O MacGuffin: Março 2003

quinta-feira, março 27, 2003

RELEMBRAR SIR ISAIAH BERLIN

A propósito da pequena/grande frase que se encontra aqui ao lado, convém lembrar a passagem na íntegra:

"Everything is what it is: liberty is liberty, not equality or fairness or justice or culture, or human happiness or a quiet conscience. If the liberty of myself or my class or nation depends on the misery of a number of others human beings, the system which promotes this is unjust and immoral. But if I curtail or lose my freedom, in order to lessen the shame of such inequality, and do not thereby materially increase the individual liberty of others, an absolute loss of liberty occurs. This may be compensated for by a gain in justice or in happiness or in peace, but the loss remains, and it is a confusion of values to say that although my ‘liberal’, individual freedom may go by the board, some other kind of freedom – ‘social’ or ‘economic’ – is increased. Yet it remains true that the freedom of some must at times be curtailed to secure the freedom of others. Upon what principle should this be done? If freedom is a sacred, untouchable value, there can be no such principle. One or other of these conflicting rules or principles must, at any rate in practice, yeld: not always for reasons which can be clearly stated, let alone generalized into rules or universal maxims. Still, a practical compromise has to be found."

quarta-feira, março 26, 2003

A TRADIÇÃO JÁ NÃO É O QUE ERA

A minha amiga Zazie dizia-me, ontem, que, neste assunto da guerra, lhe parecia que a esquerda e a direita andavam trocadas. A minha querida amiga tem alguma razão. Bem vistas as coisas, no caso deste conflito, tenho visto mais idealismo (libertar um povo, fundar uma democracia), optimismo (ser o inicio do fim do doentio 'satus quo' do médio oriente) e moralismo (depor um ditador que mata o seu povo) do lado da direita que da esquerda. A boa da esquerda passou a ser cínica, pragmática, moralmente contorcionista e medrosa (epítetos que habitualmente lançava sobre a direita). A esquerda acha que o Iraque tem um problema «interno» (porque Saddam não é uma ameça para ninguém), logo não elegível para efeitos de intervenção externa. Todos reconhecem (o 'todos' é sinal de benevolência) que, às mãos de Saddam, morreram centenas de milhares de pessoas, nos últimos 30 anos. O homem é, de facto, um perigo. Mas a esquerda, que começa sempre as frases dizendo que Saddam é um ditador (por descargo de consciência, não se vá dar o caso de mais um «sindrome Bernardiniano»), logo se descarta do seu «grande coração» para dizer que este é um assunto que não obriga a nenhum tipo de ingerência pró-activa. Devemos, isso sim, observar à distância, no remanso do nosso sofá, como uns tipos envergando um bóne azul com a inscrição “ONU”, brincam às escondidas com Saddam por mais, digamos, 12 anos. Até lá? Vão desaparecendo uns milhares de inocentes mas, hélas, são «danos colaterais». Curioso, não é? A esquerda não consegue ultrapassar o estigma do «pitrólio». Não consegue pôr, para trás das costas, o eventual móbil do dito nem o seu preconceito cultural e político em relação aos EUA.

Muito «pitrólio» vai ter de ser vendido para tapar o buraco orçamental do esforço de guerra, não acham?
CONTACTO PARA COMENTÁRIOS

Este blog está aberto a comentários. Se estiverem para aí virados, escrevam para carlosccc@mail.telepac.pt Se não estiverem, escrevam na mesma. Contra ou a favor da corrente.

MacGuffin
PALAVRAS PARA QUÊ?

Almeida Santos disse, durante a homenagem a Barros Moura, que, parafraseando, “ele tinha um coração enorme, daí que fosse de esquerda, porque só a esquerda procura melhorar o mundo e as condições de vida das pessoas.” A esquerda no seu melhor: a presunção. Ou querem lá ver que sou de esquerda?

PS: fiquei preocupado com o tamanho do meu coração. Marcar ecocardiograma já!
CONCURSO

Retirando do concurso a wonder-team Michael Powell/ Emeric Pressburger, proponho à Blogosfera e aos seus leitores que tentem encontrar, na história do cinema, uma associação de cabeças mais profícua e genial que a de Hitchcock-Lehman-Herrmann. Vá: digam lá.
VOLTEMOS A FALAR DE CINEMA

Numa altura em que se comentam os Oscares – se Chicago não merecia, se Gangs of New York merecia, etc. – relembro um Filme: Janela Indiscreta. Eis um excerto.

Stella:
“The New York State sentence for a Peeping Tom is six months in the workehouse.”

Jefferies:
“Oh, hello Stella.”

Stella:
“You know, in the old days they used to put your eyes out with a redhot poker. Any of those bikini bombshells you’re always watchin’ worth a redhot poker? Oh dear, we’ve become a race of Peeping Toms. What people ought to do is get outside their own house and look in for a change. Yes, sir, how’s that for a bit of homespun philosophy?”

Jefferies:
“’Reader’s Digest’, April 1939”

Stella:
“Well, I only quote from the best”.

Stella:
“You know, I should have been a gipsy fortune teller instead of an insurance-company nurse. I got a nose for trouble. Smell it ten miles away. You heard of that stock market crash in 29? I predicted it.”

Jefferies:
“Just how’d you do that Stella?”

Stella:
“Oh, simple. I was nursing a director of General Motors. Kidney ailment, they said. Nerves, I said. Then I asked myself: what’s General Motors got to be nervous about? Overproduction, I said. Collapse. When General Motors has to go to the bathroom 10 times a day, the whole country’s ready to let go.”

Jeferries:
“You know Stella, in economics, a kidney ailment has no relationship to the stock market. None whatsoever.”

Stella:
“It crashed, didn’t it?”

Stella:
“I can smell trouble right here in this apartment. First you smash your leg, then you get to lookin’ out the window – see things you shouldn’t see. Trouble. I can see you in court now, surrounded by a bunch of lawyers in double-breasted suits. You’re pleading. You say: ‘Judge, it was only a bit of innocent fun. I love my neighbours like a father.’ And the judge says: ‘Well, congratulations. You’ve just given birth to three years in Dannenora.’”

Jefferies:
“Yeah, well, right now, I’d even welcome trouble, you know?”

Stella:
“You’ve got an hormone deficiency.”

Jefferies:
“I can you tell from a thermometer?”

Stella:
“Those bathing beauties you’ve been watching haven’t raised your temperature one degree in a month.”

Stella:
“Are you never going to get married?”

Jefferies:
“Oh, I’ll probably get married, one of these days, but when I do, it’s gonna be to someone who thinks of life not just as… just as a new dress and a lobster dinner and the latest scandal. I need a woman who’s willing to – hold it – willing to go anywhere and do anything and love it.”

Jefferies:
“So the honest thing for me tod do is just call the whole thing off… Let her find somebody else….”

Stella:
“Yeah, I can hear you now. Get out of my life, you perfectly wonderful woman! You’re too good for me.”

Stella
“Look Mr. Jefferies. I’m not an educated woman, but I can tell you one thing: When a man and a woman see each other and like each other, they oughta come together – wham – like a coupla of taxis on Broadway and not sit around analysing each other like to specimens in a bottle.”

Puro génio.
BAD SEX

O saudoso Auberon Waugh criou, em 1993, para a sua Literary Review, o prémio "Bad Sex in Fiction". O objectivo era o de chamar a atenção para "the crude, tasteless, often perfunctory use of redundant passages of sexual description in the modern novel, and to discourage it" - palavras de Auberon.

Candidatos ao prémio em 2002? Um, pelo menos: Michel Faber. Elevado à categoria de "O Charles Dickens do Sec. XXI", eis um excerto da obra "The Crimson Petal and the White":

"Minute upon minute she lies on his tigh, milking him, slyly inserting her middle finger into his anus, deeper and deeper, pushing past the sphincter. When he comes, she feels the contractions squeezing her finger first, then clamps her lips firmly around his cock as the warm gruel squirts into her throat."

Notórias as parecenças com Dickens.
MAIS COMENTÁRIOS

Comentário de Luis Santos:
”Permita que, depois de ler os posts do seu blog, lhe diga que a única coisa que não faz de si um "liberal clássico" é talvez a pouca apetência pela teoria económica. É uma velha tese minha que um "conservador" oakeshottiano só não se assume inteiramente como liberal clássico porque mantém alguns cantos escuros de desconfiança relativamente a uma "ordem de mercado" (ou "cataláxia"), como Hayek chamou àquilo que não é mais do que a tradução económica da nomocracia oakeshottiana. Julgo que a Escola Austríaca de Economia - que, não por acaso, é burkeana desde Carl Menger e assumidamente com Hayek - é um ponto confluência ainda negligenciado entre liberais clássicos e (falsos) "conservadores" à Burke e Oakeshott - e utilizo as aspas porque creio que o termo que assim empacoto é uma fonte insanável de equívocos.”

Caro Luis: no geral estou de acordo consigo. Mas impõem-se alguns pequenos ajustes. Para isso, voltemos a Oakeshott.

Fala o Luis em “conservador” Oakeshottiano. Muito bem. Nunca é demais lembrar que o conservadorismo de Oakeshott, embora não colidindo com a base do conservadorismo “latu sensu”, é particular e próprio. Se, tradicionalmente, o conservadorismo baseia a sua posição numa crítica à tentativa de substituir um sistema de «direitos» e «deveres» «naturais» por um plano geral de ajustamentos, para Oakeshott esses direitos não devem ser vistos como «naturais», antes como «históricos» e «relativos». Oakeshott nunca concordou com a natureza «natural» (passo o pleonasmo) e absoluta dos «direitos». Como ele próprio escreveu em Contemporary British Politics, esta visão é uma visão inerente à forma mais simples de concepção da sociedade baseada na «lei natural». “A verdade é que nós não começamos por ser livres: a estrutura da nossa liberdade é constituída pelos direitos e deveres que, através de um esforço longo e doloroso, foram estabelecidos na nossa sociedade. As condições da individualidade não são limitações; não há nada para limitar. E os ajustamentos dessas condições não são interferência (a não ser que sejam ajustamentos genéricos); eles são a continuação do que foi alcançado.”

Mas eu penso que, ao contrário do que o Luis afirma quando refere "a desconfiança relativamente a uma ordem de mercado", Oakeshott criticou o liberalismo (que considerava conter resquícios do Iluminismo/Racionalismo) num plano puramente filosófico. Embora se reconheça que Oakeshott se tenha posicionado de maneira a distanciar-se do materialismo e economicismo, sabe-se também que ele o fez mais no sentido de colocar a discussão num plano mais elevado do que propriamente com o intuito de «criticar». Como ele defendia, a filosofia política não pode apenas dar voz às opiniões políticas que advêm do ordinary self-understanding. O que ele criticou no liberalismo não foi tanto o carácter economicista (caramba: Oakeshott era contrário a qualquer economia planificada e reflectiu sobre isso sem qualquer constrangimento), mas antes a uma certa propensão para o historicismo servido pelo pragmatismo. A este propósito, convinha referir que, ainda hoje, decorre um apaixonante debate sobre se a teoria da associação civil de Oakeshott é uma teoria liberal ou se ela é sobretudo uma forma sofisticada de política tradicionalista.

Quanto a Burke, há diferenças. É verdade que o tradicionalismo de Oakeshott não destoa do de Burke. Mas há diferenças de perspectiva. Principalmente porque Oakeshott achava a tradição iminentemente contingencial, difusa, incoerente – e que interessava que assim fosse. Ele próprio afirmou que não é de todo incoerente ser conservador em relação à governação e radical relativamente a qualquer outra actividade.

Oakeshott e Hayek. Embora o pensamento Oakeshottiano não encaixe no liberalismo deontológico, é inegável a existência de pontos de contacto entre ambos. É certo que a filosofia política de Oakeshott é menos atomista e contrária ao individualismo «negativo», próprio do liberalismo clássico (daí que haja em Oakeshott uma suave brisa Hegeliana). Mas basta ler Hayek quando este discorre sobre como deve ser entendido o individualismo, em Individualism: true and false, para perceber onde eu quero chegar... Já para não falar no conceito abrangente de «mercado» preconizado por Hayek.

Finalmente, mesmo correndo o risco de simplificação e de algum atrevimento conceptual, a grande diferença entre o conservadorismo (Oakeshottiano ou não) e o liberalismo, poderá encontrar-se no facto de o conservadorismo estar contra a efectiva concentração de poder, defendendo a dispersão do mesmo, quer ele esteja concentrado no Estado ou no governo, quer numa organização ou num grupo privados, num partido, num sindicato, numa pessoa ou num grupo de. E que, tal como Oakeshott referiu, é o Rule of Law, e não um sistema mais ou menos baseado no laissez-faire, que se poderá opor ao central social planning e às nefastas concentrações de poder.

terça-feira, março 25, 2003

T.V.I.

A TVI notíciou os Oscares afirmando que, no país da «suposta» liberdade de expressão, a Academia interrompe discursos «incómodos». Mais uma vez se confirma que a informação na TVI, liderada por essa criatura chamada Manuela Moura Guedes, é lixo. Puro lixo. A TVI não percebeu, ou não quis perceber, que existe uma regra, na cerimónia de entrega dos Oscares, que limita o tempo dos discursos de agradecimento pela entrega da estatueta (regra instítuida há poucos anos atrás). E esse limite é anunciado com a inclusão de música. Uma espécie de “vá lá, o teu tempo acabou” musicado. E aplica-se a todos: pretos, brancos, gordos, magros, baixos , altos, novos, velhos, anti-americanistas, pró-americanistas, anti-guerra, pró-guerra. Foi essa a regra que se aplicou no caso de Michael Moore, interrompendo o discurso do homem, na altura em que ele pateticamente gritava “Shame on you, Mr Bush”. Regras são regras, e são para cumprir. Mas não. Logo, logo, tal atrevimento foi visto como um acto de «censura». The usual stuff.

Acredito que muita gente se revê nos disparates e paranóias de Moore. Mas seria igualmente útil reconhecer que nos EUA um tipo que professa um anti-americanismo primário pode ganhar um Oscar com um documentário que é tudo menos simpático em relação às administrações da Casa Branca. Só mesmo num país livre se podem aplaudir de pé Michael Moores. Ou vaiar. Chama-se a isto democracia e liberdade de expressão. Coisa que no Iraque teria sido resolvida com um tirozito na nuca.
N.I.M.B.

Estimativas apontam para entre 2.500 e 3.000 execuções sumárias no Iraque, desde 1997. A ONU documentou cerca de 16 mil casos de pessoas desaparecidas. Francisco Louçã, na SIC-Notícias, afirma que esta guerra não se justifica porque o Iraque de Saddam não é uma ameaça para ninguém. Cinismo? Não. Muito pior.

segunda-feira, março 24, 2003

ATENÇÃO!

É só para lembrar que o senhor Tony Soprano está de volta. Logo, na RTP2. Viva!
SÓ MAIS UMA PERGUNTA

Já agora, Carla, posso continuar a utilizar o nome "Contra a Corrente"? Posso? Obrigado.
COMENTÁRIOS

Novamente Carla Santos Guedes (uma habitué): ”Eu já suspeitava que o nome do seu blog tivesse essa origem. O Berlin é, aparentemente, o novo messias da sua família política, e é citado abundantemente pelos inúmeros blogs conservadores que é possível encontrar na net (mais uma vez, é difícil perceber contra que corrente está). Por isso, retribuo o conselho: releia o "Against the Current". Lá, se bem me lembro, Berlin debate as ideias de homens cujo pensamento se desenvolvia ao arrepio das ideias do seu tempo, como Maquiavel e Montesquieu. Não é esse, manifestamente, o seu caso. O que fica na história não são as ideias dos milhões de anónimos que se manifestam contra a guerra nas ruas do mundo inteiro. O que fica na história é a posição prevalecente dos nossos dias, e essa é - ligue a televisão e veja - a dos fautores da guerra. Se, enquanto uma guerra decorre, os partidários dela estão "contra a corrente", então, os manifestantes que protestam pelo rumo que o mundo tomou, estão "a favor da corrente"... Com franqueza, seria motivo de riso, se não fosse intelectualmente desonesto. Por último, a questão de O Independente: quando lhe digo que todos os meios de comunicação social estão nas mãos de grandes grupos económicos e partilham os seus pontos de vista, aponta o caso de O Independente como se fosse uma excepção. Está a brincar comigo, não está? Esteja mais atento: O Independente é um jornal assumidamente de direita. Não há equivalente à esquerda. Lamento mas, ao contrário do que acontecia com os pensadores que são objecto dos ensaios de Berlin, o mundo seu contemporâneo está muito ao seu gosto. O meu amigo não está contra corrente nenhuma.”
Mais uma vez, obrigado pela sua participação. Como é notório, partimos de pontos de vista diferentes. Já deu para perceber que a Carla não vai à bola com a minha família política (não sabia que tinha uma nova família. Que excitante! Já agora, qual é a sua?). Tudo bem. Escusava era de apelidar os outros de «intelectualmente desonestos». Mas, adiante. Do seu comentário, aponto duas falhas argumentativas para rebater o estar «contra a corrente»: 1ª) basear-se exclusivamente na questão particular da guerra; e 2ª) atribuir uma importância excessiva aos meios de comunicação e às posições oficiais de governos e chefes de Estado, como se elas se substituíssem às pessoas. (Já o disse e volto a repetir: eu não represento nenhum grupo, nenhum partido, nenhuma capelinha. Represento-me a mim próprio). Reconheça, de uma vez por todas, que certos governos, como é o caso dos governos português, espanhol ou inglês, estão a remar «contra a corrente», ou seja, contra a opinião maioritária. Devolvendo-lhe o mimo, negar isso não será, também, desonesto? Por outro lado, onde foi buscar essa obsessiva ideia de apoio à guerra por parte dos meios de comunicação social? Em todos os jornais nacionais, que se esforçam por dar uma imagem de independência e de equidistância, vejo artigos de opinião contra e a favor da guerra, na mesmíssima medida. Dir-me-á que o José Manuel Fernandes, director do Público, escreve editoriais a favor da intervenção. So what? Há outros editoriais no mesmo jornal que apontam na direcção contrária. O Mário Bettencourt Resendes, do DN, já demonstrou, por diversas vezes, o seu cepticismo face a esta guerra e o eventual perigo que advém da suposta violação do Direito Internacional. Ou vai dizer-me que o DN é só o Luis Delgado? A não ser que, para si, o mero acto de cobrir a guerra, revelando factos, é, por si só, um acto de apoio incondicional à guerra. Nas televisões, Francisco Louçã, Fernando Rosas e tantos outros, têm sido convidados para comentar e, neste caso, criticar ferozmente a intervenção no Iraque. Há dias, no Fórum TSF, reparei que dos vários telefonemas recebidos de ouvintes, apenas dois ou três eram a favor da intervenção no Iraque. Na Sic-Notícias, que tem dado voz a gente anónima, as posições são, invariavelmente, contra a guerra. Se for à rua, verificará que dificilmente encontrará uma pessoa favorável à guerra. Toda a gente clama pela Paz, pelo Direito Internacional e pelo Amor entre povos. Lá fora, onde a imprensa é mais frontal, existem jornais para todos os gostos e tendências: contra a guerra, a favor da guerra, pro-americanos, anti-americanos, etc. etc. Portanto, não vejo onde foi buscar essa teoria conspirativa que defende a existência de uma entidade omnipresente, manipuladora dos media.

Mas deixe lá a guerra. Se a Carla for minimamente conhecedora de política e filosofia política (acredito que é), reconhecerá que falar hoje em conservadorismo ou liberalismo clássico é conversa de quem está «out». Démodé. Quer queira, quer não queira, é ir «contra a corrente» das terceiras vias, do neo-liberalismo, da social democracia ou do (neo)socialismo – estas sim, doutrinas correntes, representativas do mainstream. Vá lá Carla, seja lá «honesta»: encontra assim com tanta facilidade, na rua, quem professe as ideias de Oakeshott ou de Burke?

Quanto ao Independente, saiba a Carla que o Independente é propriedade da sociedade O Independente Global-Ediçãode Publicações Periódicas S.A.. Que eu saiba, esta sociedade anónima não está ligada a nenhum grande grupo económico (já vi que, para si, os grandes grupos económicos são o alvo a abater, origem de todos os males...). Em tempos sim, de facto, o Indy pertenceu ao grupo Media Capital (que detém o controlo da inenarrável TVI).

Finalmente, quanto ao Berlin, ainda bem que o «devolve». É sempre salutar e prazenteiro reler um bom livro. Recomendo, em particular, os capítulo dedicados ao anti-racionalismo alemão, Machiavelli, Disraeli e Marx. Contudo, agora que volto a recapitular as suas palavras, recomendar-lhe-ia antes, também de Berlin, “Freedom and its Betrayal – Six Enemies of Human Liberty.”

PS: o Isaiah Berlin não é «novo» messias de ninguém. Pelo menos para mim. É apenas um dos maiores pensadores do Sec. XX que deveria ser «velho» (leia-se «conhecido»), e não «novo», por todos os que têm interesse em pensar. Livremente.
TESO

Ontem, enquanto observava uma máquina fotográfica Leica Reflex, lembrei-me do «meu» Paul Johnson. Escreveu ele uma vez que era duplamente errado ter dinheiro que baste para comprar determinado objecto, não o fazer por se considerar caro e, de seguida, comprar, em alternativa, outro mais barato mas do qual não se gosta tanto. Errado porque não se comprou o que realmente se queria. E errado, também, porque da próxima vez que se olhar o objecto efectivamente comprado, virá sempre à memória o saudoso objecto de que realmente se gostava. Pois. De acordo. O meu problema é precisamente este: não ter o dinheiro.

A COLUNA DE DURUTTI

Nunca mais ninguém falou neles. Pois eu quero dizer o seguinte: os Durutti Column foram um dos melhores grupos dos últimos 20 anos. Oiçam "LC" e depois conversamos.
SOBRE A GUERRA

"We love peace, as we abhor pusillanimity; but not peace at any price. There is a peace more destructive of the manhood of living man than war is destructive of his material body. Chains are worse than bayonets." DOUGLAS JERROLD (1803-57)

"Freedom is an indivisible word. If we want to enjoy it, and fight for it, we must be prepared to extend it to everyone, whether they are rich or poor, whether they agree with us or not, no matter what their race or the colour of their skin." WENDELL WILLKIE (1892-1944)
COMENTÁRIOS

Comentário de Carla Santos Guedes:
A direita está no poder (em Portugal e em quase toda a Europa, para não
falar nos Estados Unidos); a guerra que apoia está em curso; todos os meios
de comunicação social portugueses estão nas mãos de grandes grupos
económicos, que partilham os seus pontos de vista. Posto isto, o meu amigo
está contra que corrente?


Cara Carla: obrigado pelo seu comentário. Em primeiro lugar eu não represento a direita. Não represento nenhum partido político. Estou-me nas tintas para que a direita esteja no poder (ou a esquerda), ou para que a mesma apoie a guerra. Penso pela minha cabeça e não em nome de capelinhas, grupos, simpatias ou politiquice. Posto isto, a Carla terá de reconhecer que falar hoje em conservadorismo, citar Oakeshott, relembrar Burke ou, até mesmo, defender uma intervenção militar no Iraque é tudo menos estar com a «corrente». Por exemplo: não é a esquerda que reclama que a esmagadora maioria das pessoas está contra a guerra? E que os governos estão a ir contra a vontade da maioria? Nesse caso, se a minha posição, no caso da guerra, não é ir “contra a corrente”, eu pergunto: o que é ir “contra a corrente”? Já agora, desde quando o Independente (com o Público os únicos jornais portugueses que leio) está nas mãos de um grande grupo económico?
Vivemos uma época em que falar em conservadorismo é sinal de senilidade ou reaccionarismo. Ou a Carla acredita, piamente, que é ao contrário? Esteja mais atenta e compreenderá o que significa o “Contra a Corrente”.

PS: By the way, foi o livro de Isaiah Berlin “Against the Current” que inspirou o nome deste blog. Quer um conselho? Leia-o

domingo, março 23, 2003

ZUCKERMAN

Maior escritor vivo? Philip Roth.
PERGUNTAS

Gostaria de saber porque raio se indigna o Bloco de Esquerda com a putativa violação do Direito Internacional, no caso da intervenção no Iraque, se o Bloco, em bloco, afirmou na AR que era contra esta intervenção com ou sem o aval da ONU? Ou seja: se a ONU tivesse dado o aval, a intervenção teria sido tolerada pelo BE? E, já agora, se se vierem a encontrar armas de destruição maciça, o BE, o PS e o PCP inverterão a sua posição?
O SONHO COMANDA A VIDA...

Um dia de programação na televisão dos meus sonhos:

08:00 Opera: “La Sonnambula” de Vicenzo Bellini
10:00 Notícias
10:30 BBC Wilde Life
11.30 Culinária: Two Fat Ladies
12:00 Notícias
12:30 Fawltie Towers
13:00 Baton no Colarinho
14:00 Seinfled
14:30 The Fast Show
15:00 Matiné: “M” de Fritz Lang
16:15 Ao vivo: Beth Gibbons
17:15 A História do Jazz
17:45 Artes e Letras: Francis Bacon
18:30 Sete Palmos de Terra
19:15 Compacto “Tudo em Família-as aventuras de Archie Bunker”
20:00 Noticias
20:30 Black Adder
21:00 Os Sopranos
22:00 Comentário da Semana: Vasco Pulido Valente, Nuno Rogeiro e António Barreto
23:00 Filme: “Rope” de Alfred Hitchcock
00:30 Sax Azul
01:30 Série: Maigret
02:15 Artes e Letras: Lucien Freud
HUMOR INGLÊS

EARL OF SANDWICH:'Pon my soul, Wilkes, I don't know whether you'll die upon the gallows or of the pox.

JOHN WILKES: That depends, my Lord, whether I first embrace your Lordship's principles, or your Lordship's mistresses.
OTTO

Revejo o "Anatomia de Um Crime" de Otto Preminger. Pergunto-me: porque já não se fazem filmes assim? O "Anatomia" é certamente um dos filmes da minha vida. A juntar ao "Bitter Victory" do Ray, ao "Janela Indiscreta" do Hitchy, ao “Caso de Vida ou de Morte” do Powell, ao.... Desculpem. Paro aqui. Caso contrário, fico agarrado ao PC (entenda-se Personal Computer, por favor) a noite inteira.

sábado, março 22, 2003

O CASO NICARAGUA

O Pedro Mexia, no blog Coluna Infame, referiu, a propósito do isolacionismo/voluntarismo da política externa norte-americana, o caso Nicaragua. Sobre o caso Nicaragua, eu preferiria falar da forma como se constróem visões deturpadas da História. E lembro Chomsky e a forma como este professor do MIT, no papel de «opinion maker», driblou factos e deu a volta à história.

Os Sandinistas, que Chomsky retratou como vitimas inocentes dos ‘contra’ e do terror perpetrado pelos EUA, instauraram um regime totalitário na Nicarágua, de inspiração marxista-leninista, com o apoio massivo dos soviéticos. Após o afastamento do poder da família Somoza, anteriormente senhora absoluta da Nicarágua, foi criada uma Junta de Governo e Reconstrução Nacional (JGRN) que agrupava várias tendências políticas, incluindo os Sandinistas. Essa JGRN previa, e trabalhou, na implementação de um regime democrático, baseada no sufrágio universal e na criação de partidos políticos. Os Sandinistas, a partir de certa altura, adulteraram o espirito dessa junta e tomaram, em exclusivo, o poder da mesma, pretendendo ocupar a totalidade do espaço político e social do país. Trataram de criar tribunais de excepção, para condenar quem contra eles se oponha, saquearam ainda mais terras ao camponeses do que alguma vez os Somozistas o haviam feito, semearam o terror, suprimiram a liberdade de expressão, promoveram execuções sumárias, praticaram, nas cadeias, a famosa «tortura limpa» (utilizada em Cuba e na Alemanha de Leste), dizimaram e expulsaram os índios Miskito, Sumu e Rama, tudo com o apoio total da URSS. Desde a primeira hora ficou claro que os Sandinistas não pretenderam a democracia e o pluralismo: pretenderam seguir o modelo castrista de organização política, social e militar. Em poucos anos, destruíram a economia da Nicarágua e provocaram a revolta dos camponeses – que se organizaram em torno dos ‘contra’. À sua volta, os Sandinistas tiveram ainda tempo para apoiar militarmente as guerrilhas comunistas em El Salvador e na Gautemala. Em 1999, Sergio Ramirez, um dos líderes Sandinistas e vice-presidente do regime, veio a confessar que “a base de suporte dos ‘contra’ foram os agricultores e camponeses – na sua grande maioria sem qualquer ligação ao anterior regime dos Somoza” (sic). Já Alejandro Bendana, um dos diplomatas de topo que dava a cara pelo regime Sandinista, afirmou que “os ‘contra’ cresceram para além das expectativas e a sua principal força adveio do espirito de comunhão que o impacto negativo da política e dos erros dos Sandinistas criaram nas populações rurais”(sic). O apoio dos EUA aos ‘contra’, em plena Guerra Fria, partiu, assim, da constatação de todo este cenário e surgiu com o intuito de ajudar os revoltosos a depor o regime totalitário dos Sandinistas. A base de contestação à ditadura era já notória e o processo irreversível. Quando em 1990 o esforço dos ‘contra’, aliados aos EUA, obrigaram o regime a efectuar eleições livres, a opção foi clara: cerca de 55% dos que votaram, votaram contra os Sandinistas. Noam Chomsky sabia, provavelmente, tudo isto, mas retratou a história doutra forma: os inocentes Sandinistas foram alvo de uma guerra injusta, na qual se usaram mercenários e terroristas, apoiados pelos EUA. E depois, Chomsky deu o toque final com a história do Tribunal Internacional. Segundo Chomsky, os EUA foram condenados pelo Tribunal Internacional e, de seguida, rejeitaram a jurisdição do mesmo, sendo contrários ao direito internacional e ao primado da lei. Também aqui a hipocrisia de Chomsky foi gritante. Chomsky sabia que este tribunal era uma criação de governos de vários países e que, nos seus estatutos, a sua autoridade era limitada, a não ser que as partes em disputa concordassem em dar-lhe essa autoridade. Mais: os seus estatutos previam expressamente que os estados nele envolvidos se poderiam retirar da sua jurisdição – coisa que a China, a União Soviética e tantos outros fizeram ao longo dos tempos. Na altura em que se julgou o caso Nicarágua, o tribunal não tinha, por decisão desses estados, qualquer jurisdição sobre o bloco soviético. É sabido que a política externa soviética estava então sobre a doutrina de Brezhnev, o qual não se oponha, antes pelo contrário, ao uso da força para manter determinado país sob órbita comunista. O soviéticos expressavam regularmente a sua condenação pelo facto de os EUA defenderem e prevenirem a expansão soviética, nos mais diversos pontos do planeta, com o termo “agressão”. Mas, o que Chomsky também omitiu é que os países que à altura se encontravam deliberadamente fora da sua jurisdição, facultaram juizes para o tribunal – porque tal estava previsto nos estatutos. Foi neste cenário que Jeanne Kirkpatrick, então embaixadora americana nas Nações Unidas, considerou o tribunal como sendo “semi-legal, semi-jurídico e semi-político, o qual as nações às vezes aceitam e outras vezes não” (sic). E foi nesse espirito que os EUA se retiraram da sua jurisdição - representada por muitos defensores de interesses antagónicos e meramente políticos. Deixo aqui a declaração formal de um dos juizes (um japonês): “A Nicarágua não veio a este tribunal com as mãos limpas. Pelo contrário: veio como agressor, indirectamente responsável por um número brutal de mortes e destruição em El Salvador. As mãos da Nicarágua estão por isso manchadas”. Noam Chomsky é, sem margem para dúvidas, um cínico incorrigível.
COMENTÁRIOS AO BLOG

Comentário de Francisco Mendes da Silva (por sinal o primeiro da história deste blog):
Parabéns e obrigado pelo novo blog. É bom saber que somos cada vez mais a ler Oakeshott & co.. Qualquer dia já não cabemos numa cabine telefónica! Permita-me, no entanto, o raspanete: isto de citar o Waugh filho para justificar uma aversão endémica à classe política e às jotas é muito bonito, mas a figura que se faz é a mesma da Europa pacifista, colaboracionista e preguiçosa a criticar os americanos, quando estes se sacrificam em todo o mundo pelos nossos valores. Há alguns anos que sou militante e dirigente de ma juventude partidária e, por muito que lhe custe acreditar, sou suficientemente polido para assinar a Spectator, ler o Telegraph e saber de cor algumas assagens de Oakeshott, Scruton, Tocqueville, Berlin, Eliot, Hayek, etc. Mas, para além disso, arranjo ainda tempo para que essas ideias saiam do papel, enfim, para que a política se faça de passos pequenos, mas seguros, para que o Estado tenha um papel subsidiário perante o indivíduo e as famílias. Por isso, sei bem melhor do que o MacGuffin de que falamos quando falamos dos políticos portugueses. É que eu como com eles à mesa, sempre o mesmo lombo de porco, sempre o mesmo vinho duvidoso, sempre a mesma conversa vazia. Não é um trabalho fácil, mas alguém tem de fazê-lo. Seria com certeza mais divertido se mais MacGuffins, JPCs, Mexias e PLs decidissem ajudar. Para que perceba melhor, dou-lhe com o Confúcio: "Quando na montanha não há leão, o macaco torna-se rei". Amigos?

Caro Francisco: obrigado pelo seu comentário e pelas suas palavras. E obrigado, também, pelo «raspanete». Percebo e aceito o seu ponto de vista. Admito que tenha sido injusto em colocar tudo e todos no mesmo saco. Assim como há bons e maus engenheiros, gestores, médicos ou advogados, existem bons e maus políticos. Admito, igualmente, que é inconsequentemente cómodo estar aqui, do lado de cá, a «malhar» indiscriminadamente sobre toda uma classe. Criticar é sempre fácil. Devo, contudo, dizer-lhe o seguinte: não tenho da política, nem dos políticos, uma opinião negativa. Pelo contrário. Mas, convenhamos, a classe política portuguesa parece estar sempre a pedi-las. Daí que seja habitual o já clássico queixume do ‘milieu’ relativamente ao “dizer mal”. “Dizer mal” é, invariavelmente, o comentário de muito bom político quando confrontado com o exercício da critica ou com a exposição do pessimismo, relativamente à ‘praxis’ política. O que muitos políticos desta praça ainda não perceberam (não estou a dizer ser esse o seu caso) é que, por detrás deste pessimismo, o «dizer mal» implica sempre «dizer bem», só que não dos seus actos ou da sua sofrível competência no desempenho das suas funções. O que eles não entendem é que o pessimista relata um mundo real e palpável (negativo do desejável), que raramente coincide com o imaginário do político – sempre povoado de triunfo, de «obra feita», de sucesso e optimismo. Nem reparam que, antropologicamente, a postura, por vezes patética, do optimista de serviço nunca foi causa de desenvolvimento social e económico.

Assiste-nos o direito de “dizer mal” sem que daí surja qualquer obrigação «pró-activa» (que palavra tão em voga...). Assiste-nos o direito de manifestar o nosso inconformismo face às meias-tintas e à mediocridade do “deixa estar, podias estar pior” ou o “faz-se assim, que já não é mau”, sem ter que necessariamente provar o que quer que seja. É útil e necessário que haja gente do «lado de fora», «cumprindo» o seu papel, mesmo sem papel formal. Até porque, como deve compreender, nem todos têm vocação e paciência para enfrentar as intricadas e obtusas máquinas partidárias.

Em suma, caro Francisco, não me peça para “participar”, “agir”, “associar” ou “ingerir”. Peça-me, antes, para, de forma não pretensiosa, desinteressada e livre, «morder» nas canelas dos políticos, ainda que por vezes injustamente. Nestas, como noutras coisas, é preferível pecar por excesso que por defeito.

Amigos? Claro!
UNIDADE EUROPEIA

Anda meio mundo preocupado com a actual desunião europeia. Apela-se ao consenso e à unidade, criticando, de passagem, os países que se colocaram ao lado dos EUA, alegadamente desrespeitando a posição «comum». Ainda não percebi a utilidade deste consenso, muito menos a paranóia pela «unidade». Lá dizia o Nelson Rodrigues: “Toda a unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa de pensar”.

Sobre esta questão, houve já quem tivesse dito que Portugal, Espanha, Inglaterra e Dinamarca poderão ser alvo de «represálias» indirectas por parte da EU. Que ficarão «mal vistos». Que ficarão isolados. Brrrr...

Pergunto: que posição europeia? Que unidade? Aliás, que Europa? A Europa do eixo franco-alemão? Os ingénuos do costume ainda acreditam que existe uma Europa. É cada vez mais claro que “Europa” não passa de substantivo geográfico. O que este conflito veio demonstrar é o carácter artificial e frágil do projecto europeu. Convém lembrar que, até à data, a UE tem sido pouco mais do que um espaço económico e comercial. Está a milhas de ser um espaço homogéneo e congregador de consensos, princípios ou entendimentos de índole não economicista. É, hoje em dia, um corpo híbrido, impotente e inflexível em torno da prometida e essencial coesão social. Os actuais protagonistas da construção europeia, herdeiros directos dos anteriores em tudo o que se tem revelado de inconsequente, continuam a demonstrar uma inépcia confrangedora no que respeita a aspectos essenciais de caracter social e político. A UE atravessa um impasse que angustia quem no futuro pensa e decepciona quem no presente assiste. E a coisa vai piorar com o alargamento.

Lições? Várias. Em primeiro lugar, em matéria de política externa, é cada vez mais claro que cada país tem a sua e muito dificilmente se poderá sair daqui. Sem um exército comum, sem um directório para a Defesa com peso político e com «história», a Europa não irá a lado nenhum.

Enquanto a Europa insistir em evitar chatices e assobiar para o lado; enquanto a Europa não apostar numa estrutura militar comum e condigna que lhe permita ter força e poder, tendo a coragem de alocar para o efeito meios; enquanto isso acontecer, terão os norte-americanos de voltar a ser chamados, nem que seja para resolver assuntos internos (Kosovo). Em suma: se a Europa, o Dr. Jorge Sampaio, o Sr. Schröder e o Sr. Chirac quiserem emancipar-se da asa protectora dos EUA (que são ciclicamente presos por ter cão e não ter), terão de arregaçar as mangas e calçar as galochas. Lama e porcaria é o que por aí não falta.

Mas convém perguntar: quererão eles ter esse trabalho e essa tarefa, ombro a ombro com a potência «imperial»? Quererão eles correr o risco de ser acusados de provocar “danos colaterais” em populações civis? Quererão eles correr o risco de ser confundidos com a «corja» americana? Quererão eles correr o risco de ficar mal vistos aos olhos do Islão? Não me lixem.

sexta-feira, março 21, 2003

O ANTIAMERICANISMO DE SOARES

Sobre o tema, recordo uma crónica de Vasco Pulido Valente:

"A questão do antiamericanismo «europeu» não pode ser tratada a partir de um comentário, fora de contexto, de um político que tem de observar regras de moderação, mesmo que esse político seja o dr. Mário Soares. A história vem de trás. Já no fim da guerra um homem tão improvável como Orwell criticava a esquerda que se recusava a escolher, como quase sempre se fazia nessa altura, entre a URSS e a América. No fim, escrevia ele (e eu reproduzo livremente), alguém escolherá por nós. Sem força para sobreviver sozinhos, se não conseguirmos criar uma «União Europeia» (sic) acabaremos a prazo por subordinar a nossa política a uma das duas grandes potências. Por isso, achava Orwell, criar uma União Europeia «socialista», repito, socialista, era o único objectivo meritório, porque recusava simultaneamente o estalinismo e o capitalismo americano. Há uns tempos, concordando com o suave Cohn-Bendit (o de 1968), Soares foi ainda mais longe: a primeira obrigação de um socialista era defender e construir a «Europa». E a entrevista a Dominique Pouchin, agora publicada em França, prova que ele não mudou. Desde a insistência em se afirmar «socialista democrático» (e não social-democrata), ou à denúncia da América como «centro de emanação» do «império» da finança internacional, ou à insensata ideia de que por causa dela se não resolvem os principais problemas do mundo, Soares mostra sempre onde estão as suas simpatias - e a sua profunda hostilidade. Como também a insistência em exigir à «Europa» uma política externa comum e uma força militar eficaz se destina, antes de mais nada, a que ela não sirva de «lacaio» à América e se lhe possa opor «de igual para igual». Se isto não é o velho e duro antiamericanismo da esquerda, gostava de saber como lhe chamam.
CHET BAKER
ou “Como Eu Amo o Jazz”

Oiço “Chet Baker in Paris”. Músicas de Cole Porter, Rodgers & Hart, Bud Powell, Gershwin, Charlie Parker e Miles Davis. É preciso mais? Não me parece.
SER CONSERVADOR

Sempre que tento explicar porque sou politicamente conservador, lembro-me das palavras de Auberon Waugh: “I am convinced that intelligent, educated and literate Englishmen are neither left-wing nor right-wing, but are bored by politics and regard all politicians with scorn. That is my political creed, so far as I have one”.

Ao basear-se na tradição (não glorificando o passado, mas antes celebrando o presente que é, ele próprio, fruto da evolução do homem e das sociedades), na «individualidade» do ser humano (e não no «mass-man», como explicou Oakeshott), na livre associação civil e numa espécie de desassombramento face à realidade, o conservador é um céptico e foge um pouco à catalogação esquerda/direita.

O conservador não tem ilusões quanto à natureza humana, não é ingénuo quanto às utopias, detesta putativos sábios e iluminados (que pretendem impor as suas certezas e a sua presunção quanto à organização das sociedades) e sabe, como ninguém, que existe um mundo palpável, não perfeito, preferível aos arquitectados a régua e esquadro.

O conservadorismo, como atitude e postura face à vida, está imbuído de razoabilidade e bom senso. O conservador é talvez o único que tenta perceber se, por muito velha ou aparentemente ultrapassada que esteja determinada estrutura ou relação interpessoal, subsiste nela uma função vital abrangente que importa preservar. O conservador condena a presunção e as declarações definitivas da mudança pela mudança. O conservador tenta perceber até que ponto a alteração radical, o corte abrupto, pode resultar num benefício, e se esse benefício suplanta a perda da experiência adquirida. Não é contrário à mudança. Acredita, apenas, que a mesma deve ser feita com todo o cuidado, passo a passo.

Muito se tem falado sobre a diferença entre o Conservadorismo e o Liberalismo de inspiração clássica. Atrever-me-ia, antes, a mencionar o que une um conservador e um liberal. Ambos tendem a recusar que outros (o Estado, por exemplo), em seu nome e em nome de um «bem comum», organizem e planifiquem a sua esfera pessoal, em nome de uma putativa racionalidade do destino humano. Para um conservador, bem como para um liberal, o «bem comum» será sempre abstracto e difuso. Defenderão sempre um Estado ‘low-profile’ e um governo de poderes limitados. O antagonismo conservador face à visão que considera a acção governativa como um instrumento para alcançar um simples objectivo substantivo – neste caso o «bem comum» - reflecte a rejeição do chamado «self-conscious purpose», uma vez que este se inscreve no seio do racionalismo aplicado à política. Ou seja, a existirem duas atitudes distintas em relação ao papel da actividade governativa – uma correspondente ao carácter e à moralidade do “individual”, com o ênfase na questão da “liberdade”, da “autodeterminação” e da “responsabilidade individual”; a outra relacionada com as características do «mass-man», ou homem-colectivo, com as atenções viradas para a “igualdade” e a “solidariedade” – o liberal e o conservador estão com a primeira.

Por agora é tudo, ‘folks’. Voltarei a este tema mais tarde.
MICHAEL OAKESHOTT E O RACIONALISMO

Passagem da obra “Rationalism in Politics”:

“Não há muito tempo, os espectadores que assistiam às corridas de cavalos eram sobretudo homens e mulheres que percebiam, em primeira mão, de cavalos, tratando-se, neste campo, de pessoas genuinamente educadas. Deixou de ser assim, à excepção, talvez, da Irlanda. O espectador ignorante, sem habilitações, inclinação ou oportunidade para se educar a si próprio, e procurando uma saída para as suas congeminações, exige agora um “Livro”. (No sec. XX, a voga dos livros sobre culinária deriva, sem dúvida, de uma situação similar). Os autores de um desses livros, “Um Guia Para Os Clássicos - Ou Como Escolher Um Vencedor”, cientes da diferença entre conhecimento técnico e conhecimento completo, esforçaram-se para realçar que havia um limite para além do qual não existiam regras precisas na escolha dos cavalos vencedores, e que seria necessária alguma inteligência. Alguns dos leitores mais gananciosos e racionalistas, na senda de um método infalível, com o qual (como preconizou Bacon) se colocaria a baixa sabedoria dessas pessoas a par da de outras verdadeiramente instruídas, julgaram ter sido vigarizados – o que acaba por provar que eles teriam empregue melhor o seu tempo se o tivessem gasto a ler Sto. Agostinho e Hegel, em vez de Descartes: je ne puis pardonner à Descartes.”

Michael Oakeshott foi um dos maiores filósofos do sec. XX, autor de uma obra notável, percorrida por uma coerência e originalidade raras e avassaladoras. “Rationalism in Poltitics” foi inicialmente publicado em 1962 e constitui aquele que, para mim, é o melhor ensaio que li até hoje sobre o papel e a influência do Racionalismo no pensamento político, ao longo dos últimos séculos. “Rationalism in Politics” representa uma devastadora critica sobre o uso e abuso da razão na vida política.
A sua análise recaiu sobre o racionalismo acrítico e não sobre o valor orientador e necessário da racionalidade, na exacta medida em que esta trata do uso da razão no reconhecimento fundamental dos condicionalismos do conhecimento humano. A falácia do Racionalismo assenta não no reconhecimento do conhecimento técnico, mas na incapacidade de reconhecer e valorizar outro tipo de conhecimento, atribuindo uma certeza dogmática à técnica e à doutrina da soberania da técnica. Se o conhecimento técnico é susceptível de formulação em regras, princípios e instruções, se pode ser redigido e transcrito em livro, já o conhecimento prático não poderá ser aprendido mas antes ‘adquirido’ ou ‘assimilado’ de forma distinta. A origem do Racionalismo é difusa mas podemos encontrá-la em Francis Bacon e Descartes. Embora a sua obra tivesse sido percorrida por um leve pessimismo (mais em Descartes), relativamente às putativas virtudes da técnica sobre a experiência e a prática, a verdade é que este corpo filosófico deitou à terra sementes para a posterior ascensão da onda Racionalista. Não foi inócua a ideia, desenvolvida por estes autores, de que seria condição obrigatória a introdução de métodos de purgação intelectual sobre o conhecimento adquirido e a posterior e salvifica criação de modelos teóricos, abstractos e supostamente infalíveis de planeamento e organização social. A emergência do Racionalismo foi particularmente corrosiva para com a influência e importância da realidade social concreta e da tradição (importância que Burke, um século mais tarde, reconheceria quando se referiu à “parceria” entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer). Como Oakeshott explica, o Racionalismo esteve sempre na origem de todas as doutrinas políticas tendentes à centralização e ao igualitarismo – desde a concepção jacobina e monista de organização da sociedade (por exemplo na forma como os ‘philosophes’ abençoaram os déspotas iluminados no processo de imposição de regras próprias de comportamento político a uma população), passando pelo fenómeno das ideologias (Marx e Engels encabeçaram, já no sec. XIX, um novo fôlego para o Racionalismo, na criação de uma doutrina cujo objecto seria o curso da história - passada, presente e futura - insistindo nas duas fraquezas fetiche dos Racionalistas: 1) não conseguir tocar numa coisa sem a transformarem numa abstracção; 2) darem-se mal com o imponderável). Os vícios e virtudes políticas foram, assim, com o passar dos séculos, profundamente infectados pela onda racionalista, na exacta medida em que o Racionalismo deixou de ser um estilo em política para passar a ser o critério estilístico predominante. A marca do Racionalismo pode ser notada no facto de, a partir de certa altura, passar a constituir condição obrigatória a existência, no sentido restrito, de uma doutrina. A crença generalizada de que a política é uma actividade fácil, carreirista, que pode ser conduzida ‘by the book’ é, ela própria, a evidência clara de que a política do Racionalismo (ao fim ao cabo a política actual) é a política dos inexperientes.
PRAGA?

De cada vez que passeio por certos bairros novos, aqui em Évora, com as suas fachadas obtusas, minimalistas e tristes, janelas dignas do Portugal dos Pequeninos e jardins de pedra circundantes, apetece-me constituir uma Alta Autoridade que controle e fiscalize o bom gosto e bom senso dos arquitectos portugueses. Está visto que o pós-modernismo e a vertigem para a saloiice não dormem em serviço.
BONITA

Razão tem o infame Pedro Mexia: a menina do Bloco de Esquerda melhorou, em muito, o ambiente do hemiciclo, tradicionalmente soturno e cinzentão. “A thing of beauty is a joy forever”, dizia o Keats.
A MÚSICA PORTUGUESA

Li algures na imprensa indígena que tinha sido criada uma associação, clube ou grupo de pressão, com o nobre intuito de defender a musica portuguesa. Ao que parece, a música portuguesa é muito mal tratada nas rádios e nas têvês. Ninguém liga peva aos «artistas» portugueses e o espaço que supostamente lhes pertencia por direito é, hoje em dia, ocupada por toda uma corja de infiéis.

E, perguntam vocês, quem é que está à frente desta colectividade, que putativamente tentará restabelecer a ordem e a justiça na paróquia? O Sr. João Gil, por exemplo. Este rapaz, cuja único facto relevante da sua existência é ser namorada da Catarina Furtado (para além de ter sido a alma mater dos Trovante e de um grupo que tem como vocalista dois dentes ralos que insistem em cantar em falsete), acredita piamente que as «quotas» fazem sentido. A tese não é peregrina: obrigar as rádios a passar, numa percentagem que pode variar entre os 50% e os 70%, música portuguesa. Existe, até, legislação nesse sentido só que, como diz o Sr. Gil, com uma lágrima no canto do olho, ninguém a cumpre. Portanto há que, compulsiva e coercivamente, injectar música portuguesa nos meios de divulgação, obrigando os DJ nacionais a colocar no éter música cantada na língua de Camões.

Contudo, temo que a tarefa do Sr. João Gil e Co. seja complicada. O leque é imenso e a escolha penosa. As perguntas muitas e as respostas vagas. Que música portuguesa deve ser defendida? Toda? E a Pimba? E a que não é Pimba mas para lá caminha? Que grupos ou músicos serão alvo da asa protectora do Sr. Gil? O albergue será espanhol? A Ruth Marlene, o Jorge Palma, o Rui Veloso e o Camané, todos juntos no mesmo caldeirão? Para o Sr. Gil o Toy e o Rui Reininho pertencerão ao mesmo grupo de song-writers? Quem define os critérios? Serão critérios qualitativos, meramente quantitativos, ou uma mistura dos dois? E, neste caso, qual a ponderação aplicada a cada um? E os grupos portugueses que cantam em inglês: serão eles alvo da defesa intrépida do cavaleiro Gil?

Entendamo-nos. Se me disserem que a maioria das rádios passa lixo estrangeiro, eu aceito. Se me disserem, calma e serenamente, que em vez da Jennifer Lopez ou da Britney Spears se deveria passar GNR, Bullet ou Belle Chase Hotel, tudo bem. Concordo. (Ah! Mas os BCH cantam em inglês, não é?) Se me disserem que as playlists da Comercial ou da RFM estão impregnadas de um Rock FM enjoativo e de uma Pop acéfala, assino por baixo.

Mas...e os critérios? Será que vale a pena inundar as rádios e as têvês com música portuguesa de qualidade duvidosa, só para cumprir a função? Dito de outra forma: deverá o lixo mudar, só porque é português?

Finalmente, o problema da dimensão. Por cada grupo de «qualidade» português, existem vinte estrangeiros. E a proporção é a mesma quando a questão é a falta de.

Se o Sr. Gil não fosse um tonto e um ingénuo, ele estaria empenhada em discutir, abertamente, a «educação» musical dos nossos DJ, para que passassem música de qualidade. Fosse ela portuguesa ou estrangeira. Essa é que é a questão. Porque se a educação e o gosto dos nossos radialistas fossem mais sólidos e refinados, a coisa funcionaria bem melhor, mesmo com as pressões que as editoras exercem. Mas não será também o público a exercer essa pressão? Se a Sahra O’Connor vende muitíssimo, não haverá a tentação, ou a tendência, para passar a música da menina? Ou seja, o problema não passará, também, pela educação do público?

Eu, pela minha parte, afirmo desde já: entre a Britney Spears e os projectos do Sr. Gil, a minha alma não vacilará nem um segundo. Escolherei sempre o botão do «Off».

VINHO E ESPECIALISTAS

Se há coisa com a qual eu me divirto é com a histeria à volta do vinho. Em Portugal - país de modas, fados e guitarradas (para além de outras coisas que não vale a pena agora mencionar) - a temática do vinho está ao rubro. Não há português que se preze que hesite em demonstrar a sua douta opinião sobre vinhos, fruto de aturados estudos em matéria de vinicultura e enologia.

A mui eborense Fundação Eugénio de Almeida, promoveu, no Verão de 2002, um evento a que denominou de “Noites de Lua Cheia”. Como o próprio nome indicava, em noites de Lua Cheia organizaram-se provas de vinho ao ar livre, com acompanhamento musical (ensemble de cordas), onde se convidavam «especialistas» e enólogos para falar sobre as «pomadas». Aos convidados, onde eu humildemente me incluí, era proporcionada uma prova guiada, com explicações técnicas de um enólogo, acompanhada de conversa franca com o Enólogo responsável da Fundação, o Eng. Colaço do Rosário (pai de uma grande amiga de infância). Mas o ponto alto das noites acontecia quando se pedia ao público não «especialista» (pensava eu, ingenuamente, ser não-especialista) uma opinião de leigo sobre o que estava a beber.

Um ilustre senhor, supostamente leigo na matéria, a quem tinha sido pedido uma opinião, abriu a boca, ao microfone, para dizer, ex-cathedra, “acho que este tinto tem os taninos arredondados”. Espantoso. Outro houve que falou em “tons finais de chocolate e especiarias”. Uma senhora afirmou, como quem jura pela alminha dos filhos, que aquele tinto “tinha uma aresta cortante”. E eu soluçava para dentro.

Em boa verdade, não há gato nem rato que não domine as questões báquicas. Ele é “deixar respirar o vinho” (fazem tudo menos o importante: decantar), ele é “aquecer o tinto para lhe dar corpo” (a temperaturas completamente idiotas e obscenas, quando o vinho tinto não devia ultrapassar os 20º), ele é “refrescar o branco” (no limiar da solidificação gélida, retirando-lhe 90% do gosto, não vá o bicho desiludir), ele é “não beber vinho tinto com peixe porque não joga” (outra total idiotice), ele é empregar termos caros como “sabor a pele de borrego”, “final mineral” ou “taninos arredondados”, etc. etc. etc. O mundo nunca mais foi o mesmo. Os especialistas invadiram-no.

Finalmente, como ‘pièce de résistance’, é espantosa a forma absolutamente convencida como estes «especialistas» colocam nos píncaros o vinho português, aproveitando, ‘en passant’, para dizer que “os franceses não são grande coisa” e “os espanhóis são muito inferiores aos nossos”. Pobres coitados!

Pois eu, no que toca a vinhos, e para resumir o paleio, estou com o Andrew Jefford: o vinho é caos. “Não há outro produto que nós, seres humanos, possamos comprar que seja mais diverso, mais confuso, mais irregular, mais imprevisível, mais imperscrutável e, por fim, mais incognoscível do que o vinho”.

Consigo retirar prazer de um “Terra D’Ossa” (Redondo) ao preço da uva mijona, como consigo desprezar um “Marquês de Borba” do pretensioso Portugal Ramos ou um “Pêra Manca” (que me perdoe o Eng. Colaço!) que me assaltam a carteira. Tudo depende de tudo. Cada garrafa é uma garrafa. Cada momento é um momento. Cada disposição é uma disposição. O resto, meus amigos, é conversa da treta.
ENSAIOS DE CONFIANÇA

Fim-de-semana passado, de molho. Constipação inusitada. Tempo para ler. Retirando aleatoriamente da estante um livro, saiu-me “Reliable Essays” de Clive James. Bom, neste caso reler.

Dois ensaios marcam, em meu entender, este precioso livro: um sobre Evelyn Waugh, a propósito da publicação, em 1980, das cartas do pai de Auberon, e “The All of Orwell”, publicado no New Yorker em 1999. Nota 20.
Coincidência ou não, tinha há pouco tempo revisitado passagens do “Orwell’s Victory” do Chris Hitchens. Será heresia dizer que o Clive James, em apenas 20 páginas, consegue ofuscar a totalidade do livro de Hitchens? Heresia ou não, é essa a minha opinião. James consegue condensar em poucas páginas tudo o que interessa saber sobre a personalidade fascinante de Orwell: as suas contradições, a sua evolução política e, acima de tudo, a coragem. Ao contrário dos seus colegas esquerdistas ocidentais, Orwell debateu-se, desde muito cedo, com um conflito interior que o viria a afastar radicalmente da complacência, e até mesmo conivência, com que os left-wingers ocidentais olhavam o regime soviético – facto que eles nunca lhe perdoaram. Embora socialista, os seus ideais políticos mantiveram-se sempre em conflito, na retaguarda. James explica de forma magistral como, a partir de 1943, Orwell vai reconhecendo os seus erros, ao admitir estar errado na necessidade de uma «revolução», ou ao admitir que uma economia planificada à maneira socialista levanta problemas no que respeita às liberdades individuais. E James vai ao pormenor de reparar como, a partir de certa altura, Orwell passa a ter o cuidado de se referir ao “socialismo” como “socialismo democrático”. Peça à peça, Orwell foi evoluindo, foi crescendo e foi dando conta disso mesmo nos seus artigos e livros – facto que revela lucidez e honestidade intelectual. Não é por acaso que, nesse mesmo ano (1943), Orwell faz uma recensão tolerante ao “Road to Serfdom” de Hayek – quando se esperaria uma crítica feroz a um livro que arrasa, como poucos, o mito do socialismo e das economias planificadas. Embora nunca tivesse desistido desse ideal de planificação e centralismo económico, Orwell teve a humildade de, com o pouco tempo que lhe restava de vida, reconhecer algumas das iniquidades dos ideais em que acreditava. É essa a grandeza moral de Orwell e é essa a fraqueza moral dos que criticavam Orwell e insistiam cegamente num ideário errado, que a evolução do mundo viria a revelar a céu aberto.

Apesar da sua admiração por Orwell, Clive James não deixa de referir que, até ao fim dos seus dias, Orwell insistiu em dois erros: sobrestimar o potencial das pessoas enquanto colectivo, as quais ele pensava estarem de mãos atadas face ao sistema capitalista, e, por outro aldo, subestimar a individualidade de cada pessoa. James está certo em lembrar que Orwell, na sua crítica à forma imoral como os cientistas não recusaram participar no trabalho de desenvolvimento da bomba atómica – ele acreditava mesmo que eles deveriam ter recusado tal trabalho – , omitiu o facto de muitos desses cientistas serem refugiados europeus dos regimes totalitários, que trabalhavam na bomba não só de livre vontade mas com pressa e ansiedade, convencidos, e muito bem, de que tinham de ganhar essa corrida a Hitler.

Mas há uma frase de Orwell, sobre a visão complacente da maioria dos intelectuais face ao regime soviético e ao comunismo, que é fulminante: “The direct, conscious attack on intellectual decency comes from the intellectuals themselves.”

Touché!
A LISTA NEGRA

Lista não definitiva de coisas que me levam a recorrer a pratinhos de leite para acalmar a úlcera (como o Nelson Rodrigues.)

Capelinhas políticas
Restaurantes pós-modernos (que nos servem bifes da sola em pratos Villeroy & Bosch)
O Herman Sic (cada vez mais)
Bairrismos (“O Porto contra os mouros” e coisas do género)
O “deixa andar”
Caloteiros e vigaristas
Gente mal educada
A extrema esquerda e a extrema direita
Gilberto Madail (um caso psiquiátrico)
Os pseudo-escritores (ou os escritores-da-treta)
A tradição escolástica portuguesa (hermetismo, pedantismo e ideologismo à mistura)
Repartições públicas
Condutores de domingo
Taxistas
O Algarve no Verão
Manuel Monteiro
Empregados de mesa incompetentes e antipáticos
Paradas ‘gay’
Carros estacionados nos passeios
Fernando Rosas
A rede de transportes públicos em Portugal
Os chicos-espertos
Jorge Coelho (o boçal-mor)
Engarrafamentos
A generalidade da classe política portuguesa
O relativismo moral
Atentados ao património arquitectónico (normalmente em nome de uma «renovação»)
O anti-ocidentalismo, o anti-americanismo e o anti-semitismo (muitas vezes misturados)
Francisco Louçã (o dono da razão)
A caça
As touradas
Nuno da Câmara Pereira (um idiota chapado)
Betinhos
Os jotas na política (todos)
As manifs anti-globalização (com símbolos do Che, do Fidel e do Arafat à mistura)
A presunção de querer mudar o mundo
A vertigem e a voracidade da mudança
A música pimba
O desprezo pela cultura americana
O custo de vida em Londres
O mercado editorial português (milhares de obras fundamentais por «descobrir»)
O critério de escolha dos livros sobre Filosofia Política e História (Pedro Mexia: um Paul Johnson na Fnac? Tem a certeza?)
BEM HAJA, SENHOR DOUTOR!

A semana passada, enquanto lia a crónica de Theodore Dalrymple na Spectator, lembrei-me do mais recente livro que li deste distinto physician: “Life At The Bottom”.

Theodore Dalrymple tem dedicado a sua vida a tratar e a reflectir sobre o crime e os «despojos» da sociedade, com os quais lida diariamente como médico em prisões e hospitais psiquiátricos. Quem pega num livro de Dalrymple, ou quem lê os seus artigos, mergulha num universo estranho onde o politicamente correcto foi banido. Existe uma total incompatibilidade entre as ideias base de Dalrymple para explicar as causas do crime, e as razões apontadas por governos (onde trabalham sobretudo tecnocratas mergulhados em estatística), sociologos e psicólogos da «situação». Dalrymple é aquilo a que se poderia denominar de anti-marxista convicto, na medida em que os seus textos renegam a fatalista inequação que estipula como factor da formação da consciência e moralidade individuais a situação social das pessoas. É a consciência dos homens que determina e condiciona a sua condição social, e não o contrário. Daí a recusa de Dalrymple, no terreno, em transferir automaticamente para terceiros a culpa de comportamentos desviantes.

Através de exemplos de experiências pessoais (de uma vida cheia), Theodore Dalrymple consegue ser convincente quando contraria a ideia difundida de que a desigualdade material é, ela própria, um claro sinal de injustiça social institucionalizada.

Num dos mais brilhantes textos incluídos em “Life At The Bottom”, Dalrymple pega no exemplo neo-zelandês. No inicio do Sec. XX, a Nova Zelândia era o mais próspero país à face da terra. Ao longo do Sec. XX, pouco ou nada se alterou: um nível de vida altíssimo, condições naturais e ambientais à beira da perfeição, um sistema de apoio social eficiente, um excelente sistema de ensino e um sistema judicial de fazer inveja. O Estado Providência neo-zelandês é dos mais antigos do mundo e o ethos do igualitarismo está presente nas ruas: é difícil diferenciar, pela maneira de falar e vestir, um neurocirurgião de um mecânico.

Reunidas estas condições – que fazem da sociedade neo-zelandesa uma sociedade próspera, democrática e igualitária – esperar-se-ia que, segundo o paleio liberal, a taxa de crimes e violência fosse marginal, irrisória, ridícula. Mas isso não aconteceu. Em termos relativos, a Nova Zelândia apresentou, ao longo de todo o Sec. XX, taxas de crime iguais e por vezes superiores às da sua nação-mãe: a Grã Bretanha. E nem o argumento de que o sistema judicial neo-zelandês vive obcecado com a punição, salva a honra do convento: a taxa de crimes violentos na Nova Zelândia subiu a um ritmo maior que as condenações.

Dalrymple não nega que a decisão de cometer um crime possa ter antecedentes de vária ordem. Contudo, como nos prova o exemplo neo-zelandês, esses antecedentes quase nunca se encontram nas condições de pobreza, desemprego ou desigualdade. Pelo contrário, as razões tendem, cada vez, a ser encontradas, nos países ocidentais, nas características da cultura, em especial da cultura popular, sobre a qual as pessoas constróem as suas ideias do mundo.

Não sei porquê, lendo o livro de Dalrymple, não posso deixar de recordar o mito do bom selvagem de Rousseau. E não resisto a extrapolar quando me recordo daqueles que defenderam, no aftermath do 9/11, que o terrorismo, à escala mundial, é uma espécie de reverberação do grito mudo dos espoliados e oprimidos do Terceiro Mundo. Assim como não resisto a lembrar aqueles que tentaram, e ainda tentam, explicar e contextualizar benevolentemente Bin Laden e Saddam Hussein... Leiam o senhor doutor, por favor.

quinta-feira, março 20, 2003

GANGS OF NEW YORK

A semana passada vi o filme de Scorcese. Um filme que cumpre, mas cumprindo desilude. É irritantemente bom. O problema é que se esperava mais do bom velho Martin. Entendam-me: o filme tem momentos de antologia, representações de se lhe tirar o chapéu (Daniel Day Lewis é sublime), como documento histórico é uma revelação (pelo menos para mim), mas sai-se do escurinho do cinema com vontade de dizer ao Scorcese: “faltou-te um bocadinho assim”, seguido do já clássico gesto Danoniano. É o estigma de Scorcese: já não lhe basta ser bom. No fundo, ele habituou-nos mal. Ou isso, ou estou a ficar estupidamente exigente.
INFELIZMENTE, COMEÇOU

Infelizmente, a guerra começou. Apesar de ser a favor desta intervenção, confesso que é com tristeza e de coração apertado que vejo o anúncio do inicio da intervenção militar, para derrubar o regime de Saddam. Mas entendo que esta guerra é uma guerra necessária. Tratava-se de escolher entre: 1) confiar na palavra de Saddam, alinhando no seu jogo de hide-and-seek, e aceitando como suficiente o desarme, não o derrube, do brutal regime instalado no Iraque (que já matou, à sua conta, centenas de milhares de pessoas); e 2) uma intervenção que retire Saddam do poder e neutralize um foco de instabilidade à escala regional e mundial, sob todos os aspectos (incluindo eventuais ligações e cooperações com grupos terroristas).

Importa, contudo, falar sobre o que se passou. Os meses que antecederam o que agora foi anunciado, não deverão ser esquecidos. Foram esticadas muitas cordas. O relativismo moral e cultural, as comparações absurdas, a falta de sentido das proporções e o latente anti-americanismo de muito boa gente alcançaram níveis inéditos. Pensando bem, um fenómeno previsível.

No plano internacional, a França, a Alemanha (‘en passant’, a Europa) e a Rússia vestiram a capa de timoneiros dos direitos humanos e da legalidade. Chirac e Schroeder colocaram as asas de anjinho. Pouco interessou referir que, no passado, os aviões que sobrevoaram as aldeias curdas, gazeando as população com armas químicas, eram ‘Mirage’, made in France. De pouco valeu saber que foram sobretudo a França e a Rússia (e não os EUA) que armaram e colaboraram com o regime de Saddam. Tornou-se irrelevante lembrar que a francesa Elf explora actualmente mais de 1/4 da extração de petróleo no Iraque. Tudo porque o alvo a abater era o unsofisticated & dummy Bush Jr.

No plano doméstico, o senador Freitas do Amaral insistiu, e aprofundou, o seu Soarismo; Louçã e Rosas - os filo-tiranos, como lhes chamaria Mark Lilla - voltaram à carga com o simplismo e maniqueismo que tão bem os caracteriza; Carlos Fino voltou ao seu jornalismo de propaganda; e quase todos os «do costume» olearam a sua maquina anti-americanista e explanaram as suas teorias da conspiração, de inspiração Chomskiana. Todos encheram a boca de «direito internacional» (que parece servir para Bush, mas não para Saddam), incluindo o Bloco de Esquerda, que tinha anunciado estar contra a intervenção com ou sem o aval do Conselho de Segurança. Todos se indignaram com a perspectiva da morte de inocentes numa eventual guerra, embora ninguém se tenha lembrado dos inocentes que morreram, ao longo dos últimos anos, por conta do Sr. Saddam, no seguimento do seu trabalhinho de aniquilação de vidas humanas «incómodas» para a «ordem» do seu pais, e das sucessivas violações materiais das várias resoluções da ONU. E todos, está claro, esqueceram o 11 de Setembro: um acontecimento longínquo e difuso, provavelmente o resultado de um erro de pilotagem.

Houve, também, da parte de muita «pomba» e «pacifista», putativamente defensores da liberdade, acessos de urticária mental sempre que alguém ousou (para eles uma afronta!) defender uma via «belicista». Por exemplo, na organização de palestras, tertúlias e fóruns para debater a guerra, revelaram-se autênticos estalinistas ao recusarem convidar pessoas que pudessem veicular opinião diferente.

Em boa verdade, vivem-se tempos perigosos e radicalmente politizados. O tom e o estilo dominantes (de inspiração esquerdista), empurraram a discussão para o monocromático “ou és pela Paz (em abstracto) ou és pela guerra (em concreto)”. Logo, és contra «nós», as pessoas de “bem” e de “boa vontade”. O automatismo, aliado ao simplismo, é gritante. És a favor da guerra? Logo és belicista, neo-liberal, Bushista, insensível, sanguinário, contra a palestina, racista, cínico, reaccionário e, no limite, uma besta; és a favor da coligação internacional que agora avança em solo iraquiano? Então estás do lado dos «poderosos», contra os «oprimidos» e «pobrezinhos» (será Saddam um «oprimido» e um «pobrezinho»?).

Longe de mim questionar a cruzada dos justos. Eu aceito todos os argumentos razoáveis. Apesar de ser favorável a uma intervenção militar para derrubar Saddam, respeito e posso até concordar com alguns argumentos contrários. Nesta matéria, como noutras, tenho dúvidas. Por isso, relembro as palavras de Waltzer (um esquerdista moderado): “Uma guerra curta, um novo regime, um Iraque desmilitarizado, medicamentos e comida nos portos iraquianos, não será isto melhor do que um permanente sistema de coerção e controlo? Talvez, mas quem pode garantir que a guerra será curta e que as suas consequências serão limitadas?“ Eu tenho esperança que esta guerra será rápida e de consequências limitadas. Vou rezar para que assim seja. E espero que Saddam seja derrubado e que os iraquianos, curdos e xiitas possam viver melhor. Pelo menos, que possam votar em quem quiserem, criticar quem entenderem e opinar livremente. E que sejam libertados de um embargo estúpido.

Relembro, por fim, as palavras de Ramos Horta, Nobel da Paz:

“ (...) sigo com alguma consternação o debate sobre o Iraque no Conselho de Segurança da Nações Unidas e na NATO. Não estou impressionado nem admirado com a posição grandiloquente de certos lideres Europeus. A sua postura enfraquece o único meio efectivo de fazer pressão sobre o ditador iraquiano: a ameaça do uso da força. Os críticos nos EUA não dão qualquer crédito à estratégia agressiva da administração Bush, embora seja ela a verdadeira responsável pela aceitação por parte de Bagdade do regresso dos inspectores àquele pais e pela forma como o Iraque está a cooperar um pouco mais, se é que está a cooperar alguma coisa. As demonstrações anti-guerra são verdadeiramente nobres. Eu sei que a diferença de opiniões e o debate público sobre assuntos desta natureza são essenciais. Em Timor Leste, podemos agora gozar do direito de exprimir as nossas opiniões porque este país é hoje uma democracia independente – algo que nos foi negado ao longo dos 25 anos de reinado do terror. Felizmente para todos, a era da globalização tem permitido que cidadãos de todo o mundo possam ter uma voz sobre os grandes assuntos da actualidade. Mas se os movimentos anti-guerra dissuadirem os EU e os seus aliados de partirem para uma guerra contra o Iraque, terão contribuído para a paz dos mortos. Saddam Hussein emergirá vitorioso e mais desafiador do que nunca. O que foi até agora alcançado estará perdido. A política de contenção está condenada a falhar. Não podemos esquecer que os déspotas protegidos pelo seu próprio aparato de segurança estão ainda capacitados para tomar todo o tipo de decisões. Saddam Hussein arrastou o seu povo para, pelo menos, duas guerras. Usou sobre as populações armas químicas. Matou centenas de milhares de pessoas e torturou e oprimiu muitas mais. Então porque razão, nestas manifestações, eu não vi uma único cartaz ou escutei um único discurso clamando pelo fim das violações aos direitos humanos no Iraque, a remoção do ditador e a liberdade para o povo iraquiano e curdo? Se estamos dispostos a demonstrar e a exercer pressão, não seria conveniente focalizar essa pressão sobre o verdadeiro vilão, com o objectivo de o levarmos a destruir as suas armas de destruição massiva e a retirar-se do poder? Negligenciar este ponto, a favor de um irracional e simplista anti-americanismo, é ofuscar o verdadeiro debate em torno da guerra e da paz. Concordo quando se afirma que a administração Bush deve dar mais tempo aos inspectores para cumprirem o seu mandato. Os EUA são uma nação suprema que sobreviverá sempre aos seus inimigos. Pode, pois, dar-se ao luxo de ser mais paciente. Kofi Annan, o Secretário Geral da ONU, tem-se revelado um forte negociador e um inimigo de ditadores. Ele e um grupo de lideres mundiais devem utilizar este momento para persuadir Saddam Hussein a render-se e a exilar-se. Desta forma, Saddam seria visto como um homem que soube evitar uma guerra e poupar o seu povo. Mesmo assim, esta estratégia não resultará sem a verdadeira e objectiva ameaça do uso da força.
Abandonar esta ameaça seria, agora, perigoso e arriscado. Sim: o movimento anti-guerra poderia clamar por vitória por ter evitado uma guerra. Mas teria também de reconhecer e aceitar que teria ajudado a manter no poder um ditador impiedoso e teria de o explicar às suas milhares de vitimas. A história já demonstrou por diversas vezes que o uso da força é por vezes o preço a pagar pela libertação. Um intelectual Kosovar respeitável disse-me, uma vez, como se tinha sentido quando o mundo finalmente tinha decidido intervir no seu país: “Eu sou um pacifista. Toda a vida o fui. Mas tive uma grande alegria e senti-me livre quando vi as bombas da NATO caírem.”

PONTAPÉ DE SAÍDA

Aviso à navegação: este é o 'post' de apresentação deste recém inaugurado blog. Link: www.contra-a-corrente.blogspot.com. Contacto (para comentários, sugestões, críticas, etc.): carlosccc@mail.telepac.pt. Tratarei de os colocar aqui, à medida da minha (in)disponibilidade.

Chamo-me MacGuffin. Nickname, ou alter-ego, de inspiração Hitchcokiana. Eles não o sabem (nem, aliás, me conhecem), mas foi graças ao blog A Coluna Infame (provavelmente, a minha principal referência no universo bloguiano) - do triunvirato Pedro Mexia, Pedro Lomba & João Pereira Coutinho - que resolvi aventurar-me nestas andanças. Como inflo-excluído assumido, é obra!

Para começar, e para efeitos de apresentação (confesso que tenho pouco jeito para «pontapés de saída»), tratemos já de abusar do name dropping. Vale mais fazê-lo agora, de uma vez por todas.

Se tivesse de escolher alguma fonte de inspiração para este espaço, escolheria... Nelson Rodrigues. Há anos que a qualidade literária e postura deste brasileiro ensombram (no bom sentido) os meus pensamentos. Para um conservador assumido, com uma costela liberal e outra ligeiramente anarquista (lá iremos, lá iremos...), o carácter desalinhado e saudavelmente «reaccionário» das suas posições, o seu apego incondicional à liberdade, a sua verve e humor têm constituído um nutriente precioso para o meu espirito, e um aconchego para a alma.

Nelson Rodrigues, para muitos o maior dramaturgo brasileiro de sempre, foi, para a época, um delicioso reaccionário – em contraponto relativamente à atitude disseminada do revolucionário de serviço. Conduziu um notável trabalho de decomposição do assombramento gratuito, servido por dogmas e iminências pardas, de inspiração esquerdista (by the way:sei que não sou de esquerda; de resto tenho algumas dificuldades em assumir-me como «de direita». Sobretudo em Portugal.). O seu olhar lúcido, incómodo e desassombrado da realidade, representou, e representa ainda hoje, uma verdadeira lição sobre o que significa pensar livremente, pela própria cabeça, contra certos modelos de alienação. Combatia, em particular, aquilo a que hoje denominamos de “politicamente correcto”, bem como o culto do unanimismo, da falsa e gratuita solidariedade, das bebedeiras colectivas e das “vagas de fundo”. A tentativa de imposição de modelos supostamente perfeitos de sociedade, por parte da esquerda, repugnava-o. Amante da diversidade e da liberdade, para ele, o indivíduo – o ser humano – estava acima de tudo. Qualquer tentativa para torná-lo em mais um parafuso de uma engrenagem superior revoltava-o.

Geniais e hilariantes foram, também, as suas posições relativamente à onda do “amor livre” e daquilo a que ele chamaria de “culto da imaturidade”: a glorificação do pior sentido da palavra «jovem».

Se Nelson fosse vivo, estaria hoje aí, na frente de combate contra a «esquerdite» aguda e a «estalinização» sub-reptícia da sociedade. Contra a palavrosa e cega obsessão, que a esquerda teima em repetir ciclicamente, em torno das mesmas falsas aparências, dos mesmo dogmas, da mesma forma simplista e maniqueista de olhar o mundo. Contra o seu moralismo de pacotilha e a arrogância de tentar empurrar, por decreto, os seus modelos e as suas certezas superiores, para cima de nós.

É um bocadinho desse espírito que pretendo trazer para aqui. Farei deste espaço um espaço de comentário e desabafo livre, sem conotações politiqueiras ou pretensões de qualquer ordem. Não pretendo mudar consciências ou moldar opiniões. Não quero que concordem comigo, ou lançar bases para «capelinhas». Move-me o prazer de discutir pontos de vista. Educada e cortesmente.

Quanto aos vossos comentários, tratarei de os colocar aqui, à medida da minha (in)disponibilidade.

Para terminar esta apresentação, ou este caótico e provisório manifesto, e para esgotar de vez o estigma do name dropping, gostaria de colocar no ar o nome daqueles que, até hoje, mais me influenciaram. “Diz-me de quem gostas, dir-te-ei quem és”. A ordem é arbitrária.

Política, Filosofia, História: Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, F. A. Hayek, Raymond Aron, Paul Johnson, A. J. P. Taylor

Jornalismo/Opinião: Nelson Rodrigues, Auberon Waugh, H. L. Mencken, George Orwell, Clive James, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Martin Amis, Christopher Hitchens, Maria Filomena Mónica, António Barreto, Pacheco Pereira, Theodore Dalrymple

Cinema: Otto Preminger, Billy Wilder, Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Nicholas Ray, John Huston, Martin Scorcese, Woody Allen, Ingmar Bergman, Frederico Fellini, Carl Dreyer, John Ford, Murnau, Jean Renoir, Michael Powell/Emeric Pressburger, Francis Ford Coppola, Krzysztof Kieslowski, Elia Kazan, entre muitos outros. Por razões estéticas, cumpre-me referir Monica Vitti, Juliet Binoche, Isabelle Hupert, Harriet Andersson, Elizabeth Shue, Nastassja Kinski, Lauren Bacall e Grace Kelly

Música: mostly jazz.

Literatura: Anton Tchekhov, Fiodor Dostoievski, Marcel Proust, Gustave Flaubert, Oscar Wilde, Edgar Allen Poe, William Shakespeare, Graham Greene, W. B. Yeats, Vladimir Nabokov, Walt Whitman, Philip Larkin, Charles Dickens, Eça de Queiroz, Cesário Verde, E. E. Cummings, Raymond Carver, Raymond Chandler, Franz Kafka, T. S. Eliot e Samuel Beckett. (já pareço o Neil Hannon na faixa "The Booklovers"...)

Feitas as apresentações, agradeço a vossa atenção e participação.

Tema a abordar brevemente: Liberalismo vs Conservadorismo.

PS: este texto foi escrito ao som do álbum “Nénette et Boni-OST”, dos Tindersticks. Os meus agradecimentos.

quarta-feira, março 19, 2003

PARA COMEÇAR


"There exist a great chasm between those, on one side, who relate everything to a single central vision (...) and, on the other side, those who pursue many ends, often unrelated and even contraditory. (...) The first kind of intellectual and artistic personality belong to the hedgehogs, the second to the foxes."

Novamente, Sir Isaiah Berlin.

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