O MacGuffin: Novembro 2003

sexta-feira, novembro 28, 2003

A PROPÓSITO DA VISITA DO SR. DERRIDA
Leiam The Liar’s Tale de Jeremy Campbell…

O CATALÁXIA CHEGOU AO FIM
Viva o Cataláxia!

(ó Rui, diz que estás a brincar, sim?)
O MEU SPORTING É AQUELA MÁNICA!
O verdadeiro sportinguista é o que sofre, o que é pessimista e derrotista. Passados dezoito anos habituados a um acabrunhamento dócil e comovente, lá ganhámos, em quatro anos, dois campeonatos. O fogo fátuo da glória e do triunfo tinha começado a queimar-nos as meninges. Felizmente, tudo indica que estamos de volta à normalidade. Temos um treinador-engenheiro e uma brigada de reumáticos a fazer o possível e o impossível para que se volte a revisitar essa cultura de tristeza que fez as delícias de milhares de adeptos, ao longo de tantos e tão sofridos anos. O ethos é pesado e eu voltei a sentir-me triste com a minha equipa de sempre. Que bom!
UM INDICIO, CARO RUI TAVARES
No Público:
“Eurodeputados Exigem Publicação de Estudo Sobre o Anti-semitismo
Quarta-feira, 26 de Novembro de 2003
Depois do choque da sondagem em que os europeus colocavam Israel como a primeira ameaça à paz no mundo, está em curso um novo escândalo. Vários eurodeputados, entre eles o "verde" Daniel Cohn-Bendit e o democrata-cristão Armin Laschet, exigem que seja publicado um inquérito que o Observatório da UE para os Fenómenos Racistas e Anti-semitas (EUMC) encomendou e depois meteu na gaveta, por ele sublinhar a cumplicidade de grupos muçulmanos e pró-palestinianos nos actos de anti-semitismo.
A questão foi levantada pelo "Financial Times". O jornal teve acesso ao estudo, cujas conclusões sublinham que "há uma tendência para um anti-semitismo muçulmano e uma mobilização contra Israel que nem sempre é isenta de preconceitos". Afirmar que os autores dos incidentes "são franceses, belgas ou holandeses não dá toda a verdade". O relatório também imputa "motivações anti-semitas a grupos de esquerda e de luta contra a globalização".
(…)
A polémica está a ter ressonância em Israel. Robert Wistrich, da Universidade Hebraica de Jerusalém, diz ao "Guardian" que a invocação dos direitos humanos para criticar Israel é uma mera cobertura para a sua "demonização". "Vemos na esquerda uma tendência para acreditar que há uma conspiração mundial em que judeus e sionistas estão implicados. Estabelece-se um laço entre dinheiro, judeus, América, dominação mundial, globalização. A noção de que os judeus são uma superpotência e controlam a América é ao mesmo tempo uma forma clássica e reciclada de anti-semitismo."

quinta-feira, novembro 27, 2003

QUANDO FOR CRESCIDO QUERO SER DIFERENTE

WITTY

’I’m just nipping inside for some fresh air.’

terça-feira, novembro 25, 2003

NEXT, PLEASE
Há uns tempos atrás, escrevi um texto sobre a escola da minha filha que rezava assim:
“A minha filha, de sete anos, frequenta uma das muitas escolas públicas do Ensino Básico, saídas das fornalhas do Estado Novo. Um edifício de linhas clássicas, envergando uma estética intemporal, mais no espírito tradicionalista e costumeiro de Raul Lino, do que no da escola modernista que o Estado Novo tão bem soube patrocinar – de Keil do Amaral, Pardal Monteiro, Cassiano Branco ou dos irmãos Rebelo de Andrade, entre tantos outros. Trata-se, em suma, de um edifício ainda perfeitamente integrado nas nossas cidades brancas e históricas, que vai resistindo à passagem do tempo e à voragem pós-modernista dos arquitectos mais egocêntricos e pedantes da paróquia. Uma típica e linda escola primária portuguesa. No seu interior, o edifício já revela alguma dificuldade em esconder as marcas da sua antiguidade, embora os materiais então empregues tivessem envelhecido condignamente: a escadaria, o soalho e o estrado em madeira, o gradeamento em ferro forjado, as aduelas e portas pintadas em ‘casquinha de ovo’.”
Esqueci-me de referir que a escola da minha filha tinha uma única campainha. Uma daquelas que tocava sempre a horas e com a qual até se podia acertar o relógio. Estão a ver: daquelas campainhas que já não se faziam, com um braço metálico suspenso que, a horas determinadas, batia frenética e urgentemente numa robusta e visível campânula de metal martelado, produzindo um valente e glorioso “triiimmmm”, capaz de assustar cães e gatos num raio de cem metros. Os pais e os professores queixavam-se, assustavam-se, com o seu toque firme e orgulhoso. “Ai que horror!” era frase recorrente e já gasta.
Agora, a velha campainha, que durante décadas serviu para marcar os toques de saída e entrada a milhares de miúdos, que corriam apressados ao som do seu toque determinado e disciplinador, foi retirada. No seu lugar, apareceram, estrategicamente colocadas, umas medrosas (ia-me enganando a escrever o adjectivo…) caixinhas de plástico branco-frigorífico. Do seu interior, sai agora um silvo tímido, não analógico, intermitente e arrastado, que raramente se consegue ouvir. Mas não duvido: o silvo é, certamente, de origem «electrónica», proveniente de um complexo e sofisticado sistema que deve ter custado uma pipa de massa, a avaliar pela quantidade de calhas técnicas que tiveram de ser pregadas às paredes. A inovação e a actualização ditaram a morte de uma campainha que condigna e competentemente fazia o trabalho que lhe competia, e impulsionaram o advento triunfal de um admirável mundo novo, ao serviço das escolas e da sensibilidade auditiva das criancinhas, dos progenitores, dos docentes e do pessoal auxiliar. Next stop: TGV.

segunda-feira, novembro 24, 2003

MAIS UM QUE VALE A PENA
Rua da Judiaria.
ENTRETANTO…
Rui Tavares, no Barnabé, comenta o meu comentário a um ‘post’ seu sobre o anti-americanismo e o anti-semitismo. E diz:
”Ora numa matéria como o anti-semitismo, as acusações não podem ficar por meias palavras, McGuffin: são precisos nomes, textos, citações. Os "evidentementes", os "sobretudos", os "óbvios ululantes" aqui não valem pevide. Não me estou a lembrar de um único texto que à esquerda tenha feito eco desses estereótipos nauseabundos que descreve, e estou seguro de que a vastíssima maioria de textos da esquerda contra Sharon andam bem longe dos autores que você vai buscar a... 1895. Pessoalmente acho Ariel Sharon um indivíduo sinistro e criminoso: e daí? Portanto, das duas uma: ou documenta aquilo que diz, ou explica melhor (mas muito muito melhor) o que queria dizer. Porque assim não.
Não é a primeira vez que observo esta engenhosa tentativa de branquear o óbvio (repito: ululante). Há coisas que se sabem, que se sentem, que se cheiram, sem que, para isso, tenhamos de encetar um trabalho de pesquisa e de inquérito mais ou menos formal e elaborado. Rui Tavares percebe perfeitamente o que estou a dizer porque também ele «generaliza», com base na sua sensibilidade e na sua percepção. Parece-me, até, um pouco desonesta a forma como, agora, se esconde no pretexto das provas materiais, exigindo-as como se, à falta delas, nada pudesse ser validado. Adeus “senso comum”: já deste o que tinhas para dar.
Em primeiro lugar, Rui Tavares insiste num erro de palmatória: julgar que os putativos escrevinhadores situados à esquerda (ou à direita) são a voz da Esquerda (ou da Direita) - no tom e no teor. Não são e Rui Tavares deveria sabê-lo. Deveria saber, também, que, muitas vezes, a generalidade dos opinion-makers de uma certa tendência ideológica não reflectem a vox populi dessa mesma tendência. E vice-versa. Veja-se o caso do conflito no Iraque: a esquerda (lá estou eu a generalizar...) insistiu em não perceber que a corrente, o mainstream, era contra a guerra (as sondagens apontavam para números perto dos 80%) e que os MacGuffin’s, os Coutinhos ou os Lombas representavam a contra-corrente (na altura recebi dezenas de missivas contestando o nome do meu blogue porque eu estava, supostamente, a favor da corrente dos media, como se a corrente dos media fosse "a" corrente).
Quando eu cometi o pecado da generalização, ao escrever “Quem hoje disfarça o seu anti-semitismo - considerando-se, somente, «anti-sionista», ou explicando que a sua crítica é, apenas, dirigida a Sharon - é, sobretudo, a esquerda “, sabia muito bem do que estava a falar. Estava a referir-me às pessoas de esquerda, em geral, não aos opinion-makers, em particular (embora também). Estava a lembrar-me dos meus amigos de esquerda, dos amigos dos meus amigos de esquerda, da vox populi. Estava a lembrar-me de debates a que assisti no auditório da Universidade de Évora (cidade onde nasci e teimo em viver), ou de tertúlias semi-publicas. Ainda este fim-de-semana assisti a uma surpreendente discussão em torno do conflito israelo-palestiniano, que começou com o habitual e razoável “nada tenho contra os israelitas mas sim contra Sharon” para, passados alguns minutos, descambar num role infindável de tiradas de mau gosto, piadinhas nojentas (“Hitler só falhou porque os fornos eram pequenos”), reveladoras de muito má fé contra os judeus (“por alguma razão eles têm sido perseguidos ao longo dos séculos…”). E sim: era malta da esquerda. Mas isso não significa que toda a esquerda seja anti-semita ou que, à direita, não haja laivos de anti-semitismo. Mas, caramba: qualquer pessoa com os ouvidos e olhos apurados percebe que o anti-semitismo (o amador e o profissional) vem, hoje em dia, sobretudo da esquerda. Isto pode não valer uma pevide para Rui Tavares, mas é mais do que evidente. Se Rui Tavares deixar de ser rhetorical-addicted reconhecerá que, na ânsia da sua cruzada pró-palestiniana, são sobretudo os esquerdistas (perdoar-me-á, novamente, a generalização) que enveredam por posições que lembram livros antigos.
Compreendo as preocupações de Rui Tavares com as nem sempre justas generalizações. Como dizem os políticos, quando se referem às sondagens, as generalizações “valem o que valem”. Eu próprio detesto ser arrolado em estereótipos ou arrumado em compartimentos estanques. Rui Tavares é uma pessoa de esquerda e não é anti-semita. Ainda bem. Os amigos e próximos de Rui Tavares podem não ser anti-semitas. Muito bem. Os articulistas de referência de Rui Tavares podem ser tipos intelectualmente honestos e meticulosos quando separam o governo de Sharon dos israelitas. Fair enough. Agora, pergunto eu: e daí?
POR AQUI RECOMENDA-SE
O último disco dos Two Banks of Four



(e sim, é verdade: o Robert Gallagher dos 2bo4 é o mesmo dos Galliano)

sexta-feira, novembro 21, 2003

MIGUEL PORTAS E O TERRORISMO
Já sabem a minha opinião sobre Manuel Monteiro, por isso é escusado repeti-la sob pena de ainda sugerirem que tenho para com este senhor uma embirração primária (facto, aliás, totalmente fundamentado). Tenho, contudo, a agradecer ao Dr. Monteiro a forma como ontem, na SIC-N, num frente-a-frente com Miguel Portas, proporcionou a este a oportunidade de escancarar a céu aberto a iniquidade e a fragilidade das suas próprias teses sobre o terrorismo. Tudo se passou num ápice: no «calor» da discussão, o Dr. Monteiro coloca a mãe de todas as questões: “Mas ó Miguel, então qual é a solução para o terrorismo?” E foi a partir daí que Portas, Miguel, puxou da cartilha esquerdista e dos chavões da seita, que só os mais ineptos e a sempre ignorante ralé teimam em não perceber. E a solução é, mais ou menos, esta: para fora do Iraque, e em força; para fora do Afeganistão, e em força; criação, a posteriori, de uma Constituição Mundial; e, last but not least, um cuidado extremo em não humilhar e ofender o povo árabe e os muçulmanos em geral.
A cartilha está gasta, mas vale a pena relembrá-la. Para Miguel Portas e para a generalidade da esquerda hard, o Sr. Bin Laden e a sua al Qaeda representam a voz dos excluídos, dos humilhados, dos «danados da fome». As causas do terrorismo da al Qaeda são claras: há décadas (séculos?) que o Ocidente colocou a nação islâmica a pão e água, sugando-lhe, ao mesmo tempo, os seus mais preciosos recursos (nomeadamente o pitróleo). A par disto, o Ocidente, e mais concretamente a nação Imperial, tem vindo a infligir duros golpes na auto-estima dos árabes e dos muçulmanos espalhados pelo mundo, razão mais do que suficiente para explicar o fundamentalismo islâmico. Desde o Sec. XIII, com os Mongóis, passando pelos ingleses e franceses do Sec. XIX e Sec. XX, e acabando com a mais recente aquisição no rol de bodes expiatórios (os EUA, argumento que assentou que nem uma luva, face ao recrudescimento do anti-americanismo), desde há muito que os incompetentes, despóticos e, nalguns casos, ultra-religiosos líderes do mundo islâmico sentem as costas quentes, a Ocidente, face a esta cantilena. Miguel Portas, que gosta muito de introduzir nas questões uma «componente» histórica, só olha a História na perspectiva que lhe interessa. Se observasse a História com «profundidade» (palavra que lhes é tão querida), talvez pudesse retirar outras conclusões. Por exemplo, teria percebido que o problema do terrorismo islâmico-fundamentalista é a face mais horrenda de um problema que vem de muito longe: o atraso endémico do médio oriente por manifesta e gritante inadaptação face à evolução dos povos e do mundo. Os mongóis, os franceses, os ingleses ou os americanos não foram a causa mas sim a consequência de uma fraqueza presente em boa parte dos países muçulmanos (árabes e não só), no que respeita à organização das suas sociedades e dos seus sistemas políticos e económicos, a que não será alheia a mão pesada de uma doutrina religiosa que se tem misturado fatalmente com o poder (político, económico, etc.).
Mas a História já foi outra. No período entre o declínio da antiguidade e a aurora da modernidade – a que comummente se designa de Idade Média – foi clara a superioridade islâmica. O Islão constituía a maior potência militar e económica, tendo alcançado um desenvolvimento ímpar na área das artes e das ciências. No pico da sua superioridade, havia apenas uma outra civilização comparável em qualidade e diversidade: a Chinesa. Só a partir do Sec. XV passou a ser clara a superioridade económica, cientifica e militar do que hoje denominamos de Ocidente.
A partir de então, as tentativas de modernização do mundo islâmico foram sempre acompanhadas por um sentimento de desconfiança e de revolta contra modos de vida que poderiam pôr em causa – era esse o receio - o seu hermetismo cultural e religioso. A atitude muçulmana face à expansão do Ocidente foi diferente da atitude doutras civilizações. Para outras, tudo o que viesse do Ocidente era novo e desconhecido, logo avaliado segundo o seu mérito. Para os muçulmanos, a Cristandade não era nova nem desconhecida. A cristandade e o judaísmo haviam sido os precursores do Islão na medida em que tinha sido o Islão quem soubera ultrapassar a «corrupção» e a «displicência» que toldavam “a” verdade noutras paragens. “A” verdade tinha sido incorporado no Islão. O que não tinha sido incorporado no Islão era falso. Por cada modernizador e por cada tentativa de abrir o Islão ao mundo, erguiam-se mil vozes contrárias contra a ímpia influência dos «infiéis». Por exemplo, em pleno Sec. XVIII, os embaixadores muçulmanos em Berlim e Viena, Paris e Londres, descreviam, com estranheza, o facto de haver uma administração burocrática eficiente, baseada na nomeação e promoção de pessoas com base no mérito e na qualificação, e não por favor ou proteccionismo. A barreira entre uma civilização e outra foi de tal ordem que a Renascença, a Reforma e a revolução cientifica passaram ao lado do desatento Islão. Só mais tarde, após a Revolução Francesa, se abriram algumas janelas de oportunidade e se tomou consciência de que a mudança de atitude, radical em muitas áreas, era necessária. Mas esta mudança foi lenta, difícil, repleta de reveses e retrocessos e, em boa verdade, ainda hoje está por cumprir. Esta mudança significava um gesto de humildade e de consciência demasiado doloroso para a consciência colectiva muçulmana: o reconhecimento de que os «bárbaros» e os «infiéis» estavam, afinal, à frente. Por exemplo, aceitar ser ensinado e instruído por técnicos e professores «infiéis» era impensável para as cúpulas muçulmanas.
Bin Laden pode ser a face de tudo, mas não é, certamente, a face da revolta dos milhões de muçulmanos que vivem, ainda hoje, num obscurantismo que lembra o pior da Idade Média (sim porque a Idade Média teve coisas muito positivas). É sabido que, no seio das populações, quando estão reunidas as condições para falar sem receios, ou seja, livremente, existe mais simpatia pelo Ocidente e pelo grande Satã do que alguma vez Miguel Portas poderia imaginar. Miguel Portas continua a achar que a culpa é dos outros, ou seja, dos que para lá foram. Como ele próprio dizia ontem, parafraseando Sérgio Vieira de Mello, “eu também me revoltaria se visse tanques estrangeiros a avançar sobre Copacabana.” Acontece que Miguel Portas inverte a ordem dos factos. Os tanques avançaram no Afeganistão e no Iraque depois do 11 de Setembro. Assim como avançaram no Iraque quando Saddam tentou anexar o Koweit. O que é que Miguel Portas esperava: que o mundo permanecesse quieto para não «humilhar» um regime despótico?
É altura de perceber que o Ocidente (latu sensu) não anda em cruzada por terras muçulmanas. Não anda a humilhar ninguém. O Ocidente não tem nenhuma contenda com o Islão. É a Ocidente que existe tolerância, multi-culturalismo e liberdade de culto. Miguel Portas deveria saber que os grandes (não os únicos, mas os grandes) culpados pelo infortúnio dos povos do médio oriente (só para falar nestes) continuarão a monte. Continuarão a actuar num limbo de impunidade inadmissível, servido pela intelligentsia Ocidental. É a Arafat e à sua falta de visão de Estado e de oportunidade; são aos mullahs e aos ayatollas; são aos dirigentes políticos do médio-oriente mentalmente mais empedernidos e tirânicos; são a esses que se deveriam assacar responsabilidades. São estes os que adoram incendiar as populações contra terceiros; são estes que não defendem as suas populações com certos contratos estabelecidos com países ou grupos económicos a ocidente; são estes que sugam a riqueza do seu país para sustentar a sua pesada oligarquia; são estes que anestesiam a consciência crítica do seu povo face às suas responsabilidades e às suas politicas, através da criação de papões ocidentais. Em suma, são estes os inimigos dos povos que putativamente se sentem excluídos, menosprezados e a viver em péssimas condições materiais e humanas. Não é o Ocidente ou o grande Satã.
Bin Laden não é só um terrorista. É, também, burro. E é burro porque anda a perpetrar ataques contra os únicos que podem ajudar os países muçulmanos a dar a volta por cima, assim haja, no seio dos países muçulmanos do médio oriente, quem ouse ultrapassar a fase da pergunta “quem nos fez isto?”, para passar à fase “o que devemos fazer para sair daqui?”. Infelizmente, a Ocidente, os Migueis Portas de serviço hão-de continuar a contar a história da carochinha. Uma história que, a espaços, terá alguma fundamentação, mas que, no computo geral, não interessa a ninguém. E não interessa a ninguém porque, desde logo, é uma história em que não se separam os regimes das populações, ou o Sr. bin Laden dos muçulmanos anónimos (como se àquele tivesse sido passada uma procuração colectiva). Seria bom que, a Oriente, uma nova linhagem de dirigentes e homens de decisão deixasse de ouvir o Sr. Bin Laden, o Sr. Portas ou o Sr. Chomsky. Uma nova linhagem que tentasse perceber o que é isso do “Growth-Through Integration” e olhasse o Sr. Bush e o Sr. Blair como aliados e não como inimigos.

quinta-feira, novembro 20, 2003

CASE CLOSED?
“OSAMA BIN LADEN and Saddam Hussein had an operational relationship from the early 1990s to 2003 that involved training in explosives and weapons of mass destruction, logistical support for terrorist attacks, al Qaeda training camps and safe haven in Iraq, and Iraqi financial support for al Qaeda--perhaps even for Mohamed Atta--according to a top secret U.S. government memorandum obtained by THE WEEKLY STANDARD.
The memo, dated October 27, 2003, was sent from Undersecretary of Defense for Policy Douglas J. Feith to Senators Pat Roberts and Jay Rockefeller, the chairman and vice chairman of the Senate Intelligence Committee. It was written in response to a request from the committee as part of its investigation into prewar intelligence claims made by the administration. Intelligence reporting included in the 16-page memo comes from a variety of domestic and foreign agencies, including the FBI, the Defense Intelligence Agency, the Central Intelligence Agency, and the National Security Agency. Much of the evidence is detailed, conclusive, and corroborated by multiple sources. Some of it is new information obtained in custodial interviews with high-level al Qaeda terrorists and Iraqi officials, and some of it is more than a decade old. The picture that emerges is one of a history of collaboration between two of America's most determined and dangerous enemies.
According to the memo--which lays out the intelligence in 50 numbered points--Iraq-al Qaeda contacts began in 1990 and continued through mid-March 2003, days before the Iraq War began. Most of the numbered passages contain straight, fact-based intelligence reporting, which in some cases includes an evaluation of the credibility of the source. This reporting is often followed by commentary and analysis.”
in The Weekly Standard

É óbvio que ninguém, do lado dos que sempre negaram a existência de ligações entre o regime iraquiano e a al Qaeda ("nem pensar!"), vai acreditar nisto. Muitos vão aproveitar a ocasião para dizer que se trata de mais uma maquinação dos serviços secretos norte-americanos, os quais, «obviamente», ajudaram a produzir o embuste das WMD. Pela minha parte, sempre desconfiei de tanta certeza na forma como se negava essa eventual relação (e o meu cepticismo fez-me granjear a fama de "ingénuo" ou de "bushista"). Seria, ou será, essa hipótese assim tão descabida? Não creio. E esta notícia volta a sustentar fortemente essa possibilidade.
ASSIM SIM
Muito bom o ’post’ de Rui Tavares no Barnabé, sobre o anti-americanismo. Rui Tavares faz muito bem em reconhecer que o anti-americanismo e o anti-semitismo existem (quando há tanta gente à esquerda a dizer que são uma falsa questão).
Permitam-me fazer a ponte entre a sua posição e a posição de um blogger de direita (moi même):
1) Criticar a política externa norte-americana ou, pontualmente, o governo dos EUA não é, à partida, sinal de anti-americanismo;
2) O anti-americanismo e o anti-semitismo (hoje em dia costumam andar de mãos dadas) estão, também, como estiveram no passado, presentes numa certa direita (eu conheço uns quantos...). Parece-me, contudo, evidente que, hoje em dia, surgem sobretudo da esquerda. Quem hoje disfarça o seu anti-semitismo - considerando-se, somente, «anti-sionista», ou explicando que a sua crítica é, apenas, dirigida a Sharon - é, sobretudo, a esquerda. Negar isso é negar o óbvio ululante. É sobretudo na esquerda (embora também em certas franjas da direita) que ainda se fazem ouvir os ecos do “L’Angalis est-il un Juif?”, livro de Louis Martin escrito em 1895, onde os judeus eram descritos como parasitas, gananciosos, mercantilistas, diabolicamente inteligentes e prontos a tomar de assalto o mundo. Rui Tavares e a malta do Barnabé não deveriam cair na tentação de falar corporativamente em nome da esquerda. Falo por mim: a maioria dos meus amigos são de esquerda e, infelizmente, poucos poderiam subscrever o ‘post’ de Rui Tavares. Por isso, caro Rui Tavares, falar em tendências não será assim tão descabido. O seu a seu dono;
3) É verdade que, muitas vezes, a direita «empurra», de forma gratuita e pouco precisa, a malta da esquerda para o ghetto do “Anti-americanismo”. É um pouco equivalente à forma como a esquerda empurra a malta da direita para a prateleira do «neo-liberalismo» e do «capitalismo», tomados quase como palavrões. O problema reside aí: à falta de argumentação, recorre-se aos slogans, aos estereótipos e ao preconceito. Nesse campo, mais uma vez, certa esquerda é campeã…

(Assiste-se, muitas vezes, nestas amistosas e saudáveis contendas entre a esquerda e a direita, ao extremar de posições. Este facto inquina, também, a discussão. Volto a falar por mim: já por diversas vezes estiquei a corda como resposta ao esticar de corda do lado de lá. Há tempos, numa discussão que mantive com o Rui Tavares, afirmava eu que, no conflito israelo-palestiniano, sou “tendencial e assumidamente pró-Israel”. À falta de argumentos (que os tenho, felizmente) restar-me-ia este: seria pró-Israel como reacção à toada geral, à vaga de fundo, ao sentimento generalizado que tende a diabolizar os judeus e os Israelitas e a vitimizar os líderes e organizações palestinianas.)

4) O anti-americanismo, como forma de racismo, tem por base três pecados: ignorância histórica, maniqueísmo e autismo. O anti-americanismo, como emoção, substitui a capacidade de pensar. É também a face mais visível do cinismo e da irracionalidade de quem entende desculpar a imoralidade de muitos pela culpabilização do “usual suspect”. É o estupidificante e automático “Blame América First!”.

quarta-feira, novembro 19, 2003

AINDA VOU A TEMPO?
O Independente está de parabéns. E os seus leitores também. Numa operação relâmpago, contratou mais um avançado direito: o «nosso» Luciano Amaral.
MARK STEYN
in The Daily Telegraph
“If you're so inclined, you can spend the week listening to long speeches by George Galloway and Harold Pinter. Or you can cut to the chase and get the message from Maulana Inyadullah. In late September 2001 Mr Inyadullah was holed up in Peshawar awaiting the call to arms against the Great Satan and offered this pithy soundbite to the Telegraph's David Blair:
"The Americans love Pepsi-Cola, we love death."
That's it in a nutshell - or in a nut's hell. And, like Mr Inyadullah, if it's Pepsi or death, the fellows on the streets of London this week choose death - at least for the Iraqis. If it's a choice between letting some carbonated-beverage crony of Dick Cheney get a piece of the Nasariyah soft-drinks market or allowing Saddam to go on feeding his subjects feet-first into the industrial shredder for another decade or three, then the "peace" activists will take the lesser of two evils - ie, crank up the shredder. Better yet, end UN sanctions so Saddam can replace the older, less reliable shredders, the ones with too many bits of bone tissue jammed in the cogs.
Well, Saddam's gone, on the run with no Grecian 2000 and all out of Quality Street. But it's a measure of the intensity of this psychosis that the "Stop The War" crowd may well manage to turn out more people this week than they did during the war. The war stopped six months ago, some 80 per cent of Iraq is peaceful and well governed, and the overwhelming majority of Iraqis I spoke to when I was there want the Americans to stay, rather than cut and run like the UN, Oxfam and co. But screw the Iraqi people; the "peace" crowd know better than the ignorant natives what's good for them.
So this week they'll be splashing red paint hither and yon to symbolise all the Iraqi blood spilled by Bush. In yesterday's Independent , Dr David Lowry noted that Medact, a respected NGO of British medical chappies, has decided that, since the start of the Iraq war in March, between 7,800 and 9,600 civilians have died. This is presumably the same Medact that a year ago predicted that in the Iraq war and the three months following 260,000 would die, with a further 200,000 succumbing to disease and famine, and another 20,000 getting killed in the ensuing civil war.
Given that they've now revised their figures downwards by 98 per cent, it would be nice to think the protesters might reduce their budget for gallons of Dulux Mesopotamian Burgundy Gloss by a commensurate amount. The rest of us should pelt Medact with rotten tomatoes symbolising all the blood that wasn't spilt. Alternatively, they could symbolise Harold Pinter's graphically leaking rectum. In this paper before the war, Mr Pinter assured us that millions of Iraqi children's rectums were chronically leaking blood - something to do with depleted uranium from the Yanks. In every medical facility I visited in western and northern Iraq, I inquired about this phenomenon and found no one who knew of a single sufferer.
If the anti-war cause is so just, it seems odd that it has to be so risibly "sexed up" by Medact and the rest, but the post-9/11 grand harmonic convergence of all the world's loser ideologies, from Islamic fundamentalism to French condescension, is untroubled by anything so humdrum as reality or logic. There's "no connection" between Saddam and al-Qa'eda, because radical Islamists would never make common cause with secular Ba'athists. Or so we're told by pro-gay, pro-feminist Eurolefties who thus make common cause with honour-killing, sodomite-beheading Islamists, apparently crediting Saddam with a greater degree of intellectual coherence than they credit themselves.
The fanatical Muslims despise America because it's all lapdancing and gay porn; the secular Europeans despise America because it's all born-again Christians hung up on abortion; the anti-Semites despise America because it's controlled by Jews. Too Jewish, too Christian, too Godless, America is also too isolationist, except when it's too imperialist. And even its imperialism is too vulgar and arriviste to appeal to real imperialists: let's face it, the ghastly Yanks never stick it to the fuzzy-wuzzy with the dash and élan of the Bengal Lancers, which appears to be the principal complaint of Sir Max Hastings and his ilk. To the mullahs, America is the Great Satan, a wily seducer; to the Gaullists, America is the Great Cretin, a culture so self-evidently moronic that only stump-toothed inbred Appalachian lardbutts could possibly fall for it. American popular culture is utterly worthless, except when one of its proponents - Michael Moore, Sean Penn, Susan Sarandon - attacks Bush, in which case he or she is showered with European awards and sees the foreign-language rights for his latest tract sell for six figures at Frankfurt. The fact that the best-selling anti-Americans are themselves American - Moore, Chomsky - is perhaps the cruellest manifestation of the suffocating grip of the hyperpower.
Too Christian, too Godless, too isolationist, too imperialist, too seductive, too cretinous, America is George Orwell's Room 101: whatever your bugbear, you will find it therein - for the Continentals, excessive religiosity; for the Muslims, excessive decadence; for Harold Pinter, excessively bleeding rectums.
So be it. This is a psychosis so impervious to reason that on Thursday those in the most advanced stage will pour into the streets to re-enact the toppling of Saddam's statue with Bush on the podium. The 40 per cent of Britons who merely think the President "stupid" will cheer from their sofas.
Two years ago, NBC held a discussion on the growing alienation of the Muslim world: the al-Munaif family who, after the Kuwaiti liberation, had "slaughtered sheep in tribute to one President Bush", were now disenchanted and had named their newborn son "Osama". While the Arabists on the NBC panel chewed over the problem thoughtfully, on this page I was more insouciant: there's no point trying to figure out which way a guy who sacrifices sheep will jump. That's the way I feel about this week's polls and protests. The Min of Ag has already sacrificed all the sheep, but, that detail aside, much of Britain is now about as rational on America as the al-Munaif family. My advice to Bush is: make sure you know where the exit is and try to avoid eye contact.”
O NOVO(?), SOFISTICADO E TOLERÁVEL ANTI -SEMITISMO
Um editorial no Daily Telegraph

“The liberalism of fools
18/11/2003
Anti-Semitism used to be known as the socialism of fools. Today it might more appropriately be known as the liberalism of fools. Last weekend's suicide bombing of two synagogues in Istanbul killed 23 people and wounded some 300, but it might have been far worse. According to the authorities, the death toll might have been up to 800 if security had not been tightened. Yet this massacre prompted a curious article in yesterday's Guardian by Fiachra Gibbons, who is an expert on minorities in the Ottoman empire. Rather than concentrate on the Islamist extremists responsible, Gibbons depicted a Jewish minority that had lived in harmony with its Muslim neighbours until the creation of Israel. "Of all the trials that have befallen them over the last 500 years, none has brought more threat than the existence of Israel." The mere existence of the Jewish state, apparently, "may unwittingly provoke attack".
What has happened to the liberal media in Europe that the slaughter of innocent worshippers and the desecration of ancient synagogues in Istanbul should evoke implicit criticism, not of the perpetrators, but of Turkey's ally Israel? Since the last attack on an Istanbul synagogue in 1986 by Palestinian terrorists led by Saddam's late protégé Abu Nidal, a great deal has changed. Then, the condemnation of the killers was universal and unconditional. Now, each new atrocity against Jews is greeted by new attempts at justification or relativisation. When Malaysia's Prime Minister Mahathir expounded his anti-Semitic conspiracy theory at a recent gathering of Islamic leaders, all 57 present applauded. Western responses were muted. As the Chief Rabbi, Jonathan Sacks, said yesterday: "Radicals are preaching hate and nobody is protesting."
Nor is the new anti-Semitism limited to the Muslim world. On Saturday, a Jewish school near Paris was burnt down. So common have such attacks become in France that Le Monde did not even consider this incident worth reporting yesterday, but President Chirac appears to have woken up to the danger - late in the day. A poll sponsored by the European Commission finds that Israel is now considered by EU citizens to be the greatest threat to world peace. A liberal consensus is emerging that holds Israel responsible for the resurgence of anti-Semitism. To blame the victim is to exonerate the perpetrator. The carnage in Turkey should be a warning to Europe."

terça-feira, novembro 18, 2003

TOMEM NOTA
Babugem. O blogue do Ricardo Gross. Obrigatório.

segunda-feira, novembro 17, 2003

DEAL WITH IT
Um grupo de jornalistas portugueses foi assaltado perto de Bassorá, no sul do Iraque. Um deles foi baleado, outro raptado. Ossos do ofício, dirão alguns. Imprudência, dirão outros. Óscar Mascarenhas, presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, não foi em cantigas. Poucas horas depois do incidente, não tinha dúvidas: a culpa era do governo português.
Há muito que Óscar Mascarenhas nos habitou àquele que parece ser o seu exercício preferido: afirmar, de vez em quando, umas tolices com o ar mais sério do mundo. Duvido que, passadas poucas horas do incidente, Óscar Mascarenhas soubesse de tudo. Óscar Mascarenhas desconhecia que tipo de acordo havia sido estabelecido entre as autoridades portuguesas e os jornalistas (se incluiria, por exemplo, escolta permanente). Não sabia se os jornalistas, por sua conta e risco, consciente ou inconscientemente, haviam descuidado as mais elementares regras de prudência ou de segurança. Não sabia em que circunstâncias aquele assalto havia sido perpetrado. E parecia esquecer que o Iraque não é propriamente o palco de um conflito clássico, opondo forças de uma coligação a forças perfeitamente identificáveis, devidamente organizadas, com uma conduta correcta do ponto de vista do respeito pelas convenções que obrigam, entre outras coisas, a respeitar o trabalho dos jornalistas. Não sabia mas foi expedito em acusar o governo. É fácil, é barato e aproveita-se para bater no bode expiatório do costume.
Mas mesmo que o soubesse, Óscar Mascarenhas deveria saber que a profissão de jornalista, em teatro de guerra, é uma profissão de alto risco, sujeita ao imponderável e ao livre arbítrio de forças sobre as quais não é exercido qualquer tipo de controlo. Existem zonas do Iraque que foram tomadas de assalto por uma horda de malfeitores, salteadores e terroristas que não respeitam ninguém. Nem mesmo jornalistas. A situação é perigosa e os jornalistas sabem-no. Ou, pelo menos, deveriam sabê-lo.
Toda esta questão remete-nos para uma diferença de atitude e de postura entre os jovens jornalistas de agora e o jornalistas de há trinta, cinquenta, setenta anos atrás. Perdoem-me se estou a ser injusto com a generalização, mas longe vão os tempos em que os jornalistas eram homens de «barba rija», com espírito de missão e aventura. Homens que não hesitavam em se responsabilizar pelos seus actos, principalmente quando arriscavam e ultrapassavam a barreira do que era aconselhável, ou seja, nunca culpando terceiros por infortúnios avulsos ou ameaças reais à sua integridade física. Alguém imagina o Cronkite a queixar-se, na CBS, da falta de apoio ou protecção do governo dos EUA? Ou o Mário Rui de Carvalho a culpar o governo norte-americano por ter sido preso no Líbano? Alguém imagina o Fernando Pessa, aos microfones da BBC, lamentando-se “caros ouvintes, hoje ia-me caindo uma bomba em cima e o presidente do conselho não mexeu uma palha para o evitar”?
Eu sei que estou a esticar a corda, mas a sensação com que se fica, depois de escutar certas intervenções de certos profissionais do ramo – os quais, supostamente, representam a corporação - é a de que, hoje em dia, certos jornalistas (e digo ‘certos’ para ser mais justo) fazem questão de exigir uma espécie de «tapete vermelho» para que possam fazer a cobertura do conflito. Uma espécie de «abram alas que somos jornalistas». A esses, seria pertinente sussurrar-lhes ao ouvido: deal with it!

quinta-feira, novembro 13, 2003

quarta-feira, novembro 12, 2003

LET SLEEPING DOGS LIE
ou Demagogia Com Demagogia Se Paga

Escreve o Barnabé:

"Morreram pelo menos 12 italianos. Se os portugueses já tivessem partido, teriam sido eles. Italianos, portugueses, americanos ou iraquianos. É igual. São mortes estúpidas por causa de uma guerra estúpida, justificada por uma mentira."

Está claro que, se em vez dos italianos, portugueses, americanos ou iraquianos que, corajosa e destemidamente, se encontram no terreno a tentar fazer daquilo um país minimamente decente e seguro (enfrentado uma horda de terroristas a soldo e fanáticos ligados ao antigo regime), se em vez desses, dizia, fossem morrendo, em cadência doce, silenciosa e discreta, centenas e centenas de iraquianos por ano, às mãos de um tirano e dos seus séquitos (que tinha o higiénico hábito de os armazenar em valas comuns), nada disso seria estúpido. Nem haveria uma guerra estúpida (justificada ou não pela mentira). Tudo estaria tranquilo. O mundo estaria mais seguro. Tudo estaria na mesma.

terça-feira, novembro 11, 2003

VASCO PULIDO VALENTE
Portugal, em… 1977:

A Universidade (?)
in Diário de Notícias, 13-5-1977
“Dizem os jornais que há outra crise na Universidade. E, nestas alturas solenes, deve o País ficar sumamente grato aos seus académicos, estudantes e professores, por tão simpáticos esforços. É que, se repararem bem, a única coisa que a Universidade tem de universitário são as crises. Só as crises acenam vagamente para a presunção de que se trata ali de gente adulta e alfabeta, gozando do justo privilégio histórico de desobedecer às autoridades do Estado, espatifar os dinheiros públicos e viver de falsos pretextos. Numa repartição ou numa fábrica, numa escola ou num bordel, certas cenas teriam um alto grau de probabilidade de acabar mal. Saber que as mesmas cenas, elevadas ao respeitável estatuto de crise, acabarão bem, assegura-nos sem margem para dúvidas que estamos em presença da Universidade.
Uma segurança que é, de resto, igualmente necessária ao governo. Se a Universidade não existisse, como a maior parte do tempo parece não existir, o Governo não podia reformá-la e ver-se-ia na desagradável obrigação de criar uma. Ora os governos não gostam de criar Universidades, mas adoram reformá-las, que é uma tarefa nobre e sentimental, feita a decreto, despacho e comissão, e tanto mais inocente quanto não serve para nada, nem se arrisca a inquietar ninguém.
Os pais entretanto, estão tranquilos. Na falta da Universidade ficavam sem sítio onde pôr os filhos, que modernamente são muito incomodativos. Assim, pelo menos, mantém-se a doce ilusão de que as crianças «andam a tirar o curso» para serem felizes e ilustradas quando forem crescidas, ganharem muito dinheirinho e mandarem os filhos deles para as crises da Universidade.
O pior é que, em Portugal, excepto talvez no célebre inconsciente colectivo, não há, nunca houve, Universidade. Em terras menos pitorescas, entende-se por Universidade uma comunidade de professores e alunos, dedicadas à criação e transmissão do saber. Percebe-se, como diria um Secretário de Estado, por onde passa o problema. Os vários barracões, estilo «grandeza nacional» ou «preconstruído», onde por aí se ministram umas palestras chamadas aulas, aspiram ao nome mas não correspondem à coisa.
Comunidades não são. Não são autónomas, não se auto-administram, não implicam a vida em comum de professores e alunos. Nuns quartos com filas de carteiras ocupadas por seres conhecidos como alunos, outros seres conhecidos como professores, nos curtos intervalos dos seus empregos, aliviam-se de umas frases. Fora isso, não se encontram, não conversam, não discutem. A estação do Rossio é uma comunidade mais coesa e solidária.
Os professores dividem-se em duas categorias fundamentais: os que deviam ser com urgência promovidos a alunos e os aceitáveis como professores. Os primeiros dividem-se ainda em duas espécies: os que confessam e os que disfarçam. Os que confessam costumam propor aos alunos «estudarem juntos» ou «vencerem juntos as dificuldades», mas raramente receberem juntos o ordenado. Os que disfarçam em vez de «darem» uma «cadeira», «dão» um livro (em Ciências Sociais geralmente cartilhas rançosas do marxismo como Poulantzas e Marta Harnecker) e, nos apertos, armam uma confusão verbal para cobrir a retirada. Quanto aos professores – professores contam-se pelos dedos os que têm tempo – e, ganhando um catedrático 15 contos por mês, ao fim de vinte sete anos de trabalho, quem pode censurá-los?
Os alunos, por seu lado, são um caso. Para se ser aluno das crises da Universidade basta ter passado pelas crises do liceu e apresentar certidão de nascimento, dez retratos, doze atestados de vacina e licença de motocicleta. Não é, por exemplo, preciso escrever sem erros de ortografia, ou estar ciente de que o predicado gosta de concordar com o sujeito, ou saber o que as palavras significam. Quase todos os alunos mostram, aliás, uma saudável embirração pela leitura, assaz prometedora para o desporto nacional, o concurso da Eurovisão de 1984 e os movimentos revolucionários do futuro.
O assunto da criação de ciência é, como se calculará, embaraçoso. Se descontarmos três ou quatro dezenas de extravagantes que persistem em fazer investigação, sem meios e sem dinheiro, com o propósito principal de estragarem a vida, o que há é o nada cheio de coisa nenhuma. As Universidades de Lisboa e do Porto nem sequer têm uma Imprensa Universitária; e o que a de Coimbra publica (p. e., a colecção dirigida pelo Prof. Silva Dias) não se vende em Lisboa por compreensível orgulho regionalista. Revistas, nem uma (excepto a Análise Social, que o Prof. Sedas Nunes salvou de sucessivos governos, com uma obstinação poética que ninguém lhe encomendou e ninguém lhe agradece). Em matéria de doutoramentos, a Universidade continua a abster-se num pudor todo feminino; o que só lhe fica bem e permite aos aspirantes à dignidade ir laurear para a Europa. Seria, efectivamente, absurdo esperar que a Universidade pensasse em Portugal. Em Portugal, pensa quem pode e copia quem deve.
E chegamos, assim, à transmissão do saber. É este o ponto mais crítico da situação. O saber vem tradicionalmente de Paris (e um pouco de Inglaterra e da América) para ser aqui produzido, plagiado e metido em artigos «intelectuais». Mas, ao preço a que anda o franco livreiro e com as complicações de divisas, nos dias que correm vem cada vez menos saber. Quando deixar de vir, não haverá maneira de transmiti-lo e a Universidade acaba fatalmente a grunhir. Mas por enquanto existe saber suficiente para seis meses de sebentas e prelecções, sobretudo no capítulo «transição para o socialismo», que particularmente nos interessa. É certo que, fora esse fascinante tema, quase tudo o resto que se ensina não tem a mínima relação com a sociedade portuguesa e com as suas presentes necessidades. Trata-se, porém, de um pequeno pormenor que só preocupa os fanáticos.
A Universidade? Não conheço.”

segunda-feira, novembro 10, 2003

DAR PARA LEVAR. LEVAR PARA DAR
Das coisas que mais gosto e valorizo na blogosfera, é esta ideia do "quem vai à guerra dá e leva". Como diz o povo, e com razão: "da discussão nasce a luz". Ou qualquer coisa do género. Rui Tavares, do Barnabé, já tinha dado e, depois, levado. Agora voltou a dar. Mas também já voltou a levar. Lá está: estou a conhecê-lo melhor. E ele a mim. A blogosfera é linda. E hoje choveram gatos e cães.

domingo, novembro 09, 2003

PND
O congresso do Partido da Nova Democracia foi mau demais para ser verdade. Manuel Monteiro não existe.
NÃO HÁ PACIÊNCIA
Carlos Zorrinho, político socialista e professor universitário (ex de moi même), pessoa íntegra e atenta, escreveu no Diário do Sul (um jornal regional de Évora):

”A democracia portuguesa vive tempos difíceis e geradores de enormes dilemas para aqueles que fazem da sua defesa, o combate cívico crucial. Um desses dilemas, é aquele que faz opor na actual conjuntura, justiça e representação, dois pilares determinantes da matriz democrática. A incapacidade de lidar com esse dilema, tem vindo mesmo a fragilizar a acção política do maior partido da oposição, com óbvio prejuízo para a regulação e controlo do exercício do poder em Portugal. (...) Continuo a pensar que o objectivo final de quem se apraz a lançar areia na engrenagem do processo Casa Pia é a implosão da investigação sem denúncia nem descoberta dos verdadeiros implicados.”

Carlos Zorrinho tem meia razão: notou-se uma incapacidade em lidar com um facto. Não com um dilema. Com um facto: a prisão preventiva de um político no activo. E a incapacidade foi toda do próprio Partido Socialista.
Carlos Zorrinho perdoar-me-á a franqueza, mas já não há pachorra para esta retórica dos “tempos difíceis”, da “crise”, do “lançar areia” e dos “dilemas” da democracia portuguesa. Não há crise na democracia portuguesa. Há uma crise económica. Pode haver uma crise de valores. Mas a democracia portuguesa, e o Estado de Direito, estão bem e recomendam-se (apesar dos defeitos e do caminho a percorrer). Ou já não há memória?
Carlos Zorrinho pode ter toda a convicção do mundo na inocência de Paulo Pedroso. Mas a sua convicção, ou a de Ferro Rodrigues, não pode extravasar para a esfera política ou judicial. Essas convicções têm de ser geridas com parcimónia e discrição por parte de quem tem responsabilidades políticas. Ou seja, por parte de quem tem o dever de zelar pelo tranquilo funcionamento das diversas instituições. Não pode ser aventada a ideia, como Carlos Zorrinho parece querer fazer, de que “os verdadeiros implicados” ainda estão a monte. Eu não sei. Carlos Zorrinho também não. 99,99% da população portuguesa não conhece Paulo Pedroso. 99,99% da população portuguesa não conhece, nem tem de conhecer, os fundamentos dessas “profundas convicções”. 99,99% da população aguarda o desfecho do caso no local onde deve ter lugar: nos tribunais. Não nas cabeças dos lideres socialistas, no Largo do Rato ou na Assembleia da República. É isso que significa vivermos num Estado de Direito. Foi esse “extravasar” e foi essa “incapacidade em lidar com” que colocaram o PS numa situação difícil, após sucessivos tiros no pé, carapuças enfiadas despropositada e desnecessariamente, e a revelação de uma falta de sentido de Estado gritante.
Em perspectiva, o PS parece nunca ter-se refeito da hecatombe da noite das eleições autárquicas, seguida de um simples e normal facto em democracia: os portugueses escolheram outro partido para governar. O PS tem de perceber que o actual governo está a cumprir um mandato de quatro anos e que de pouco servem essas insinuações demagógicas e desesperadas do «neo-fascismo», «neo-liberalismo» e «neo-conservadorismo». Não passam de slogans gratuitos, próprias de outra esquerda, da qual o PS parece não querer descolar-se.
Hoje, Ferro Rodrigues voltou a falar das “tantas aberturas de telejornais contra mim.” Este discurso é triste, ridículo e infantil. Seria bom que Ferro Rodrigues lesse a parte final do artigo de Carlos Zorrinho:

“Neste caso, no entanto, com lucidez, o dilema pode dar origem a um jogo de soma positiva, dando á justiça o que é da justiça e à política o que é da política, esperando da justiça o apuramento da verdade sobre o processo Casa Pia e da política o julgamento democrático da governação e das suas consequências”.

É isso mesmo, Dr. Carlos Zorrinho.

sábado, novembro 08, 2003

PRÉMIO "AQUELA VODKA ESTAVA MARADA"
Retirado do Picuinhices:

"Hugo Tente, da Quercus, prevê que com o comboio de alta velocidade haverá mais gente a viajar e por isso mais poluição.

«As pessoas ficam com a noção de que é muito mais fácil, por exemplo, ir de Lisboa ao Porto. Em vez de fazerem uma viagem para outro local qualquer, se calhar muito mais curta, passam a fazer aquela», disse o ecologista.

«No somatório total de um ano estas novas vontades das pessoas se deslocarem acabam por se reflectir em muito mais viagens», adiantou Hugo Tente.

A Quercus defende ainda que para evitar esse possível aumento da poluição, sejam adoptadas medidas para dissuadir o uso do avião e também do automóvel."

AINDA SOBRE AS REACÇÕES À SONDAGEM
Leiam esta posta. É da corajosa e minha amiga Ana. E é sobre Israel e a Palestina.
HITCH
Eu não engano ninguém com o meu nickname: MacGuffin. Sei que não consigo passar sem o Otto Preminger, o Fritz Lang, o Billy Wilder ou o John Huston. Mas Alfred Hitchcock será sempre um caso especial. Por exemplo: estou recorrentemente a lembrar-me dos seus filmes. Mesmo os «menores» (há menores?). Ontem lembrei-me de Lifeboat (“Um barco e nove destinos”, 1944). Lifeboat é, juntamente com Rope e Rear Window, um dos filmes em que Hitchcock filma recorrendo a um único cenário, numa aparente mas falsa «simplicidade» formal.
Lifeboat conta a história de nove sobreviventes de um naufrágio, provocado pelo bombardeamento de um navio norte-americano por um submarino alemão. Nove personagens – todas diferentes e complexas - são empurradas para cima de um bote salva-vidas, e «obrigadas» a conviver entre si. Entre eles, encontra-se Willy (Walter Slezak): o alemão que dirigia o submarino. Willy, escondendo a sua identidade, revela-se o mais inteligente, forte e confiante de todos. Com o passar do tempo, as restantes 8 personagens deixam que Willy passe a comandar o bote. E Willy fá-lo com uma intenção: conduzi-los na direcção de um navio alemão. Mais tarde, retirada a máscara e descoberta a sua identidade, Willy acaba a ser linchado pelos outros passageiros.
O filme gerou muita controvérsia em 1944/45. Houve quem tivesse acusado Hitchcock de propaganda, houve quem o tivesse acusado de tentar nivelar moralmente tudo e todos (uma vez que os defeitos e os tiques dos outros passageiros também não eram escamoteados). Houve, ainda, quem tivesse insinuado que, com a sequência do linchamento (uma sequência particularmente brutal), Hitchcock quisesse dizer que os que têm razão (os 8 que estavam a ser enganados) a podem perder.
Pela minha parte, vislumbrei sempre uma parábola politico-filosófica, na forma como, perante a aparente superioridade, tenacidade e racionalidade de Willy, os restantes (na sua maioria uns pobres coitados) fizeram repousar nas suas mãos os seus próprios destinos. E foi então que me lembrei de Isaiah Berlin. Mais concretamente, de uma carta sua dirigida a George Kennan, como resposta ao comentário deste em relação ao seu livro Political Ideias in the Twentieth Century (mais tarde incluído no livro Four Essays On Liberty):

”When armies were slaughtered by other armies in the course of history, we might be appalled by the carnage and turn pacifist; but our horror acquires a new dimension when we read about children, or for that matter grown-up men and women, whom the Nazis loaded into trains bound for gas chambers, telling them that they were going to emigrate to some happier place. Why does this deception, which may in fact have diminished the anguish of the victims, arouse a really unutterable kind of horror in us? The spectacle, I mean, of the victims marching off in happy ignorance of their doom amid the smiling faces of their tormentors? Surely because we cannot bear the thought of human beings denied their last rights – of knowing the truth, of acting with at least the freedom of the condemned, of being able to face their destruction with fear or courage, according to their temperaments, but at least as human beings, armed with the power of choice. It is the denial to human beings of the possibility of choice, the getting them into one’s power, the twisting them this way and that in accordance with one’s whim, the destruction of their personality by creating unequal moral terms between the gaoler and the victim, whereby the gaoler knows what he is doing, and why, and plays upon the victim, i. e. treats him as a mere object and not as a subject whose motives, views, intentions have any intrinsic weight whatever – by destroying the very possibility of his having views, notions of a relevant kind – that is what cannot be borne at all.”

É esse engano, esse logro e esse artifício, levado a cabo por homens com capacidade para o fazer contra outros, que esteve tão presente naquilo que, há dias, eu escrevia sobre o Sec. XX: “um século pontuado por desastres resultantes não tanto dos problemas mas sim das soluções, não tanto de forças alheias à vontade humana mas de ideias e de acções ditadas pelas ideias.”


O ABSURDO
Escreve Miguel Sousa Tavares, no Público:

"Em segundo lugar, é natural que os europeus e o resto do mundo pensem que a maior ameaça actual à paz mundial venha de Israel, antes mesmo que do Iraque, do Irão, da Síria, da Coreia do Norte ou... dos Estados Unidos de Bush. Foi isso que os europeus responderam e responderam com toda a lógica. Há vinte anos que eu penso o mesmo. Há vinte anos que eu penso que, se houver terceira guerra mundial, ela surgirá por causa de Israel e da sua continuada cegueira e tentação de resolver o problema palestiniano, não através de um qualquer acordo de paz, mas através, desculpem, da "solução final" - do extermínio político, cívico e, se necessário, humano dos palestinianos (...)
Shimon Peres não tem razão para o seu optimismo quando afirma que "o terror (o dos palestinianos, claro...) está condenado porque não traz quaisquer sinais de futuro, alimenta-se do ódio do passado". É precisamente o contrário: o terror a que os palestinianos lançam mão alimenta-se do ódio do presente, causado pelo terror israelita, e subsiste exactamente porque não há, para os palestinianos, qualquer sinal de esperança no futuro."


Estou de acordo com Miguel Sousa Tavares (MST): de facto, há muitos anos que vejo em MST um gritante e estúpido ódio a Israel. Para MST, Israel é um aborto histórico; o sionismo foi, e é, um movimento extremista; os atentados bombistas não passam de armas caseiras dos «pobrezinhos» e dos «oprimidos» (como se, do lado dos pobres e oprimidos, se pudesse justificar tudo e pudesse reinar uma situação de impunidade cega); o «problema judeu» nunca existiu; o Estado de Israel é uma invenção do holocausto (com 60 anos).
Há dias, escrevi aqui: "no conflito israelo-palestiniano sou tendencial e assumidamente pró-Israel. Porque tenho memória. Mas não sou cego". Ao contrário da de MST, a minha memória serve para ambos os lados. Eu não me esqueço de Avraham Stern, de Yizhak Shamir e Yellin-Mor, assim como não me esqueço do Irgun – grupos, aliás, que o Haganah, o braço militar do ‘establishment’ sionista, em boa hora aniquilou. Não me esqueço de Deir Yassin, nem do atentado ao Hotel Rei David. E não me esqueço de quem matou Rabin.
Mas também me lembro das palavras de Nasser em 1967: “o nosso único objectivo é a destruição de Israel”; seguidas das do presidente Aref, do Iraque: “O nosso propósito é claro: fazer com que Israel desapareça do mapa”; e das de Ahmed Shukairy, o dirigente da OLP, a 1 de Junho do mesmo ano: “Os judeus da Palestina terão de partir... a antiga população judaica que venha a sobreviver poderá ficar, mas é minha convicção que nenhuma delas sobreviverá”. E também não esqueço que a Fatah e a OLP foram filhas ilegítimas do Irgun na utilização cientifica do terror. Também não me esqueço que os objectivos principais da OLP estavam lá, preto-no-branco: uma Palestina livre e a destruição do estado de Israel. Não me posso esquecer dos Jogos Olimpicos de Munique e do Setembro Negro. Recuso-me a esquecer os atentados em Viena e Roma nos check-in da El-Al, ou do massacre de 50 crianças israelitas à queima-roupa num kibutz. Não me esqueço da atitude de Arafat em Camp David (MST considera que "não seria um bom acordo", porque para MST um bom acordo seria a pulverização do estado de Israel, esse país de "demónios" sionistas que passam o tempo todo a falar no "povo escolhido"). Nem me esqueço da recente invenção do "massacre de Jenin".
Para MST é tudo muito simples. Está aí uma sondagem para o provar. As vitimas estão identificadas, os carrascos também. Acontece que, neste caso, não nos podemos guiar por uma sondagem. O problema é demasiado complexo. Temos, por exemplo, de revisitar as raízes do fundamentalismo e do pior nacionalismo árabes. Temos de observar o profundo e reiterado sentimento anti-semita, impregnado nas ruas daquela região (o Mein Kampf e os Protocolos são livros de cabeceira lá como, por exemplo, no seio da comunidade árabe de Londres). O anti-semitismo vem de longe, mas a animosidade mais radical não é milenar. Basta recuar, para o efeito, ao princípio dos anos 20, para verificar como a coabitação entre árabes e judeus fazia inveja à de hoje. Os judeus representavam, então, 10% da população. Eram uma minoria e não «chateavam» ninguém. Em 1921 Amin al-Husayni foi empossado pelos britânicos como Grande Mufti de Jerusalém. Em pouco mais de 10 anos, al-Husayni perpetrou o assassinato de centenas de árabes e judeus moderados. Lançou as sementes da pior propaganda anti-semita que perdura até aos nossos dias. Amin al-Husayni: o homem que venerava Hitler e que tinha como amigo Himmler. A história é longa e intricada.
Eu sei que muita injustiça foi cometida por Israel. Houve excessos, erros e, a espaços, uma desproporção de meios. E existe uma franja de fundamentalistas encartados do lado israelita (que muitos gostam de confundir com o Likud). Mas a retórica de MST – de que os ataques suicidas palestinianos são uma manifestação «inocente» e circunstancial, ligado ao desespero de uma população – não colhe. E não colhe porque os ataques são organizados, patrocinados, financiados, têm uma marca e têm responsáveis.
Analisada ao pormenor, a retórica de MST não servirá, também, o «outro» lado? Poder-se-á dizer que os israelitas também lutam e defendem o seu povo, também actuam preventivamente contra ataques futuros, à sua maneira, com as suas armas e com os seus meios. Superiores, é certo, mas são os seus. E se calhar numa luta que não é assim tão desigual. Se deixarmos de lado o grotesco exercício da contabilidade dos mortos, se calhar o terrorismo cego e indiscriminado contra civis em Israel é bem mais cruel e medonho do que se pensa. Deveremos menosprezar o seu efeito na memória colectiva dos judeus? Devemos continuar a diabolizar Israel e a vitimizar os líderes palestinianos? Não admira que, a ocidente, onde a memória é fraca, a ignorância histórica abunda e certos opinion-makers torcem, descarada e desaforadamente, por um dos lados, se pense o absurdo. Arafat e os seus séquitos - os maiores responsáveis pelo destino do seu povo - vão continuar a agradecer as 'pancadinhas nas costas'.
E?
«O 1% de americanos mais ricos, detêm agora mais de 40% da riqueza do país». A frase está no Cruzes Canhoto e no Blog de Esquerda. A fonte: o The Guardian.
A forma como se acena com essa equação (por exemplo: “21% da população mundial controla 78% da produção de bens e serviços”), é inconsequente. Por si só, não significa nada. Para significar alguma coisa, terão de se avaliar outros indicadores: o nível de riqueza global do país e como se encontra efectivamente distribuída; o peso da classe média; a percentagem da população que vive no limar da pobreza. E por aí fora. Apetece perguntar: esses indicadores terão aprioristicamente de colidir com estados de justiça ou coesão social? Não. É liquido pensar-se que há pobres por haver ricos? Que uns implicam os outros? Não. Assim como é perfeitamente descabido olhar para esses números e, automaticamente, imaginar um mundo dividido entre exploradores e explorados - na pior acepção da palavra.
Estes indicadores e estas comparações não são novas. Dão sempre jeito em matéria de retórica. Atiram-se, muitas vezes, em jeito de slogans dramáticos. É como aquela história de se afirmar, em jeito de indignação, que, nos países do Terceiro Mundo, os trabalhadores ganham 20 vezes menos que os do Ocidente. Por si só, essa comparação também não significa nada (embora possa significar). Para significar, terão de se analisar: o padrão e o custo de vida (provavelmente, os bens essenciais também custarão 20 vezes menos); o peso da economia paralela e dos meios de subsistência não «palpáveis»; qual o tipo de regime político (nalguns casos entre o despotismo e a pseudodemocracia). Entre outros indicadores.
ENTÃO?
Leio, no Memória Inventada: "JPC fez uma refência ao Memória, ensaiando alguma modéstica de tubo de ensaio. Até um certo ponto tem razão: ele é o nosso ódio de estimação na faixa etária dos 20 aos 30 anos. E foi com algum alívio que confirmámos não haver nenhuma alusão ao Terceiro Reich nas poucas palavras que JPC nos dedicou. É que quem lê JPC sabe que o Terceiro Reich é uma fonte inesgotável de ensinamentos.".

Insinuação rebuscada, de mau gosto e injusta. Vá lá, V.: you can do better than that.
FOI?
O Miniscente afirma que “numa sociedade que passou a ser policentrada, globalizada e sem perímetros para aquilo que já foram as suas formações clássicas (modernas), hoje cada vez mais interpenetradas de modo múltiplo e capilar, é evidente que "as opiniões antagónicas" só podem ocorrer circunstancialmente e sem serem sequer regidas por referências mais ou menos pesadas (de esquerda ou de direita)” e “O ideológico foi um "grande código" (N. Frye) totalizante e programático, hoje transformado em coisa documental e datada, que alimentou e foi fonte do agir de universos diferenciados e, aí sim, antagónicos (de esquerda ou de direita). Convocá-lo, hoje em dia, é como integrar Aljubarrota na discussão sobre as relações entre a Índia e o Paquistão.”

Pois. Acontece, caro Luis, que, por diferente que seja a tua postura, e por muita interpenetração e capilaridade que por aí se vislumbre, há quem, à direita e à esquerda, julgue (consciente ou inconscientemente) e observe com base nessas referências. Muitas vezes radicalizando-as. Isso é inegável.
O “ideológico” pode ter sido um grande código, mas continua a ser uma matriz, produtora de cosmovisões, sensibilidades e convencionalismos (repito: à esquerda e à direita). As ramificações podem eventualmente tocar-se, mas os eixos caulinares (o esquerdo e o direito) são distintos e identificáveis. Isso nota-se, sente-se, pressente-se. A pedra de toque não está no facto de se convocar o “ideológico” (a esquerda vs. a direita). Está na capacidade de se saber evitar os quatro pecados venais: presunção, dogmatismo, fundamentalismo e autismo. Sem nunca esquecermos que a “esquerda” e a “direita” existem.

sexta-feira, novembro 07, 2003

2 X PHILIP LARKIN

Maturity
A stationary sense... as, I suppose,
I shall have, till my single body grows
Inacurrate, tired;
Then I shall start to feel the backward pull
Take over, sickening and masterful -
Some say, desired.

And this must be the prime of life... I blink,
As if at pain; for it is pain, to think
This pantomime
Of compensating act and counter-act,
Defeat and counterfeit, makes up, in fact,
My ablest time.
1951

Strangers
The eyes of strangers
Are cold as snowdrops,
Downcast, folded,
And seldom visited.

And stranger's acts
Cry but vaguely, drift
Across our attention's
Smoke-sieged afternoons.

And to live there, among strangers,
Calls for teashop behaviours:
Setting down the cup,
Leaving the right tip,

Keeping the soul unjostled,
The pocket unpicked,
The fancies lurid,
And the treasure buried.
1950
EU SABIA
Eu sabia que "cruxificá-lo" não me soava bem... Mas, àquela hora da noite, já tudo se desculpava... Ó Rui Tavares: obrigado! (teve de ser um tipo que não vai à bola comigo a avisar-me. Obrigado amiguinhos...). Mas, vamos por partes.

"Onde é que eles vão buscar estas coisas?". Foi neste livro, caro Rui (pois, fiz um telefonema...).

O "Contra a Corrente", que tanto o aborrece, foi retirado do título do livro de Isaiah Berlin "Against The Current" - que é, como bem sabe, um livro sobre piscicultura ("seria fastidioso" explicar-lhe o porquê do título e da fonte).

Quanto ao tom e ao teor da sua 'posta', aconselhava-o a ser um pouco mais cordial com quem não conhece. Eu sei que essas coisas já não se usam, mas pode estar na presença de uma pessoa que ainda preza algum nível e alguma urbanidade nas discussões. Evite, também, essas generalizações das "piranhas comunistas" e do "defender denodadamente, contra ventos e marés, as ideias do governo do seu país e do governo dos EUA, bem como da maioria dos comentadores, directores de jornais". Você não me conhece, mas já vi que me colocou um rótulo e que me ligou aos “grandes interesses”.

Agora que o leio, penso: se calhar, ser contra a corrente é ser contra o dogmatismo e o preconceito, as vagas de fundo e a diabolização dos mesmos de sempre (Bush, EUA, Israel & Ca.) Ou, como disse um dia Orwell, falando para os seus correligionários da esquerda: “These things really happened, that is the thing to keep one’s eye on. They happened even though Lord Halifax said they happened.” Provavelmente, ser contra a corrente é poder concordar com um director de jornal quando achamos que ele tem razão, e não discordar só porque ele putativamente representa uma “corrente” ou a voz do dono. E o mesmo se aplica ao dono da nação imperial.
Ainda ontem escrevia, a uns amigos, que existe uma esquerda - civilizada, liberal ("seria fastidioso" explicar-lhe o que quero dizer com "liberal", por isso, avance lá com o chavão do "neo-liberalismo") e democrática - com a qual me dou muito bem. Uma esquerda que sabe ouvir com cabeça limpa opiniões antagónicas, que sabe pensar sem o peso da tralha ideológica, que sabe respeitar o próximo, que é tolerante. Uma esquerda com a qual gosto de trocar ideias, argumentos, discutir, e porque não, de vez em quando, concordar. É essa a esquerda que encontro no Memória Inventada, n' A Praia, no Blog de Esquerda, no Miniscente, no Ford Mustang, no País Relativo, entre outros. Você, caro Rui Tavares, não tem o estofo, a afabilidade, a honestidade intelectual para tais voos. Já vi que a minha posta, própria de um adolescente, o "fez rir". Escusava de enfiar uma carapuça que não tinha sido feita a pensar em si. E, no entanto...

PS: ignore a missiva que lhe enviei há dias.
A CABALA, NOVAMENTE
Hoje, na capa do Público:

”O ministro da Segurança Social e do Trabalho, Bagão Felix, determinou a realização, "com carácter de urgência", de uma investigação destinada a "identificar com rigor" as "irregularidades" detectadas na criação das chamadas lojas da solidariedade, no período em que Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso estiveram à frente do ministério.
Entre os factos apurados pela auditoria interna concluída em Maio contam-se a adjudicação ilegal das obras de instalação das lojas a uma mesma entidade, a existência de dois contratos com valores diferentes para o mesmo fornecimento e o desaparecimento de equipamento informático e audiovisual.”


Vislumbram-se, para breve, as reacções da ‘praxe’: Ferro Rodrigues volta a ser alvo de mais um ataque feroz, de mais uma tentativa de assassinato político, de mais uma pérfida e brutal perseguição, liderada por interesses obscuros, contudo identificados com a coligação conservadora, neoliberal e neofascista. A mesma que pretende, mais uma vez, enlamear o bom nome deste senhor. E por aí fora.

quarta-feira, novembro 05, 2003

ISTO DE BLOGAR VICIA...
Hoje, quando acabei de redigir uma carta dirigida à DGCI, no âmbito da minha actividade profissional, reparei que a mesma estava repleta de códigos estranhos, género < i>, < b> e < br>...
VARGAS LLOSA
No dia em que Mário Vargas Llosa esteve em Portugal, recebi um mail com o seguinte link. Nem de propósito.
Vargas Llosa falou, entre outras coisas, do perigo das utopias sociais, do espartilho que constituem as ideologias, das soluções supostamente perfeccionistas, mas potencialmente perigosas, aplicadas às sociedades. Vargas Llosa é um excelente escritor que insiste na lucidez e no desassombramento quando se debruça sobre questões políticas. Dirão alguns: conversa démodé, desnecessária, deslocada no tempo. Nada de mais errado.
Basta uma visita mais ou menos fugaz à história das ideias políticas (de Mably a Marx, passando por Babeuf, Saint-Simon ou Fourier) para nos apercebermos de que anda por aí muito boa gente entretida com exercícios de revisitação político-filosófica, socorrendo-se das mesmíssimas ideias responsáveis por um século (o XX) pontuado por desastres resultantes não tanto dos problemas mas sim das soluções, não tanto de forças alheias à vontade humana mas de ideias e de acções ditadas pelas ideias.
A intervenção de Vargas Llosa é tanto mais pertinente quanto mais nos debruçamos sobre a origem deste ressurgimento: as elites académicas e todo o milieu de intelectuais da esquerda mais radical que orbita à sua volta. É no seio das supostamente esclarecidas elites académicas europeia e americana - completa e alegremente analfabetas em matéria de filosofia política «hostil» (nunca leram uma linha de Oakeshott, Berlin, Hayek, Schumpeter, Popper, Aron ou Strauss, embora insistam, no caso de Strauss, em crucificá-lo a título póstumo) – é no seio destas elites, dizia, que assistimos ao ressurgimento de velhas ideias, incluindo aquilo a que Tom Wolfe denominava de Marxismo Rocócó, no seu livro Hooking Up. São estas elites que promovem Babeuf, atacando a propriedade e estigmatizando o papel do sector privado. São estas elites, e estes intelectuais, que exaltam Saint-Simon, sustentado uma fé inabalável na organização e planificação racional do sector produtivo, distributivo e científico, levada a cabo por seres supostamente superiores e esclarecidos (cientistas, intelectuais, industriais e artistas), responsáveis, mais tarde ou mais cedo, pela reconciliação dos seres humanos (como se os “seres humanos” fossem uma massa anónima e abstracta de objectivos e interesses homogéneos). São estas elites que, mais ou menos descaradamente, tentam propagar no campus o velho e bom marxismo quando, mesmo disfarçando com o abandono da ideia da «revolução», desejam, prevêem e amplificam a falência total do sistema capitalista, apontando-lhe os defeitos, tomando a árvore pela floresta, incitando ao ódio e ao maniqueísmo, recorrendo a slogans e gritos de luta (“Somos todos terroristas contra o império neo-fascista!”). Já para não falar do uso e do abuso do relativismo quando, por exemplo, perante a evidência da falência do modelo socialista, ainda recorrem, na esteira de Thomas Khun, aos paradigmas relativizantes, em que a tradicional frase “contra factos não há argumentos” foi substituida por outra: “contra factos há... paradigmas".
Vargas Llosa faz muito bem em tocar no assunto (omnipresente na sua última obra). Da mesma forma que a esquerda democrática e civilizada enche a boca para, e muito bem, denunciar Haider, Le Pen e o ressurgimento de ideias xenófobas e populistas no seio da sofisticada Europa, seria bom que olhasse para o seu lado e denunciasse, na mesma medida e com a mesma veemência, a forma como se assiste a uma espécie de retorno do radicalismo de esquerda, servido por velhas e nefastas ideias. Tão ou mais perigosas que o Sr. Le Pen. Já foram ao supracitado site?
URSULA RUCKER
Ela já tinha feito isto:



E, agora, fez isto:



Lembram-se da Annette Peacock? Ursula Rucker é uma espécie de Peacock da soul, criadora de ambientes sofisticados onde se misturam o jazz, a soul e a spoken word. As suas canções são receptáculos de pequenas histórias sobre vidas estilhaçadas pela violência, pelo abandono, pela incompreensão, pela impotência do sentimento. Um estilo musical entre o jazzy, o downtempo, o hip-hop e a soul, repleto de letras incómodas sobre a condição feminina, o pós-modernismo, a exclusão, o efeito preverso das novas tecnologias:

maybe
you'll download my life
edit my dreams
cut and paste my memories
While Bloods and Crips
claim 8th as last grade completed
seated face to monitor
use gang moniker and symbols
something like imbeciles
on the internet
cause they just did a drive by
but they ain't learned to read yet
but they self promotin' and gun totin'
on the internet

So I have one question

Are we gonna utilize it or become it?


Silver or Lead (!K7 Records, 2003) é um dos grandes discos de 2003.

terça-feira, novembro 04, 2003

AVIZ
É só para dizer uma coisinha (e o Pedro Rolo Duarte que me desculpe o umbiguismo blogosferiano): o Francisco José voltou em força e continua em grande forma.
MAI'NADA
Ana Sá Lopes, em artigo no Publico, disse o que tinha de ser dito:

“No Camarote no "Mullah" do Norte”
”Entre os 17 e os 19 anos, assisti a inúmeros jogos de futebol de cinco. Rapazes bem-comportados, frios, racionais, bem intencionados, inteligentes e que já, na altura, tinham lido muitos livros, batiam com a cabeça na barra de ferro que delimitava o campo quando eram expulsos - ou substituídos - do "plantel". Penso que retirei daí toda a minha "cultura futebolística" e naquele bater de cabeça de criaturas pacíficas contra uma barra de ferro uma síntese possível da irracionalidade subjacente ao fenómeno: não deverá haver, em sociedades alegadamente civilizadas, muitas situações que, em irracionalidade, sejam comparáveis ao futebol, à excepção dos casamentos e seus derivados.
Acontece que este fenómeno irracional, pelo prazer e felicidade que distribui por multidões, movimenta um circuito cabalístico de influências e poderes difusos, promiscuidades várias com agentes políticos e, evidentemente, milhões do Orçamento do Estado. Resistir ao beija-mão aos cardeais do futebol português é um acto corajoso e, em Portugal, o rosto dessa resistência é, evidentemente, o presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, que fez do combate à promiscuidade entre o futebol e as estruturas partidárias um programa político, muito antes da sua candidatura à Câmara do Porto. Recentemente, Mota Amaral, presidente da Assembleia da República, decidiu não aceitar a justificação das faltas dos deputados que não compareceram aos trabalhos parlamentares para irem assistir à final do Futebol Clube do Porto, em Sevilha.
Para Pinto da Costa, Rui Rio era já "o monstro". O presidente do F.C. Porto acabou de juntar um outro agente político à galeria: Mota Amaral. Pelas suas heresias, os dois não foram contemplados com o beneplácito do convite do líder religioso para a missa de inauguração do novo estádio do F.C. Porto. Aos deputados "faltosos" aos trabalhos parlamentares, mas presentes na final de Sevilha, foram prometidas comemorações a condizer.
Ontem, ao inaugurar os acessos ao novo estádio, pagos uns e outro com grandes contribuições de dinheiros públicos, Rui Rio foi alvo da fúria dos adeptos do clube. O grande incentivador do ódio é, objectivamente, Pinto da Costa, que continua a ter disponíveis, para genuflexões várias, boa parte da classe política portuguesa. Bajulado por uma imensa maioria e financiado por todos, Pinto da Costa continuará a saga de procurar submeter o poder político ao seu poder pessoal enquanto não se multiplicarem comportamentos políticos como os de Rui Rio e os de Mota Amaral. Com a afronta feita ao presidente da Câmara do Porto e ao presidente do Parlamento, o Presidente da República e o primeiro-ministro deviam ter uma palavra a dizer. Infelizmente, o mais provável é que, com mais ou menos desabafos privados, acabem sentados no camarote do "mullah" do Norte a dar vivas ao Porto e a quem o apoiar.”

OH, O ENFADO!
Escreve Augusto M. Seabra, na edição de 2 de Novembro do Público:

”Segunda-feira, 27 de Outubro. Despertar, ouvir a TSF - ontem, no seu comentário na SIC, Pacheco Pereira criticou a intervenção do Presidente da República. Iniciar o dia com a leitura do PÚBLICO; "Pacheco critica escolha de novo director do 'DN'", o que ele teria feito no seu blogue, Abrupto. Duas vezes Pacheco Pereira logo pela manhã? Ele costuma iniciar as entradas diárias no Abrupto com as notas de "Early morning blogs". No caso, achava-me eu, logo em "early morning", bombardeado com ecos de Pacheco Pereira - oh, o enfado imediato! (…) A questão, que se me afigura cada vez mais premente, é como a multiplicação de medias, e agora até agora o novo espaço comunicacional dos blogues na Internet, está afinal também a cristalizar e mesmo agudizar um efeito de sinal inverso, um retraimento no eco da opinião emitida, substancialmente reduzida a algumas figuras instituídas. E dessa situação Pacheco Pereira tornou-se actor e sintoma maior. (…) Pacheco Pereira tornou-se actor e sintoma maior de um atrofiamento. Não faltariam mais exemplos e também aqui longe de mim excluir-me de um sistema de que comparticipo. Mas é inquietante a formatação da opinião no espaço público em Portugal. Pelo menos considerá-la, é um desafio dos media - e a esses não há exterior na vitalidade de uma sociedade democrática.”

Sr. Balsemão, Sr. Paes do Amaral: dêem um emprego de comentador a este senhor!
E UM POUQUINHO DE SENTIDO DE HUMOR?
Celso Martins, no Barnabé, escreve sobre a UBL:

”Há coisas na natureza que a gente não percebe para que servem, como as moscas, por exemplo, ou a Nova Democracia. O mesmo acontece na blogosfera. Só uma pergunta: alguém é capaz de me explicar para que serve a União dos Blogues Livres (UBL) ? É certo que reúne um conjunto alargado de blogs portugueses situados à direita. Tudo bem. É certo que diz ser contra o perigo totalitarista marxista. Eu até compreendo e concordo que se seja contra. O primeiro problema é perigo? Dos muitos totalitarismos que por aí proliferam até me parece que o marxista é assim o que está em estado pior para se tornar agressivo. O segundo problema é: O que pretendem fazer? planear uma invasão a Cuba ou à Coreia do Norte? Arrombar umas sedes do PCP? Se não for pela legítima e desejável razão de fazer umas jantaradas, mais parece que anda aqui muita gente com falta de causas. Como Manuel Monteiro tão bem nos ensinou recentemente, às vezes quando não há causas formam-se partidos... ou uniões.”

Resposta:
1. No seguimento da criação do “Comando Blogues Livres”, braço armado da UBL especializado na imposição e manutenção da liberdade de expressão na blogosfera e no mundo, está prevista, e já agendada, a invasão de Cuba logo que, obviamente, o negócio de aquisição de armas, previsto no âmbito de um protocolo com o Ministro da Defesa, se conclua;
2. Há vários meses que dois elementos da UBL (e eu nem devia estar a dizer isto) convivem com o Sr. Kim, fazendo-se passar por seus conselheiros e amigos. A estratégia é a eliminação física do líder norte-coreano até ao final do ano;
3. Em parceria com a CIA e com a cadeia de restauração McDonald’s (a mais nobre das organizações neoliberais), a UBL tem estado a experimentar, ao longo deste ano, a eficácia de uma nova enzima, fabricada em laboratório norte-americano credenciado, que actuará junto do hipotálamo de modo a aumentar drasticamente a actividade da proteína Getridofit, a única capaz de reduzir, até um nível considerado seguro, as tendências esquerdistas de certos seres humanos;
4. Um dos membros da UBL, wonder kid em questões informáticas (autor do blogue 'A Causa Foi Modificada'), lançou uma plataforma de criação de blogues, com a designação ‘weblog.com.pt’, de modo a atrair o maior número de ‘canhotos’ (já conseguiu atrair vários) para, em tempo oportuno, os pulverizar da blogosfera;
5. A UBL está também a ultimar o lançamento de um “Manual de Sobrevivência” (com a colaboração da Hoover Instituition e do Cato Institute), a ser utilizado no caso de uma invasão inimiga (leia-se marxista, trotskista e monteirista), acompanhado de um kit de primeiros socorros que inclui, entre outras coisas, as obras completas de Hayek.
6. Finalmente, prevê-se o assalto às sedes do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português (no caso do BE há quem, dentro da organização, insista em raptar a Joana Amaral Dias, vá-se lá saber porquê…), no âmbito de uma acção que terá como slogan a frase “É só fumaça”.

PS: Para todos os efeitos, convém que todos os membros da UBL continuem a utilizar o pretexto das “jantaradas” como justificação para a manutenção desta nobre organização, sempre hirta e firme na defesa dos interesses… vocês sabem de quem.

segunda-feira, novembro 03, 2003

QUEM ESCREVE ASSIM É ROTH. PHILIP ROTH
“The summer that Coleman took me into his confidence about Faunia Farley and their secret was the summer, fittingly enough, that Bill Clinton’s secret emerged in every last mortifying detail – every last lifelike detail, the livingness, like the mortification, exuded by the pungency of the specific data. We hadn’t had a season like it since somebody stumbled upon the new Miss America nude in an old issue of Penthouse, pictures of her elegantly posed on her knees and on her back that forced the shamed young woman to relinquish her crown and go on to become a huge pop star. Ninety-eight in New England was a summer of exquisite warmth and sunshine, in baseball a summer of mythical battle between a home-run god who was white and a home-run god who was brown, and in America the summer of an enormous piety binge, a purity binge, when terrorism – which had replaced communism as the prevailing threat to the country’s security – was succeeded by cocksucking, and a virile, youthful middle-age president and a brash, smitten twenty-one-year-old employee carrying on in the Oval Office like two teenage kids in a parking lot revived America’s oldest communal passion, historically perhaps its most treacherous and subversive pleasure: the ecstasy of sanctimony.”

in The Human Stain (Vintage 2001, ISBN 0-099-28219-4)
UM POÇO DE HUMILDADE
José Saramago, o Nobel, em entrevista a Bárbara Guimarães, a Bela, anunciou que a sua próxima obra chamar-se-á “Ensaio sobre a lucidez”. Ainda segundo Saramago, vai ser um livro “político”. Mas, sossega Saramago, “que os políticos estejam tranquilos: não há retratos, nem aparecem na história”. Pergunta a doce Bárbara: “Mas deverão ler o livro? Aprenderão com o livro?”. Resposta de Saramago: “Se não conseguirem aprender com aquilo que o livro diz, então estamos perdidos quanto à possibilidade de ter um dia algum político que valha a pena.”(sic) Confirma-se: Saramago continua a revelar-se um ser humano humilde, despegado, modesto. Leva-se tão pouco a sério que até mete dó.
DE RASTOS
Ando entristecido. Acabrunhado. Febril. Desenganem-se: não foi por Marcelo Rebelo de Sousa ter chamado a atenção para o facto de Portugal estar agora no último lugar da tabela classificativa (atrás da Grécia). Para ser sincero, sinto que, nos últimos trinta anos, Portugal cresceu muito. Portugal está irreconhecível. É bom lembrar alguns factos. Na Europa próspera e progressista do principio dos anos 60, 40% da população total portuguesa não sabia ler nem escrever e 21% dos que o sabiam fazer não possuíam qualquer grau de ensino (nem sequer o básico). Não. O que me pôs de rastos foi a edição do Fórum TSF dedicada às eleições do Benfica. Mais de uma hora a ouvir aqueles comentários, levou-me à cama.

sábado, novembro 01, 2003

KIND OF BLUE
Em tempos de maior agitação e stress, para acalmar os nervos costumo recorrer a uma droga que, no meu caso, tem uma eficácia perturbadora. Não, não se chama “Lexotan”, “Xanax” ou “Valium”. A sua designação vai mudando, consoante o dia e a hora. Umas vezes apresenta-se sob uma forma matematicamente caótica, ou metodicamente desordeira e obtusa. Nesses dias chama-se “Thelonious Monk”. Há dias em que se apresenta em registo «cool», elegante mas complexo, designando-se “Miles Davis”. Noutras ocasiões, é sincopada, discretamente saltitante e melodiosamente memorável, com a denominação “Duke Ellington”. Noutros, ainda, é errática, obscura, original e vibrante, e responde pelo nome de Coltrane. Não sei o que seriam os meus nervos sem essa droga.

QUE VENHA O PRÓXIMO
A queda de Iain Ducan Smith não foi bonita de se ver. Assim como não foi bonita a forma como, durante o mandato de IDS, muitas das mais proeminentes figuras do partido conservador (Ann Widdecombe, William Hague, John Redwood, Michael Portillo ou Kenneth Clarke) se demarcaram do líder. IDS só pode ser acusado de não ter carisma e de não ter sido capaz de se adaptar aos tempos. Yes, folks, estes são tempos em que já não basta ter ideias, ser sério e minimamente decente. Tem de haver um trabalho de actualização doutrinária que conduza à aglutinação, ao drama e ao show-off (coisa que em Blair funcionou, até certa altura, de forma perfeita). IDS mostrou ter ideias e resistiu sempre à tentação demagógica. Mas, lá está, não chega. IDS foi uma espécie de Fernando Nogueira do partido Conservador. Um homem discreto (para não dizer apagado), que os conservadores sabiam ter sido eleito para preencher um hiato na liderança dos tories, incomodados que estavam com as posições europeístas de Kenneth Clarke, o homem que estava talhado (era o meu favorito) para o lugar, não fosse esse «euro-entusiasmo».
Relembro uma entrevista de IDS em Julho de 2002, conduzida por Simon Heffer para a The Spectator:

“I know what my party is. The trouble is, the British people came to see us as something else. One of the great success stories of modern politics was the way in which the left-wing press, inclunding too often the broadcast media, led by the Labour party, succeeded in painting and caricaturing the Conservative party and putting us into a box. And the box was marked ‘Nasty, Extreme, Strange’. I have to break us out of that.”

Não o conseguiu fazer.
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