O MacGuffin: Junho 2003

segunda-feira, junho 30, 2003

THE TRIFFIDS

Born Sandy Devotional, Life of Crime

Sunlight was hot, and your mother was calling
My chest burning, rising falling
Dog licking drips from our garage tap
Miles from nowhere just a little dot on the map

I believe you will lead me to a life of crime

Tore the clothes off our backs and looked into the sun
Fouled our mouths with the sin of our tongues
And with sand between our toes
And with stains on our sheets
Down there damn was done
because the flesh was weak
Flesh was weak, down there damn be done
And around our necks the shame was hung

I believe you will lead me to a life of crime

Now your tracks are still fresh
and the branches are broken
Nothing was stolen
but your window was open
I followed the tracks that you left behind
I followed the rail and the curve of your spine
And the grass still grows on the side of the road
Sun still burns
Rain still falls
Sin still burns little fiery holes
I hold on tight now to nothing at all

I believe you will lead me to a life of crime

Now my vision is dimmer
and the weather is colder
I went out for a ten-minute walk
that's the last thing I remember
That was the 5th, now it's December
Hey get well soon darling, I hope you recover

I believed you would lead me through this life of crime

I believe you would lead me as the blind lead the blind.

1988 White Hot Records, Australia
LARKIN, PHILIP

Visitem este site.
LARKIN, PHILIP

PLACES, LOVED ONES

No, I have never found
The place where I could say
This is my proper ground,
Here I shall stay;

Nor met that special one
Who has an instant claim
On everything I own
Down to my name;

To find such seems to prove
You want no choice in where
To build, or whom to love;
You ask them to bear
You off irrevocably,
So that it's not your fault
Should the town turn dreary,
The girl a dolt.

Yet, having missed them, you're
Bound, none the less, to act
As if what you settled for
Mashed you, in fact;
And wiser to keep away
From thinking you still might trace
Uncalled-for to this day
Your person, your place.

in The Less Deceived (1955)




WATER

If I were called in
To construct a religion
I should make use of water.

Going to church
Would entail a fording
To dry, different clothes;

My liturgy would employ
Images of sousing,
A furious devout drench,

And I should raise in the east
A glass of water
Where any-angled light
Would congregate endlessly.

in The Whitsun Weddings (1964)

domingo, junho 29, 2003

TOURADAS, II

Recebi, também do Zé Luis, o seguinte comentário ao ‘post’ sobre a tourada:
”Devo começar por dizer que gostei do teu "post" acerca das touradas.
Está extremamente bem escrito, apresenta argumentação de peso e sou forçado a concordar com muito daquilo que dizes sobre o assunto.
Não sou um aficionado militante, nem sequer me poderei considerar um aficionado, mas no entanto já presenciei várias corridas e contrariando toda a aparente racionalidade, não consigo vislumbrar essa violência sanguinolenta que tu e muitos apontam. Dito por outras palavras, a sua crueldade não me impressiona e até seria bem capaz de levar o meu filho de 2 anos a uma corrida.
Não! Não me considero uma pessoa particularmente insensível e gosto bastante de animais (apesar de distinguir bem a companhia de um gato da de um rato), impressionando-me sim, imagens como as que ví um destes dias num telejornal incluídas numa peça acerca dos cães abandonados por pessoas(??) que vão de férias.
O meu avô materno, figura que marcou fortemente a minha infância e adolescência, era um fervoroso aficionado e frequentador assíduo ao longo da sua vida das praças portuguesas e espanholas. Com ele fui pela mão às minhas primeiras corridas e era um regalo ouvir os seus comentários sabedores e verificar o seu genuíno entusiasmo por uma boa lide a cavalo ou por uma boa pega.
O meu avô nunca fez mal a uma mosca e era a perfeita antítese daquilo que se pode considerar uma pessoa violenta ou agressiva, como agricultor que era tinha uma relação muito forte com o campo e adorava animais (lembro-me bem o carinho com que tratava os cães da casa).
Quando me lembro do meu avô, penso no incompreensível e no ridículo que seria para ele se estivesse vivo, ouvir o que se diz desde há uns anos para cá acerca do espectáculo taurino.
Conheci ao longo da vida muitos outros amantes da "festa brava" e uma característica que me parece comum a todos eles é a sua adoração por animais. Ainda há poucos dias na televisão tive oportunidade de ver e apreciar a forma poética e até comovente como o cavaleiro tauromáquico Paulo Caetano falava dos seus cavalos, será ele um torturador de animais?
Por tudo isto mantenho o maior respeito pelas corridas de touros, seus participantes e aficionados. Apesar de eu pessoalmente passar anos sem entrar numa praça e de toda a racionalidade que se possa encontrar na argumentação contra o espectáculo de touros, há nele algo de místico que faz parte da nossa cultura e não se pode menosprezar.
Ao contrário de ti não sou conservador, mas tenho um toque tradicionalista, que mais não seja por rejeitar em absoluto a tendência totalitária de higienizar o mundo, que por vezes não é mais do que a tentativa de destruir culturas e tradições milenares por parte daqueles que não as têm (tu sabes de quem é que eu estou a falar...).
Para terminar deixa-me dar apenas um argumentozito a favor das touradas: os touros bravos de lide são ao longo da sua vida extremamente bem tratados, seguramente muito melhor do que quaisquer outros bovinos. Olé!”


O que mais me incomoda, no meio desta questão, é estar a trilhar o caminho do politicamente correcto, ao lado dos fundamentalistas dos direitos dos animais. Mas, como “quem diz o que pensa, não merece castigo”, aqui vai.

Como deves ter reparado, tive o cuidado de dizer que respeitava os aficionados. Tenho a noção clara de que estas coisas não se podem alterar por decreto, de forma abrupta e descontextualizada. Acredito que existe, inerente à tourada, uma função sociológica e psicológica da qual ainda se tira partido e com a qual se equilibram e mantêm determinadas tradições e ligações de grupo. Também não disse que os toureiros, forcados e agentes envolvidos na ‘festa’, sejam a personificação de frios torturadores temerários, envergando um olhar doentio e um sorriso macabro na hora de lidar a «besta». Acredito piamente na benignidade das intenções da maioria dos intervenientes. E acredito, também, que tratem bem os seus animais e que se emocionem genuinamente a falar dos cavalinhos. É bom lembrar que foram educados e socializados a gostar de touradas – tal como tu, quando referes a iniciação a que foste sujeito por parte do teu avô. Também o meu avô, agricultor e homem ligado à terra, tentou iniciar-me nestas coisas da tauromaquia, não falhando uma única vez a tradicional tourada de S. Pedro, em Évora (ou seja, a de hoje, dia 29). Contudo, neste caso, a influência paterna falou bem mais alto. Por culpa do meu pai, passei a observar a ‘festa’ com outros olhos. Por detrás do tal misticismo e da suposta arte, passei a observar um dissimulado exercício de violência para com um animal. E isso, caro Zé Luis, é irrefutável. A questão é, precisamente, esta: a manifestação artística, o misticismo, o espectáculo de entretenimento, valerão essa violência?

Dizes que sabes distinguir “a companhia de um gato da de um rato”. Quererás com isso dizer que há animais e animais. E há, depois, seres humanos. Não coloco os animais ao nível do ser humano. Reconheço a sua inferioridade. Por exemplo, não sou contrário à utilização de animais em laboratório se, com isso, se salvarem vidas humanas, através de novas drogas e novas terapias (já sou completamente contrário ao seu uso em experiências na industria da cosmética). Mas, convenhamos, este argumento e posicionamento tem também sido alvo de abuso e subversão. Muitas das vezes, é este o tipo de raciocínio que está na consciência de quem prega pontapés no cão ou no gato, de quem abandona os animais antes de ir para férias (lá está: "eu sou um ser racional-superior e tenho direito a umas férias descansadas") ou no final de um dia de caça menos frutífero (há tempos, um dirigente de uma associação de caçadores, recomendava o abate dos cães caso os caçadores pensassem em abandoná-los...). Acrescente-se a pura crueldade por vezes evidenciada por certos «amigos» dos animais. Por exemplo, no caso da chamada caça à «corricão», chega-se a largar a lebre num recinto fechado sem hipóteses de escapatória - um acto de desleadade e canalhice - para treinar e «mimar» o respectivo cãozinho. Mesmo que a lebre seja mais astuta e rápida (evidenciando uma supeioridade natural) não lhe é dada a mínima clemência. Regra geral, assiste-se, em muitos casos, à disseminação da ideia de que os animais estão aqui, na terra, ao nosso serviço. É verdade. Só que não pode ser “para o que der e vier”.

O meu ponto é este, e peço desculpa se me estou a repetir: como seres superiores, como elo mais forte da cadeia, como detentores de uma racionalidade e de uma sensibilidade emocional bem mais complexa e rica, deveríamos caminhar no sentido de nos consciencializarmos de que os animais são, neste caso, o elo mais fraco. São eles que vivem à mercê da boa ou má vontade do homem, dos seus caprichos, manias, paranóias e gostos. À partida, não tem mal que assim seja. Alias, só pode ser assim. Agora, convinha não abusar. Já que fazemos uso da sua força, da sua astúcia, da sua carne e da sua pele, convinha não os violentarmos para fins de entretenimento. É o mínimo que podemos fazer.

Retomando aquilo que afirmei, não acho que seja razoável, justo e proporcional abusar de uma animal para gáudio de uns tantos aficionados, em nome de uma festa, de uma arte ou de uma ‘mística’. É só.
"OLHE QUE NÃO, OLHE QUE NÃO..."

O meu amigo Zé Luis desabafa: "Tenho cada vez menos paciência para os psico-complexos de ex-estalinistas convertidos, como José Manuel Fernandes, Pacheco Pereira, Henrique Monteiro ou José António Lima. São seguramente um caso patológico digno de estudos clínicos. A unica solução é ignorar toda a sua "banha da cobra", datada e ultrapassada no tempo."

Caro Zé Luis: muito pior só mesmo um estalinista não convertido. Com ou sem "psico-complexos". Em relação ao José Manuel Fernandes e, especialmente, ao Pacheco Pereira (os outros não sei quem são), não estou a ver onde esteja a dita "banha da cobra", ainda por cima "datada e ultrapassada". Pela parte que me toca, nunca fui estalinista, embora saiba o que isso é. Por o saber, terei sempre de admirar quem teve a coragem (ou será apenas um sinal de inteligência?) de se desconverter.

sexta-feira, junho 27, 2003

COLD SHOWER

Através do Pedro Mexia, soube que o Chris Martin, dos Coldplay, está noivo da menina Paltrow. O cab***!?



PS: by the way, caro Pedro: os Coldplay são um grupo a ter sempre em conta. Não são uns Smiths, Radiohead ou Thindersticks; o seu vocalista não se chama Jeff Buckley ou Elliot Smith. Mas, há que reconhecê-lo, fizeram dois bons álbuns, praticam uma 'pop music' que não envergonha ninguém (caramba: com tanta porcaria sobrevalorizada que por aí existe!), lançaram já três clássicos abolsutos da pop ("Don't Panic", "Trouble" e "Clocks"), e o potencial do grupo continua em alta. Ok, de acordo: o Chris martin é, por vezes, um verdadeiro 'pain in the arse'. Ninguém é perfeito.
UM ANJO

TOURADAS

Fui recentemente convidado a assistir a uma tourada de morte, em Badajoz (Espanha). Ontem recebi, em mão, um convite para assistir à corrida de touros comemorativa dos 40 anos do Grupo de Forcados Amadores de Évora (GFAE). Talvez por culpa do meu confesso conservadorismo e do corte de cabelo à «betinho», pensarão que eu gosto destas coisas da “tradição tauromáquica”. Enganam-se. Por uma questão de sanidade mental, declinei os dois convites, não sem antes, obviamente, os agradecer e felicitar o GFAE pelo aniversário.

Confesso: sou contra as touradas – quer as de morte, quer as outras. Atenção: respeito quem delas gosta. Nunca me viram, por aí, a espumar da boca, de punho erguido, vociferando contra quem gosta dos «touros». Não pretendo conduzir uma cruzada contra as touradas e proibir o que quer que seja (as coisas não se mudam assim, de forma abrupta e por decreto). Aceito, de bom grado, o epíteto de «politicamente correcto» ou de «intolerante». Mas nesta questão sou teimosamente inflexível.

Vejo as coisas nestes termos: a tourada é um espectáculo que se enquadra no grupo de actividades humanas que desrespeita os animais e os coloca numa situação humilhante – como, por exemplo, a caça entendida como desporto. Matar ou torturar animais em nome de um desporto ou de um espectáculo é imoral e inumano. Dêem-lhes as voltas que quiserem dar, a tourada é, na sua essência, um espectáculo sanguinolento. Não é uma arte, como muitos advogam, nem sequer uma forma bela, digna ou inocente (a morte terá alguma coisa de belo?) de matar um animal. É um exercício macabro, onde se tortura um animal - infligido-lhe golpes e espetando-lhe farpas que, a cada movimento, vão dilacerando a sua carne, aumentando o seu sofrimento. Ao longo de vários minutos, o animal corre, ofegante e febril, tentando atingir aquele que lhe causou o mal. A «bravura da besta» não é mais do que a reacção natural do sistema nervoso central de um animal que, para além de se encontrar stressado, acabou de ser violentado. No meio das palmas, da música, dos gritos, da luz e do aparato geral, é esta a essência da «festa» e é esta a sua côr: vermelha, de sangue.

Chegados a este ponto, parece que estou a ouvir o famoso argumento da “Hipocrisia”, uma vez que nos alimentamos de carne. Acontece que a morte nos matadouros não foi rodeada de festividade, nem serviu para júbilo, prazer ou diversão. Levada a cabo num local próprio, foi, à partida e em princípio, executada sem nenhuma tortura prévia, de forma fulminante e sem mais rodeios. Ao menos isso, acrescento eu. E este ponto faz toda a diferença. Pode-se discutir as condições, por vezes deploráveis, em que se encontram os nossos matadouros; a forma claustrofóbica como os animais são aprovisionados e transportados; a forma selvagem como são tratados por certos funcionários. Mas estes problemas – que deverão ser reduzidos ao máximo possível - não podem servir para desculpar ou justificar outros. Sempre entendi que justificar uma violência com outra violência é, não só incorrecto, como desonesto.

De pouco vale, também, o argumento, segundo o qual, os touros de lide são uma raça que nasce, vive e morre ao serviço da industria tauromáquica. Terminada esta, extinguir-se-iam os animais. Valerá a pena manter uma «raça» de animais sob o pretexto de alimentar uma industria que, por sua vez, os acaba a maltratar?

O problema é ancestral e permanece actual: em nome de certas tradições e ritos, muita crueldade e muitas atrocidades têm sido infligidas em animais (e, por vezes, em seres humanos). Mesmo reconhecendo que, em muitos casos, os ritos só acabam por vontade do povo, e não por decreto, acredito que, mais tarde ou mais cedo, caminharemos para um patamar civilizacional no qual se respeitarão os animais ao ponto de não serem usados em desportos ou espectáculos que envolvam a sua tortura, para gáudio de uns e regozijo de outros. Este é o exemplo acabado de como o ser humano ainda se encontra, em certos aspectos, pouco «humanizado» para perceber que, neste como noutros casos, a sua superioridade racional e de meios faz deles o elo mais forte, invariavelmente contra um elo mais fraco. Continuará a ser cobarde e imoral o mau trato de animais para acalentar festas e entretenimento humanos.

Vá lá: chamem-me de hipócrita ou de ser politicamente correcto. E eu digo: por vezes, já começa a ser politicamente correcto ser politicamente incorrecto...

MAIS UMA 'TANGA GIRL'

Ana Drago.
RIDÍCULO

A moda parece ter pegado. Nos infantários, creches e colégios deste país, os miúdos passaram a ter direito a fitas de fim-de-curso, com a respectiva colherzinha de pau. E, já ouvi dizer, chegam a queimar as ditas, à boa maneira universitária. Dizem que serve para fomentar nos putos um saudável espirito de ambição e a certeza de que, caso trabalhem afincadamente, o seu trabalho será reconhecido.

Já só fica a faltar a costumeira viagem de fim de curso. Torremolinos, anyone?

quinta-feira, junho 26, 2003

SOBRE OS BLOGUES E O PRD

Escreveu Miguel Esteves Cardoso no Pastilhas (a minha segunda casa):

"Comoveu-me por isso muito a defesa do colega - e do DNA - que o José Mário fez, sob o título A "Questão" DNA, no seu excelentíssimo Blog de Esquerda. O José Mário, para quem trabalha com ele, é um portento. E nunca ouvi ninguém elogiá-lo mais do que Pedro Rolo Duarte. Nisto, falo contra a minha cor: cuidado com a puta da Direita!
O que mais me embaraçou foi - com honrosas excepções - o comportamento de tantos blogueadores que eu estimo e admiro. Odeio os fenómenos de multidão - sobretudo quando ela é pequena e deveria ter outras luzes. É o que os ingleses chamam "ganging up" e os americanos "piling on" - um exercício de conformismo e de cobardia que só faz lembrar um exército de mosquitos a mastigar o sobrolho de um leão.
Se há tantos alvos em Portugal, todos eles mais indignos do que o DNA ou o Pedro, porque se há-de atacar o único que defende a nossa liberdade e, sobretudo, oh casmurros insensíveis, está do nosso lado?
Não estará a chamada blogosfera portuguesa preocupada de mais, de longe, com a Imprensa? Será que somos todos colunistas frustrados, à espera de uma aberta? Que tristeza!
Tudo isto é para reiterar: não se escreva para agradar a quem lê; aos outros blogueadores; para quem se julga concordar; na ânsia de obrigadinhos e palmadinhas nas costas. Isso é apagar; não é escrever. Escrever é uma coisa da alma, que vem de onde nascemos, que acontece porque não se consegue suster. Por muito feio e impopular que seja. Esse juízo não é o de quem escreve. Já aqui tinha dito, a propósito de outro assunto: a plateia não existe. E muito menos o segundo balcão.
E eu que pensava que éramos feitos - sim, porque orgulhosamente me incluo entre vós - de uma massa não só diferente, mas melhor..."


Não somos, Miguel. Somos todos feitos da mesma massa, quando toca a colocar os pontos nos 'is'. Sobre o artigo do Pedro Rolo Duarte nada disse. Pouco ou nada há para dizer. Compreendo e aceito o que foi escrito pelo Pedro. Acho, até, que o Pedro Rolo Duarte prestou um óptimo serviço aos bloguistas cá do burgo. É sempre bom levar com uma boa opinião para baixarmos um pouco a crista e não perdermos o sentido das proporções. Já o disse, e volto a dizer: a blogosfera vale o que vale - nem muito, nem pouco. Não serve para substítuir nada nem ninguém. É um espaço de liberdade, de desabafo inconsequente, de humor e diletantismo. Convém, por isso, não abusar da vaidade e da soberba. Posso não concordar com tudo o que ele escreveu, mas acho que a blogosfera devia estar grata por haver quem a critique e lhe morda nas canelas.

Deal with it.
SÓ EM PORTUGAL

Parece que, no dia da final da taça UEFA, cerca de cinquenta deputados da nação faltaram ao trabalho. Motivo: assistir à final da dita competição, em Sevilha (até houve deputados do BE e do PCP envolvidos, valha-nos Deus!). Mota Amaral pretende, agora, marcar uma falta injustificada a todos os prevaricadores. Até aqui, tudo bem. Assino por baixo. Nem sequer se justifica aplaudir o gesto, uma vez que é natural que assim seja.

Ao que parece, o «bloco central» (PSD e PS) pretende votar contra a vontade expressa do Presidente da AR. Alegam que foram assistir a um importante evento desportivo onde estava envolvida uma equipa portuguesa. Tratava-se, em suma, de um desígnio nacional.

Acho que sim. De agora em diante deveria decretar-se feriado nacional sempre que uma equipa portuguesa alcançar uma final de uma qualquer «importante» competição desportiva internacional (afinal de contas, os deputados não mais do que o comum dos mortais). O país inteiro deveria parar para assistir a essas importantes manifestações desportivas que «projectam» o nosso nome além fronteiras. O nosso progresso passa por aqui. Mais: o Estado deveria custear todas as deslocações. Restaria, apenas, uma questão: definir o que é uma «importante competição desportiva internacional». Por exemplo, eu incluiria no role o Campeonato Europeu de Matraquilhos em Pista Coberta. Como bom português, adoro matraquilhos.
HOPPER

O FJV, no Aviz, diz: ”Eu fico sempre sem saber se alguém gosta de Hopper.”
Are you kiddin’ me? A carga psicológica da representação realista de Hopper é única. Como afirmou Renner, os quadros de Hopper encenam já uma reacção do observador, criando uma espécie de «innertext» cujo significado só se demonstra no acto da percepção. Eu pergunto: quantos foram os que, como Hopper, souberam pintar o vazio suspenso e a solidão inerente ao quotidiano do ser humano?


IR A PORTUGAL COMPRAR CARAMELOS

Qual é o negocio mais lucrativo do mundo? Comprar um espanhol pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele pensa que vale.



Recebi um mail de um leitor, contendo o seguinte comentário: “Em relação ao seu texto sobre o Fórum Social Português, pareceu-me vislumbrar uma espécie de conformismo e de felicidade perene em relação ao nível de desenvolvimento do seu país. Acha que é caso para isso? Está contente com o país que tem?” Respondo ao meu caro leitor, ‘postando’ um texto meu, escrito há uns meses atrás, sobre a diferença entre Portugal e Espanha.

A SÍNDROME H. A.
O meu amigo João vai regularmente a Espanha. Sempre que regressa, costuma referir-se à deslocação nos seguintes termos: “Fui ali, à Europa”. Eu invariavelmente envergo o meu sorriso amarelo, de orgulho pátrio ferido e de resignação pesarosa. E questiono-me: a «Europa» começará e acabará literalmente em Espanha – dependendo se nos deslocamos para oriente ou se regressamos para ocidente?

“Eu ainda sou do tempo” em que se olhava para Espanha como uma espécie de parente pobre. “Vamos a Badajoz comprar caramelos”, dizia-se, em tempos não muito distantes, em jeito de chacota. Badajoz era uma cidade triste, repleta de velhas carcaças Seat, lojecas ao melhor estilo Praça de Espanha, povoada por gente cabisbaixa e indiferente. No fundo, essas observações não passavam de acessos de ignorância e distracção. Espanha detinha, já então, um potencial de crescimento e um poderio industrial e comercial que em nada tinha a ver com o nosso. O que veio a acontecer só surpreendeu os mais ingénuos.

Com o passar dos anos, os «caramelos» compraram-nos os Bancos, as grandes e médias empresas e invadiram-nos com os seus produtos. São eficientíssimos nas obras publicas, o associativismo funciona, as instituições do estado revelam dinamismo, o rendimento médio é muito superior ao nosso e, pasme-se, os bens de primeira necessidade são, regra geral, mais baratos que os nossos.

De entre as inúmeras vantagens da denominada «globalização», encontra-se esta: a de podermos perceber a dimensão e alcance das nossas fraquezas. Quando as barreiras caem e os proteccionismos deixam de ser exercidos, aquilo que até então nos parecia rosáceo toma contornos bem mais cinzentos. No caso português, a máscara caiu em definitivo. Portugal, quando comparado com Espanha, é hoje um país atado e sem rasgos de génio. Falta-lhe coragem e espirito empreendedor. A soberba mistura-se com a ostentação e a saloiice das obras megalómanas. Podemos não ter um rendimento disponível aceitável, saneamento básico, habitações condignas, vias de comunicação decentes, bibliotecas apetrechadas e modernas mas, caríssimos, temos um Parque das Nações, uma cidade capital da «cóltura» e, dentro em breve, até estádios da bola ultramodernos. À volta destes símbolos do nosso progresso, assistimos a um pouco de tudo. No plano da Educação, proliferam que nem cogumelos os cursos de Formação com os títulos mais incríveis para enganar otários (“Curso de Multimédia”) e as universidades raramente se interessam pelo dia-a-dia das empresas e da sociedade em geral (por receio de contágio, suponho). Vive-se numa espécie de amorfismo lodoso, servido por uma pesada máquina burocrática (cujo paradigma é o Funcionalismo Público) e por um temor à inovação e à investigação. Mesmo o mais lesto espirito empreendedor esmorece perante a montanha de procedimentos e de portas que tem necessariamente de ultrapassar. O tão apregoado espirito empreendedor, que Alexis de Tocqueville tão brilhantemente descrevia no sec. XIX, aquando da sua visita aos EUA, ainda por aqui não passou. Ou melhor: vai passando. Em boa verdade, quem não tiver uma «muleta», um boy ou um conhecimento precioso no sitio certo, tem a sua vida dificultada e partirá com nítida desvantagem (mergulhado ainda num universo de especulação desenfreada). Dizem que o mal é do fado e da inconsequência crónica do nosso devir. Pois eu diria antes que o mal é do S. H. A.: Síndroma da Hipermediocridade Adquirida.

Caro leitor: Contente com o meu país? Mais ou menos. Satisfeito? Nem por isso. Contra? Nunca.
WITTY



"On an unclear day you can see their position on the euro."
EVAX

Estava a ler o artigo da Dra. Maria Barroso, no DN, quando passa, na televisão, o anúncio da Evax. Já sei: a Dra. Barroso não é uma “Tanga Girl”. Mas é uma girl com muita tanga.

quarta-feira, junho 25, 2003

DOCE JULIETTE...



Tão mal empregue em tão mediocre filme!
IRRESISTÍVEL

Do grande Billy Wilder, revi, em DVD, esta sublime obra de arte (passo a redundância):



Rachmaninov!
PRINCÍPIOS DO LIBERALISMO

Por Karl R. Popper:

"1. O Estado é um mal necessário;

2. A diferença entre uma democracia e uma ditadura reside no facto de que numa democracia podemos desembaraçar-nos do governo sem derramamento de sangue e numa ditadura não;

3. A democracia não pode (e não deve) prestar aos cidadãos qualquer tipo de benesses (apenas os cidadãos de um Estado democrático, onde o governo está obviamente incluído, podem agir);

4. Não é por a maioria ter sempre razão que somos democratas, mas porque as instituições democráticas, quando radicadas em tradições democráticas, são de longe as mais inofensivas que conhecemos;

5. As instituições só por si não bastam quando não radicam na tradição. As tradições são necessárias para que se crie uma espécie de vínculo entre as instituições e as intenções e valores dos indivíduos;

6. Uma utopia liberal – ou seja, um Estado projectado racionalisticamente sobre uma tábua rasa destituída de quaisquer tradições – é inexequível. Porque o princípio do liberalismo exige que as restrições da liberdade individual, inevitáveis em virtude do convívio social, sejam repartidas uniformemente na medida do possível e reduzidas o mais possível. Visto que as leis na sua generalidade só podem estabelecer princípios gerais, têm de ser interpretadas para serem aplicadas. Todavia, a interpretação necessita, por seu turno, de certos princípios de prática quotidiana que só uma tradição viva pode fomentar. Isto é válido, muito especialmente, no que toca aos princípios extremamente abstractos e genéricos do liberalismo;

7. Os princípios do liberalismo podem ser descritos como princípios segundo os quais as instituições existentes podem ser julgadas e, se necessário, restringidas ou modificadas. Não estão vocacionadas para se substituírem às instituições existentes. Por outras palavras, o liberalismo mais do que uma convicção revolucionária é uma convicção evolucionista (excepto face a uma ditadura);

8. Entre as diversas tradições há que referir, como as mais importantes, as que formam a «estrutura moral» (relativamente à «estrutura legal» institucional) de uma sociedade e que corporizam o seu tradicional sentido de justiça e de decência, bem como o grau de sentido moral por ela alcançado.”
BITTER VICTORY

All time favourite movie line:

Capt. Leith (Richard Burton): “I always contradict myself.”

in Bitter Victory (1958), de Nicholas Ray



A que acrescentaria Walt Whitman:

“Do I contradict myself?
Very well then... I contradict myself;
I am large… I contain multitudes.”

Song of myself
ROTHKO

Felicidade: a minha casinha forradinha com as linhas de horizonte de Mark Rothko.







UM RETRATO

Em Évora, a Biblioteca Pública continua com a sua situação por resolver. Situada num bonito mas velho edifício em pleno coração do centro histórico, a biblioteca está literalmente a rebentar pelas costuras. Em função da antiguidade do edifício, as mais modernas funcionalidades são uma miragem, pelo que há muito se reivindica um novo espaço – amplo, arejado, funcional - para o acolhimento de tão importante espólio bibliográfico. O Dr. Carrilho, em tempos, acompanhado da sua exuberante popa e do seu sorriso Pepsodent, afirmou que tinha sido alcançado um compromisso entre as "partes", estando o assunto a ser tratado com celeridade. Passados cerca de cinco anos, está tudo por fazer. Há uns meses atrás, por exemplo, dirigi-me à hemeroteca da BP a fim de fotocopiar um artigo de opinião publicado num jornal. O funcionário que me atendeu teve de solicitar a minha ajuda. “Venha comigo, se faz favor. Estou sozinho e talvez o senhor me possa ajudar.” Após transpor a longa cortina preta, a cheirar a mofo, deparei com um cenário desolador: pilhas e pilhas de jornais e revistas arrumadas caoticamente em prateleiras vergadas pelo excesso de peso e pelo anos de serviço. O chão encontrava-se repleto de montículos com centenas de publicações, atadas com cordel. Tudo parece desarrumado, como se estivesse em fase de mudança. Para onde?

Compareci, hoje, na escola da minha filha. A minha filha, de sete anos, frequenta uma das muitas escolas públicas do Ensino Básico, saídas das fornalhas do Estado Novo. Um edifício de linhas clássicas, envergando uma estética intemporal, mais no espírito tradicionalista e costumeiro de Raul Lino, do que no da escola modernista que o Estado Novo tão bem soube patrocinar – de Keil do Amaral, Pardal Monteiro, Cassiano Branco ou dos irmãos Rebelo de Andrade, entre tantos outros. Trata-se, em suma, de um edifício ainda perfeitamente integrado nas nossas cidades brancas e históricas (esperem mais umas décadas até acabarem soterrados por horrendos edifícios pós-modernos, que fazem as delicias dos arquitectos mais egocêntricos e pedantes cá do burgo). Resumindo: uma típica e linda escola primária portuguesa.
No seu interior, o edifício já revela alguma dificuldade em esconder as marcas da sua antiguidade, embora os materiais então empregues tivessem envelhecido condignamente: a escadaria, o soalho e o estrado em madeira, o gradeamento em ferro forjado, as aduelas e portas pintadas em ‘casquinha de ovo’.
Os pais foram convidados a assistir a uma das várias apresentações de fim-de-ano, organizada pelos alunos do primeiro ano. No final, desabafava a professora: “Continuamos a lutar com sérias lacunas. Os meios financeiros são uma miragem. Os orçamentos estão restringidos. Vamos ter de voltar a organizar uma quermesse. Precisamos de angariar fundos para comprar uma fotocopiadora e algum material audio-visual. O ano passado solicitámos, aos pais, uma contribuição pecuniária, mas a coisa correu mal.” Porquê, perguntaram alguns pais. “Houve pais que se recusaram a dar dinheiro, alegando que era suposto os seus filhos receberem um ensino gratuito. Portanto, este ano, se puderem, tragam uns bolinhos para ajudar na colecta. Assim não se levantarão muitas ondas e talvez consigamos reunir a quantia necessária para comprar o equipamento.”

Chego a casa e, no programa Regiões (RTP1), está a passar uma reportagem sobre o caso de uma aldeia, algures no norte de Portugal, que se debate com sérios problemas de abastecimento de água. Ao que parece, com a chegada do Verão e o regresso dos emigrantes, a água potável canalizada tende a desaparecer. Resultado: durante um longo período, os Bombeiros acabam a distribuir água através de cisternas ambulantes, enquanto que, para lavar a loiça, o carro, o cão, etc., a população recorre a umas torneiras estrategicamente colocadas, que trazem a água de uma charca improvisada, situada algures nas imediações do povoado. O esforço de racionar a água da rede passa a ser um desígnio quase religioso para os habitantes da aldeia.

Ao que tudo indica, para o ano vamos ter em Portugal o Euro 2004.

segunda-feira, junho 23, 2003

OS MEUS LIVROS

Fim-de-semana de recolhimento. Por companhia? A grandeza da vontade, a nobreza do sofrimento e da dor, por Sófocles, em “Antígona” (releitura #2.354); a inconsistência da felicidade, por Philip Larkin, em “Collected Poems”; a nostalgia conservadora de Roger Scruton, em “England: an elegy”.

Sobre o livro de Scruton, falarei mais tarde. Sobre “Antígona” já escrevi, noutras ocasiões. Apenas um comentário sobre Larkin – sobre quem nunca escrevi e arrisco, agora, um breve texto.

A poesia de Philip Larkin – rigorosa, austera, implacável, diria mesmo «reaccionária» – contínua a representar uma espécie de ‘back to basics’ com direito a ‘punch’ e ressaca. Percorrida por um contínuo e melancólico lirismo encantatório, por vezes insuportavelmente amargo, a sua obra parece funcionar como câmara de descompressão, relativamente ao nosso ordinário limbo existencial - saturado de embriaguez, volúpia e volubilidade. Câmara essa na qual, é bom que se diga, os seus indefectíveis leitores parecem sempre dispostos a entrar, como se nos fosse próxima e familiar essa descida - não ao inferno, mas à vida, tal qual ela é. Impressiona a forma como, do belo, Larkin descobre um irresistível lado ‘sad & bitter’, a fazer lembrar a canção de David Byrne: “Would you like to be said?/ Would you like me to teach you?/ Well, you can learn to be sad/ but you must practice like I do”. Leia-se “High Windows” e perceber-se-á o que quero dizer.

Certo é que a desolação e o desespero em Larkin, de tão pessoais e sentidos, tornaram-se universais. “Deprivation for me is what daffodils were for Wordsworth”, disse uma vez o poeta. Há, nas suas palavras tristes e poeticamente dolorosas, uma universalidade que nos convoca, embora não nos redima. Por exemplo, o medo da morte é o nosso medo – embora insistamos em soterrá-lo quotidianamente. Tal como em Beckett, a obra de Larkin (infelizmente escassa) transmite-nos a cristalina mas cruel sensação de quão frágil e absurda é a vida humana. E de como, sem nos darmos conta, por entre o progresso técnico, a modernidade e a urgência da perfeição, trilhámos, algures no tempo, o caminho da decadência.

”Life is first boredom, then fear.
Whether or not we use it, it goes,
And leaves what something hidden from us chose,
And age, and then the only end of age.”


Ou, como escreveu Beckett, “Enquanto há vida, há desespero”.
FLOR DE OBSESSÃO

Temos uma coisa em comum (among others...): gostamos muito do Nelson Rodrigues. Só por isso recomendaria, à confiança, o blog Flor de Obsessão. Mas há mais: Pedro Lomba é um liberal clássico, escreve muito bem, tem um sentido de humor irrepreensível e tem sangue na guelra. Além disso é do Sporting (penso eu de que). Do que é que estão à espera? Favoritos. Adicionar aos 'Favoritos'.

sexta-feira, junho 20, 2003

E...

... o Francisco José Viegas também tem um blogue. Chama-se Aviz. Simplesmente "Aviz" (linda terra, sim senhor!)

Bem-vindo Francisco! E força nos dedos!
CANÍCULA

Évora city, 23 horas, quarta-feira: 30º

Évora city, 23 horas, quinta-feira: 30º

Não dá!
THE MAN IS BACK

Pedro Mexia voltou. Definitivamente. As saudades já apertavam. Obrigado pelo regresso, Pedro. E, 'jágora', queremos mais do mesmo. Sazssavor.

PS: aguarda-se, para breve, o regresso do João Pereira Coutinho e do Pedro Lomba. Sazssavor!

quarta-feira, junho 18, 2003

PERCEBER O QUE (NÃO) É A LIBERDADE

No Diário do Sul (jornal de Évora), o Prof. Carlos Zorrinho fez uma referência ao meu blog, citando a passagem de Isaiah Berlin inscrita aqui ao lado (“Liberty is liberty, not equality or fairness or justice or human happiness or a quiet conscience"). Segundo entendi, Carlos Zorrinho – que, desde logo, anuncia uma profunda diferença de opinião em relação à minha pessoa – não concorda com Berlin porque, para ele, a liberdade é precisamente aquilo que Berlin afirma não ser.

Convém explicar, ao meu caro ex-professor, o contexto daquela frase, incluída no “Four Essays on Liberty”. Para isso, nada melhor do que dar a palavra a Berlin:

“Liberty is liberty, not equality or fairness or justice or culture, or human happiness or a quite conscience. If the liberty of myself or my class or nation depends on the misery of a number of other human beings, the system which promotes this is unjust and immoral. But if I curtail or lose my freedom, in order to lessen the shame of such inequality, and do not thereby materially increase the individual liberty of others, an absolute loss of liberty occurs. This may be compensated for by a gain in justice or in happiness or in peace, but the loss remains, and it is a confusion of values to say that although my ‘liberal’, individual freedom may go by the board, some other kind of freedom – ‘social’ or ‘economic’ – is increased. Yet it remains true that the freedom of some must at times be curtailed to secure the freedom of others. Upon what principle should this be done? If freedom is a sacred, untouchable value, there can be no such principle. One or other of these conflicting rules or principles must, at any rate in practice, yield: not always for reasons which can be clearly stated, let alone generalized into rules or universals maxims. Still, a practical compromise hat to be found.”(1)

Junto à transcrição anterior, as palavras de Berlin sobre o tema, na entrevista dada a Ramin Jahanbegloo:

“(...) Negative liberty is twisted when I am told that liberty must be equal for the tiger and for the sheep, and that this cannot be avoided even if enables the former to eat the latter, if coercion by the state is not to be used. Of course unlimited liberty for capitalists destroys the liberty of the workers, unlimited liberty for factory-owners or parents will allow children to be employed in the coal-mines. Certainly the weak must be protected against the strong, and liberty to that extent must be curtailed. Negative liberty must be curtailed if positive liberty is to be sufficiently realized; there must be a balance between the two, about which no clear principles can be enunciated. Positive and negative liberty are both perfectly valid concepts, but it seems to me that historically more damage has been done by pseudo-positive than by pseudo-negative liberty in the modern world.”(2)

Parecem-me sábias, razoáveis, equilibradas as palavras de Isaiah Berlin. Sinceramente, não percebo como Carlos Zorrinho pode pensar de forma radicalmente diferente. O ponto é, até, bastante prosaico e pacífico (ou deveria ser): a liberdade, enquanto valor ou princípio abstracto, não pode ser confundida com outros conceitos e princípios, nem o seu alcance pode ser alvo de restrições, como moeda de troca para alcançar determinados objectivos - sob pena de subvertemos o seu valor e de, em seu nome (e a História ensina-nos que foi invocado quase sempre em vão), a perdermos de forma irreparável. A liberdade é um valor que é, deve ser, sagrado e intocável – e isto é sobretudo válido como princípio a encabeçar quaisquer tentativas para alcançar a justiça e a felicidade humanas.

(1) "Four Essays On Liberty", Oxford University Press

(2) "Conversations With Isaiah Berlin", Phoenix Press
AS RAÍZES SOCIALISTAS E ANTI-CAPITALISTAS DO JOVEM ADOLFO

Tive conhecimento, através do Picuinhices, da tremenda gaffe (só posso entendê-la como tal) do Linhas de Esquerda, ao ter insinuado que João Noronha (do Valete Fratres) teria ensaiado um velado apoio ao nazismo. Heil Valete? Que idiotice!

Sobre o anti-capitalismo de Hitler e as suas «parecenças» com certas poses da esquerda, relembro o que escreveu Friedrich August von Hayek (1899-1992):

”Fight against liberalism in all its forms, liberalism that had defeated Germany, was the common idea which united socialists and conservatives in one common front. At first it was mainly in the German Youth Movement, almost entirely socialist in inspiration and outlook, where these ideas were most readily accepted and the fusion of socialism and nationalism completed. In the later ‘twenties and till the advent to power of Hitler, a circle of young men gathered round the journal Die Tat and led by Ferdinand Fried became the chief exponent of this tradition in the intellectual sphere. Fried’s Ende des Kapitalismus is perhaps the most characteristic product of this group of Edelnazis, as they were known in Germany, and is particularly disquieting because of its resemblance to so much of the literature which we see in England today, where we can watch the same drawing together of the socialists of the Left and the Right, and nearly the same contempt of all that is liberal in the old sense. “Conservative Socialism” (and, in other circles, “Religious Socialism”) was the slogan under which a large number of writers prepared the atmosphere in which “National-Socialism” succeeded. It is “conservative socialism” which is the dominant trend in this country now. Had the war against the Western powers “with the weapons of the spirit and of economic organisation” not almost succeeded before the real war began?”

in The Road to Serfdom (1944)

PS: mais rigor, caros esquerdistas…

terça-feira, junho 17, 2003

FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS: UNI-VOS!

O meu amigo Zé Luis não apreciou a «boca» sobre os funcionários públicos, aquando de um comentário meu sobre a divulgação da ‘siesta’ (eu tinha dito que, em geral, e na Função Pública, em particular, tal prática estava já instituída há décadas). Vai daí, escreveu o seguinte «manifesto»:

”1- Os funcionários públicos não são feitos de nenhuma matéria diferente das restantes pessoas, nem está provada neles qualquer particularidade genética capaz de lhes moldar o carácter ou o comportamento.
2- É um facto que grande parte dos serviços públicos apresenta um nível de eficácia bastante reduzido, não cumprindo muitas das vezes o papel para o qual foram criados, e exemplos há de serviços que não foram mesmo criados para nenhum papel que não seja o bem estar dos seus dirigentes.
3- Juntando os dois anteriores pontos, com os quais julgo estarmos ambos de acordo, chega-se facilmente á conclusão que os referidos no primeiro não são os responsáveis por o que afirmo no segundo.
4- Os responsáveis são pois uma casta de dirigentes de uma incompetência inqualificável, nomeados ora pelos partidos do governo (este e os anteriores), ora por “amiguismos”, compadrios, influências ou compromissos mais ou menos obscuros, nomeações essas raramente assumidas por quem quer que seja (embora sejam os ministros e secretários de estado a assinar , permanece quase sempre no ar a ideia de que a decisão foi tomada por outrém) e efectuadas em numero absurdamente excessivo, principalmente após mudança de governo.
5- Esses dirigentes, que com raras excepções povoam toda a administração pública, dispõem hoje, com a sucessiva e escandalosa proliferação de institutos públicos, de privilégios monetários ou em espécie que nada ficam a dever á mais eficiente das empresas privadas, nas quais os critérios de escolha são completamente diferentes e o grau de responsabilização incomparável.
6- Têm ainda à disposição um leque de possibilidades de pequena ou grande corrupção, nomeadamente em comissões mais ou menos chorudas obtidas de fornecedores por contrapartida das concessões de contratos, quer de aquisição de bens e serviços, quer de obras e empreitadas. Pelo que se ouve “à boca pequena” estas comissões são generalizadas.
7- E quando os serviços manifestamente não funcionam, o que é que lhes acontece? Nada. Absolutamente nada. A responsabilização é cada vez menor à medida que se sobe na hierarquia. À excepção das questões referidas no ponto 6, a generalidade das questões é objecto de assinatura “de cruz” e qualquer projecto de alteração ou mudança de rotinas é vigorosamente rejeitado, excepto quando possa constituir um acréscimo de privilégios.
8- Os funcionários assistem a tudo isto, ganham miseravelmente, não têm qualquer tipo de estímulo ou incentivo, sendo eles que sem qualquer apoio mantêm os serviços (mal ou bem) a funcionar e ainda têm de ouvir e ler constantemente que são preguiçosos, improdutivos e um peso do qual o país se deveria ver livre o quanto antes.
Sabendo que não és das pessoas que subscrevem qualquer lugar comum, quero crer que o comentário sobre os funcionários públicos terá sido apenas uma precipitação.”


Primeiro sinal: o sentido de humor do meu caro amigo anda pelas ruas da amargura.

O Zé Luis responde a uma generalização – com intuitos humorísticos mas potencialmente injusta – com outra generalização: os responsáveis pelos serviços públicos (directores, chefes, administradores) são uma casta de dirigentes de uma “incompetência inqualificável”. Nem sequer reparou que o que ele escreve no ponto 1 e 2 se pode igualmente aplicar aos directores e chefes de secção, assim como o pronome pessoal reflexo “lhes”, incluído na questão formulada no ponto 7, deve ser aplicado a todos: dirigentes e funcionários.

A tese do Zé Luis é, então, esta: os funcionários públicos dão mostras de laxismo, incompetência ou mera preguiça por culpa dos seus superiores hierárquicos. Estes senhores não passam de uma corja de «chupistas» (a fazer lembrar o sketch do Ricardo de Araújo Pereira e do José Diogo Quintela), que se está marimbando para a produtividade da sua secção ou departamento. Um grupelho de incompetentes que se limita a gerir os seus interesses particulares – de carreira e não só – sem um pingo de responsabilidade e de sentido de missão.

A menina que sai para o habitual café da manhã e da tarde, entremeado com a fofoca do dia, deixando pendurados alguns desgraçados; o menino que vai fingindo que vai despachando papelada, utilizando um terço das suas capacidades; os que atendem lenta e arrastadamente os clientes nos mais diversos guichês, dos mais diversos departamentos (notários, conservatórias, tesourarias públicas, balcões de atendimento, etc.); a menina que debita caracteres no seu «personal computer» à velocidade estonteante de 10 por minuto; os meninos que, por excesso de zelo, se agarram aos constrangimentos do «sistema» para não resolver os problemas do cidadão (incauto e pobre cidadão...); as criaturas que, mal-humoradas, tratam as pessoas a pontapé - todos são vitimas inocentes dos seus directores, que não os organizam e não exigem deles o que deveria ser exigido. No fundo, os funcionários públicos são eternas crianças, à espera de uma voz de comando e de uma pedagógica orientação. Falhado o chicote e a direcção de um timoneiro, é vê-los a vegetar, de semblante carregado e alma ferida.

A tese é, obviamente, fraca. Da mesma forma que existem bons e maus funcionários públicos, existem bons e maus directores e administradores. Que culpa terá o superior hierárquico, se um funcionário mandou às malvas o seu brio profissional, o seu sentido de responsabilidade e a mínima das vontades em ajudar? Que culpa terá o director da secção X, se um dos seus funcionários faz ronha e dorme literalmente em serviço? Dirá o Zé Luis: então que se obrigue o empregado a trabalhar ou que se despeça (por indecente e má figura). Pois é, caro Zé Luis, como se, na Função Pública, as coisas funcionassem assim....

Conto um episódio. Certa empresa da cidade de Évora recebeu, um dia, um Aviso-Citação em como devia uma determinada quantia de IRC. Incrédulos, os gerentes dessa empresa apressaram-se a verificar aquilo que sabiam tratar-se de um equívoco. Constatado o cumprimento integral das suas obrigações fiscais, dirigiram-se às Finanças e constataram que o problema tinha tido origem num erro humano: alguém tinha digitado mal uma das linhas do quadro de apuramento do IRC. Daí que aparecesse, no sistema, uma quantia por liquidar (no caso tratava-se do Pagamento Especial por Conta), quando, na realidade, tudo tinha sido pago. Detectado o erro, houve lugar a uma Revisão Oficiosa. Passados dois meses, a empresa precisou de uma declaração das Finanças em como a mesma não era devedora, junto da Fazenda Nacional, de quaisquer impostos ou dividas. Impossível. Constava no “sistema” que havia uma divida a regularizar. A tal. Desta vez, um dos responsáveis da empresa pediu uma audiência com o director de Finanças da região. Durante a audiência, o director chamou um dos funcionários responsáveis, exigindo explicações. Disse, então, o funcionário, com o ar mais sério do mundo: “Eu sei que a empresa não deve nada, mas no “sistema” subsiste a dívida”. Grita o director: “Desde quando, meu caro senhor, a máquina se substitui ao homem?! O senhor tem um despacho por mim assinado dando provimento à Revisão Oficiosa. Porque carga de água não passa a declaração?”. “Porque no «sistema»...”. Escusado será dizer que o director acabou a pedir desculpas ao responsável da empresa, acabando por confessar que estes e outros casos, todos eles lamentáveis, raramente chegam ao seu conhecimento, não lhe sendo possível agir em conformidade. A declaração foi, finalmente, emitida e tudo pareceu ficar resolvido. Agora, reparem: um mês depois desta audiência, a empresa voltou a receber... um Aviso-Citação. Kafka, anyone?

É esta a Função Pública em Portugal. Entre a distracção e negligência dos directores e responsáveis; entre a incompetência, o excesso de zelo e a propensão para a preguiça dos funcionários; entre o arcaísmo dos sistemas de informação e de processamento de dados, quem se lixa somos nós.

Bem vistas as coisas, sou tentado a concordar com o Zé Luis: "os funcionários públicos não são feitos de nenhuma matéria diferente das restantes pessoas". Pois não. No desempenho das suas funções são, por vezes, o espelho da nossa endémica mediocridade.

PS: O Zé Luis é funcionário público. Mas é dos bons.

segunda-feira, junho 16, 2003

LEO STRAUSS

Agora que o seu nome ficou associado ao neo-conservadorismo, e depois de tudo que já foi escrito e dito sobre Strauss, importava ler, ou reler, o “Epilogo” da autoria de Nathan Tarcov e Thomas L. Pangle, incluído na terceira edição da obra “History of Political Philosophy”, editada por Leo Strauss e Joseph Cropsy. Aí se perceberá até que ponto chegaram as barbaridades e idiotices escritas sobre a vida e obra de Strauss – um dos grandes pensadores políticos do Sec. XX.

O Sr. Francisco Louçã terá lido, alguma vez, uma só linha de Strauss?
WILLIAM BUTLER YEATS

O DO NOT LOVE TOO LONG

Sweetheart, do not love too long:
I loved long and long,
And grew to be out of fashion
Like an old song.

All through the years of your youth
Neither could have known
Their own thought from the other’s,
We were so much at one.

But O, in a minute she changed –
O do not love too long,
Or you will grow out of fashion
Like an old song.



THE COMING OF WISDOM WITH TIME

Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.
ALEXANDRE O'NEILL

"Há uma literatura de esquerda? Há uma literatura de direita?

Apetecia responder: se é literatura não é de direita, tão antinómicos se afiguram estes termos, mas infelizmente, se considerarmos literatura também o conjunto de livros que há por aí, teremos de convir que há uns que se agrupam sob a designação ‘de esquerda’, outros ‘de direita’. Estão neste último caso os livros de um Maurras, p. ex., que, aliás, era mais um escritor de ideias, que um escritor de ficções. Sob estas duas designações é possível agrupar bom número de obras ou de peças literárias. Sob que designação colocaríamos, com justiça, Paul Claudel? E Céline?
Há livros que se consideram de esquerda e são o supra-sumo do conformismo, vide quase toda a literatura do realismo socialista ou do neo-realismo. Outros há que são considerados de direita e apresentam-se revolucionários.
Eu acho que é muito difícil discernir nesta matéria e decidir o que é de direita e o que é de esquerda. E o que é de direita é sempre mau? E o que é de esquerda, sempre bom?”
propaganda@evora.pt

Este fim-de-semana entrei numa livraria de Évora e reparo no conteúdo de uma das «ilhas». Tomei nota dos volumes (carradas deles):

“A Guerra dos Bush-Os segredos inconfessáveis”
“Porque somos anti-americanos”
“Estimado Sr. Bush”
“Do 11 de Setembro à crise no Iraque”
“A guerra infinita”
“O cerco ao Iraque”
“A terrível impostura”
“Manifesto” (a revista de Miguel Portas)
“Globalização-a grande desilusão”
“No Logo”

Estes tipos não brincam em serviço.
NO FUNDO...

Domingo, 15 de Junho. RTP2, jornal da noite. O professor Adriano Moreira aproveita mais uma vez a ocasião para dizer o que importa dizer: os EUA são os culpados de tudo. Do quê? De tudo. São os culpados pelo conflito israelo-palestiano (no fundo Israel e os EUA são um só), pelo fundamentalismo islâmico (no fundo o fundamentalismo islâmico é uma resposta ao domínio opressivo americano e ocidental), pelo despotismo instalado na maioria dos países árabes (no fundo os EUA patrocinaram esses regimes), pelo terrorismo (no fundo o terrorismo é a face mais visível da insatisfação dos desgraçados face ao agressor), etc. Adriano Moreira, no seu estilo arrastado, lá vai insinuando que os EUA estão, assim, condenados a subjugar-se à vontade da ONU. Isto porque na ONU os países expressam apenas o seu altruísmo e a sua vontade inamovível de se ajudarem uns aos outros. De melhorar o mundo. À excepção, é claro, dos EUA. Como o Professor disse, até Hans Blix disse cobras e lagartos dos americanos, na hora da despedida.... E Márcia Rodrigues vai anuindo, condescendendo, sorrindo, porque também ela pensa assim. Ou melhor: não pensa. «No fundo», Márcia Rodrigues e a generalidade dos pivôts e jornalistas televisivos são profundamente ignorantes e, não o reconhecendo, nem sequer se dão ao trabalho de estudar as matérias para escrever, num papelinho, umas quantas perguntas que não alinhem pelo diapasão corrente do politicamente correcto. Limitam-se, por isso, perante a presença de um “professor”, ao reverêncial abanar de cabeça – como se da boca dos senhores professores só saíssem evidências irrefutáveis.

Por exemplo, Adriano Moreira disse, a certa altura, que, por culpa do Holocausto, a opinião pública mundial foi conivente com a criação do Estado de Israel e fechou os olhos à tremenda injustiça a que foram sujeitos os palestinianos – injustiça que ainda hoje perdura e que explica (legitíma?) o Hamas. E o resto, Sr. Professor? O antes e o depois?

Eu, ao Prof. Adriano Moreira, recomendar-lhe-ia umas ampolas para reavivar a memória. Há por ali sinais preocupantes de amnésia.
O QUE FAZ CORRER ESTES INTELECTUAIS?

Observando as movimentações em torno do Fórum Social Português, confesso que senti um misto de intriga e divertimento perante as confissões dos intelectuais de serviço. Lá que os «jovens» e os «velhos-jovens» (repararam na Diana Andringa?), saudosistas das grandes utopias, se deixem embriagar pelo colorido das bandeiras e pelos slogans da praxe - lançados ao vento por meninas e meninos putativamente solidários e mutualistas, firmes e hirtos na convicção de que o «sistema» é para abater, embora profundamente demagógicos, ignorantes e pateticamente ingénuos - ainda vá que não vá. O que me deixa verdadeiramente divertido e intrigado é o discurso de certos intelectuais, supostamente munidos de uma clarividência e experiência para analisar o passado, presente e futuro da humanidade.

Quando oiço o Sr. Boaventura Sousa Santos e o Sr. Saramago falarem em “democracia de baixa intensidade”, “plutocracia”, “forma inútil de fazer política”, para classificar o actual estado civilizacional que se vive em Portugal, vacilo um pouco no divertimento. Confesso que a minha alma fica algo intrigada e ligeiramente apreensiva perante estas afirmações. Podemos classificá-las de ridículas e irresponsáveis, mas teremos, certamente, de as considerar perigosas (vide o excelente artigo de Maria Filomena Mónica no Público).

O problema não é novo. É, até, bastante antigo. Esta vertigem para a presunção por parte de quem parece estar a “ver o filme todo”, e o tipo de incitamento para a sublevação contra os “poderes fácticos”, insere-se na vastíssima história de ingerência do intelectual no campo da política.

O que faz correr estes intelectuais? Que forças empurram académicos e escritores, das mais diversas áreas, a levianamente se imiscuírem em terrenos apertados que manifestamente não dominam? O que faz correr o intelectual transformado em «filotirano», revelando um total desprezo pelo que, até agora, foi alcançado, em termos de organização social e política?

Para quem se debruçou meticulosamente sobre a história das ideias políticas, como foi o caso de Isaiah Berlin, existe um fio condutor que pode explicar em parte as questões aqui colocadas. Em livros como "Against The Current", "The Power of Ideais", ou "The Proper Study Of Mankind", podemos reparar na forma como Berlin, de forma convincente e fundamentada, através do estudo dos 'philosophes' mas também dos contra-iluministas, aponta o dedo para o corte abrupto produzido pelo Iluminismo na tradição e na religião cristãs europeias. O ponto de Berlin, também abordado por Oakeshott (embora Oakeshott recue até Descartes), é este: no meio de tudo o que de bom representou, o Iluminismo produziu também a assumpção de que todas as questões morais e políticas têm apenas uma única resposta e solução, todas elas compatíveis entre si, e que estas soluções só serão alcançadas através da Razão, custe o que custar. E quem melhor para exercitar a Razão que o intelectual?

Numa perspectiva distinta, há quem procure encontrar resposta às questões acima colocadas através da identificação de impulsos religiosos e irracionais, que se afastam, precisamente, da Razão humana. Ao contrário de Berlin, Jacob Talmon, por exemplo, afirma que o Sec. XVIII e XIX foram fartos não em doutrinas «racionalistas», as quais caminhavam no correcto sentido liberal e democrático, mas sim num novo fervor religioso e em expectativas «messiânicas» que imbuíram, incorrectamente segundo Talmon, as ideias democráticas modernas. Neste campo, o que se procurou evidenciar foram as relações, na prática, entre as modernas formas de tirania e os mais diversos fenómenos religiosos - como o misticismo, cabalismo ou o messianismo - que supostamente terão produzido a obsessão histérica e o fundamentalismo em torno de conceitos como "raça", “glorificação da violência revolucionária" como força purificadora, culto da personalidade, da iconografia, etc. Boaventura e Saramago seriam, assim, uma espécie de novos profetas, trabalhando para espalhar uma nova fé, baseada num "outro mundo" e num "novo homem".

Raymond Aron, por seu lado, aponta para outra perspectiva, baseada no exemplo francês. A França viu nascer e crescer, de forma exponencial, o fenómeno do comprometimento e empenhamento exacerbado dos intelectuais na vida política. Se os intelectuais vieram, e muito bem, ao terreno político no caso Dreyfus, pela mão de Zola, para pôr a nu a hipocrisia e a injustiça baseada no preconceito religioso/racial, a partir de certa altura essa ingerência dos intelectuais (escritores, cientistas, filósofos, etc.) no campo político foi produzindo os seus efeitos nefastos. Aron faz referência à forma perfeitamente irresponsável como os intelectuais em França deixaram de lado um sentido de proporção moral na análise da realidade e, 'en passant', se desresponsabilizaram do seu papel equidistante e independente no campo da política (Aron aponta o caso de Sartre como paradigmático, mas podíamos também falar em Derrida ou Foucault), deixando-se embebedar pelo romanticismo e despotismo das ideias.

Mas eu acho que, no caso do Sr. Boaventura Sousa Santos, do Sr. Saramago e de tantos outros, aplica-se a explicação de Mark Lilla para o fenómeno: o poder de 'eros', para o bem e para o mal, na prossecução das ideias. Sócrates explicou: o amor quer o bem mas também serve o mal. Isto porque o amor provoca a loucura, uma deliciosa e apelativa forma de loucura que nos é difícil de controlar, quer estejamos apaixonados por outra pessoa ou por um conjunto de ideias. A suprema felicidade só poderá ser alcançada se, de facto, essa loucura estiver sob controlo e sejamos capazes de tomar conta da nossa alma. É esse auto-controlo relativamente à força de 'eros' que representa o «core business» da actividade filosófica. Como Platão explicou, a vida filosófica é uma vida de erotismo controlado que espera alcançar aquilo que o amor inconscientemente procura: a verdade eterna, a justiça, a sabedoria. Poucos são os que são capazes de alcançar este equilíbrio e esta vida. A maioria acaba por ficar refém e escrava dos seus impulsos, perdendo o controlo da situação. É precisamente neste ponto que Sócrates identifica uma classe mais comum de almas tirânicas, corporizada não por chefes ou líderes, mas por professores, oradores, escritores - ou seja, o que hoje comummente designamos por «intelectuais». Estes homens, tal como o jovem Dionísio, são propensos a deixar-se queimar pelas ideias porque não conseguem dominar as suas paixões nem sair dos seus paradigmas. Eles pensam que são mentes independentes quando, na realidade, são guiados pelos seus demónios internos e pela vaidade de verem reconhecidas e aprovadas as suas ideias. Falta-lhes o treino pedagógico e a sua reputação depende da excitação das paixões, não do controlo das mesmas.

Isto serve, que nem uma luva, para explicar o comportamento de Boaventura Sousa Santos e Saramago. No fundo, estes intelectuais são uma e a mesma face do velho paradigma marxista de que o capitalismo e a sociedade burgueso-liberal conduzirão ao choque, à revolução, à mudança radical e libertadora – coisa que eles, caso lhes fosse dada a possibilidade, precipitariam e levariam às últimas consequências.

Por detrás do slogan “Somos Todos Terroristas”, esconde-se um radicalismo larvar e niilista, alimentado, ao longe, por certas cabeças que, vagueando por entre os corredores das universidades, sugam os meios que o sistema lhes proporciona para “espalhar a palavra”. No fundo, são «intelectualóides» a quem lhes falta o treino pedagógico, o sentido da realidade, a noção do ridículo e a honestidade intelectual para evitar o aproveitamento reles da insatisfação de certas franjas da sociedade. Acima de tudo, desconhecem, por completo, o que significa a humildade e o cepticismo em matéria de soluções gerais para humanidade.
OAKESHOTT E O RELATIVISMO MORAL

Do leitor Gonçalo Pina recebo a seguinte questão:

”A defesa dos ways of life de Oakeshott é uma forma de relativismo moral? É uma curiosidade minha. Não se sinta obrigado a responder. Responda apenas se for entendido na matéria e não tiver que perder muito tempo com isto.”

Caro Gonçalo: não me sinto obrigado a responder, não sou grande entendido na matéria (sofro de diletantismo agudo) e não vou perder muito tempo. Por isso, cá vai: NÃO!

A filosofia política de Oakeshott não é moralmente relativista. Não significa isto que Oakeshott fosse um absolutista. Oakeshott rejeitaria, certamente, a base racionalista e dogmática do absolutismo. Entre: a) a crença de que a diversidade de valores é apenas aparente – existindo um standard universal e objectivo a que se pode recorrer na avaliação qualitativa dos mais diversos valores; e b) a crença de que todos os valores são diversos e relativos – existindo muitas formas de os classificar e hierarquizar – Oakeshott e, em boa medida, o conservadorismo, coloca-se numa posição intermédia entre os dois extremos: o pluralismo. De acordo com o pluralismo, o tal padrão objectivo e universal existe, apenas aplicado a certos valores. Existe um mínimo de valores essenciais, irredutíveis, sem os quais será difícil alcançar uma vida digna e feliz. E isso aplica-se, certamente, ao nível das questões morais. Para o pluralista, este standard/padrão aplica-se ao campo das necessidades morais (onde prevalece o absolutismo), deixando em aberto o campo das possibilidades morais (onde prevalece o relativismo).

Para que não hajam dúvidas entre as diferenças entre o pluralista e o relativista, relembro uma passagem de “My Intellectual Path”, de Isaiah Berlin (bastante esclarecedora, como é habitual em Berlin):

”I came to the conclusion that there is a plurality of ideals, as there is a plurality of cultures and of temperaments. I am not a relativist; I do not say ‘I like my coffee with milk and you like it without; I am in favour of kindness and you prefer concentration camps’ – each of us with his own values, which cannot be overcome or integrated. This I believe to be false. But I do believe that there is a plurality of values which men can and do seek, and that these values differ. There is not an infinity of them: the number of human values, of values which I can pursue while maintaining my human semblance, my human character, is finite – let us say 74, of perhaps 122, or 26, but finite, whatever it may be. And the difference this makes is that if a man pursues one of these values, I, who do not, am able to understand why he pursues it or what it would be like, in his circumstances, for me to be induced to pursue it. Hence the possibility of human understanding.
I think these values are objective – that is to say, their nature, the pursuit of them, is part of what it is to be a human being, and this is an objective given. The fact that men are men and women are women and not dogs or cats or tables or chairs is an objective fact; and part of these objective fact is that there are certain values, and only those values, which men, while remaining men, can pursue. If I am a man or a woman with sufficient imagination (and this I do need), I can enter a value-system which is not my own, but which is nevertheless something I can conceive of men pursuing while remaining human, while remaining creatures with whom I can communicate, with whom I have some common values – for all human beings beings must have some common values or they cease to be human, and also some different values else they cease to differ, as in fact they do.
That is why pluralism is not relativism – the multiple values are objective, part of the essence of humanity rather than arbitrary creations of men’s subjective fancies.”


Este texto seria, certamente, do agrado de Oakeshott.

Pensar que Oakeshott fez a apologia do discurso moralmente relativista - em que os meus valores são meus, os teus são teus, e se colidirmos, azar, nenhum de nós pode dizer que tem razão – não lembra a ninguém. Nem a filosofia de Oakeshott é, sequer, uma filosofia de valores. Daí que não entenda a pergunta do Gonçalo Pina.

“Politics is the pursuit of intimations”, disse um dia Oakeshott. Na sua obra Rationalism in Politics escreveu, também:

“[a tradition of behaviour] is neither fixed nor finished; it has no changeless centre to which understanding can anchor itself; there is no sovereign purpose to be perceived or invariable direction to be detected; there is no model to be copied, idea to be realized, or rule to be followed. Some parts of it may change more slowly than others, but none is immune from change. Everything is temporary.”

Se o Gonçalo Pina quiser, por exemplo, pegar nesta aparente falta de ‘objectivismo’ e fazer dela uma forma de ‘relativismo’, extensível às questões de ordem moral, está no seu direito. Mas está errado. Porque os critérios que orientam uma tradição de comportamento são a coerência e o principio de continuidade:

“Though a tradition of behaviour is flimsy and elusive, it is not without identity, and what it makes it a possible object of knowledge is the fact that all its parts do not change at the same time and that the changes it undergoes are potential within it. Its principle is a principle of continuity: authority is diffused between past, present and future; between the old, the new and what is to come. It is steady because, though it moves, it is never wholly in motion; and though it is tranquil, it is never wholly at rest.(…) Everything is temporary, but nothing is arbitrary. Everything figures by comparison, not with what stands next to it, but with the whole.

Ao longo da sua obra, Oakeshott soube-nos alertar para a falência eminente do modelo político baseado nas ideologias e no dogmatismo da técnica, e para a encruzilhada moral servida por um relativismo estéril e arbitrário. Sinceramente, Gonçalo Pina, não percebo o alcance da sua pergunta.

sábado, junho 14, 2003

SO LONG, GREG



Gregory Peck 1916-2003


De Peck, sempre excelente na sua função de actor, retenho quatro grandes representações: em Moby Dick (filme menor de John Huston, baseado na obra maior de Mellville); em Mirage (um dos melhores film noir dos anos 60, realizado pelo subestimado Edward Dmytryk); em The Paradine Case (do grande Hitchcock); e, especialmente, em Spellbound (também de Hitchy).

E, é claro, a voz. A história do cinema teve duas grandes vozes: James Mason e Gregory Peck.

quarta-feira, junho 11, 2003

MIGUEL ESTEVES CARDOSO DIXIT

"Na mágoa de perder um blogue tão imperdível como A Coluna Infame, não devemos deixar de admirar, também e sobretudo, a extraordinária dignidade e beleza do gesto de Pedro Mexia e de Pedro Lomba.

Há uma grandiosidade em ser-se íntegro ao ponto de não admitir uma única falha; ser-se responsável até à exaustão de todas as possíveis críticas; ser-se tão fiel a um projecto que não se lhe admite uma única mancha.

Para todos nós, é uma lição muito bonita.

Aguardo ansiosamente lê-los outra vez o mais depressa possível. Com um novo respeito.

Espero que o exemplo dado contribua tanto para a elevação moral e intelectual deste sensível mundo dos blogues como irrefutavelmente contribuiu A Coluna Infame.

Cada palavra que escrevemos é o que somos. Talvez mesmo o que mais somos. Dizer que deveria ser sempre assim é uma questão de mero procedimento que, bem vistas as separações ontológicas, em nada modifica esse verdadeiro ser.

Parabéns.

Sentidos."


Eu não diria melhor. Obrigado Miguel.
QUEM É?

Mas quem é a Sra. Fátima Felgueiras? Quem será esta senhora que, fugindo cobarde e criminosamente da justiça do seu país, tem direito a tempo de antena, em horário nobre, e a sorrisinhos complacentes de entrevistadores e apresentadores?

O que hoje se passou nos noticiários foi uma vergonha. Não encontro outra palavra.

Somos muito pequeninos. Mesquinhos. Subservientes. Absurdos.

"País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano." (Alexandre O'Neill)
COLUNA INFAME

A Coluna Infame não pode acabar.

A Coluna Infame é a referência. Foi por causa dela que criei um blog.

Caro Pedro Lomba, caro Pedro Mexia: we need you! (não refiro o JPC porque ele já anunciou que vai regressar).

Tenho dito! E não aceito o contrário.

segunda-feira, junho 09, 2003

AINDA WOLFOWITZ

O meu amigo Zé Luis, insiste:

”Tomando como verdadeiro o conteúdo da entrevista descrito pelo Público, não deixa de ser verdade que o facto de Wolfowitz apresentar mais dois pretextos além das ADM's em nada afecta o essencial das suas afirmações. Tratava-se de facto de arranjar forma de convencer os seus "aliados" a apoiar uma acção militar absurda, injusta, desnecessária e de contornos neo-nazis e como tal a argumentação tinha que ser de peso. Um, dois, três, dez, quarenta pretextos não dão razão a quem não a tem. O resto são jogos de palavras de quem, sentiu o ridículo em que tinha caído (JM Fernandes é um óptimo exemplo) e teve de reagir.
As palavras podem iludir a razão mas nunca a poderão substituir.”


Meu caro Zé Luis: não houve "jogos de palavras". Quem jogou com as palavras – distorcendo e omitindo – foram os media e certos jornalistas. Aquilo que Wolfowitz disse é razoável e compreensível. Nunca houve um só pretexto. Da mesma forma que Wolfowitz fala em quatro pretextos, também eu e José Manuel Fernandes (ele não a solicitou, mas eu vou dar-lhe uma ajuda, neste ponto) nunca restringimos a nossa argumentação à questão das ADM’s. No meu caso, houve razões bem mais fortes, que tentei explicar em vários ‘posts’, há dois meses atrás (não os vou repetir, para não maçar...)

É curioso verificar como não consegues dar a mão à palmatória, reconhecendo que as palavras de Wolfowitz – quer em relação às ADM’s, quer em relação ao petróleo – foram distorcidas e retiradas de contexto. Será assim tão difícil?

É claro que é. Para quem continua a falar em acções “absurdas” com contornos “neo-nazis”, será sempre difícil reconhecer, ainda que pontualmente, que houve precipitação no julgamento de um determinado depoimento. O problema, resume-se, pois, a isto: puro preconceito e maniqueísmo. O mesmo preconceito e o mesmo maniqueismo que cega e tolda o nosso discernimento, não nos deixando, sequer, ler o que está lá escrito.

Tens razão quando dizes quem nem dez ou quarenta argumentos dão razão, sobretudo a quem nós decidimos, aprioristicamente, vedar qualquer tipo de razão. O benefício da dúvida nunca foi dado a Bush e Ca. Essa é que essa. Pouco ou nada importa o que façam de positivo (veja-se agora o caso do médio-oriente e do «road map»: alvo dos mais soezes ataques). Pouco ou nada importa a honestidade pública dos dirigente – sem rede, olhos nos olhos - própria de uma democracia. Porque, no caso desta administração «neo-nazi», há sempre engenho e arte suficientes para dar a volta ao texto. Nem que se usem golpes baixos e se fale em “jogos de palavras”.

Um abraço, MacGuffin

PS: E quanto às ADM's, esperemos mais uns tempos. Poderá haver surpresas...
MOLIN DE ESCRITA FINA

Só hoje reparei, com a ajuda da minha amiga Ana Albergaria, que o caro Molin tem um blogue. Eis o link.

Força, Molin!

Um abraço, MacGuffin.
MANIPULAÇÕES? EXACTO!

O meu amigo Zé Luis escreveu-me:

”não queria deixar de comentar uma notícia que lí na Visão.
Quando eu pensava que sobre a questão da guerra no Iraque já tudo estava dito e escrito, eis que surge esta pérola:
Parece que numa entrevista à "Vanity Fair" Paul Wolfowitz se saíu com esta "Combinámos avançar com o tema das armas de destruição maciça porque era o único argumento com que toda a gente podia estar de acordo" mais à frente "A decisão de assim justificar o ataque foi pois tomada por razões burocráticas".
Penso que isto prova, mais do que a cretina arrogância da administração americana, o ridículo que foi a sua defesa por parte de alguns europeus, quer por directa ou indirectamente ganharem alguma coisa com isso (casos de alguns distintos colunistas da nossa praça), quer pela ingenuidade própria de quem na infância se habitou a vêr os cowboys como os bons e os índios como os maus nos westerns de segunda categoria e asim continuou ao longo da vida, com Hollywood assim como com a CNN e afins.
Nem valerá a pena comentar a encenação da operação de resgate de Jessica Lynch, agora desvendada, pois essas e outras manipulações já não me surpreendem.”


Sobre o assunto, e por preguiça, tomo a liberdade de ‘postar’ aquilo que João Noronha escreveu no seu Valete Fratres:

“MAIS UMA MANIPULAÇÃO JORNALÍSTICA: A ENTREVISTA DE WOLFOWITZ

Na passada semana, foi universalmente noticiada uma entrevista de Paul Wolfowitz em que este, ALEGADAMENTE, afirmava que a questão das WMD tinham sido apenas um pretexto burocrático para a guerra no Iraque.

Pois bem, esta notícia era MENTIRA.

Quem fizer o favor de ler a transcrição da entrevista, poderá verificar o seguinte:

Wolfowitz: No, I think it happens to be correct. The truth is that for reasons that have a lot to do with the U.S. government bureaucracy we settled on the one issue that everyone could agree on which was weapons of mass destruction as the core reason, but …there have always been three fundamental concerns. One is weapons of mass destruction, the second is support for terrorism, the third is the criminal treatment of the Iraqi people. Actually I guess you could say there's a fourth overriding one which is the connection between the first two.

A entrevista permite também destruir o mito da influência dos "neo-conservadores straussianos" sobre a Administração Bush.

Fico à espera de ver o desmentido nos media portugueses...”


Desmentido esse, meu caro Zé Luis, que o Público já fez (como o tinha já feito, também, o The Guardian).

Transcrevo, também, o editorial de José Manuel Fernandes, sobre a questão:

Wolfowitz e a imprensa
"Afinal é tudo muito simples. A existência de armas de destruição maciça no Iraque no Iraque foi apenas um pretexto para a guerra, já que o motivo principal para a intervenção foi o país "nadar em petróleo". Paul Wolfowitz, sub-secretário da Estado da Defesa dos Estados Unidos, disse-o, ou confessou-o, pelo que todas as dúvidas estão dissipadas. Foi tudo uma maquinação e uma grande mentira, não é verdade?
Não, não é verdade. E não é verdade pela mais simples das razões: é que Paul Wolfowitz não disse o que se diz e escreve que ele disse. Vale a pena ver como se construiu o mito das "confissões" do "número dois" do Pentágono - ou como este foi vítima do fenómeno de desconstextualização das suas afirmações, um fenómeno jornalístico de que ontem mesmo se queixava no PÚBLICO, falando da sua experiência própria, Eduardo Prado Coelho.
O primeiro caso surgiu com uma entrevista à revista nova-iorquina de celebridades "Vanity Fair" realizada pelo escritor Sam Tanenhaus. Segundo a agência France Press, aquele responsável teria admitido que a existência de armas de destruição maciça era apenas "um pretexto" para desencadear a guerra contra o Iraque.
Uma tal asserção causou-me natural perplexidade, pelo que tentei encontrar rapidamente a "Vanity Fair" para conhecer as palavras exactas de Wolfowitz, tarefa impossível pois a revista não está ainda à venda: o que se conhece da entrevista é apenas o avanço editorial fornecido pela própria "Vanity Fair". Uma busca mais detalhada permitiu-me contudo encontrar a transcrição integral da conversa entre o sub-secretário de Estado e Sam Tanenhaus, disponível, como todas as intervenções públicas de Wolfowitz, no site do Pentágono, endereço www.defenselink.mil. E o que é que este tinha dito? Veio no PÚBLICO de quarta-feira:

"A verdade é que por razões que têm muito a ver com a burocracia dos Estados Unidos acordámos numa questão em que toda a gente pudesse concordar, que foi a das armas de destruição maciça como razão central, mas houve sempre três preocupações fundamentais. Uma eram as armas de destruição maciça, outra o apoio do terrorismo, a terceira o tratamento criminoso do povo iraquiano".

Entre isto e a asserção do "pretexto" a diferença é, como se vê, grande. Mas mesmo assim menor do que a existente entre a intervenção de Wolfowitz em Singapura (datada de 31 de Maio) e as notícias ontem difundidas nalguns jornais, incluindo o PÚBLICO, de que este defendera que a guerra tinha tido como motivo principal o petróleo. Lida, de novo, a transcrição integral (ver página 16), verifica-se que afinal o que o sub-secretário da Defesa discutia eram as diferentes formas de lidar com o Iraque e a Coreia do Norte, salientando que num caso se podiam realizar pressões económicas e noutro estas eram impossíveis porque o país nadava "num mar de petróleo".

Podemos discordar, e até criticar, Wolfowitz, por ter falado em "razões burocráticas", ou considerar infeliz que pronunciasse a palavra-tabu - petróleo -, mas convém não distorcer o que disse.

Neste caso, foi possível ir à fonte e ter acesso às transcrições integrais das palavras do responsável americano. E foi possível porque tudo o que os governantes americanos dizem em encontros públicos é gravado, transcito e disponibilizado na net. Já em Portugal, quando a imprensa comete os mesmos atropelos e distorções, aos responsáveis políticos envolvidos apenas resta esbracejar."


Meu caro Zé Luis: em matéria de “manipulações” e “encenações”, estamos falados. Não achas?
EMUDECIDOS

Curioso o silêncio dos pacifistas, que ainda há pouco vociferavam contra a intervenção americana e dos seus aliados no Iraque, relativamente ao plano de paz para o médio-oriente. Numa altura em que a esperança renasce e em que, por pressão de Bush, Abu Mazan e Sharon voltaram à mesa das negociações, não há, por parte dessa gente, a mais leve das saudações, o mais pequeno entusiasmo. Ao que tudo indica, parecem não perdoar ao idiota do Bush o facto de ele estar empenhado na criação de um Estado Palestiniano e na promoção de uma paz duradoura para a região. O atrevimento do pulha!

A COLUNA FICOU MAIS POBRE

É com que pesar que verifico que João Pereira Coutinho deixou de escrever para a Coluna Infame. Ainda assim, espero que o João arrange maneira de voltar à blogosfera. Só aquela coluna no Indy sabe a pouco.

Força João. E força Coluna.
PORQUÊ MÁRIO?

Sábado à noite, RTP2. Programa “Sax Azul”. Quarteto de Mário Laginha. Gravação de 1989, Estúdios Edipim. Notável performance. Enquanto ouvia aquilo, pus-me a pensar: porque raio se ligou o homem à Maria João? What a fu***** waste of time and talent...
KETCHUP VS. SINATRA

Sobre o meu ‘post’ “Terei exagerado”, recebi dois sumarentos comentários (de um papá e de uma mamã):

Do Nuno: ”A tua filha viu a Luz - ou a Voz. Como sinatrófilo indefectível e membro da Sinatra Music Society, digo sem reservas que essa rapariga vai longe. E pode juntar-se à minha filhota mais velha (5, going on 6), que, tendo o pai que tem, trata o Frank por "Mestre Sinatra".

Da Isabel: ”Os meus filhos também gostam muito do frank (têm 4 e 7 anos). Claro que para mim é claríssimo que a música (e muito em especial, as incríveis orquestrações e arranjos que só os americanos conseguem fazer) explica a preferência da sua filhota. Estamos a falar de material musical que é perfeitíssimo do ponto de vista perceptivo, tudo bate certo, é como os bebés preferirem olhar para um rosto humano em vez de uma pintura abstracta... Não sei é se tem passado pelo mesmo que eu, que é a minha filha ter sentido que era esquisita por não puder partilhar com colegas os seus gostos musicais... Numa festa recente os meus filhos eram os únicos que nunca tinham ouvido as ketchup e não conheciam aquela coreografia pateta. Num primeiro momento, fiquei altivamente orgulhosa, mas pensei melhor e achei que não valia a pena excluir a possibilidade de os miúdos partilharem gostos musicais com colegas por não conhecerem as músicas que os outros ouviam... Então, em vez de só ouvirem os nossos cds, passaram a ouvir rádio, e estou surpreendida com avaliações estéticas. São implacáveis: a minha filha fica desconcertada com o abrunhosa, acha que não é, nem poderia ser nunca, cantor (pudera, habituada ao sinatra, à barbra streisand, ao gilberto gil, aos beatles, etc). Enfim, este mail longo não é nada o meu estilo (nem responder a posts) mas como me identifiquei com o que disse, não resisti. Já agora, se quiser dar uma vista de olhos num blog onde colaboro com mães (e pais também): www.maes.blogspot.com “

Caros colegas: obrigado pela vossa participação.

Não é fácil gerir as solicitações a que estão sujeitas, hoje em dia, as crianças. Por muito que nós, pais, no espaço reservado e protegido do lar, tentemos, sub-reptícia e discretamente, incutir nos nossos rebentos determinados padrões de gosto ou de estilo, há uma parte significativa do seu tempo sobre a qual não exercemos qualquer espécie de controlo. Embora não devemos ser indiferentes ou estar desatentos, não podemos ser derrotistas ou excessivamente zelosos em relação a uma coisa que é, repito, incontrolável. Lutar contra isso é tarefa quixotesca. Até porque poderá provocar situações de segregação ou desconforto nas próprias crianças (por exemplo, a sensação de não pertencerem a determinado «grupo» que ouve ou tem gosto por determinada coisa).

Não me importo muito com o facto da minha filha ouvir - na escola, em festas ou em casa das amigas - determinadas manifestações musicais. É impossível evitar e, provavelmente, é até desejável que isso aconteça (para que saibam optar e diferenciar). Resta-nos a nós, pais, fazer o trabalho de casa. Qual? «Insinuar» alternativas (o termo é adequadíssimo), despertar-lhes, serena e inteligentemente (nunca de forma compulsiva), no espaço que controlamos, o gosto e a sensibilidade por «outras» musicas. Gosto e sensibilidade que, é bom dizê-lo, reflectem a vivência e a sensibilidade dos seus (pro)genitores.

Como já referi, a minha filha tem sete anos. Esta semana, por exemplo, andei no carro com um CD do Miles Davis intitulado “Ballads & Blues”. Sei que ela o adora. Mas não pretendo insinuar que a minha filha seja uma indefectível do Jazz (como o pai). Ainda é muito cedo (até porque o Jazz não é propriamente ‘perfeito’ ou ‘arrumadinho’ do ponto de vista da percepção). Mas o «bichinho» já lá está.

Todo este trabalho de abertura do leque de escolhas deve, contudo, obedecer a duas regras básicas: 1ª) Não forçar a «injecção». Não nos podemos esquecer que uma criança de sete anos ainda não tem «ouvido» para determinadas «complicações»; 2ª) Escolher criteriosamente o que lhes propomos dar a ouvir.

Quando referi “leque de escolhas”, é também bom referir que não pode haver excessiva elasticidade, em termos de diversificação. Se eu martelar os ouvidos da minha filha com os meus vinis do Steve Reich, posso correr o risco de obter o resultado inverso do pretendido. Por outro lado, não iria cair no disparate de abrir o leque a estilos que eu não oiço. Recusar-me-ia a incluir no menu Trash, Heavy Metal, Tecno ou Disco Sound da treta, para cumprir a função de “abrir o leque”. Até por uma questão sanitária.

Resumindo e concluindo, as palavras mágicas são: bom senso; (algum) bom gosto; razoabilidade; e muita, muita atenção. O resto virá com o tempo.

sábado, junho 07, 2003

ACREDITEM

Recebi, via FNAC on-line, a edição brasileira do livro de Paul Johnson “A History of the Jews". E perguntam-me vocês: para quê comprar este livro se tinha já a edição original do dito, numa edição da Phoenix Press? É simples: para quem está habituado a vaguear por entre as ilhas temáticas das FNAC’s, recheadas de Chomskis, Kleins & Ca. Lda., pensava eu que era brincadeira. Afinal, enganei-me. Quero dizer: eles até estão lá. Estão é escondidos.
É A CULTURA, ESTÚPIDO

Assisti, pela primeira, a mais uma edição (terceira) do evento/tertúlia “É a cultura, estúpido”, no assombroso espaço do Teatro S. Luis. Estiveram presentes, entre outros, Pedro Mexia, José Mário Silva, Anabela Mota Ribeiro, Ricardo de Araújo Pereira e Nuno Miguel Guedes. Ausentes: João Pereira Coutinho, Pacheco Pereira (os grandes ausentes) e Miss CHArlotte (as melhoras querida Charlotte!). Eis as minhas impressões:

Moderação. Pode dizer-se, com total segurança, que Anabela Mota Ribeiro tem uma presença radiante e estimulante (!). Mas não há bela sem senão: falta-lhe a garra e o discernimento suficientes para formular as questões mais pertinentes. Cabia-lhe a ela o papel de espicaçar o debate e instigar a discussão, nem que, para isso, tivesse que interromper, chatear, perturbar qualquer dissertação sobre este ou aquele assunto. Mas não. Esteve um pouco chocha. A espaços, as suas perguntas pareciam, até, algo insípidas e redundantes. Seria nervosismo?

Temas. Blogosfera e literatura. O debate sobre a blogosfera foi interessante. Previsíveis foram as intervenções do género “quantos livros deixaste de ler por estares na blogosfera?” ou “a blogosfera é uma alternativa aos jornais mainstream – poucos e desinteressantes”. The usual stuff. Ninguém, no seu perfeito juízo, substitui a leitura de um livro pela blogosfera. E quem diz a blogosfera, diz por um jornal, revista, uma ida ao cinema, etc. Mais: pela quantidade de livros que são mencionados em alguns blogs, só um «perfeito anormal» não sente curiosidade em comprar e ler mais livros. Depois, há uma questão que ninguém parece discutir quando se toca no assunto: valerá a pena trocar a blogosfera, os jornais ou a habitual ida ao cinema, por certos livros? Caramba: há livros perigosos, estupidificantes, boçais. Arrisco uma pergunta: quantos Dostoievskis, Nabokovs, Tchekhovs ou Calvinos deixou João Miguel Tavares (quem levantou a questão) de ler, para se dedicar àqueles obscuros volumes?
Very typical é, também, a vertigem para a intelectualização, abstracção e catalogação ou classificação de tudo o que seja diferente ou ‘off the mainstream’. Nesse sentido, as intervenções de Pedro Mexia e Tiago Cavaco (em louvável registo low-profile) foram úteis: fizeram baixar a questão para um nível bem mais terreno. A blogosfera é, acima de tudo, um espaço de liberdade onde, cada um, alinhava uma espécie de diário inconsequente, sobre os mais diversos temas: política, amor, literatura, futebol, cinema, suinicultura, etc. É um espaço de comunhão, afectos, humor, vaidade (muita vaidade!), ódios. É um meio de comunicação efémero: não sendo palpável, como o são as folhas de um livro, jornal ou revista, nem um recorte se guarda. Vai tudo ficando para trás, por entre links e links de arquivo, que nunca mais se lerão. Terá o seu tempo, que pode ser de meses, anos ou décadas. Não é alternativa a nada, nem se substitui a nada. Como dizem os políticos, em relação às sondagens, “vale o que vale.”
No que respeita aos comentários/críticas a livros, não posso disfarçar o meu incómodo sempre que observo os críticos literários ou o comum dos mortais a discorrer sobre um livro da sua preferência. Eu até apoio a masturbação, mas em público não cai bem. É um pouco o que acontece quando convidam um poeta para falar de poesia. Falar do quê: do “processo criativo”? da musa inspiradora? das preferências poéticas? Tudo demasiado pornográfico para o meu gosto.
Nota final: hilariante o comentário de José Mário Silva a um livro de Alexandra Solnado (não importa mesmo nada qual), embora, a partir de certa altura, me tenha parecido estar-se a bater no ceguinho...

Os intervenientes. Pedro Mexia: um tipo às «direitas», no duplo sentido da palavra. ‘Exquisite’ sentido de humor, bons dotes de oratória, comentários a revelar sagacidade. Cumplicidade quase total (infelizmente, o homem é do Benfica). Nuno Miguel Guedes: um senhor. Simples, mas com pinta (o que confirma a regra: as pessoas simples são as que têm mais pinta). Económico nas palavras, mas certeiro, objectivo, lúcido. Uma simpatia a toda a prova. José Mário Silva: por muito que possamos discordar das suas opiniões (e falo das políticas), é impossível não simpatizar com a sua figura. Não deve ser difícil ser amigo do José Mário. Ricardo de Araújo Pereira: simpático e brilhante! As sátiras à relação de afectos entre Manuel Alegre e Luís Figo (agora sei quem escreveu os artigos de opinião do jogador) e à prosa indizível de Camila Coelho, levaram-me às lágrimas. Pena é que não estivesse presente o Zé Diogo Quintela – o gato fedorento mais esclarecido de todos: é de direita e do Sporting. Daniel Oliveira: deu para ver como são compreensíveis os achaques do JPC em relação ao dito. A avaliar pela boca ao José Pacheco Pereira, e pela postura saltitante, deu para ver que o homem se leva muito a sério. Bem, posso estar a ser injusto...

Por último, os afectos. Conheci, pela primeira vez ao vivo, o amigo virtual com quem tenho tido maior cumplicidade intelectual nos últimos anos. O meu «mano». ‘The man from Trafaria’. O Maradona. Agora já posso dizer que já não sou seu amigo. Virtual, entenda-se. Sou real.

Por «culpa» do Maradona, e para minha grande surpresa, conheci também a querida Papoila (um sorriso contagiante e um olhar acutilante) e o enigmático e ultra-porreiro Umbigoniilista. Sobre o Umbigo, uma palavra: Triffids!

Soube-me a pouco. Para quando uma próxima tertúlia? Pretendo estar estupidamente presente.

PS: um beijinho à Zazie. Ela sabe porquê.

quarta-feira, junho 04, 2003

NEW YORK

TEREI EXAGERADO?

A minha filhota, de sete anos, tem como música preferida o “I’ve got you under my skin”, na voz de Francis Albert Sinatra. Não era suposto estar a ouvir as Ketchup ou o Batatoon?



MEAT

Pronto. Tinha de ser. O amigo Carne já tem um blog. Bem haja!
AS LISTAS SÃO UM BICO DE OBRA

Inúmeros leitores (foram só três...) repararam nas “listinhas” que afixei: uma para o jazz, outra para a música pop. Sobre esta última, destaco as sugestões do:

Nuno: "You Can't Hide Your Love Forever" dos Orange Juice; "A Um Deus Desconhecido", Sétima Legião; "Colossal Youth", Young Marble Giants; "La Varieté", Weekend (na verdade, Alison Stratton dos YMG); e "Eden", Everything But The Girl.

Hank: qualquer um dos Pixies ou qualquer um da Frank’s trilogy de Tom Waits.

Espada Relativa: “LC”, Durutti Column (a Espada Relatica considera-o um dos melhores álbuns de sempre, e eu assino por baixo); “Steve Macqueen”, Prefab Sprout; “Secrets of the Beehive”, David Sylvian; “Victorialand”, Cocteau Twins; “Come from Heaven”, Alpha; “Dummy”, Portishead; “Perry Blake”, Perry Blake; “Blue Lines”, Massive Attack; “Debut Album”, Lamb; “It'll End In Tears”, This Mortal Coil.


Meus amigos!: estas listas “valem o que valem” (frase fétiche dos políticos quando comentam sondagens). É sempre complicado escolher, seleccionar, separar. E os critérios são sempre confusos e subjectivos. Por exemplo, Pixies para mim não são Pop. Nem Durutti Column. E por aí fora. Mesmo assim, é imperdoável ter-me esquecido do "Blue Lines"!!!

É óbvio que subscrevo as vossas sugestões (retiraria o Perry Blake). Mas haveria tantas outras a acrescentar...

Um abraço. Obrigado pela vossa participação.
1977?

A palavra ao Vasco:

”(...) O mal da «inteligência» doméstica (cultural ou política) não reside na carência de reconhecimento, reside precisamente no oposto, na abundância de reconhecimento. Quase toda a gente que aí anda nos ministérios, nas Universidades, nos jornais e nos livros está promovida muito acima, infinitamente acima, da sua capacidade real. A começar por nós dois [o Vasco e João Bénard da Costa]: em que terra civilizada da Europa seríamos colunistas do maior jornal nacional? E em que sítio Otelo seria um revolucionário? Ou o major Melo Antunes um teórico da revolução? Ou Pinheiro de Azevedo Primeiro-Ministro? E não continuo, para não contribuir para a destabilização.
Um indivíduo faz qualquer coisinha – um livro sofrível, um filme sofrível, um discurso sofrível – e é acto contínuo catapultado para a triste celebridade lisboeta. Levam-no a sério, convidam-no para colóquios, pedem-lhe opiniões, metem-no no Governo. Além disso a criatura conhece outras como ele, com quem janta e almoça, conversa e intriga. E todas essas almas se confirmam mutuamente na sua excelência: o falso cineasta ao falso filósofo, o falso jornalista ao falso ministro. Encostam-se uns aos outros e dizem uns aos outros: somos reais, somo reais.
O pior é que não são, não somos. Alguns podiam ter sido. Mas porque não encontraram obstáculos que lhes exigissem esforço, contenção, trabalho, encostaram-se ao quentinho da consagração indígena e nunca se chegaram a «fazer». A nossa vida pública está cheia de cadáveres de jovens com um passado prometedor.
Em Portugal, quando se perde o sentido das proporções, perde-se tudo. E quem há aí que se possa gabar de não o ter perdido?”


Vasco Pulido Valente
in Diário de Notícias, Abril de 1977.

Pois é: quem? O José Luis Peixoto? O Mia Couto? O Possidónio Cachapa? A Teresa Villaverde? O Pedro Costa? Cala-te, MacGuffin! Não contribuas para a destabilização...
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