committees had not discovered any bias in Mr Lomborg's choice of data and that criticism of his working methods was "completely void of argumentation". The criticisms continue. The committees used sloppy and emotive language that - perhaps deliberately - obscured the fact that they had in fact cleared Mr Lomborg of gross negligence and an intent to deceive. They failed adequately to assess whether they had proper jurisdiction over the book. They used improper procedures. They failed to assess whether Mr Lomborg's work had been peer reviewed. They had not offered Mr Lomborg a chance to respond. And they allowed his accusers too much time to make their case.
That is enough about the Danish committees on scientific dishonesty; suffice it to say that the science ministry has at last restored Denmark's sinking scientific reputation. Now scientists, politicians and the media should attempt to learn two lessons from this ludicrous episode.
First, given a choice between alarmism and honesty science must always choose the latter. There is nothing to be gained by alarmism about an uncertain future in an attempt to influence the public and change policy. It merely creates opportunities for Mr Lomborg and others to knock down these and many other straw men. The truth is that the vast majority of scientists, whether they study environmental change or other fields, already adhere to this principle.
So the second lesson is for the media, politicians and the public. If we pay attention to important scientific issues such as global warning only when disaster or salvation is confidently predicted, bad policies are almost certain to be the result. Our appetite for a good story without caveats provides an incentive for some scientists to skip the qualifiers and for us to be fed a diet of distortions.
The future is uncertain. We should learn to accept that uncertainty. Scientists should explain what they can deduce about the future but should always sing loudly about the limits of that knowledge. That is the way to avoid hearing about the Danish committees on scientific dishonesty again."

É altura de recordar o que Lomborg escreveu (1):

"As a society we use vast amounts of resources to regulate both health and environmental risks such as toxins. We have also seen above that pesticides, for example, probably result in very few deaths. But because the media attention is so great, many people think that pesticides are rather dangerous. The consequence of the constantly repeated Litany is that we thoroughly regulate and phase toxins but leave alone other areas where the same resources could do much more good, saving many more people from dying from involuntary risks. If the Litany makes us demand regulation of particular areas of the environment while we fail to consider how the money could otherwise have been spent, we actually create a societal structure in which fewer people survive."

O livro de Lomborg foi, acima de tudo, uma obra de descompressão, lucidez, desassombramento. Nunca entendi a forma absolutamente canalha como, por exemplo, a Scientific American o tratou ou, mais tarde, os "Danish committees on scientific dishonesty" o declararam impróprio para consumo. Lomborg nunca afirmou que o planeta estava a salvo e que, em matéria ambiental, tudo estava bem. Lomborg obrigou-nos a olhar para a questão de um outro prisma, desmontando pelo meio algumas ideias erradas. Tudo devidamente fundamentado, com recurso aos dados dos próprios... ambientalistas. Só encontro uma explicação para esta reacção: Lomborg veio colocar em causa o cânone ambientalista, escancarando a céu aberto a latente desonestidade e os erros de palmatória praticados por certos "soldados do ambiente" - estes sim, os únicos responsáveis pela existência do livro "The Skeptical Environmentalist". Essas coisas não se perdoam.

(1) in"The Skeptical Environmentalist", Cambridge University Press 2001, pp. 341-342.
Ó MARADONA!
Anda um gajo (moi même) armado em intelectual (no meu caso em «pseudo-intelectual», com toda a arrogância e pesporrência que daí advém) e, quando menos se espera, aparece um outro a dizer que não, que eu também sou uma besta, tal como o rapaz do Quem quer ser milionário?; que há outros que estão para além de mim e que pensarão ou dirão o mesmo, blá blá, blá blá, blá blá. Amigo maradona (e o “amigo” é absolutamente genuíno e sincero): tens toda a razão. Seguido de: So fucking what? Pela minha parte, peço aos anjinhos que os que estão mais além - ou seja, os que estão acima de mim; ou seja, os que sabem o nome das obras completas do Goethe, os que sabem explicar o princípio da incerteza de Heisenberg, os que compreendem na totalidade a filosofia de Hegel, etc. etc. etc.; ou seja, os que sabem mais e melhor do que eu – peço aos anjinhos, dizia, que não deixem nunca, mas nunca, de denunciar, sempre que se proporcione, a minha incultura e estupidez da forma como bem entenderem. Eu espero, eu exijo!, que me «batam» e ponham a nu a minha ignorância. É também para isso que eles lá estão.
Voltando ao rapaz do Quem quer ser milionário? (que não era propriamente um idiota babado ou uma criança), no meu tempo de adolescente bexigoso (agora sou apenas bexigoso), tive sempre presente um conselho do meu pai: “se não sabes cala-te; se sabes, cala-te também.” É ainda por causa desse conselho que eu nunca irei ao Quem quer ser milionário?. Caso fosse, mandaria o bom senso e o que há de mais nobre na palavra 'humildade' que, perante uma pergunta que me oferecesse sérias duvidas, o melhor seria mesmo ficar calado para evitar figuras de otário.
Finalmente, uma razão de peso: dizer que La Dolce Vita foi realizado pelo Roberto Benigni ofende, também, a minha qualidade de cinéfilo. Dito de forma mais prazenteira, eu não admito que um cab*** (desculpem a linguagem) qualquer ouse dizer que La Dolce Vita é do cagal*** (desculpem, novamente) do Benigni.
Chamem-me elitista, presunçoso, pavão ou Eduardo Prado Coelho. Estamos entendidos maradona? (já agora, toma nota: o almoço em Évora vai ser agendado para Janeiro).

PS: E já agora, amigo maradona, eu perguntava-te: qual a reacção mais arrumadinha e certinha para acompanhar a calinada? “Coitado do rapaz, ele ainda é tão novinho...”? Ou: “Pois é, o cinema não é o seu forte”?. Ou, ainda, “não sabe aquela mas saberá outras que eu até não saberei”? Ou achas que poderíamos ir mais além e questionar “Afinal de contas, para que serve o «saber»? O que é que isso interessa perante o milagre da vida? Será assim tão importante saber que o La Dolce Vita foi realizado pelo Fellini? Para quê?
No fundo, como diria o Fellini, “La Vita è Bella”...
POST REACCIONÁRIO PRESUNÇOSO OU POLITICAMENTE INCORRECTO (COMO É QUE QUEREM?)
Há dois ou três dias, durante um acidental zapping, cruzei-me com o programa "Quem quer ser milionário?" (RTP1), agora apresentado por uma criatura capaz de irritar mortos. Estava um rapaz sentado na cadeira do réu, estudante universitário em Coimbra. A pergunta era: Quem realizou o filme La Dolce Vita. Resposta do rapazito: Roberto Benigni. Ah! mas parece que o estou a ver: "Não pagamos!"

quarta-feira, dezembro 17, 2003

UMA REPORTAGEM NA PALESTINA
O excelente Henrique Cymerman enviou reportagem da Palestina. Na dita, surge a figura de um psicólogo palestiniano que diz qualquer coisa como: “uma percentagem assinalável de crianças palestinianas afirma que o seu maior sonho, quando forem crescidas, é serem bombistas suicidas.” O psicólogo não o disse, mas a conclusão está subjacente: a culpa é dos israelitas. É a opressão israelita que fomenta isso. É o Sr. Sharon que coloca nos seus horizontes essa «nobre» causa. A maioria dos que assistiram à reportagem, terão pensado: “Estes israelitas são os cabr***. Coitadas das crianças.” Não se lhes terá ocorrido, perante tão dramática cantilena, o seguinte: as crianças são sobretudo influenciadas por aqueles que as rodeiam. Terão certamente esquecido que muitos adultos palestinianos fazem questão de as envolver na «causa». Que há mesmo quem as organize para servirem de escudo na linha da frente (e existem reportagens a prová-lo à saciedade). Que há quem lhes ensine, desde tenra idade, a manejar armas de todo o tipo com o intuito de matar os tipos do lado de lá. Assim sendo, terão negligenciado o efeito da educação e orientação transmitida pelos pais, tios, avós ou primos palestinianos.
Perante a reportagem, uma boa pergunta a colocar seria: pensarão esses pais e familiares, por um minuto que seja, em inverter essa «cultura»? Dir-me-ão que não, porque, do lado de lá, os israelitas não os deixam. E eu digo: bullshit!! Isso não justifica nem explica tudo.
Sei que os palestinianos amam as suas crianças como qualquer outro povo ao cimo deste maldito planeta. Crianças, aliás, a quem não se lhes pode atribuir a mais leve culpa de um conflito que ultrapassou, em muito, o limite do racional. Mas sei, também, que os adultos têm a obrigação e a responsabilidade de responder pelos seus rebentos. No caso dos pais e familiares palestinianos, terão de lhes ser assacadas responsabilidades directas na forma como gerem, na mente dos seus filhos, o conflito que se lhes depara diariamente. Têm, por isso, a obrigação de observar certas premissas de ordem moral e ética, no que respeita ao grau de envolvimento a que devem sujeitar as crianças, face a um conflito psicologicamente arrasador. Não podemos, por isso, quer do lado dos israelitas, quer do lado dos palestinianos, esquecer que existe uma obrigação moral e uma responsabilidade directa, por parte dos adultos, em inverter, na mente das suas crianças, uma lógica de vingança pela morte. Ao fim ao cabo, uma "cultura da morte". Ou será que estou enganado quando digo que, a par dos “maus israelitas”, a culpa da situação, no que respeita ao observado pelo psicólogo palestiniano (e a ser verdade), vai em boa medida para a mentalidade e modus operandi dos palestinianos adultos?
AINDA SOBRE A IMAGEM DE SADDAM
É curioso verificar como tanta gente se sente incomodada ou arrepiada na zona da espinal-medula com a imagem de um Saddam de barba e cabelo compridos, no decorrer de um exame médico, não deixando de o referir publicamente. Seria caso para investigar se, no passado, perante as imagens absolutamente obscenas de Saddam a colocar a mãozinha na cabeça de criancinhas que o saudavam (crianças iguais às que ele gaseou ou enterrou em valas comuns), terão sentido algum tipo de desconforto. Ou, então, se se terão arrepiado ao ver um Saddam arrogantemente orgulhoso, de espingarda na mão disparando tiros para o ar junto a civis (crianças incluídas).

segunda-feira, dezembro 15, 2003

TADINHO
ou Uma Pérola de Relativismo Moral
Celso Martins escreve, no Barnabé:

"Podemos detestar Mussoulini, Ceasescu ou Saddam, mas a desproporção entre o poder sobre-humano que detinham e o seu desfecho cria sempre um arrepio na espinha. Isto é bastante coerente com a atitude do responsável americano e o modo como anunciou - «we got him» - como quem diz que acabou de neutralizar um touro num rodeo. Ele está de joelhos e nós saímos vitoriosos. Esta retórica é brilhante mas não é a de um libertador, é a de um césar."

Celso Martins esquece várias coisas:

1.ª) Não foi um touro que foi apanhado. Foi um sanguinário de um filho-da-pu** de um ditador, responsável pela morte de milhares de civis ao longo de décadas. Por isso, respeitinho pelo touro, se faz favor;
2.ª) Pelo que nos foi dado a ver, ninguém tratou mal Saddam. Ninguém o pontapeou ou esmurrou. Ninguém lhe pintou a cara de amarelo. Não foi linchado. Foi tratado respeitosamente, como qualquer prisioneiro de guerra deve ser tratado por uma coligação que prima pelo respeito das regras de conduta em sede de conflito armado. O que é que Celso Martins esperava? Que o médico se ajoelhasse e lhe pedisse, encarecidamente, "V. Exa. fará o obséquio de abrir a cavidade limitada anteriormente pelos lábios e que serve de entrada ao tubo digestivo?"
3.ª) Saddam andou em parte incerta durante oito meses. Fugiu, escondeu-se. Encetou-se um jogo de gato e rato. Foi, agora, finalmente apanhado, numa toca própria de rato. Onde está o arrepio na espinha e o Sr. César? Eu sei onde está o arrepio: na mente dos iraquianos que foram torturados e que perderam os seus familiares às mãos de Saddam. Aposto que esses, mesmo sabendo da sua captura, ainda sentiram um arrepio na espinha ao saberem que ele está vivo.

Conclusão: pelo que se viu, ninguém desrespeitou Saddam. O próprio Saddam mostrou-se "cooperante" com quem o deteve. Por isso, cut the crap.
AO LUCIANO AMARAL
Pela minha parte, obrigado.
ENCHER A BARRIGA
A prisão de Saddam trouxe um efeito lúdico: as reacções de certa gente ligada à esquerda. Advertência: houve gente à esquerda que assumiu, genuína e descomplexadamente, o seu júbilo perante a captura de Saddam (seja esta, ou não, meramente simbólica nesta altura do campeonato). Mas a coisa tem sido penosa. Se, por um lado, tenho assistido aos hilariantes e tristes comentários de certos plumitivos esquerdistas que não escondem a sua revolta pela captura do ógre de Bagdad - aproveitando para arranjar novos argumentos para bater no grande Satã (protótipo: Fernando Rosas) - tenho, por outro lado, enchido a barriga com a impressionante quantidade de sorrisos amarelos, artigos forçados e 'posts' hipócritas que surgem do lado de certas pessoas ligadas à esquerda. O meu conselho: descontraiam-se. E, por favor: parem de enfiar a carapuça.

domingo, dezembro 14, 2003

É VERDADE


Legenda: É o avô da Heidi? É o Pai Natal? É o Karl Marx? Não: é o Saddam Hussein.

PÚBLICO:
"Administrador civil americano no Iraque confirma captura de Saddam Hussein"
"Paul Bremer: senhoras e senhores apanhámo-lo"


PORTUGAL DIÁRIO:
«O tirano é um prisioneiro»
Operação «Amanhecer Vermelho» foi desencadeada no sábado.


DAILY TELEGRAPH:
Saddam 'co-operative' after arrest in Iraq
The dramatic capture of Saddam Hussein in "Operation Red Dawn" has been confirmed by Paul Bremer, head of the coalition provisional authority in Iraq.


JERUSALEM POST:
BREMER: WE GOT HIM!
"Saddam Hussein was taken without resistance," said US commander in Iraq General Sanchez.


THE NEW YORK TIMES
"U.S. military officials confirmed today that Saddam Hussein was captured alive in a raid on a farm house near Tikrit on Saturday night.

EL PAIS
El ex presidente iraquí fue detenido anoche en un sótano de su ciudad natal "sin poner resistencia"

O GLOBO
Saddam foi preso no Iraque
Ex-ditador iraquiano foi capturado em Tikrit, sua cidade natal (10h13m)

sexta-feira, dezembro 12, 2003

BRODSKY, JOSEPH
"Sempre perfilhei a ideia de que Deus é tempo - Deus, ou pelo menos o Seu espírito. Talvez a ideia seja até da minha lavra, já não me lembro. De qualquer maneira, sempre pensei que se o Espírito de Deus se moveu sobre a face das águas, as águas tiveram por força que o reflectir. Daí a minha predilecção pela água, pelos seus sulcos, rugas e ondulações, e - sendo eu um homem do Norte - pelo seu cinzento. Acho, muito simplesmente, que a água é a imagem do tempo, e sempre que chega o Ano Novo esforço-me, de forma um tanto ou quanto pagã, por estar perto da água, de preferência um mar ou um oceano, para assistir à emergência de uma nova dose, de uma nova chávena rasa de tempo. Não procura uma donzela nua a navegar numa concha; procuro uma nuvem ou uma crista de vaga que se quebre na praia à meia-noite. Isso, para mim, é o tempo a sair da água, e deixo-me ficar a olhar para o desenho rendilhado que fica na praia, não com a presciência das ciganas, mas com ternura e gratidão."
in Marca de Água

THE BOOK OF LOVE
por Stephin Merritt

The book of love is long and boring
No one can lift the damn thing
It's full of charts and facts and figures
and instructions for dancing
but I
I love it when you read to me
and you
you can read me anything
The book of love has music in it
In fact that's where music comes from
Some of it is just transcendental
Some of it is just really dumb
but I
I love when you sing to me
and you
you can thing me anything
The book of love is long and boring
and written very long ago
It's full of flowers
and heart-shaped boxes
and things we are all to young to know
but I
I love it when you give me things
and you
you ought to give me wedding rings
I
I love it when you give me things
and you
you ought to give me wedding rings

DO AVIZ
Retiro do Aviz esta notável história:

"Aconteceu num debate na universidade de Bir Zeit, na Cisjordânia, entre activistas do Hamas e da Fatah. Pergunta o representante do Hamas: «Hamas activists in this university killed 135 Zionists. How many did Fatah activists from Bir Zeit kill?». Como a notícia vem na Associated Press, não duvido."

Sem mais comentários.
O POVO É QUE TEM RAZÃO
Pacheco Pereira comenta essa recorrente afirmação de “o governo tem que explicar melhor as suas políticas”:

”sempre me pareceu um falso problema. O governo tem é que governar melhor, não “explicar melhor”. As boas políticas explicam-se a si próprias e as políticas impopulares têm sucesso quando os seus autores têm credibilidade. As pessoas torcem o nariz, protestam, mas, ou acreditam nos governantes ou não. Não há marketing que, a prazo, transforme uma má política numa boa, nem “explicação” que substitua a confiança.”

Concordo com Pacheco Pereira. Sempre me pareceu ridícula essa imagem do governo se fazer representar na televisão, fazendo desta a tele-escola e do seu porta-voz o mestre-escola que, pacientemente, explica aos desgraçadinhos porque é que o governo fez isto e disse aquilo. Mas é uma ideia recorrente, por exemplo, em Marcelo Rebelo de Sousa - ele que é um comunicador nato. No fundo, o que Pacheco Pereira escreve pode ser encontrado no espírito do ditado popular “faça um homem boa letra, há-de haver quem a leia.” Do lado de lá, ou seja, do lado de quem foi colocado nas CCR’s, Câmaras Municipais, no Governo do país ou na Assembleia da República, o verdadeiro instrumento de divulgação e de propaganda das boas ou más políticas será o que advém das repercussões reais e palpáveis da capacidade de trabalho e da competência de toda essa gente. O resto é cosmética. Ou, em português PRECiano, “é só fumaça”. Eu prefiro mil vezes um governo low profile que faça sem que se saiba, do que um governo que anuncie que fez quando, na realidade, ainda o está a fazer ou não foi bem «assim» que o fez. Desconfio sempre de muita justificação.
SUBLIME
Interprete: Maria Rita. Álbum: Maria Rita. Canção: Encontros e Despedidas. Autor: Milton Nascimento.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
‘Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega p’ra ficar
Tem gente que vai p’ra nunca mais
Tem gente que fica e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São os dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

quinta-feira, dezembro 11, 2003

ENTRETANTO...
Rui Tavares acha que, quando eu escrevi o post Here we go again (09.12), onde defendia a posição de Maria Filomena Mónica (MFM) na avaliação do ensino superior em Portugal, estava pouco humorado ou até mesmo zangado. Não estava. E, para mim, não caiu o "Carmo e a Trindade".

Acrescento quatro breves pontos: 1) a tese de que antes do advento dos "filhos de Rousseau" (expressão-título de um livro de MFM) a «coisa» já estava muito mal ou pior, não colhe. Basta hoje avaliar o nível educacional dos meninos e meninas que acabam de entrar na universidade, para verificar como a «coisa» (a impreparação de professores e alunos) piorou vertiginosamente nos últimos quinze anos. Tenho amigos professores universitários que confirmam, na íntegra, o diagnóstico (a não ser que o mal esteja apenas localizado em Évora); 2) o advento dos filhos de Rousseau é muito posterior a 1974, e os efeitos das suas políticas começaram a fazer-se sentir durante a década de 90; 3) Os "filhos de Rousseau" não têm cor política. Foram, e são, gente do centrão. Arquétipos? Roberto Carneiro e Santos Silva. Quanto muito, a culpa terá de ser repartida no campo ideológico; 4) Não penso que todo o mal possa ser imputável aos "filhos de Rousseau" (seria bom ler o livro calma e cuidadosamente). Nem que se resolva removendo esse temível grupelho dos gabinetes e corredores dos ministérios e dos institutos (e é óbvio que não frequentam todos a mesma paragem de autocarro). O que falta é uma voz de comando, uma orientação política que não os alimente, responsabilidade e bom senso.
RECTIFICAÇÃO
André Belo escreveu-me:

"como sei que é amante da verdade, vinha lembrá-lo que chamei Maria Filomena Mónica de "reaccionária", sim, mas do ponto de vista cultural. Sublinhei, num comentário posterior que você não citou no seu post, que em outros aspectos a autora não me parece reaccionária, expliquei que não um era insulto, etc. Portanto, por amor à verdade, agradecia-lhe que introduzisse este rectificativo, nuance pequena mas importante, no seu blogue. Citar com rigor é importante. Quanto ao mais, mantenho: reaccionarismo cultural, sim."

Caro André Belo: confesso que não vi o comentário no post anterior. Fica feita a rectificação: para André Belo, Maria Filomena Mónica é, tão só, reaccionária do ponto de vista cultural (já agora: não concordo).
SINTONIZADOS
O Ricardo Gross escreveu sobre a June Tabor e eu recordo o que escrevi há uns meses, a propósito do albúm Angel Tiger:

"Há na voz solene, tocante e experiente de June Tabor uma religiosidade que nos parece convocar para uma viagem pela memória do mundo e das suas gentes. Oiça-se o majestoso Angel Tiger. Todo o ambiente nos remete para o inicio da aventura da vida, repleta de perigos, desespero, dor, saudade, mas também de esperança e conforto. Palavras fortes, imensas, que dançam com o piano de Huw Warren, o clarinete de Mark Lockheart, o violoncelo e o acordeão de Mark Emerson. Angel Tiger é, sob qualquer prisma, uma obra-prima absoluta. Um clássico intocável, que perdurará no tempo, para sempre. Nada está deslocado. Nada está a mais ou a menos. Sempre que o oiço, fico a pensar na imagem de cinco músicos, uma cantora e um magnifico produtor, afastados uma vida inteira e que, um dia, se reuniram para celebrar a dança dos sentidos como nunca antes o haviam feito. Chegaram, escolheram o que importava escolher - clássicos de Elvis Costello, Richard Thompson, Ronald Jamieson, Eric Taylor e melodias tradicionais – e fizeram o que tinha de ser feito. Bendita a hora em que isso aconteceu. Bendita a hora em que a magia da música ficou registada. Este é o disco de todos os reencontros com a nossa espiritualidade."
CORREIO DOS LEITORES
A propósito do meu post sobre a interrupção voluntária da gravidez (vulgo “aborto”), recebi a seguinte missiva de Roberto Merrill:

Juste une remarque pour exprimer ma confusion de voir sur un site qui semble inspiré de la philosophie politique de Berlin, défendre une position, en ce qui concerne le droit à l'avortement, si contraire à la priorité à la liberté négative qu'accorde Berlin sur les autres valeurs.
Bien cordialement,
Roberto


Traduzindo: “Apenas uma nota para exprimir a minha confusão ao ver num site que parece inspirado na filosofia política de Berlin, a defesa de uma posição, no que diz respeito ao direito ao aborto, tão contrária à prioridade da liberdade negativa que Berlim reconhece sobre os outros valores.”

Agradecendo ao Roberto a sua missiva, começo por dizer que reparo, desde logo, em dois pequenos equivocos quanto à interpretação da filosofia política de Sir Isaiah Berlin. O primeiro diz respeito à suposta «prioridade» que Berlin terá concedido à "liberdade negativa". Para Berlin, o problema nunca foi visto como uma questão de «prioridades». Berlin escreveu, mais do que uma vez, que os conceitos de "liberdade negativa" e "liberdade positiva" são complementares e têm de coexistir. Berlin acreditava noutra coisa: que, em nome da perspectiva «positiva» da liberdade, o homem percorreu caminhos que o levaram no sentido contrário ao da Liberdade, ou seja, por caminhos propensos à catástrofe e à barbárie. O segundo, relaciona-se com o facto de os conceitos de “liberdade negativa” e “liberdade positiva” terem sido explicados e desenvolvidos por Berlin num contexto político. Mas, nada melhor do que dar à palavra ao mestre:

“By negativ liberty I meant the absence of obstacles which block human action. Quite apart from obstacles created by the external world, or by the biological, physiological, psychological laws which govern human beings, there is lack of political freedom – the central topic of my lecture – where the obstacles are man-made, whether deliberately or unintentionally. The extent of negative liberty depends on the degree to which I am free to go down this or that path without being prevented from doing so by man-made institutions or disciplines, or by the activities of specific human beings.
It is not enough to say that negative freedom simply means freedom to do what I like, for in that case I can liberate myself from obstacles to the fulfilment of desire simply by following the ancient Stoics and killing desire. But that path, the gradual elimination of the desires to which obstacles can occur, leads in the end to humans being gradually deprived of their natural, living activities: in other words, the most perfectly free human beings will be those who are dead, since then there is no desire and therefore no obstacles. What I had in mind, rather, was simply the number of paths down which a man can walk, whether or not he chooses to do so.” in My Intellectual Path (The Power of Ideas, Pimlico 2001)

A advertência do Roberto ao meu post podia, assim, servir para tudo. Roberto parece sugerir que, sendo o aborto uma decisão de ordem pessoal e privada, a decisão de o levar a cabo seria uma decisão que se encaixaria no conceito de liberdade negativa de Berlin, na medida em que a mesma teria lugar no espaço pessoal e intransmissível da liberdade individual, ou seja, estaria a ser exercido um direito de escolha a que mais ninguém diria respeito, e, com ele, estariam a ser ultrapassados eventuais «obstáculos» (de ordem financeira, social, etc.). Sendo assim, o que impede um ser humano de perpetrar o assassinato do seu vizinho, que o importuna há anos? O que impede um ser humano de cometer um desfalque no banco onde trabalha se, com esse dinheiro, ele poderá ultrapassar as dificuldades financeiras que o atormentam? O que impede um ser humano de fazer explodir a fábrica que anda a fazer descargas de poluentes para o rio? O que impede um ser humano de matar os cães das redondezas, se, com isso, ele poderá finalmente dormir descansado?
O problema é que o conceito Berliniano de "liberdade negativa" pode ser facilmente subvertido se acontecerem uma de duas coisas (ou, pior ainda, as duas coisas ao mesmo tempo): 1.ª) alargar simplisticamente o conceito de liberdade negativa a outros campos; e 2.ª) não levar em consideração questões éticas e/ou de ordem moral que podem e devem balizar o próprio conceito. No caso do aborto, e no meu entender, está colocada em cima da mesa uma questão de ordem ética e moral, uma vez que o acto incide sobre o princípio de uma vida humana. Esse «pequeníssimo» pormenor faz toda a diferença. Pelo menos para mim. Admito que haja quem não vislumbre na questão do aborto um problema ético e moral. Para esses, os conceitos são facilmente transpostos de campo para campo e podem ter aplicação automática. Recuso-me a ir por aí. De resto, a questão do aborto não é para mim, uma questão definitiva. Sou sensível a alguns argumentos pró, embora sinta que sou menos favorável à legalização dessa prática.
Conclusão: não se podem aplicar fria, simplística e «descontextualizadamente» conceitos filosóficos a questões reais e objectivas.

Referências: Four Essays on Liberty, The Power of Ideias
UM DISCO
O caríssimo Ricardo Gross (autor do excelente Babugem) recomenda Shapes & Colors de Deyampert Giles. Se ele recomenda, é porque é bom.

IKEA@PT
A IKEA chega a Portugal em Março. Na Amadora.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

OFERTA DO SR. BJÖRN CHRISTENSSON
Ora tomem lá:

Politics de Aristóteles
Leviathan de Thomas Hobbes
On Liberty de John Stuart Mill
Reflections on the Revolution in France de Edmund Burke
CASE CLOSED
Um blogue a reter: Caso Arrumado.

terça-feira, dezembro 09, 2003

SOLITUDE



O! who can hold a fire in his hand
By thinking on the frosty Caucasus?
Or cloy the hungry edge of appetite,
By bare imagination of a fest?
Or wallow naked in December snow
By thinking on fantastic summer's heat?
O, no! the apprehension of the good
Gives but the greater feeling to the worse.

William Shakespeare in Richard II (1595), act I, sc. 3, l. 294
DE CARA LAVADA
O Aviz mudou. Mas, felizmente, ficou na mesma.
OS JOTAS
O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.
Nelson Rodrigues

Constança Cunha e Sá – tal como o vinho do Porto, está cada vez melhor – disserta esta semana no Independente sobre os ‘jotas’ e, em particular, a Juventude Centrista. Subscrevo na íntegra o que por ela foi escrito sobre o agregado.
O que é um ‘Jota’? Jota, s. m. f. jovem politico-entusiasta militante de partido a quem parte do cérebro foi formatada.
Fardas. À direita: sapatos com berloques, muito trapo Hilfiger e Sacoor, fatinho cinzento com gravata em tons de azul, monogramas a dar com um pau. À esquerda: sacola tiracolo enviesada (versão actualizada das pochetes de cabedal dos linces de Malcata dos anos 70), t-shirt Che nos dias mais festivos, camisa com uma cor que não conjuga com casaco manhoso de cor manhosa, camisa sem colarinho (à Judas) ou, então, camisa preta + calça preta + casaco preto.
De cada vez que oiço um ‘jota’ manifestar os seus conhecimentos de ciência política aplicados à realidade, apetece-me esfregar-lhe com um livro do Nelson Rodrigues nas fuças. Não me entendam mal: eu tenho a maior das esperanças no futuro da juventude e dos jovens. Por uma razão: sei que, com o tempo, eles chegarão a adultos.
O que me irrita – “irrita” talvez não seja o melhor termo - é presenciar a forma militante e absolutamente ignorante como os ‘jotas’ se referem a conceitos lidos à pressa em introduções escritas à pressa sobre ciência ou filosofia política. Para ser mais rigoroso, na maior parte dos casos nem sequer chegam a tanto. O típico 'jota', direitista ou esquerdista, baseia a sua cosmovisão do mundo em frases, estereótipos e preconceitos que «apanhou» no ar em discussões com os seus pares, por influência familiar ou de acordo com as instruções dos seus gurus de partido. Embora o tique seja mais notado nos 'jotas' esquerdistas, os 'jotas' usam e abusam dos slogans (no caso dos jotas esquerdistas, é vê-los encher a boca de termos como “modelos fascizantes”, “neo-liberalismo global”, “dominação capitalista”, “politicas imperialistas”, “politica reaccionária e populista”, etc. etc.). Contudo, como em tudo na vida, existem diferenças à direita e à esquerda. Regra geral, o jota de direita transpira mais ingenuidade. Consciente ou inconscientemente, tem a percepção da sua ignorância e vacuidade, embora isso não o impeça de também botar discurso «doutrinante» (teste de despistagem: peçam ao ‘jota’ de direita para explicar o que é isso do "conservadorismo"). O 'jota' de esquerda não. O gesto, o grito e o punho cerrado estão com ele. Não vale a pena dissuadi-lo do que quer que seja. Houve um tempo em que o silêncio estava com os idiotas. Hoje não. Os melhores emudecem e o espectáculo é levado à cena pelos ineptos.
Para além de se levar muito a sério, o 'jota' é incapaz, por um minuto que seja, de parar para pensar. O fervor é a palavra de ordem. O meu conselho? Trabalhem mais, estudem mais, doutrinem menos.
LOUÇÃ
Acabei de ouvir Francisco Louça na rádio, a propósito da sua visita ao Hospital de Santa Maria. O constante resvalar para a demagogia e o populismo chic da esquerda «bé» está-lhe na massa do sangue. Pensado bem, ele é o mentor do grupo. Ouvindo a sua douta capacidade para opinar sobre tudo e todos, pus-me a pensar (coisa que, de vez em quando faço): como seria útil e interessante se pudéssemos forjar um Portugal paralelo, decalque exacto do real, como cenário ideal para uma espécie de jogo virtual e inócuo. Poderíamos chamar-lhe “O Jogo da Verdade”. Um jogo onde coubessem todas as variáveis e restrições do mundo real (por exemplo a escassez de meios, as restrições orçamentais, a pesada estrutura da função pública, o laxismo endémico, os sindicatos, as associações patronais, etc. etc). Um jogo devidamente configurado e calibrado para albergar a presunção do Dr. Louçã. De seguida, mandaríamos para lá o Secretário-geral (?) do Bloco de Esquerda, na qualidade de gestor, decisor e chefe. No final, teríamos a faculdade de avaliar, através do score board, as fantásticas repercussões sociais, económicas, espirituais e organizacionais das decisões emanadas das pias e redondas certezas do Dr. Louçã sobre o mundo, o país, o Estado, as instituições e o sector privado.
Talvez depois o Dr. Louçã refreasse um pouco a sua veia lírica e se tornasse num rapaz razoável.
BURKE & PATEK
O mais burkiano dos anúncios de imprensa contínua a ser, de há vários anos a esta parte, o lindíssimo anúncio da Patek Philippe. A acompanhar a fotografia de um pai e um filho, lê-se: “Nunca somos verdadeiramente donos de um Patek Philippe. Apenas cuidamos dele para a geração seguinte”.



A evocação de Burke: “Society is indeed a contract. It becomes a partnership not only between those who are living, but between those who are living, those who are dead, and those who are to be born”
in Reflections on the Revolution in France (1790)

OK. Agora digam lá que, por citar Burke, sou da «nova» direita. Ou da «velha» direita. Ou «reaccionário». Ou… I don’t give a damn!
HERE WE GO AGAIN
No Barnabé «bate-se» em Maria Filomena Mónica. Confirmam a sua qualidade de “elitista” e “estrangeirada”. E acrescentam-lhe o epíteto de “reaccionária” (ver o comentário de André Belo).
Maria Filomena Mónica (MFM) pode ser reaccionária, elitista, sulista, trapezista ou budista, mas não pode ser acusada de faltar à verdade. Só um cego, distraído ou engajado pode criticar MFM pelo que escreveu (ver post anterior). E o que MFM escreveu é um retrato meticulosamente fidedigno do estado actual do ensino superior em Portugal.
Pode custar às classes (a dos “professores universitários” e a dos “alunos universitários”) serem apontadas a dedo. Ninguém gosta de o ser. Podem sempre queixar-se das generalizações. Mas estas generalizações existem por alguma razão. Bem podemos dizer que a culpa da actual situação pode ser repartida por todos: alunos, professores, orientadores, reitores, governo, empregadas de limpeza, o Tio Patinhas e o Winnie The Pooh. Mas, “há que dizê-lo com toda a frontalidade”, cabe aos professores uma boa fatia. O que não será de admirar: a maior parte deles são já o produto da ineficiência e mediocridade do ensino em Portugal. A esmagadora maioria dos actuais docentes universitários são os filhos dos filhos de Rousseau. São os filhos das reformas curriculares que pioraram ainda mais a situação. São os filhos do laxismo e da incompetência do ensino público em Portugal. São os filhos do jargão do eduquês e das políticas de educação progressistas e politicamente correctas (a fazerem justiça à famosa frase do grande Groucho: a política é a de arte de procurar os problemas, de os diagnosticar de forma errada e de lhes aplicar os remédios errados). Reconhecer isto não é crucificar alguém ou culminar uma caça às bruxas. É tão só reconhecer e explicar o que vai mal.
Doa quem doer, e eu peço desculpas aos professores universitários que não merecem que se diga isto, a verdade é esta: muitos professores universitários não prestam. Não sei se são a maioria, mas sei que são muitos. São tecnicamente inaptos e pedagogicamente fracos (e o “pedagogicamente” vai no sentido lato do termo). Não sabem dar aulas, transmitem mal os seus conhecimentos, não impõem a disciplina e o método de trabalho. Talvez por isso, não sabem exigir e marcar uma agenda que rompa com o laxismo e as meias-tintas. Porque a regra sempre foi e será esta: os bons professores são aqueles que exigem porque têm razão para exigir. São aqueles que são elitistas porque apostam na excelência. São aqueles que nos dão luta e nos fazem sentir pequeninos. São aqueles que nos ficam na memória. E são, também, dramaticamente poucos (eu, do meu tempo de universitário, conto quatro). Em boa verdade, o retrato de Vasco Pulido Valente, há 25 anos atrás, continua a aplicar-se: “Os professores dividem-se em duas categorias fundamentais: os que deviam ser com urgência promovidos a alunos e os aceitáveis como professores. Os primeiros dividem-se ainda em duas espécies: os que confessam e os que disfarçam. Os que confessam costumam propor aos alunos «estudarem juntos» ou «vencerem juntos as dificuldades», mas raramente receberem juntos o ordenado. Os que disfarçam em vez de «darem» uma «cadeira», «dão» um livro e, nos apertos, armam uma confusão verbal para cobrir a retirada.”. Eu acrescentaria um ponto, comum às duas sub-classes: o facto de eles próprios reconhecerem as suas fragilidades ao sentirem-se «tristes» com as suas carreiras e ao deixarem-se soterrar por uma mar de questões e problemas acessórios, normalmente relacionadas com a carreira, o «estatuto» do professor universitário, a gestão do economato, a fiabilidade da ligação à Internet, as rifas para a quermesse de Natal e a guerra no Iraque. Contactos com o exterior (o país real e o estrangeiro) são escassos e medrosos. Têm o mérito de permitir sustentar as estatísticas que apontam para o crescimento do índice de licenciados e para o relativo e crescente nível de sucesso escolar. No entanto, convém perceber o porquê deste aparente cenário rosáceo: se não fosse o facilitismo que imprimem no ensino e na avaliação dos seus alunos, se não fosse a mediocridade uma questão de quase militância, Portugal não teria licenciados. Ou seja, no fundo o problema vem de trás. Eles limitam-se a cumprir a «tradição». Percebe-se, então, que o problema é um problema-tipo «ciclo vicioso». A mediocridade alimenta-se da mediocridade. Daí que todos se queixem de todos. Os alunos, coitados, queixam-se da falta de «condições» (ai se eles estudassem há quinze ou vinte anos atrás…) e do governo que lhes quer sugar o dinheirinho para a farra; os professores queixam-se dos alunos e do governo; o governo queixa-se dos professores e dos alunos; os reitores do ministro e dos alunos; e eu queixo-me do treinador do Sporting Clube de Portugal. Se Portugal morresse hoje, ao dia 9 de Dezembro de 2003, eis um lindo epitáfio: “Aqui jaz um país de queixosos e de culpados onde ninguém fazia puto”.
Há quem se sinta bem com o fatalismo deste carrossel. Maria Filomena Mónica não. No fundo, o que ela tenta dizer é aquilo que se diz aqui na minha terrinha: tem de se começar por algum lado. Ou, lembrando Alqueva: “Construam-me porra!”. Resta saber para quê…
O ARTIGO DA DISCÓRDIA
O Ensino Superior: Privilégios, Propinas e Prescrições
Por MARIA FILOMENA MÓNICA
in Público, Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2003
“Ensino na Universidade há trinta anos. Ao longo deste período, tive contactos com alunos de feitios, origens sociais e competências diversas. Leccionei cursos de Sociologia, História e Literatura. Integrei o corpo docente de licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Fiz parte de orgãos variados, da Presidência do Conselho Directivo do Instituto de Ciências Sociais a membro do Senado da Universidade de Lisboa. Julgo conhecer bem a Universidade portuguesa, pelo menos no que respeita as chamadas Humanidades. Sobre as Ciências Exactas, mantenho uma réstea de esperança.
O que não sucede na minha área. A ponto de este ano ter tomado a decisão de jamais voltar a ensinar. Sei que há colegas que pensam que sou elitista, "estrangeirada" e perfeccionista. Não aceito a classificação. Pela sua natureza, a Universidade é uma instituição que deve ser frequentada pela aristocracia intelectual, que tem como vocação a universalidade e que deve adoptar como critério a exigência. Não é isso que se passa em Portugal. Devido à irresponsabilidade dos governos, ao populismo dos parlamentares e à covardia dos docentes, a Universidade degradou-se para além do que é razoável.
No momento em que, na segunda metade da década de 1980, se aprovou, no Senado da Universidade de Lisboa, o Regulamento sobre o funcionamento das Faculdades, o qual garantia a presença de representantes do corpo estudantil no Conselho Directivo (seguindo ideias expressas na "Lei da Autonomia Universitária"), fui das pessoas - penso até que o fiz sózinha - a votar contra a proposta, tendo entregue na mesa, presidida pelo reitor Prof. Doutor Meira Soares, um voto, de vencida, no qual explicava os motivos que me levaram a agir daquela forma. Se, para mim, eram claras as razões por detrás das opções dos representantes estudantis, era-me incompreensível que colegas, muitos deles, como os catedráticos da Faculdade de Direito, situados politicamente à minha direita, se comportassem da forma como se comportaram. Já má, a situação piorou.
É possível que aquele gesto me tenha tornado impopular, mas nunca pensei que a minha missão na vida consistisse em ser amada pelos alunos. Cumpria-me tão só iniciá-los no mundo do saber. Eu tinha de preparar as lições, não faltar às aulas e despertar o interesse pela matéria leccionada; eles, de estudar, reflectir e pensar. Julgo que cumpri a minha parte do contrato; e, se os estudantes o não fizeram foi, em grande parte, porque o ethos das escolas a isso os não convidava. É difícil, a quem está de fora, imaginar até que ponto o "laxismo" penetrou as instituições do ensino superior. Hoje, pedir a um aluno para ler uma obra de ponta a ponta é quase impensável.
Sei que alguns dos meus alunos, especialmente os dos mestrados, eram estudantes-trabalhadores, tendo menos tempo do que os colegas para ler a bibliografia que lhes dava. Mas eu não podia ter em consideração esse facto, a não ser que estivesse disposta, o que não estava, a baixar a qualidade do curso. A minha severidade pode estar ligada, não o nego, a um factor pessoal. Excepto durante o primeiro ano, e numa época em que nenhuma protecção havia para este tipo de estudantes, fui estudante-trabalhadora, jamais me tendo passado pela cabeça que os professores me devessem amparar psicologicamente, como agora vem reinvindicar Miguel Teixeira, Presidente da Associação Académica de Lisboa. Limitava-me a aproveitar os tempos livres - as noites são compridas - para estudar o que devia.
Sempre defendi a introdução das propinas, embora perante o tipo de ensino que actualmente é oferecido aos alunos esteja quase a mudar de campo. Só se deve pagar o que tem valor e o ensino superior nacional não vale um caracol. Os principais responsáveis pela situação a que se chegou, é preciso declará-lo, são os professores. Muitos não preparam as aulas, exigem poucos dos alunos e faltam quando lhes apetece. O mais extraordinário é que, apesar das tentativas para facilitar a vida dos estudantes, ainda há quem chumbe. E não são poucos. Para acabar uma licenciatura de quatro anos, a média, no caso dos rapazes é de oito, no das raparigas, de seis anos. E há pior: metade dos estudantes uniersitários saiem do sistema sem qualquer tipo de diploma. Os custos, orçamentais, institucionais e pessoais, são monstruosos. Eis a razão pela qual as prescrições são absolutamente necessárias.
Perante a gravidade da situação, o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, Adriano Pimpão, não encontrou nada melhor do que declarar ao "Diário de Notícias", de 15 de Novembro, que, "ao contrário de muita gente, não acho que o problema seja motivado pela falta de preparação que os estudantes trazem do ensino secundário, mas sim pela pedagogia utilizada no ensino superior", pelo que advogava o abandono "do excesso de aulas presenciais" e uma maior concessão de "autonomia" aos estudantes. Pelo caminho que as coisas estão a tomar, o Ministério da Ciência e do Ensino Superior poderá despedir todos os docentes - coisa que evidentemente contribuiria para diminuir o déficit - e entregar o dinheiro aos meninos e às meninas que, entre si, descobrirão uma maneira aprazível de se ensinarem uns aos outros.
No meio da polémica sobre as proprinas, ouviu-se, sottovoce, uma voz oficial declarando que a diferenciação dos montantes estava relacionada com a diferença na qualidade das instituições. O problema reside em saber como separar o trigo do joio. Em Portugal, optou-se pela via burocrática. Apareceram por aí umas comissões, compostas de peritos, "avaliando" as escolas e os centros de investigação, através de meios supostamente objectivos - grelhas confeccionadas à base do número de artigos publicados, do leque dos cursos e da variedade dos curricula - mas, numa sociedade pequena, provinciana e corrupta, como o é a portuguesa, o mecanismo caiu nas mãos de "lobbies" rivais, o que torna difícil a legitimação da nota.
O ideal para resolver este problema seria a diversificação do ensino superior. Contudo, herdeira da "reformada" instituição pombalina, a Universidade continua a defender que pagar salários diferentes a diferentes professores é impossível. Em Portugal, um docente universitário é um funcionário público: tem uma carreira com graus, recebe um salário independentemente do que faz e, no final, para o consolar, o Estado dá-lhe uns tostões para o subsídio de almoço. Isto não se passa em todos os países. Nas universidade americanas, por exemplo, há docentes que, sem que isso cause escândalo, recebem um salário mais elevado do que o auferido por colegas investigando no gabinete do lado. É evidente que não podemos enxertar no nosso sistema o clima concorrencial vigente além-Atlântico. Mas podemos e devemos meditar sobre a forma de ultrapassar um ensino atolado na uniformidade burocrática, na mediocriade intelectual e no desperdício de recursos.”

segunda-feira, dezembro 08, 2003

O MOMENTO TELEVISIVO MAIS HILARIANTE DO ANO
Ontem, durante os comentários do Prof. Marcelo na TVI, aconteceu-lhe a ele o que nos acontece a nós, comuns mortais, de vez em quando: o riso pateta, insidiosamente indomável, de causa imperceptível. Um riso de estirpe traiçoeira, que se apodera de nós e se alimenta de si próprio. Um riso que contagia quem a ele assiste. Ver o Prof. Marcelo a sofrer os efeitos de tal achaque em directo para o país, foi das coisas mais hilariantes que vi, este ano, em televisão. Durante cerca de cinco minutos Marcelo Rebelo de Sousa lutou contra esse riso. Uma luta inglória, dificultada pelo facto de toda a gente dentro daquele estúdio se encontrar a chorar de tanto rir. Os lábios de Marcelo mexiam mas nada diziam. Marcelo tentava prosseguir com o seu comentário, mas só pareciam sair frases feitas, clichés formatados por um riso insubmisso. Foram momentos de uma luta inglória entre um “riso” diabólico em muito boa forma e uma “seriedade” já por ele contagiada. O que disse Marcelo durante esses momentos? Não sei. Marcelo parecia um boneco, no qual uma boca mexia e nada dizia. A própria tentativa de Marcelo para lutar contra o riso era, em sim mesma, hilariante. De repente, o “professor” implacável, o arguto e corrosivo comentador político, tinha sido derrotado por um riso matreiro, que lhe fez baixar a guarda.
Fica, contudo, uma metáfora. O facto daquele riso ter surgido no preciso momento em que Marcelo começava a comentar a política portuguesa, mais concretamente, o PS. Há risos que nos dizem muito. E são a sua melhor moldura.

PS: É por estas e por outras que gosto de Marcelo Rebelo de Sousa. Gosto de pessoas «humanas» (passe a redundância), que não se levam demasiado a sério. Só uma pessoa assim não é imune a um ataque de riso.


domingo, dezembro 07, 2003

SOBRE O ABORTO
Li há dias n’ O Comprometido Espectador:

“(...) simpatizo com o sofrimento de muitas mulheres que têm uma gravidez indesejada e tentaria minorar ao máximo esse sofrimento. Mas não simpatizo com o sofrimento de outras mulheres. Esta gravidez pode ser a de uma Tia de Cascais que deu uma facada no casamento e tem (chamemos-lhe assim) o “azar” de ficar grávida. Pode ser a de uma qualquer mulher que foi violada. Pode ser a de uma adolescente a quem numa tarde de Verão aconteceu o que aconteceu. Pode ser a de uma mulher do Bairro da Liberdade que já tem 10 filhos e não quer ter 11. Pode ser a de uma mulher de classe média que não quer ter um filho deficiente. Podem ser mil e uma situações. Com umas há razões para simpatizar e ser sensível, com outras (peço desculpa) mas não há.”

Esta é uma questão complexa, eternamente em aberto. É, seguramente, uma questão que conduz à utilização de argumentos contraditórios por parte de quem é contra ou pró-aborto. É, também, uma questão que envolve posições de princípio, facto que irremediavelmente abre a porta a discussões acaloradas e dramáticas. No meu caso, tenho hoje uma posição diferente da que tinha há cinco ou dez anos atrás. Hoje em dia, sou tendencialmente contra a legalização ou descriminalização tout court da interrupção voluntária da gravidez.
Em Inglaterra são efectuados, por ano, cerca de 170.000 abortos. Dos 170.000 casos, desconheço a percentagem dos que envolvem razões que não consigo respeitar ou, como afirma o Luciano Amaral, perante as quais "não sou sensível". Qual a percentagem de mulheres que abortaram porque não queriam ter o filho de um affair extra-conjugal, mesmo detendo capacidade financeira para o criar? Qual a percentagem de abortos que surgiram porque a mulher não queria «estragar» a linha ou a carreira, continuando a desprezar a utilização dos mais elementares métodos anticoncepcionais? Qual a percentagem de abortos que surgiram da jovem de classe média, ou média alta, que decidiu facilitar a coisa com um “tira a camisinha, depois logo se vê”? E, destes exemplos, qual a percentagem dos que foram perpetrados sobre embriões em avançado estado de desenvolvimento? 10, 20, 60 por cento? Não sei. O que sei é que este número é, para mim, evocativo de uma das grandes razões porque encontro reservas quanto à ideia de despenalizar e/ou legalizar (na prática vão dar ao mesmo) o aborto: a ideia da banalização do aborto enquanto método anticoncepcional tardio, a que se ligaria a questão da progressiva desresponsabilização da sociedade perante um problema (a gravidez indesejada) que deveria ser devidamente atacado a montante e não a posteriori.
Ok: do ponto de vista cientifico e formal, e ao contrário do Luciano, dou de barato que, até determinada altura, o embrião possa não ser considerado qualitativamente um «ser humano». Mas, até nessa questão, como ele também refere, a polémica está montada. Subsistem dúvidas na comunidade cientifica quanto ao momento (2, 3 e ½, 4 e ¾ semanas?) a partir do qual se pode afirmar “Alto!: estamos perante uma vida humana com um sistema nervoso central formado e activo”. Partindo do pressuposto de que se chegaria a um consenso mais ou menos alargado quanto ao point of no return (e, atenção, esse momento é, para mim, moral e eticamente decisivo), o que me parece assustador na ideia de se legalizar o aborto, é, por um lado, o risco de banalização (e digo-o mesmo levando em linha de conta o argumento, que eu considero válido, segundo o qual nenhuma mulher gostará de o praticar) e, por outro, o risco de se estar a fazer uma intervenção (para além dos casos já previstos na actual lei, com os quais concordo) que acabe por ceifar a vida a um ser humano já clinicamente formado.
No actual estado das sociedades – que é, a muitos níveis, o estado da desresponsabilização e da glorificação da imaturidade e do facilitismo – legalizar o aborto podia ser mais um sinal do género “Have Fun, amanhã logo se verá”. É razoável pensar-se que, uma vez legalizado, o aborto possa vir a fazer a vez da «pílula do dia seguinte», à falta desta na altura devida ou dos tradicionais métodos anticoncepcionais antes ou durante a relação sexual. O problema que se coloca é este: enquanto que a «pílula do dia seguinte» - sendo já uma solução de recurso perante um problema que, em muitos casos, parte de quem já «brincou» com um assunto sério - actua sobre um ovo (blastocisto) que só muito forçosamente se pode considerar qualitativamente uma vida humana, o aborto pode chegar numa fase em que o embrião atingiu um estádio tal em que só por insensibilidade se lhe pode negar a classificação de “ser humano de pleno direito”.
Dir-me-ão que não, que as coisas não seriam assim. Criar-se-ia, para o efeito, uma malha legal muito apertada, com critérios bem definidos, sob a qual cada caso seria alvo de cuidada avaliação. Mas quem definiria os critérios? E que tipo de critérios? Por exemplo, se o critério fosse a incapacidade financeira do casal ou da mãe para sustentar mais um rebento, como seriam feitos os cálculos: recorrendo à declaração de IRS? O exemplo pode parecer absurdo e demagógico, mas serve para explicar a impossibilidade de se estabelecerem critérios ou regras particulares. Repito: parece-me pacífica a existência de risco de vulgarização de um acto que não pode ser tomado de ânimo leve – mesmo que me digam que não o é – nem encarado como o derradeiro método contraceptivo.
Por último, as questões paralelas. Por exemplo: fixado o prazo a partir do qual legalmente não mais se poderia interromper a gravidez (por razões de ordem ética), e dando de barato que ele seria consensual, quem iria controlar quem? Com que meios? Com que métodos?
Mas esta é apenas a minha modesta opinião.

sábado, dezembro 06, 2003

HELENA MATOS!!!
Os Herdeiros
in Público, Sábado, 06 de Dezembro de 2003
"Não sei se por causa do distanciamento inerente ao suporte "on line", se pelo anonimato ou ainda pela informalidade coloquial que caracteriza a linguagem de muitos deles, encontramos nos blogues considerandos que os seus autores dificilmente assinariam num página de jornal ou profeririam numa televisão. É este o caso de um texto assinado por Daniel Oliveira no blogue Barnabé a propósito da participação de Odete Santos numa peça de teatro de revista actualmente em cena no Parque Mayer.

A 21 de Novembro, sob o título "A Louca", Daniel Oliveira, escreveu no blogue Barnabé: "Odete Santos agora é actriz de revista. Parece-me indicado. Entre várias personagens, faz de D. Maria I, a Louca. Uma pessoa que conheço foi vê-la, por mero interesse antropológico (ou será psiquiátrico?)." Tal título, a par duma fotografia, retirada da revista "Visão" em que Odete Santos posa vestida de D. Maria I com a legenda "80 anos para isto", não passaram desapercebidas a muitos daqueles que fazem o mundo dos blogues. Vale a pena ler as respostas de Daniel Oliveira a estes comentários, nomeadamente àqueles que Pacheco Pereira fizera no seu blogue, Abrupto. Daniel Oliveira nega ter escrito o que escreveu "por Odete Santos ser feia ou bonita e ainda menos por ser mulher. Não, não se trata de nada da vida privada de Odete Santos. Odete Santos está a posar para o fotógrafo da revista 'Visão', consciente do que faz. E fá-lo para gáudio do seu partido, o partido de que fiz parte durante quase dez anos, onde nasci e onde se mantém grande parte daqueles que me deram formação política. Goste-se ou não da reserva a que se obrigam os dirigentes do PCP, ela fez parte da formação que recebi. '80 anos para isto' quer dizer isto mesmo: 80 anos de PCP, com altos e baixos, erros tremendos e muitos heróis. 80 anos onde o PCP nunca, até há três anos, usou o desequilíbrio de alguém para somar uns votos e dar um ar 'mais arejado'. (...) O título que lhe acrescentei é o que sinto que estão a fazer a uma herança que também é minha."

Afinal o Barnabé é mesmo diferente dos outros: encontram-se outros blogues igualmente machistas e misóginos, mas o seu egocentrismo é inexcedível. Odete Santos não deve fazer teatro de revista para não destruir a herança de Daniel Oliveira, seja ela qual for. As heranças levam os mais comuns dos mortais a praticar destemperos inomináveis, mas exigir-se a alguém um determinado padrão de comportamento para que a herança de outrem não fique em risco é, sem dúvida, um caso inigualável.

E, sobretudo, deixemo-nos de rodeios, não é verdade que o sexo, a idade e o aspecto físico de Odete Santos sejam alheios às afirmações que sobre ela tece Daniel Oliveira. Basta ler outros comentários inscritos nesse blogue para perceber o imaginário que está subjacente ao paradigma de imagens com que as mulheres aí são mimoseadas: "A ministra [Manuela Ferreira Leite] faz-me lembrar o caseiro que esconde a filha donzela a sete chaves para proteger a sua honra, mas não se importa que a filha do patrão seja uma galdéria, porque é uma rapariga moderna."

Sendo mulher, Odete Santos teria nesta cosmogonia dois tipos de comportamento à escolha para não destruir a herança de Daniel Oliveira e dos seus clones: manter-se no estereótipo da camarada, companheira... testemunha muda dos "erros tremendos e muitos heróis" (no masculino, claro!) do partido, ou então adoptar o género "gauche caviar" tão a gosto do Bloco de Esquerda. Tivesse Odete Santos levado a sua vida parlamentar com o cinzentismo de Heloísa Apolónia e jamais seria referida para o bem ou para mal. Não só não dava cabo da herança de ninguém, como teria direito a que, no dia em que lhe dispensassem os serviços, a considerassem uma extraordinária companheira e outros extraordinários quejandos reservados às mulheres que fazem aquilo que os homens esperam que elas façam. Claro que, se Odete Santos fosse mais nova, se se preocupasse mais com o que aparenta ser do que com aquilo que é, sobretudo se, em vez de ter ido para o Parque Mayer, tivesse escolhido um grupo de teatro independente, preferencialmente um daqueles grupos tão independentes que se independentizaram do público, em vez de destruir a herança de Daniel Oliveira, estaria a bruni-la. E aí ninguém se chocaria com a má qualidade do texto da sua personagem. Antes pelo contrário, só tinha de andar dum lado para o outro sacolejadamente, sentar-se inopinadamente numa das duas cadeiras que, por junto, totalizam os adereços nestas peças, gritar dois ou três palavrões, suspirar uma vez e acabar a cena olhando para o infinito da sala vazia. Tivesse Odete Santos as medidas e a idade adequadas e até poderia nem representar. Bastava-lhe desfilar com a roupa dum qualquer criador para beneficiar desse sacrossanto estado de graça das "bonitas a valer/camaradas nada dogmáticas/intelectuais interessantíssimas".

Veja-se, a este título, a polémica ocorrida em França a propósito da escolha da apresentadora de televisão Evelyne Thomas para busto da República. Quais são as suas qualidades republicanas?, perguntavam os mesmos que nunca se interrogaram sobre as qualidades republicanas doutras mulheres escolhidas anteriormente. Quais seriam, por exemplo, as qualidades republicanas duma das escolhidas anteriormente, Inês de La Fressange? Ser filha de aristocratas e dizer que teve uma educação selvagem na propriedade mais que secular da sua família? Quais seriam as qualidades republicanas de Laetitia Casta? Fazer desfiles de moda? E de Brigitte Bardot? E, pese os seus desempenhos cinematográficos, o que tem Catherine Deneuve a ver com a República? Não tendo nenhuma delas nada que republicanamente as distinga - antes pelo contrário, são beneficiárias desse incensado sangue azul que é a beleza -, porque não foi a sua escolha tão polémica quanto a de Evelyne Thomas, certamente a menos bonita de todas, mas a mais popular?

É óbvio que existem herdeiros à esquerda e à direita, e nada é mais chauvinista e reaccionário do que aqueles momentos em que todos os herdeiros se unem em cruzada. Os herdeiros sentiram-se chocados, em França, com o facto de esta mulher, conhecida por apresentar programas televisivos de grande audiência, ter sido escolhida para representar a República.

Em Portugal, os herdeiros da esquerda, supostamente renegaram a herança, mas, à cautela, querem que as vestais-camaradas zelem pela integridade do seu berço. Quando souberam que Odete Santos representava no palco do Parque Mayer, os herdeiros nem a foram ver. Contam o que lhes contaram e fazem contas de somar e subtrair na suposta herança que têm medo que seja delapidada. Como os filhos pródigos nos romances de Eça, os herdeiros sabem que um dia voltam a casa para pedirem a legítima ao paizinho."
O MEU MOMENTO ESQUERDA-REVOLUCIONÁRIA
Eu juro (podem tomar nota) que em breve farei explodir os filhas-da-p*** dos cinema Alfa-Lusomundo de Évora, que não colocam em cartaz um filme decente vai para meses. Abaixo os monopólios! Morte à Lusomundo!

PS: Domingo poderão encontrar-me na Fnac do Chiado, secção DVD's.
THE TROUBLE WITH GEORGE
O Dr. Jorge Sampaio, o nosso presidente, andou em digressão por terras argelinas. O facto de se encontrar abroad não o coibiu de proferir mais uma notável declaração sobre o mundo. Vai daí, achou por bem voltar a condenar a “ocupação”(sic) do Iraque pelas forças da coligação, eufemismo encontrado para “invasão”, bem como a da Palestina pelos israelitas - o que só lhe fica bem depois de se saber que a maioria dos europeus considera Israel a maior ameaça à paz mundial. Há umas semanas atrás, quando se encontrava no Brasil, o Dr. Sampaio tinha revisitado Pilatos, lavando publicamente as suas mãos relativamente ao envio dos GNR’s para o Iraque.
Deviam ensinar ao Dr. Sampaio que há coisas que se podem pensar em privado mas não devem ser ditas em público. Principalmente por quem exerce um cargo de grande responsabilidade política e representativa. O Dr. Sampaio parece fazer questão de acentuar a divisão no seio da sociedade portuguesa e de, por arrastamento, revelar uma atroz falta de solidariedade para com os portugueses que estão no Iraque, os familiares que ficaram em Portugal e o governo de Portugal. Sampaio parece querer deixar claro que «aquilo» que se passa no Iraque (ou seja, a “invasão”) é insustentável, abrindo a porta para se pensar que os GNR’s e o governo português são coniventes com uma “ocupação” a todos os títulos condenável. Mais: o Dr. Sampaio, que adora invocar a ONU, faz questão de passar por cima do espírito da sua mais recente resolução sobre o Iraque.
Nesta matéria, o Dr. Sampaio tem revelado um sentido de Estado nulo. O Dr. Sampaio, presidente de todos os portugueses, deveria fazer um discurso de reconciliação e de esperança. Deveria referir a coragem e a tenacidade dos GNR’s, o digno trabalho de pacificação e de reorganização que estão a levar a cabo no Iraque - um país que, por boas ou más razões, se viu livre um carniceiro e onde se tenta, agora, implantar um Estado de direito servido por um regime minimamente aceitável. Deveria condenar publicamente as cobardes acções terroristas e de guerrilha perpetradas por uma horda de malfeitores ligados ao ancien régime. Deveria dizer que, com tempo, coragem e sem hesitações, o Iraque será um país incomensuravelmente melhor. Por último, o Dr. Sampaio deveria ter sempre presente que para alcançar esse patamar, o Iraque terá de continuar a ser «ocupado» durante mais algum tempo. Acabar com a «ocupação» de um dia para o outro seria catastrófico. Este sim, seria um discurso digno de um presidente. Fica para um homem de outra estirpe.
NO SEGUIMENTO
No seguimento do Pedro Mexia, e no espírito do mais recente post do maradona (com minúscula) sobre obras de arte:


O RELATÓRIO DO EUMC NA SUA VERSÃO ABREVIADA
Eis dois linques para o relatório do European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia: aqui e aqui.

Agradeço ao Francisco o ficheiro em .pdf e ao Manuel e ao Rui os linques.
É MINHA
A Antena 2 é “a” estação de rádio. Há anos que vem prestando um serviço público sem paralelo. E continua a surpreender. Hoje, por exemplo, numa hora imprópria para ouvir rádio (às 17h estou habitualmente enterrado no meu gabinete ao serviço de uma organização capitalista), ouço um delicioso programa, apresentado por Andreia Lupi (que vozinha tão querida) e Raul Reis. Salvo erro, intitula-se “Que musica é esta?”. De início, também me interroguei: que programa é este que passa e mistura Steve Reich (e logo Different Trains com Pat Metheny), Philip Glass (no caso o Einstein on the Beach), standards do Jazz pelos melhores interpretes, e cujos apresentadores fogem da norma radiofónica do timbre e do tom, criando um ambiente de puro prazer pela descoberta? No dia em que fecharem a Antena 2, mudo-me para outro país.


A PÁGINA 2 DO CORREIO DA MANHÃ DE SEXTAS-FEIRAS
Depressões
por Alberto Gonçalves
"1. "Recessão é quando um vizinho perde o emprego; depressão é quando perdemos o nosso." A frase pertence a Ronald Reagan, um homem que, sem Alzheimer, costumava exibir com regularidade esta rara perspicácia. Infelizmente, quem consulta as opiniões dominantes nos nossos media não sai tão bem servido.
Parece que o País está há uns tempos em recessão técnica – situação de que ameaça descolar a cada instante mas não há maneira de o conseguir –, o que tem levado numerosos vizinhos a perderem o respectivo emprego. Visto que os vizinhos, regra geral, também são pessoas, não espanta que as mesmas se sintam naturalmente deprimidíssimas.
Chato é confundir as coisas, ou seja, substituir a recessão (a ‘tanga’, na linguagem especializada do primeiro-ministro), que é um fenómeno económico, pela depressão, que é assunto individual e intransmissível. Por tudo e por nada, jornais e noticiários atafulham-se com análises exaustivas da nova doença nacional, dando de caminho excessiva voz a psiquiatras e sociólogos. Por tudo e por nada, políticos avulsos elaboram às três pancadas o fatal diagnóstico: os portugueses estão deprimidos.
Eu, por acaso, não estou. Mas, se fizerem muita questão, fico. Já faltou mais. Em qualquer inquérito de rua, não custa achar um cidadão com BMW, salário ‘europeu’, saúde, casa de férias, uns milhares em acções e promissórias e dois filhos lindos que, após adequada insistência, confesse encontrar-se em depressão profunda – devido à Casa Pia ou à perda da America's Cup. Hoje, em Portugal, ser-se moderadamente feliz chega a ser obsceno. No mínimo, é tão embaraçoso quanto descer à rua sem calças ou ler ‘O Dia’.
Claro que a história da ‘depressão’ não cai do céu, e apresenta vantagens diversas. Em larga medida, funciona como instrumento de combate político: se o pessoal está ‘em baixo’, a culpa cabe inteirinha ao Governo, que é mesquinho e diverte-se a castigar o povo. Em última instância, porém, remete-nos para o velho lirismo lusitano, de que ridiculamente nos achamos portadores e que nos tem sido de tanta inutilidade. Em suposta terra de supostos poetas, a melancolia (’depressão’ é o nome contemporâneo) é adereço que, em alturas de crise, convém envergar. Não só é giro como nos poupa a dispensáveis maçadas.
A depressão é um sossego; a recessão é uma canseira. Recessão sugere recuperação, contas, produtividade, trabalho; a depressão traz consigo um familiar aroma a fado, a algo que nos escapa e que, de acordo com a lógica, não podemos nem nos compete contrariar. Lavar as mãos, pelo menos em sentido metafórico, é o nosso passatempo predilecto.
Parafraseando outro famoso presidente dos EUA, os portugueses nunca perguntam o que podem fazer pelo seu País: preferem esperar que o País lhes apareça feito. Vale que esperam sentados, no café, no escritório ou no sofá de casa, lugares onde a antiga arte da lamúria consola mas não produz milagres. E, isso sim, é que é um bocadinho deprimente.

2. Nas últimas legislativas, o apoio do dr. Vilarinho ao PSD preocupou o PSD e indignou a oposição. Mas toda a gente acha de uma confrangedora banalidade que dez presidentes de câmara se juntem publicamente para defender a recandidatura do sr. Pinto da Costa. E depois? O dr. Vilarinho fora eleito por uns tantos sócios de um clube de futebol, em que os sufrágios dependem da antiguidade e do pagamento de uma quota. Os tais dez autarcas são o resultado de uma eleição livre e universal. À época, o dr. Vilarinho representava os devotos da bola, que formam um culto por aqui sagrado e cujo nome não se invoca à toa. Os dez autarcas representam apenas os cidadãos, uma espécie pouco merecedora de respeito, felizmente habituada a votar e calar.
Aprendam: sob pena de desonra, o futebol não deve baixar-se à pocilga partidária; a política, por sua vez, só ganha em banhar-se na água benta do futebol. A política mancha, o futebol redime – eis um lema à espera de ser lavrado na bandeira."
SEM NORTE
Entro numa livraria e deparo com uma espécie de torre, feita de cartão, onde se lê: “O retrato crítico de uma América sem norte”. Serve a dita para promover um livro de 1992, editado pela primeira vez em Portugal em 1993 pela Presença, e agora lançado na Asa: Leviathan de Paul Auster. Paul Auster é um autor da minha preferência, embora lhe reconheça alguma inconstância na sua produção literária. The New York Trilogy é muito bom. Assim como Leviathan. Timbuktu é fraquinho. Moon Palace encheu-me as medidas, Mr Vertigo nem por isso. Leviathan é uma história sobre a amizade de Benjamin Sachs e Peter Aaron, o narrador. Tudo começa quando Aaron, por intuição, sabe que o homem não identificado que se fez explodir no Norte do Wisconsin é Sachs. Ao longo do livro, Aaron conta-nos a história de Sachs: um promissor escritor que encetou um trabalho de desafio relativamente às fronteiras da sua própria identidade, vacilando entre a postura do intelectual, do homem de família, do mulherengo e acabando como operacional de actos subversivos contra a ordem pública. Aos poucos, vamos percebendo a razão da intuição de Aaron. Quanto muito, Leviathan mostra-nos a forma como um homem perdeu o “seu norte” pela incapacidade de conseguir separar o seu ego do mundo e das circunstâncias exógenas. Mas não é sobre a obra deste escritor norte-americano que queria falar. Queria falar da expressão “retrato crítico de uma América sem norte”(sic).
Eu gostava, a sério que gostava, que os responsáveis da editora Asa explicassem, tintin por tintin, onde, como e em que circunstâncias Leviathan é um retrato de uma “América sem norte”. Em boa verdade, alguém, na Asa, avistou um filão. E o filão é este: a voragem actual em consumir tudo que possa denunciar, provar ou amplificar a suposta iniquidade, malignidade e viciosidade da América Imperial, tal como é descrita por vultos contemporâneos como Mário Soares, Freitas do Amaral ou Boaventura Sousa Santos. A América do hamburgueres, do consumismo, dos ignorantes que nem sabem onde fica Portugal. A América potência invasora e ocupante (como nos explica o Dr. Sampaio). O bom e ordeiro povo nem por um minuto vacila perante a história destes senadores e destes especialistas. Engolem tudo, alimentando, assim, as suas certezas e proporcionando uma paz duradoura às suas alminhas. Para certas pessoas, não importa que o seu país, o seu continente, o seu quintal ou a sua própria vida estejam atolados de problemas, perversidade, hipocrisia ou cinismo. O que importa é alimentar o ódio mesquinho e o preconceito mais reles. É a velha mesquinhez e a insidiosa avareza de quem se satisfaz com a desgraça alheia (inventada ou não), especialmente se a desgraça alheia vier de quem, supostamente, é arrogantemente altivo, «manipulador» e abastado. Alguém na Asa percebeu isso. Estes tipos da Asa são uns espertos.


sexta-feira, dezembro 05, 2003

AI VOLTOU, VOLTOU
Ontem, depois de ler o excelente artigo de Pacheco Pereira no Público, cheguei a uma conclusão: Pacheco Pereira voltou a ler o velho mas sempre estimulante Friedrich August. É verdade: o Hayek de Road to Serfdom mas também o Hayek de Individualism and Economic Order e The Constitution of Liberty. Seria bom que voltássemos, de vez em quando, a Hayek. De cabeça limpa.

quinta-feira, dezembro 04, 2003

SOBRE O ANTI-SEMITISMO
Excelente artigo de Emanuele Ottolenghi, para o The Guardian:

”Anti-Zionism is anti-semitism
Emanuele Ottolenghi

Saturday November 29, 2003
Is there a link between the way Israel's case is presented and anti-semitism? Israel's advocates protest that behind criticisms of Israel there sometimes lurks a more sinister agenda, dangerously bordering on anti-semitism. Critics vehemently disagree. In their view, public attacks on Israel are neither misplaced nor the source of anti-Jewish sentiment: Israel's behaviour is reprehensible and so are those Jews who defend it.
Jewish defenders of Israel are then depicted by their critics as seeking an excuse to justify Israel, projecting Jewish paranoia and displaying a "typical" Jewish trait of "sticking together", even in defending the morally indefensible. Israel's advocates deserve the hostility they get, the argument goes; it is they who should engage in soul-searching.
There is no doubt that recent anti-semitism is linked to the Palestinian-Israeli conflict. And it is equally without doubt that Israeli policies sometimes deserve criticism. There is nothing wrong, or even remotely anti-semitic, in disapproving of Israeli policies. Nevertheless, this debate - with its insistence that there is a distinction between anti-semitism and anti-Zionism - misses the crucial point of contention. Israel's advocates do not want to gag critics by brandishing the bogeyman of anti-semitism: rather, they are concerned about the form the criticism takes.
If Israel's critics are truly opposed to anti-semitism, they should not repeat traditional anti-semitic themes under the anti-Israel banner. When such themes - the Jewish conspiracy to rule the world, linking Jews with money and media, the hooked-nose stingy Jew, the blood libel, disparaging use of Jewish symbols, or traditional Christian anti-Jewish imagery - are used to describe Israel's actions, concern should be voiced. Labour MP Tam Dalyell decried the influence of "a Jewish cabal" on British foreign policy-making; an Italian cartoonist last year depicted the Israeli siege of the Church of the Nativity in Bethlehem as an attempt to kill Jesus "again". Is it necessary to evoke the Jewish conspiracy or depict Israelis as Christ-killers to denounce Israeli policies?
The fact that accusations of anti-semitism are dismissed as paranoia, even when anti-semitic imagery is at work, is a subterfuge. Israel deserves to be judged by the same standards adopted for others, not by the standards of utopia. Singling out Israel for an impossibly high standard not applied to any other country begs the question: why such different treatment?
Despite piqued disclaimers, some of Israel's critics use anti-semitic stereotypes. In fact, their disclaimers frequently offer a mask of respectability to otherwise socially unacceptable anti-semitism. Many equate Israel to Nazism, claiming that "yesterday's victims are today's perpetrators": last year, Louis de Bernières wrote in the Independent that "Israel has been adopting tactics which are reminiscent of the Nazis". This equation between victims and murderers denies the Holocaust. Worse still, it provides its retroactive justification: if Jews turned out to be so evil, perhaps they deserved what they got. Others speak of Zionist conspiracies to dominate the media, manipulate American foreign policy, rule the world and oppress the Arabs. By describing Israel as the root of all evil, they provide the linguistic mandate and the moral justification to destroy it. And by using anti-semitic instruments to achieve this goal, they give away their true anti-semitic face.
There is of course the open question of whether this applies to anti-Zionism. It is one thing to object to the consequences of Zionism, to suggest that the historical cost of its realisation was too high, or to claim that Jews are better off as a scattered, stateless minority. This is a serious argument, based on interests, moral claims, and an interpretation of history. But this is not anti-Zionism. To oppose Zionism in its essence and to refuse to accept its political offspring, Israel, as a legitimate entity, entails more. Zionism comprises a belief that Jews are a nation, and as such are entitled to self-determination as all other nations are.
It could be suggested that nationalism is a pernicious force. In which case one should oppose Palestinian nationalism as well. It could even be argued that though both claims are true and noble, it would have been better to pursue Jewish national rights elsewhere. But negating Zionism, by claiming that Zionism equals racism, goes further and denies the Jews the right to identify, understand and imagine themselves - and consequently behave as - a nation. Anti-Zionists deny Jews a right that they all too readily bestow on others, first of all Palestinians.
Were you outraged when Golda Meir claimed there were no Palestinians? You should be equally outraged at the insinuation that Jews are not a nation. Those who denounce Zionism sometimes explain Israel's policies as a product of its Jewish essence. In their view, not only should Israel act differently, it should cease being a Jewish state. Anti-Zionists are prepared to treat Jews equally and fight anti-semitic prejudice only if Jews give up their distinctiveness as a nation: Jews as a nation deserve no sympathy and no rights, Jews as individuals are worthy of both. Supporters of this view love Jews, but not when Jews assert their national rights. Jews condemning Israel and rejecting Zionism earn their praise. Denouncing Israel becomes a passport to full integration. Noam Chomsky and his imitators are the new heroes, their Jewish pride and identity expressed solely through their shame for Israel's existence. Zionist Jews earn no respect, sympathy or protection. It is their expression of Jewish identity through identification with Israel that is under attack.
The argument that it is Israel's behaviour, and Jewish support for it, that invite prejudice sounds hollow at best and sinister at worst. That argument means that sympathy for Jews is conditional on the political views they espouse. This is hardly an expression of tolerance. It singles Jews out. It is anti-semitism.
Zionism reversed Jewish historical passivity to persecution and asserted the Jewish right to self-determination and independent survival. This is why anti-Zionists see it as a perversion of Jewish humanism. Zionism entails the difficulty of dealing with sometimes impossible moral dilemmas, which traditional Jewish passivity in the wake of historical persecution had never faced. By negating Zionism, the anti-semite is arguing that the Jew must always be the victim, for victims do no wrong and deserve our sympathy and support.
Israel errs like all other nations: it is normal. What anti-Zionists find so obscene is that Israel is neither martyr nor saint. Their outrage refuses legitimacy to a people's national liberation movement. Israel's stubborn refusal to comply with the invitation to commit national suicide and thereby regain a supposedly lost moral ground draws condemnation. Jews now have the right to self-determination, and that is what the anti-semite dislikes so much.”

DEVO ESTAR ENGANADO
Ganhei um excelente antagonista no Barnabé. Estava enganado em relação a Rui Tavares (e eu sei que ele vai fazer um esforço para não me desiludir). Para quem, inicialmente, entrou «a matar», não deixa de ser surpreendente a forma como, agora, já ousa tratar-me por “caro” e dar-me “de barato” certas coisas (deve ser o espírito natalício). Não deixou, contudo, de resistir à tentação de entremear nos seus textos umas alfinetadas avulsas.
Na sua resposta a um ‘post’ meu sobre a «suposta» (passo o pleonasmo das aspas) prevalência do anti-semitismo na esquerda - tese, aliás, que eu miseravelmente defendo e que o blogger Jorge considera um insulto (como se eu alguma vez tivesse dito que a totalidade ou a maioria dos esquerdistas fossem anti-semitas; e logo ele, que apelida o Statler de “besta”) - não resistiu a informar-me que o jornal Forward pertence à “esquerda liberal”, esperando ao mesmo tempo que tal facto “não seja um problema”(sic) para mim. Só posso sorrir perante estas afirmações. Partindo do pressuposto de que Rui Tavares não está a brincar, interrogo-me: pensará Rui Tavares que eu só consumo o cânone direitista? Pensará Rui Tavares que na minha casa só entra gente, livros e publicações com a chancela da direita? Pensará Rui Tavares que eu ando em cruzada contra a esquerda? Adiante.
Caro Rui: desgraçadamente, eu não tenho provas. Não estou tão bem documentado como provavelmente o Rui está. A minha percepção de que o anti-semitismo está, hoje em dia, mais difundido nas hostes da esquerda não passa disso mesmo: de uma reles percepção. Sei, no entanto, duas ou três coisas. Que o facto de ter sido Cohn-Bendit, um “anarco-eco-esquerdista” (palavras suas), a reclamar pela publicação do relatório, não absolve de nada os seus correligionários de esquerda que sejam anti-semitas (e, é bom recordá-lo, o “anti-semitismo” que refiro é dirigido aos judeus, não aos árabes), nem sequer atenua determinada tendência. Que, por outro lado, existem movimentos de extrema direita profundamente anti-semitas, assim como existe gente da suposta "direita moderada" que também o é. Por último, não posso negar, porque Rui Tavares o parece exigir, aquilo que, da minha experiência (em conversas de café, em tertúlias, em debates sobre o assunto e nas conversas que mantenho com amigos e conhecidos), me parece evidente: há, actualmente, uma correspondência (ou, se quiser, uma mais forte correlação) entre os ecos do ódio latente e quase irracional em relação aos judeus e o posicionamento ideológico à esquerda. Mas, lá está: não tenho provas. Não estou, como se costuma dizer, «documentado». E, ainda por cima, reproduzo citações «truncadas». Como tal, devo estar redondamente enganado.

PS: Reparo, contudo, numa coisa: o artigo do jornal Forward faz apenas referência a um excerto de um draft de uma cópia do relatório obtida pelo Financial Times. Se calhar, o melhor mesmo é esperar pelo dito documento, dando, para já, o benefício da dúvida a Cwajgenbaum: “antisemitism in Europe [is] multifaceted, coming from traditional extreme-right circles and far-left groups as well as a radicalized Muslim minority.”
A LIGAÇÃO
Notícia do Público (via The New York Times):

”O antigo presidente iraquiano Saddam Hussein pagou milhares de dólares por mísseis norte-coreanos que nunca chegou a receber, noticiou o jornal “The New York Times”. Esta é a primeira indicação de que os dois membros do “eixo do mal” tinham uma ligação que escapou aos olhos e ouvidos da CIA. Durante dois anos, os filhos do ditador de Bagdad e alguns dos seus generais mantiveram negociações com a Coreia do Norte, segundo revelaram arquivos de computador descobertos pelos inspectores internacionais. Os encontros, aparentemente mantidos na Síria (provavelmente com o conhecimento do Governo de Damasco), não se destinavam apenas à compra de mísseis de longo alcance Rodong. O objectivo iraquiano era também o de aceder à tecnologia para produzir estas armas, capazes de atingir aliados e bases dos EUA na ergião. De acordo com o inspector David Kay, Saddam chegou a pagar dez milhões de dólares a Kim Jong-il, que nunca entregou o armamento ao Presidente iraquiano.”

Todos bons rapazes…
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